Oczy

2 Quando ele ouviu Stiles


O som do piano se alastrava pelo ar como fumaça, chegando a todos os lugares com o contar dos segundos em um relógio, se grudando às paredes e pessoas como cola ao mesmo tempo em que balançava cinturas e sapatos nas batidas de um bom ragtime. A música era usada pra purificar a alma, junto com um gole de rum e uma dragada num cigarro.

Speakeasies eram os lugares preferidos para todas as atividades ilícitas nas cidades grandes no início de século. Desde a implementação da lei seca em 1920 pelo congresso americano, que passou por cima do veto do Presidente Wilson através do Ato Volstead, qualquer bebida baseada em destilados era terminantemente proibida de ser vendida ou consumida — mas se quisesse se divertir um pouco, você teria que se dirigir para qualquer um dos clubes ilegais que haviam aos montes nas metrópoles.

Chicago em 1924 já era uma cidade proeminente, quase três milhões de habitantes construindo uma boêmia junção de pessoas de todas as raças e cores em torno do Lago Michigan. Todos os músicos importantes do jazz americano fizeram sua parada pela cidade durante a década de vinte, trazendo todo o movimento musical de New Orleans para o norte dos Estados Unidos.

É nesse mundo de música de qualidade e antros ilícitos que as coisas boas da vida aconteciam. O proibido atraía os homens que voltaram da Primeira Guerra Mundial festejando sua sobrevivência, as mulheres procurando por diversão, cansadas dos maridos à moda antiga, os indivíduos que se interessavam pelos prazeres da carne e que não tinham os mesmos preconceitos da sociedade repressora em que viviam.

Speakeasies não eram apenas um lugar para se beber álcool, mas um pedaço da América onde todos tinham vez.

Onde todos eram iguais.

Pelo menos era isso que os bêbados sorridentes pregavam.

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Os dedos de Stiles corriam pelas teclas de um velho piano enquanto traziam à vida mais uma das obras do grande Scott Joplin. O garoto, já ao alto dos seus dezenove anos, não tinha nenhuma ambição em se tornar um músico importante para a cultura americana, a única vontade dele era fazer a música soar pelo ar, fazer com que suas memórias virassem som e animassem as noites do bar do seu pai.

Ele nunca teria muitas chances de ser alguma coisa na vida além disso. Muitos imigrantes atravessavam o oceano na busca de uma vida melhor nas cidades americanas e conseguiam — o mesmo que Jan Stilinski (que depois americanizou seu nome) fez, o pai de Stiles. Porém, o nome desses polacos nunca seria capa de jornais ou notícias importantes, a não ser que fosse para ser parte de uma lista dos obituários.

Todos eles viviam na ilegalidade

E se isso não fosse terminar com qualquer sonho de uma vida melhor para ele, Stiles ainda era cego. Ele não podia enxergar nada desde seus treze anos de idade, quando um médico deu uma vacina errada pra ele durante a epidemia da Gripe Espanhola, causando a perda completa da sua visão. Ele não foi o único a sofrer do mesmo mal, no entanto, milhares de outras pessoas tinham sido infectadas ou prejudicadas de alguma forma por agulhas contaminadas ou remédios mal aplicados.

Só de ter a chance de continuar vivo, Stiles já devia se contar sortudo.

Então, o garoto não tinha como ajudar o pai no bar, não tinha como encontrar um trabalho na cidade – quem daria emprego para um imigrante cego? – e não tinha como fazer qualquer outra coisa, a não ser sentar ao piano e divertir os clientes do Olhos Negros, o bar deles. Sua existência era reclusa e além daquilo ele só tinha a música, que era parte crucial da vida dele.

Passar uma noite toda tocando sucessos do blues, do jazz, a música dos negros que vinha do interior do Mississípi, esticar seus dedos por toda a extensão das teclas brancas e pretas, era um dos motivos de ele ainda ter vontade de acordar no outro dia.

Nada mais importava quando ele estava sentado ao piano, de olhos fechados e sentindo o mundo correr em volta dele, enquanto a melodia soava o que a alma dele sentia. Os sons dos homens festejando seu rum e das mulheres dançando desapareciam. As conversas entre os cafetões que procuravam um corpo pela noite e a voz das cantoras sensuais se sumiam aos ouvidos de Stiles, restando apenas o som do piano.

Poucas vezes alguém tentava furar essa barreira entre ele e o mundo enquanto ele fazia companhia ao instrumento.

Às vezes alguém conseguia.

“Você toca muito bem.” Disse uma voz ao lado de Stiles, tirando ele do torpor que a música produzia quando ele não precisava ouvir mais nada. Ele não havia conseguido sentir nenhuma pessoa se aproximando em volta dele antes da voz soar perto do seu ouvido, por isso um choque de surpresa correu por sua espinha.

A música não parou, no entanto. Stiles nunca se distraía com pessoas o abordando ou chegando perto dele. O clube sempre estava cheio, então era normal ter alguém tropeçando pelos cantos ou batendo nele, sem falar no fato de que ele não poderia se desviar de ninguém, então Stiles geralmente tentava ignorar qualquer presença perto dele.

“Obrigado.” Ele falou para a voz que escutou.

Os dedos continuaram correndo pelas teclas e Stiles tentou até concentrar o ouvido dele para saber se o homem que falou com ele ainda estava ali ou se já tinha ido. Era só por curiosidade, no entanto, já que ele não se importava muito com as pessoas, afinal a maioria delas não se importava com ele, o filho do dono do bar, o garoto cego, o pianista que não sabia fazer mais nada além de música – conceitos fabricados para deixar ele com menos chances de ser alguém importante.

“Pra tocar de olhos fechados, você deve ser muito bom.” O homem falou de novo. Stiles respirou fundo, virando um pouco seu rosto para o lado de onde vinha a voz, mas continuando com a música em seus dedos. Ele sorriu, tímido.

“Eu não tenho muita escolha.” Stiles falou, abrindo os olhos e mostrando seus orbes esbranquiçados, olhos que uma vez eram de um marrom claro como a terra de seus avós no outro lado do mundo, mas que agora agora eram devidos de cor, parecendo algo antigo e empoeirado, um solo seco pela estiagem que o castigou por anos.

Por alguns instantes ele ficou tentando escutar o que se passava ao seu lado, tentando saber se o homem ainda estava ali ou se ele já havia se rendido à imagem do garoto cego, que para muitos era assustadora, e escapado de perto. Stiles não mentiria para as pessoas, não tinha um motivo sequer para fazer aquilo, afinal ele era cego agora e seria cego para sempre.

“Você é muito mais fantástico do que eu havia imaginado.” O homem falou, quase em um sussurro, e Stiles conseguia perceber uma nota de surpresa na voz grave dele, como se ele estivesse maravilhado com alguma coisa.

Como se ele estivesse maravilhado com Stiles.

Provavelmente o homem estava imaginando o garoto como um ser sobrenatural por ser cego e tocar piano. Era comum as pessoas apenas verem o appeal estranho em coisas diferentes e esquisitas, como na mulher barbada ou nos palhaços.

Ou em garotos cegos.

“Obrigado, mas eu… eu só toco piano. Nada demais.” Stiles respondeu, um pouco envergonhado com o jeito que o homem falava com ele. As palavras do homem deixavam o garoto desconcertado com a situação toda, já que raramente alguém falava com ele durante as noites, e menos pessoas viriam elogiar a música que ele fazia ou ele como pessoa.

Ninguém além do pai tinha o costume de compartilhar seu tempo com Stiles.

“Eu sei que nem todas as pessoas que tocam piano precisam enxergar as teclas para fazer a música acontecer, mas o jeito que você faz todo o ato de transformar seus toques em música até parece mágica, os dedos seguindo o próprio caminho sem nem saber pra onde eles vão.” A voz do homem apareceu de novo, cortando os pensamentos de Stiles. Ela era cheia de admiração, quase como se o fato de Stiles estar tocando piano sem poder enxergar fosse algo surreal.

As bochechas de Stiles se aqueceram com as palavras que vinham do homem.

“Bom, na verdade não é mágica, eu só toco piano. Muitos músicos não precisam enxergar as teclas quando eles já conhecem o que está na frente deles.” Stiles sorriu para si mesmo, envergonhado. Ele sentiu o homem se achegar ainda mais perto do banco que ele estava sentado, fazendo com que as pernas dele se encostassem aos braços e costas do garoto.

“Eu acho que você deveria aceitar o elogio.” Disse a voz do homem, bem próxima do ouvido de Stiles. As palavras vinham carregadas com o ar quente que saía da boca dele e faziam o garoto se arrepiar por baixo da camisa que usava. “Eu sei que isso pode parecer meio rude, mas entre eu e você, a pessoa que consegue enxergar as coisas com os olhos sou eu, então se eu digo que você é fantástico e parece que seus dedos são mágicos, é porque eles parecem.” Disse o homem, que a cada palavra chegava ainda mais perto de Stiles. A voz dele não era abusiva aos ouvidos, mas algo no jeito dele falar não conseguia deixar o garoto completamente confortável.

“Certo, então.” Foi a resposta dele, nervosa, como se nem ele soubesse o que dizer. Os elogios do homem tinham sido uma coisa que ele nunca tinha ouvido antes e a cabeça de Stiles não sabia se se expunha às declarações ou se protegia.

O homem riu, um som quente, bem perto dos ouvidos de Stiles. Arrepios correram de novo pelas costas dele.

“Não precisa ficar sem jeito, garoto. Eu sei que nem todo mundo liga pra você, mas venho aqui há um bom tempo já e sempre quis puxar papo com a pessoa que fazia a minha cabeça esquecer de si mesma por algumas horas. Eu precisava saber quem era esse garoto que fazia eu me perder...” Explicou o homem. “E, à propósito, meu nome é Derek Hale. Ou só Derek.”

Quando terminou de falar o seu nome, a mão de Derek desceu sobre o ombro de Stiles e apertou ele, carinhosamente. Era como se ele não quisesse tirar atenção de Stiles da sua música, mas, ao mesmo tempo, quisesse se fazer notar.

Stiles quase se engasgou com a própria saliva. Ainda assim ele tentou responder a apresentação do homem, sem pensar no fato de ele estar sendo tocado por ele.

“E eu sou o…” O garoto gaguejou.

“Stiles.” Derek respondeu, e era possível denotar um sorriso na voz do homem. “Eu venho bastante aqui e conversei com seu pai. Ele nunca me falou muito de você além do nome, no entanto.” O homem terminou de falar e apertou o ombro de Stiles outra vez, e na hora de soltar dele a mão escorreu lentamente do ombro para o pescoço, num movimento rápido, mas que não passou despercebido por Stiles.

O garoto sentiu mais um tremor, mas não disse nada, apenas continuou tocando. Ele percebeu o corpo do homem se aproximando dele mais uma vez. O garoto nunca tinha sentido outra pessoa chegar perto dele daquela forma por isso a sensação era assustadora, mas excitante ao mesmo tempo.

“Você tem mãos lindas.” Sussurrou Derek. Mesmo com todo o barulho do bar, com o som da música que saía das mãos de Stiles, ele ainda conseguiu ouvir a voz do homem com clareza. As mãos do garoto tremeram um pouco mais uma vez, ameaçando parar de tocar.

Stiles respirou fundo, tentando se concentrar no que ele tinha que fazer.

“Obrigado.” Ele sussurrou de volta, sem saber se a voz dele chegaria até o homem.

Ele nunca ficou sabendo, no final das contas. No instante em que Stiles agradeceu pelo elogio não havia mais ninguém por ali e ele sentiu apenas a presença do homem se esvair – Derek já deveria ter ido para algum outro canto do bar ou até voltado para sua própria casa.

Stiles suspirou, concentrando todo seu pensamento nas teclas à frente dele, deixando seus dedos procurarem o próprio caminho dentro do som das madeiras e cordas de seu piano.

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Os dedos do garoto criaram uma ilusão na minha frente, fazendo meus olhos se confundirem, meus pensamentos se misturarem, me deixando sem qualquer chance de controlar o que estava se passando dentro de mim.

Há meses eu apareço pelo bar, desde que decidi voltar a vida das ruas de Chicago outra vez, e assim que eu coloco meus olhos no menino que toca piano, lá eu me perco. Me perco dentro desse mundo de coisas novas, onde nada é tão ruim quanto eu achava que era.

A primeira vez que eu o vi meu coração bateu mais forte e minhas mãos começaram a suar. Era como se fosse o sinal mais bobo que o meu corpo poderia mandar pra avisar que eu havia encontrado outra pessoa que me chamava, que fazia as coisas dentro de mim se movimentarem — algo que eu não sentia em anos, desde a primeira vez que eu havia colocado meus olhos no soldado mais lindo que eu já havia visto, ainda quando eu tinha apenas dezoito anos e entrava para disputar uma guerra que eu nem entendia direito.

Eu saí vivo das batalhas e voltei para a minha terra. Nunca mais vi aquele soldado, no entanto.

Acredito que ele não tenha tido a mesma sorte que eu.

Mas o garoto estava ali, na minha frente. Respirando e vivo. Seus dedos corriam loucamente pelas teclas de um piano e a minha mente corria para longe de mim, para um lugar feliz.

Um lugar que eu ainda não conheço.

Minha intenção não era conversar com ele nessa noite. Mas eu o vi lá e fui. Já havia me cansado de conversar com John, afinal ele nem tinha muito tempo pra mim tendo que correr pelo bar e servir copos e mais copos de rum, e nem todo barista tem tempo de ficar escutando os dramas de todo homem que vai a um speakeasy.

O homem só olhou para minha cara uma vez e disse que Stiles teria tempo pra mim. Ele ofereceu o filho no lugar dele, ele me ofereceu alguém para fazer companhia pra mim.

Confesso que na primeira vez que ele disse aquilo eu até achei estranho. Não consigo imaginar um pai que quereria que o seu filho fosse puxar papo com um degredado da guerra e virar amigo dele. Não aconteceria nada de melhor na vida de Stiles por estar perto de mim ou por conversar comigo, um homem cheio de cicatrizes cortando a face e o corpo.

Não que eu fosse uma abominação da natureza. Eu só era um daqueles caras que não voltou sem marca alguma de uma guerra. Eu tinha na minha pele as impressões digitais da morte, da dor, do desespero. Eu tinha todas elas tatuadas em mim.

Mas, pelo menos, eu voltei vivo, o que era o bastante.

Naquela noite, então, eu decidi deixar os meu dramas de lado e tentar alguma coisa nova.

John havia apenas me dito que “todo homem precisa de um amigo” e eu até achei que ele estivesse falando comigo, mas eu cheguei frente a frente com o filho dele e percebei que aquela frase poderia servir para qualquer um.

Eu vi os olhos de Stiles, mas ele não poderia ver os meus. Eu vi que ele não poderia ver o mundo com seus próprios olhos e que muitas pessoas provavelmente escolhiam não ver ele também. Assim como eu, Stiles também não tinha uma companhia ao seu lado durante as noites.

E o pior era saber que o motivo daquilo era ligado à coisas que ele não tinha nada que ver.

Mas eu conseguia ver ele.

Eu conseguia ver como ele era feliz do jeito que era, como a vida pode tirar alguma coisa de você e lhe dar outra em troca. Nem sempre a balança é justa, nesses casos, mas é melhor ter alguma coisa perto de você, ter algo que lhe dê um motivo para viver, do que estar vivo em um mundo sem motivos para acordar, só de passagem.

Eu estava nesse mundo só de passagem.

Até que ouvi a música que não chegava aos ouvidos de quase ninguém.

Eu ouvi Stiles.