Oczy

24 Cartas em 1944-45


Notas iniciais
Penúltimo capítulo. Nem acredito que estamos quase no fim...

14 de agosto de 1944

Stiles

Nós estamos preparando nossos armamentos e tudo que é preciso ser organizado antes de marcharmos para uma invasão na França. Não posso lhe dizer o exato lugar, e não que importe muito, mas eu estou segurando firme no pequeno pedaço de pano que sobrou de suas camisetas.

Como lhe disse nas outras cartas, depois que elas começaram a se rasgar em trapos, eu amarrei os restos no meu tornozelo, para pelo menos ter um pedaço de você comigo. Eu sempre faço uma pequena prece enquanto seguro essa pequena parte de você, pois eu sei que se existe uma força externa que possa me proteger, algo além de mim, ela é o amor que eu sinto por você.

Nada pode ser maior.

Espero que você me proteja mais uma vez. Assim como tem feito desde o primeiro dia em que eu te vi.

Te amo, Stiles. Até logo.

–--

23 de setembro de 1944

Derek

Eu ouvi pelo rádio que vocês estão no meio da invasão da França, por vários lados. A libertação de Paris já aconteceu, mas pelos cantos e fazendas francesas eu posso imaginar que ainda há bastante conflitos esperando pelos soldados americanos.

Mesmo que eu saiba o quanto o nosso amor é grande, eu ainda peço todos os dias para que essa força maior que existe possa salvar você e te trazer de volta pra casa.

Não posso mentir dizendo que não tenho medo, mas sempre que eu penso em você esse medo fica pra trás. Quando eu tenho você em minha cabeça eu só sinto o amor, só sinto coisas boas. Eu peço a todos os deuses que te tragam de volta pra mim, pra gente poder viver o nosso amor de verdade, pra que a gente possa ser feliz junto.

E eu também tenho um pedacinho de você aqui comigo — fisicamente. Eu sempre tenho uma de suas camisas comigo, não importa o estado que elas estejam. E nunca as lavo também. Você pode achar até que isso pareça meio nojento ou descuidado, mas elas ainda têm um pouco do seu cheiro, ou o meu nariz que me engana dizendo isso, e eu visto elas por baixo de qualquer outra roupa pra me sentir perto de você. E durmo com elas também.

É como se eu sentisse você me abraçando a todo tempo, já que eu não posso sentir você de verdade.

A única coisa que eu posso abraçar é o Lobo, e eu tenho certeza que o cheiro das suas camisas é bem melhor do que ele. Pelo menos ele pode me fazer companhia o tempo todo e me alegra. Maior do que nunca, ele continua crescendo e fazendo bagunça pela casa.

Depois que eu mudei meu quarto para o primeiro andar e fechei todo o segundo, já que não tinha motivo algum pra eu ficar andando pela casa toda, tudo parece tão pequeno e tão próximo, mas ainda assim a casa fica enorme comigo sozinho por aqui. Nem o Lobo correndo de um lado para o outro consegue curar a minha solidão.

Eu sei que eu não te ajudo muito ao ficar apenas chorando pela sua falta, mas eu quero que você saiba o quanto eu preciso de você aqui — por isso, Derek, volta pra mim.

Volta logo.

Eu cansei de amar você assim longe de mim, quero poder te amar aqui do meu ladinho.

Do seu,

Stiles.

–--

29 de outubro de 1944

Não se preocupe com o que eu penso de você sentir a minha falta — acredite quando eu digo que o sentimento é recíproco. Eu sinto saudades de você mais do que qualquer outra coisa. Mais do que a fome, mais do que o cansaço, mais do que a dor em meus pés, em meu corpo. Por cima de tudo de ruim que existe agora eu ainda vejo você como a minha luz.

Saber que você sente a minha falta desse jeito só me anima a ter forças para voltar pra Califórnia.

Eu posso dizer que vejo uma pequena ponta de esperança para o fim da guerra, mesmo que ainda não saiba quando ela vai terminar. Alguns capitães do exército já comentam sobre uma possível rendição da Alemanha e a perda da força do Eixo, mesmo que o Japão continue lutando a sua guerra sozinho do outro lado do mundo. Aqui pela Europa já existe a conversa do final da guerra, mesmo que ele não esteja próximo.

Só sei que quando ela terminar, você vai ser todo meu, pra sempre. Nada mais vai importar, nada mais vai nos separar. Depois de vinte anos, e eu quase nem acredito que tenho você na minha vida há tanto tempo, a gente finalmente vai ter a nossa felicidade.

Eu quase sinto que posso tocá-la.

Eu te amo, Stiles.

Espera por mim.

–--

14 de dezembro de 1944

Derek

Você sabe muito bem que eu vou esperar você pra sempre, não sabe? A minha vida pode parecer bastante monótona, sem graça e sem muitos objetivos maiores, enquanto você luta pela liberdade de milhões de pessoas. Porém, ainda que não houvesse essa distância, ainda que não houvesse nada para nos separar e nem todos os anos que nós já estamos um ao lado do outro, eu ainda iria te esperar. Parece que eu sinto que você é a razão de eu ter chegado aonde cheguei, você é o motivo de eu ser quem sou e como eu sou.

Foi uma viagem comprida até agora, não foi? Eu me lembro do primeiro dia em que eu estava tocando piano, uma música que eu não me lembro do nome, mas sei que era um blues. Eu fiquei toda a década de vinte apaixonado por blues. Derek, eu me lembro de como eu tremia quando ouvi sua voz pela primeira vez. Era como se meu corpo já soubesse que havia algo de diferente no seu modo de falar, havia algo maior por trás daquele momento. Talvez ninguém fizesse ideia de como tudo iria mudar nos anos seguintes, mas parece que eu sabia, pelo menos em meu inconsciente, que você iria ser aquilo. Você iria ser a principal pessoa em minha vida.

Não pense que eu não sinto a falta do meu pai, no entanto. Sinto sim. Às vezes eu me lembro dele em noites muito solitárias, naqueles momentos em que perco um pouco das esperanças. Logo, porém, reconheço que ele jamais iria esperar que um filho dele perdesse as esperanças, por isso, se eu me esqueço do quão importante é esperar por você, meu pai vem e me lembra de que, Derek, você é a coisa mais perfeita que eu poderia ter tido em minha vida.

Depois dos nossos anos ruins em Chicago eu quase jurei que queria morrer ao invés de continuar a viver daquele jeito. Claro, você jamais me deixou desistir de viver, jamais me deixou voltar atrás. Derek, você fez com que eu continuasse a respirar, continuasse a querer deixar meu coração bater. E como foi difícil o deixar bater. Teve noites em que eu só queria dormir e não acordar mais. Senti medo das pessoas que andavam na rua, sentia medo do amanhã chegar e eu perder mais alguma coisa importante para mim.

Tinha sempre medo de perder você.

E eu não sei mais viver sem você.

Contudo, a Califórnia me mostrou que a felicidade pode existir. E ela pode estar do nosso lado.

Acho que eu nunca lhe contei isso, mas na nossa viagem de trem pra cá eu me lembro de uma noite pensar em como um homem deixaria tudo para trás por um garoto cego. Eu me lembro de pensar qual seria o motivo daquilo, como era possível alguém desistir de sua vida para ajudar a outra pessoa.

E foi naquela noite que eu pensei em como eu não queria que você desistisse de mim. Eu queria ter você junto comigo pra sempre, queria estar do seu lado. Queria… Eu acho que aquele momento foi o primeiro em que eu realmente percebi que te amava. Percebi que isso era amor.

E é engraçado, não? Demorei anos para descobrir o que eu realmente sentia por você só pra esperar mais uns anos para dizer que te amava.

Pois bem, antes da tarde do que nunca, não?

Agora eu não preciso mais esconder isso.

Te amo, Derek.

Te amo como se não houvesse amanhã, como se não houvesse nada mais no mundo.

Só você.

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alguns meses mais tarde

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HITLER DEAD. The Stars and Stripes, 2 de maio de 1945

HITLER MORTO.

VE-DAY: IT’S ALL OVER. Daily Mail, 8 de maio de 1945

VE-DAY (Dia da vitória na Europa): ESTÁ TUDO TERMINADO.

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8 de maio de 1945

Eu não tenho muito tempo de escrever, Stiles, pois todos os oficiais estão sendo convocados para uma celebração.

A guerra terminou, meu amor.

Eu estou voltando pra casa.

E eu tenho certeza que eu vou chegar antes do que essa carta.

Te amo.

Derek

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Stiles sabia que a guerra havia terminado há quase duas semanas — pelo menos os conflitos da Europa. As estações de rádio continuavam com seus boletins a quase todas as horas sobre a situação dos países depois do conflito e como as coisas continuavam na Ásia. Ainda havia bastante coisa a ser resolvida para a guerra terminar por completo.

Aquilo não importava muito a Stiles, no entanto. A espera por Derek parecia impossível de se aguentar e já era bastante para uma cabeça só se preocupar.

Tecnicamente ele sabia que poderia demorar ainda, já que Derek deveria estar resolvendo qualquer outra coisa pelo exército. Ou também tinha o fato de que eles tinham uma viagem longa vindo quase do outro lado do mundo. Ou também o fato de que Stiles estava apenas excitado demais para aguentar por mais alguns dias antes de encontrar o amor de sua vida.

Ele tinha esperado anos por Derek, mas agora já não conseguia esperar mais nenhum minuto.

Cuidar de uma casa e fazer o almoço para si próprio parecia trabalho demais. O cachorro dele correndo pela cozinha não ajudava em nada. Claro, Stiles estava tenso a acabava descontando no pobre cão, que de nada tinha culpa. Ainda bem que Lobo era uma alma caridosa e sempre perdoava Stiles.

No meio da preparação de uma refeição, após Stiles ter ouvido mais um boletim sobre o final da guerra e o embarque de mais tropas de volta para os Estados Unidos, o cachorro começou a latir estridentemente enquanto o Stiles tentava mexer em uma panela.

“Para de gritar, Lobo. Eu quero fazer almoço em paz.” Disse Stiles, exasperado. O cachorro, no entanto, não conseguia se controlar e continuava a latir fortemente.

A campainha da casa foi a próxima.

Stiles desligou a boca do fogão e bufou, seguindo para a porta.

“Quem vai chegar essa hora pra encher o saco.” Ele falou logo antes de abrir a porta. Stiles estava estressado ao saber sobre o final da guerra, mas não poder fazer nada para ter Derek mais rápido com ele.

O vento foi a única coisa que ele percebeu por instantes, como se não houvesse ninguém lá fora.

“Quem está aí?” Ele pediu, um pouco confuso, um pouco irritado.

Um soluço foi a primeira coisa a ser ouvida, e aquele simples som foi como uma facada no coração fraco de Stiles.

“Derek?” Ele sussurrou, dando alguns passos para frente, ouvindo a voz do seu homem pela primeira vez depois de três anos. “Derek?” Ele perguntou ainda mais extasiado.

Lobo correu pelas pernas dele e Stiles ouviu um pequeno riso antes da resposta.

“Sim.”

Ele só ouviu aquele simples sussurro antes de ser engolfado nos braços do homem que pertencia a seu coração. Anos haviam se passado desde a última vez em que eles puderam estar um nos braços do outros. A sensação de estar tocando Derek mais uma vez parecia uma coisa de outro mundo, algo difícil de imaginar e muito mais difícil de acreditar.

Os braços de Stiles apertavam com força o pescoço do homem, sentindo como a pele dele parecia mais seca, ele parecia mais magro. Os cabelos tinham sido cortados e a barba feita, mas ele parecia mais vivido, velho, aos toques de Stiles. Contudo, as marcas do mesmo Derek ainda estavam ali. Mesmas cicatrizes, mesmo cheiro, mesma altura e mesma voz.

Acredito que apenas o amor era maior.

“Eu não consigo acreditar que você está aqui.” Stiles sussurrou, sentindo as lágrimas descerem por suas bochechas. “Eu não consigo acreditar. Não consigo.”

Stiles balançava a cabeça.

Lobo balançava seu rabo entre as pernas dos dois.

Derek pegou no rosto de Stiles com suas duas mãos e encostou a sua testa na dele.

“Eu estou aqui. Eu vou estar sempre aqui. Sempre aqui, Stiles. Não importa o que, nem quem. Eu sempre vou estar do seu lado.” Ele falou, segundos antes de encontrar os lábios abertos de Stiles em um beijo que esperou anos para acontecer.

Os lábios não batalhavam mais pela dominância, como no começo da relação deles. Agora eles se conectavam perfeitamente, como se nunca tivessem estado separados por tempo algum. O gosto dos dois se misturava perfeitamente, um contrabalançando o outro, ajudando a equilibrar tudo que faltava na vida do outro.

Era como se o tempo voasse e congelasse ao mesmo tempo.

Alguém limpou a garganta atrás dos dois.

“Tenente Derek Hale? Você vai se encontrar com o General no quartel amanhã. Apareça cedo.” A voz de um dos oficiais soou, curta e não muito amigável. Stiles não fazia nem ideia que havia outras pessoas ali com Derek.

Ele estremeceu, sentindo seu estômago se torcer. Ele também sentiu a tensão no corpo de Derek ao ouvir aquelas palavras.

Nenhum dos dois disse nada.

O único som a se ouvir foi o do oficial entrando em seu carro e fechando a porta com força, antes de dirigir para longe.