Oczy

23 Cartas em 1943-44


1 de janeiro de 1943

Derek

Eu consigo sentir meu coração muito mais leve depois da sua última carta. Eu sei que era esperado que você fosse demorar a falar comigo e eu sei que as coisas seriam mais difíceis, mesmo assim eu fiquei preocupado.

Agora já me sinto melhor. Pelo menos por você.

Eu não consigo nem acreditar no que está acontecendo com a Polônia, no entanto. Milhares de pessoas enviadas a campos para serem mortas? Famílias inteiras se perdendo pelo meio dos milhares de refugiados, crianças perdendo os pais e suas casas. Eu não consigo fazer ideia do que é tudo isso — e veja bem, eu passei por muito nessa vida. Eu já sinto meu coração apertado por ter perdido meu pai e minha mãe, que dirá então sofrer tanto assim.

Eu espero que o sacrifício que eles fizeram, e que todos os soldados junto com você fazem também, sirva para trazer paz para o mundo. Não consigo acreditar nos homens que querem tanto assim o mal dos outros.

Não sei se adianta de muito, mas eu ainda faço orações para você. Eu peço para os anjos e para os meus pais, peço que te ajudem e que te tragam pra casa — eu só vou me sentir inteiro quando você estiver do meu lado de volta.

O Lobo me faz boa companhia, no entanto. Vive alegrando meus dias e brincando comigo. Eu pedi para o Sr. Deaton me dizer de que cor e raça que ele é — e o Lobo é marrom, mas parece ser um vira-lata qualquer, já que o Sr. Deaton não soube me dizer a raça dele.

Pelo menos ele é alegre e me faz feliz.

Ainda assim eu quero você do meu lado, Derek. A sua presença na nossa cama é mais do que requisitada. O seu cheiro já se esvaiu da camiseta usada que você me mandou e eu sinto falta de ter os seus braços em volta dos meus, em volta de mim, me agarrando e me sentindo. Sem falar dos seus beijos, como os seus lábios se encaixam aos meus, como seu gosto se mistura com o que eu tenho em minha boca.

Todos os dias eu penso nas palavras que você sussurra em meu ouvido, como o seu sorriso se molda nos meus dedos ou em meu rosto. Lembro-me de como eu amo você, Derek, como você me completa e me faz feliz. E também me lembro de como eu quero você aqui comigo mais do que tudo que eu quero na vida.

E nós vamos ser felizes.

Eu, você e o Lobo. Acho que tá mais do que bom pra uma família, não? Todos nós perdemos um monte, mas vamos ter uma família nova, juntinhos. E vai ser o bastante, pois onde tem amor e carinho, tudo é perfeito, não?

Volta pra mim, por favor. Eu quero voltar a ser feliz.

Te amo

Stiles

–--

14 de fevereiro de 1943

Meu amor

Eu acho que é até uma coincidência que eu tenha a chance de lhe escrever no dia de São Valentim — e uma pena eu não poder estar ao seu lado para lhe beijar e lhe fazer meu.

Stiles, você não tem ideia de quantas noites eu senti meus olhos chorarem pelas palavras que você escreveu para mim. Elas marcaram fundo o meu coração. Eu as senti dentro de mim. Você não faz ideia do quanto eu amo você e como eu desejo mais do que tudo que essa guerra acabe e que eu possa voltar para a Califórnia e viver a nossa vida feliz em família.

Eu, você e o Lobo.

Aliás, eu não vejo a hora de conhecer ele, o pequeno cão parece ser uma figura.

Pelo menos falar nele me alivia o peito.

Sabe, nós entramos em algumas batalhas com os alemães, e você não faz ideia da raiva que eu senti ao saber das coisas que eles fizeram com os poloneses. Não consigo entender. Só de imaginar que de alguma forma você poderia estar entre eles, você poderia ser levado para longe de mim…

Eu não saberia o que fazer. Acho que moveria o mundo todo atrás de você.

Eu preciso ir, Stiles, mas acredite que eu sonho com você, acordado ou dormindo, e sempre uso as camisetas que você me mandou, sempre quando posso.

Ah, estou mandando mais uma camisa para você. Ela está quase em trapos apenas, mas eu espero que possa te fazer lembrar de mim.

Te amo, Stiles. Te amo mais do que tudo.

–--

20 de maio de 1943

Derek

As cartas estão demorando um pouco mais para chegar entre mim e você, mas ainda assim eu mantenho as esperanças só por poder conversar com você. As camisas que você me mandou ainda tinham seu cheiro, mesmo que por trás de muito suor e sujeira. Pelo menos eu sei que elas estiveram coladas em você não muito tempo atrás. Me dá uma sensação boa de quase poder sentir você do meu lado.

Eu sei que você se preocupa comigo, mas eu sou descendente dos poloneses que saíram há um bom tempo de lá. Eu sei que deve haver primos meus que ficaram na Polônia, mas eu prefiro não pensar nessa família que nunca conheci. Ouvi no rádio outro dia que a resistência dos judeus, o Gueto de Varsóvia, terminou há uns dias, o que significa que todos eles foram movidos para os campos de concentração, sabe-se lá para que fim.

Derek, eu tenho que tentar não pensar nessas coisas, mas é difícil. Não vou negar que às vezes eu sinto um pouco de medo, imaginando o que poderia ser de mim do outro lado do mundo.

Se eu estivesse lá, talvez eu nunca tivesse a chance de ter conhecido você.

Por outro lado, do jeito que nós demos voltas ao redor de um mundo de problemas para poder ficar juntos, eu acredito que você teria chegado por lá e me salvado do perigo. Eu gosto de imaginar isso, sabia? Porque de uma forma ou de outra, você sempre me salvou do perigo. Você me ajudou quando eu precisava de uma mão para me segurar, você me deu seu ombro pra chorar e me deu um motivo pra viver — você.

Derek, você é meu herói.

Você é meu tudo.

Por tudo isso eu acredito que você vai voltar pra mim. Eu quero cuidar de você também. Quero poder ter você em meus braços, poder sentir o seu rosto em minhas mãos, acariciar seus cabelos, beijar sua boca.

Quero tudo que você puder me dar.

Te amo.

Volta pra mim.

Stiles

–--

27 de junho de 1943

Stiles, você sabe que eu te amo com tudo que tenho em mim. Eu jamais vou desistir de você. Jamais.

Não sei o quanto eu vou poder falar com você pelos próximos meses já que eles vão me mandar para um novo lugar com minha tropa, então não faço ideia de como vamos nos comunicar e nem quando. Mas não se desespere, vou encontrar um jeito.

Te amo. Espera por mim.

Você e o Lobo.

Derek

–--

4 de julho de 1943

Eu não posso lhe mandar esses escritos ainda, mas eu decidi fazer um pequeno diário com tudo que vou escrever e tudo que sinto por você.

O Lobo tem crescido. Ele sempre me acorda pelas manhãs. Enquanto eu faço um café da manhã para mim ele fica se esfregando pelas minhas pernas. Eu conto histórias sobre você para ele e também deixo ele sentir o seu cheiro, então quando você chegar ele vai reconhecer você.

O pátio dos lados da casa está quase impossível de se caminhar, por isso eu pedi ajuda ao Sr. Deaton para ver se ele tem alguém que possa vir aqui para cortar a grama para mim — mas acredite quando eu digo que eu desejo que fosse você, só pra eu levar sucos para saciar sua sede.

E também para poder sentir a sua pele suada e seu cheiro.

Te amo, Derek.

–--

29 de julho de 1943

Eu consegui a ajuda do Sr. Deaton para trocar algumas telhas da casa, depois de uma tempestade tropical que caiu por aqui. Ele ajudou a mim prontamente — na verdade ele tem sido bastante importante para manter a casa.

Ainda acho que você deve ter pagado uma pequena fortuna para o homem, só para ele cuidar de mim.

Derek, eu ainda preferia que fosse você.

–--

14 de setembro de 1943

Eu ouvi pelo rádio que ouve um grande movimento das tropas alemãs para resgatar Mussolini em Roma — e eu não faço ideia de onde você está, então escrevo apenas para falar sobre o que está acontecendo.

Na verdade, nem posso escrever para você, já que você ainda não pode enviar seu endereço para mim.

Eu sinto um aperto no peito sem suas palavras, mas sei que o silêncio é melhor que uma resposta dos oficiais dizendo que você morreu.

Prefiro o silêncio.

Mentira.

Prefiro você. Sempre.

Te amo, Derek.

–--

23 de outubro de 1943

Ainda nada de receber uma carta sua, mas também nenhuma visita do Exército. Eu tenho esperança que você apenas não pode se comunicar comigo, mas rezo para que você esteja bem. Apenas isso. Quero você inteiro para mim, só pra mim.

Não importa o quanto demore, volte pra mim.

Derek, eu te amo.

–--

14 de novembro de 1943

Eu ouvi as notícias do rádio sobre a falta de movimento nas tropas por algum tempo, mas ainda não ouvi nada vindo de você. Eu torço para que qualquer demora na comunicação não signifique que você não esteja bem.

Derek, forças para você.

Te amo.

–--

25 de dezembro de 1943

Stiles, meu amor, não se preocupe mais. Eu estou bem.

Tivemos uns meses complicados com viagens entre França e a Tunísia, para então invadir a Itália. Foi complicado conseguir comunicação com o resto das pessoas, então eu não faço ideia do que você gostaria de me contar sobre os últimos meses, por isso me escreva.

Vou ficar nesse ponto por algum tempo, então aproveite e me mande uma carta sua o quanto antes.

Por favor, mande algo com o seu cheiro, não aguento mais passar as noites sentindo o cheiro da podridão dessa guerra.

Eu te amo.

Do seu para sempre,

Derek

P.S.: O seu real presente de Natal vai ir no meio do pano de uma das minhas camisas. Eu o fiz com minhas próprias mãos. Espero que sirva.

–--

14 de janeiro de 1944

Eu não sei nem o que dizer, Derek. Você me fez mudo com essa carta.

Assim que eu abri pacote de seu presente, meus olhos se encheram de lágrimas. Você fez um anel para mim? Você, um soldado lutando por um futuro do outro lado do mundo, tirou do seu tempo para fazer um anel para eu ter em meu dedo? Eu posso sentir as marcas do pedaço de metal que você usou para fazer ele, posso sentir cada pedaço do trabalho que envolveu para conseguir furar ele e moldar e… Eu nem o que dizer.

Eu queria poder gritar para todo mundo ouvir o quanto eu te amo — e nesse impulso de adrenalina poder fazer você aparecer do meu lado.

Eu quero você aqui — e é por isso que eu não vou usar o anel.

Derek, esse anel não vai ficar no meu dedo. Eu vou colocar ele em um colar em volta do meu pescoço e só você vai poder tirar ele de lá e pôr em meu dedo. Volte pra mim e coloque esse anel em meu dedo, peça a minha mão e eu vou lhe dar tudo. Não sei se você consegue imaginar a importância desse anel para mim — é a prova da sua obrigação em ter que voltar da guerra para mim.

Eu não aceito de outro jeito.

Se antes eu só queria ouvir a sua voz, agora eu quero a sua mão na minha e você colocando esse anel em meu dedo.

Dizendo que me ama, o mesmo que vou fazer com você.

Eu te amo.

Você não faz ideia do quanto eu vivi de coisas diferentes nesses últimos meses, mas as cartas vão contar um pouco do que aconteceu — e eu espero que lhe deem um pouco de alegria, que esquentem o seu coração no frio do inverno.

E pra fechar essa carta, eu estive tentando compor coisas diferentes, e pela primeira vez uns versos saíram da minha cabeça.

Eles são para você.

Eu te amo, Derek.

Do seu,

Stiles

–--

Na noite mais escura se escuta uma voz

Chamando da lua — o canto do algoz

Se as sombras te escondem

Se lembram teu nome

Minhas preces tem força

Tem força feroz

Eu não tive chance de te proteger

Nem mal tive forças pra sobreviver

Se sinto seu cheiro

Beijo seu cabelo

Não quero mais isso

Não quero morrer

Meus olhos não mostram o que há pra mim

Só o escuro aparece e não tem mais fim

Se existe uma forma

Da dor se acabar

Pegar sua mão

Pra não mais soltar

Dizer que te amo

Pra sempre lembrar

Levar em meu peito

Seu jeito de amar

É só fechar os olhos

Fechados assim

Pois o escuro que cerca

Esta dentro de mim

E se eu não pensar

Ele também tem fim

Mas se o amor não parar

E ele não para, sim

O escuro se esvai

E você volta pra mim