Oczy
3 Cadeia alimentar
Notas iniciais
Depois da noite em que Stiles conheceu Derek pela primeira vez, as semanas se passaram com as coisas acontecendo quase do mesmo jeito de sempre.
Quase.
A rotina do garoto todos os dias começava com ele acordando cedo – não tão cedo quanto o pai dele, mas não tão tarde quanto qualquer outro menino com a mesma idade que ele. Após um rápido momento para se refrescar, ele organizaria o que ele conseguia dentro de casa, utilizando-se de um sistema que ele conseguiu elaborar com o pai para que o pequeno apartamento deles ficasse arrumado e ele pudesse se locomover por ele sem problemas. Então, Stiles iria tomar um café, comer alguma coisa e esperar pelo pai vir buscar ele para ir ao bar, lugar onde os dois passariam a maior parte do dia.
Como John costumava fechar o Olhos Negros logo após o último cliente sair de lá, ele precisaria sempre limpar no outro dia, o que Stiles ajudaria a fazer. Enquanto o pai varria o chão e colocava as cadeiras para cima das mesas, o garoto arrumaria as prateleiras de bebidas e iria limpar as partes do bar que ele já conhecia só pelo toque.
Os dois almoçariam juntos e jantariam ali também, fazendo as refeições nos intervalos do trabalho.
Assim que o dia estivesse se transformando em noite, depois que tudo estivesse pronto para abrir o bar, Stiles iria se posicionar ao piano e esperar pelos clientes da noite. Quando todo mundo bebesse o bastante e dançasse até os pés cansarem, os dois fechariam o bar outra vez e iriam para casa dormir, voltando a ele só no outro dia para começar o mesmo processo de limpeza e organização que se repetiria no outro e no outro dia.
E a vida deles era assim, pai e filho juntos na maior parte do tempo – vida que Stiles gostava. Era a mesma coisa todos os dias, e para algumas pessoas isso nunca seria o bastante, mas para uma pequena família polonesa que era ilegal no país, tudo isso era mais do que bom. Sem falar que John sempre disse que eles não trabalhariam no bar para sempre, quando eles conseguissem guardar bastante dinheiro para ter uma vida feliz, John levaria Stiles para um lugar melhor.
Parecia um pouco solitário, sempre ficar apenas nessa convivência entre pai e filho, mas Stiles nunca proibiu o pai de tentar procurar uma nova mulher para ele. O garoto sabia que John precisava de diversão. O homem vivia alguns romances sem compromisso, conhecia algumas mulheres que vez ou outra apareciam nas conversas entre ele e o filho, mas no final do dia era só eles dois que iam dormir no pequeno apartamento, só eles dois almoçando e jantando juntos na bancada do bar, conversando como velhos amigos.
E Stiles, bem, o garoto não tinha muita fé de que ele sequer conseguiria alguma pessoa para dividir os dias com ele, além do pai. Por isso mesmo ele sempre queria que o pai encontrasse alguém, deixando bem claro que ele não iria se importar. Não havia motivos para os dois serem sozinhos.
Stiles tinha suas formas de não se sentir só, no entanto. Quando a saudade batia ele perguntava para o pai contar algumas histórias da sua infância na Polônia, os dois conversavam em polonês, pelo menos as palavras que sabiam, e Stiles ainda tentava se recordar de cantigas da terra de seus avós, que os pais dele tinham cantado quando ele era uma criança — uma de suas preferidas se chamava Dwa serduszka. John ainda contava histórias sobre a cultura dos seus pais e lendas antigas para que Stiles tivesse ideia do que era a vida deles na sua terra natal.
Quando Stiles não tinha a companhia do pai, então, ele iria se perder na música.
Ela nunca o deixaria sem companhia.
Se Stiles não estava tocando, o ouvido dele ficava colado ao rádio, ouvindo músicas para ele tentar reproduzir elas depois. A mente dele viajava por todos os lugares que os homens contavam e cantavam em suas canções. Na cabeça dele, Stiles poderia ir para o mundo todo no som triste de um blues ou viajar num alegre trem de jazz.
Entre as histórias de seu pai e a música que corria em suas veias, Stiles não se sentia sozinho. Ele tinha uma vida definida pelo destino, feita para ser adversa, mas possível de se sobreviver. Stiles tinha seus sonhos, mas todos eles eram simples e incluíam apenas a felicidade, não importava como ou onde.
Porém, no meio de todas essas coisas que já tinham seu lugar certo entre a rotina de Stiles e seus sonhos, havia uma coisa que colocou o quase na existência de Stiles. Alguém que ele não conhecia e que não sabia de onde vinha nem para onde ia. Alguém que chegou e se fez presente, procurando um lugar na vida dele.
Derek Hale.
Ele havia entrado na vida de Stiles por algum movimento do destino e agora não queria sair mais. Não que ele devesse sair. Ou também devesse ficar. A grande sacada é que Stiles não sabia se ele queria que o homem ficasse na vida dele ou saísse. Ele não sabia se escutava o que Derek falava ou se procurava não ouvir as palavras do homem, ignorando ele.
O homem apareceu várias noites pelo Olhos Negros durante as semanas que se seguiram a primeira vez que eles conversaram. E todas essas vezes que eles se falaram se passaram quase da mesma forma que primeira.
Derek chegaria perto de Stiles ao piano e o garoto sentiria essa presença – depois da primeira noite, Stiles começou a prestar atenção ao seu redor, tentando descobrir quando ele receberia uma visita do homem. Derek, então, falaria sobre a mágica de ver Stiles tocando, ver os dedos dele se movimentando como algo fantástico e surpreendente. Todas as noites o homem comentaria alguma coisa sobre o garoto.
Ele dizia que as mãos de Stiles eram lindas, que a forma como os dedos se moviam era diferente de qualquer coisa que ele tinha visto. Derek falava da delicadeza da pele dele e como a cor era uma mistura da cor da neve que caía na cidade no inverno com o chocolate quente mais gostoso. O homem dizia que o rosto de Stiles se desmanchava em prazer quando ele tocava alguma de suas músicas preferidas já no final de noite, sem ninguém ligar muito pra ele, e aquele rosto de Stiles era a liberdade em forma de feição.
Derek dizia que os pés de Stiles se moviam em tempos diferentes aos da música e que eles sempre marcavam uma contagem diferente, marcavam a respiração no peito do garoto e as batidas do coração. Ele dizia que a voz dele ao responder as perguntas do homem era sempre cheia de insegurança e mesmo assim soava como mel das abelhas silvestres, pingando da boca dele a cada palavra.
Mas acima de tudo, Derek sempre dizia que Stiles era uma criatura de um mundo de fantasia que veio tirar seu tempo aqui na terra. O homem se sentia fascinado por todos os aspectos do garoto.
E Stiles não sabia o que dizer, o que fazer, não sabia como responder. Ele sorria envergonhado, sorria inseguro, sorria com o medo que tentava subir pelo peito dele, sorria com a sensação estranha de não saber quem era aquele homem, de só conhecer a voz dele e o cheiro que se espalhava pelo ar quando ele chegava perto de Stiles e se esvaia quando ele desaparecia.
Stiles se banhava em cada uma das palavras que vinham da boca de Derek, ele sentia elas correrem o corpo dele e irem direto para o coração. Contudo, essa atenção que Derek dispensava com Stiles era uma coisa assustadora, inesperada. Tudo aquilo o deixava acuado dentro do próprio peito, sem saber se era seguro confiar em um homem que ele nunca tinha visto antes.
O garoto nunca teve a chance de conhecer alguém que gostasse dele pelo que ele era, que admirasse aspectos da pessoa dele que ninguém tinha achado interessantes. Derek tratava Stiles como uma maravilha da natureza, como alguma beleza que ninguém conseguia ver e que era só dele para desfrute.
E o corpo de Stiles? O corpo dele se sentia no centro de uma fogueira a cada vez que Derek o tocava, cada vez que a voz do homem ecoava pelos ouvidos do garoto, cada vez que o cheiro amadeirado de Derek chegava às narinas de Stiles, cada vez que o ar que saía do peito de Derek raspava na pele da bochecha de Stiles ou perto da sua orelha.
O corpo dele gritava pelo contato com o homem, mas a mente de Stiles sentia medo dele.
E ele não sabia o que fazer.
Essa atração estranha que o garoto acabou sentindo por Derek parecia ser alguma coisa que muitos condenariam. Ele sentia que ao mesmo tempo em que aquele fogo subia por dentro do corpo dele, aquecendo alguns lugares que ele não conseguia nem nomear, havia um outro fogo aceso para ele, havia uma fogueira esperando para queimar ele apenas por sentir o que sentia.
A cabeça do garoto era um mar de confusões.
Ninguém nunca havia dito para ele as coisas que Derek falou. Ele nunca havia sido elogiado daquela forma, visto por aquele tipo de olhar, analisando o corpo dele e falando sobre as qualidades que ele tinha. Ao ouvir as palavras do homem, Stiles conseguia se enxergar de novo, afinal seis anos haviam se passado desde a última vez que ele teve a chance de se olhar em um espelho.
Porém, essa atenção fazia ele se sentir inseguro, com medo. A voz do homem não parecia ser possessiva ou carregar qualquer traço de maldade – na maior parte do tempo Stiles só ouvia fascínio, só ouvia a surpresa, deleite – mas a forma como as palavras chegavam até o garoto, a forma como, de um dia para outro, ele não sabia muito sobre si mesmo e então começava a descobrir tantas coisas novas, um mundo novo, faziam com que ele se sentisse a ponto de dar um passo em um abismo.
A sensação era quase física, já que ele não conseguia enxergar o que tinha em frente a ele.
E Stiles não sabia se deveria deixar o medo tomar conta ou se deveria apenas dar mais um passo.
–--
Conhecer o garoto através da própria voz dele era muito melhor do que observar ele de longe. Disso eu tinha certeza. Ter a chance de o ouvir dizer coisas simples, ver ele se perder em meio as frases e nem saber para onde ir, saber que ele tinha algumas palavras comigo, que elas eram só para mim e não para nenhuma outra pessoa, tudo aquilo era uma coisa de outro mundo.
E eu não tinha certeza se eu já havia sido assim tão feliz na minha vida.
Talvez eu estivesse exagerando um pouco. Talvez não.
Acredito que a possessividade e a minha obsessão com o garoto não eram exatamente saudáveis, e eu sentia que eu estava me jogando de cabeça em alguma coisa que eu nem sabia o que era.
Não esperei por um sinal para ter certeza de que eu estaria seguro.
Eu só me atirei.
Eu sinto ele perto de mim, quase que dentro do meu coração pulsante. Sinto ele de formas diferentes, dentro da minha cabeça, através dos meus olhos, como música em meus ouvidos. Atacando meus sentidos por todos os lados.
É como se meu cérebro tivesse adaptado todo meu mundo para girar em volta dele e mais nada.
Quando um raio de sol aparece na sua vida, que antes era apenas um dia escuro, você não tem escolha senão abrir os braços e deixar a luz tomar conta de você. Eu deixei essa pequena luz se abrir na minha frente e me engolir, deixei tudo para trás e só olhei para Stiles.
Depois de lutar em um mundo onde as coisas não fazem sentido, é muito melhor deixar nossos desejos nos controlarem.
Se eu deixar minha cabeça tomar conta da minha vida, eu nunca vou deixar de ter pesadelos…
–--
“Mais uma dose?” John perguntou ao homem à sua frente, sentado, perdido em seus pensamentos.
“Sim.” Derek respondeu. “Mais uma dose, por favor.” John sorriu ao ver que Derek havia se perdido ao olhar para o piano que Stiles tocava, uma coisa que havia acontecido bastante nas últimas semanas. Toda vez que Hale aparecia pelo Olhos Negros ele procuraria por Stiles e se não fosse falar com ele, Derek iria se sentar ao bar e ficar olhando para o garoto durante a noite toda.
Qualquer pessoa que visse um homem como Hale olhando para o próprio filho da forma como Derek olhava, provavelmente chamaria a polícia e o acusaria ele de pervertido. John, no entanto, não conseguia fazer aquilo. Ele via de perto todos os movimentos de Hale e ficava tentando decifrar o que ele conversava com seu filho, ao mesmo tempo em que sentia o coração se apertar no peito simplesmente em pensar que ele deveria ser o tipo de pai que tiraria a possibilidade de uma amizade na vida do filho.
Ou algo mais.
Não era nem a questão de Stiles ter mais um amigo, mas sim de ele ter um amigo além do pai, já que ele não tinha mais ninguém. E Hale havia mostrado um interesse no garoto, havia pedido algumas coisas sobre ele para John, antes de criar coragem e conversar com Stiles. O homem sorria quando falava sobre o garoto e tinha um certo fascínio por ele escrito em seu rosto quando o nome de Stiles saía de seus lábios.
John tinha reservas, ele tinha um pouco de medo dentro de seu coração ao imaginar que Hale poderia ser uma ameaça ao seu filho. Entretanto ele via a possibilidade de uma pessoa entrar na vida do garoto por vontade própria. Alguém se aproximar dele sem olhar para o menino com desgosto ou repulsa. Alguém que pudesse ver algo a mais em Stiles.
E Derek via isso.
John terminou de encher o pequeno copo de vidro e alcançou para o homem.
“Obrigado.” Derek respondeu, logo se virando para o piano de novo, deixando seus olhos viajarem para o garoto.
John olhou para o homem e se esticou sobre o bar para sussurrar no ouvido dele algo que apareceu em sua mente de uma hora para outra.
“Você sabe que se você quisesse conversar com ele de verdade, sem precisar fazer suas perguntas em volta do piano, eu posso dizer para Stiles deixar os discos de vinil animarem uma das noites aqui do Olhos Negros.” As palavras saíram da boca de John sem ele pensar muito. Não eram parte de uma proposta, talvez uma sugestão. Ele apenas disse aquilo para que os dois pudessem conversar melhor, e não ficar apenas trocando poucas palavras.
Se John queria apostar em uma amizade entre os dois, ele ajudaria isso acontecer. Pelo menos de alguma forma.
Hale se engasgou com sua bebida e olhou para John com os olhos arregalados.
“Eu… eu não…” As palavras tentavam sair da boca do homem sem sucesso.
John estendeu um dos braços pela bancada do bar e colocou sua mão no ombro de Derek.
“Eu só disse que se você quiser conversar com Stiles ele pode deixar de tocar piano por uma noite.” A voz de John foi sincera e calma, antes de se tornar mais dura para continuar seu discurso. “No entanto, eu estarei por aqui sempre, então se você tem alguma intenção ruim com o meu garoto, eu vou fazer com que a Chicago inteira fique sabendo o tipo de homem que você é.”
“Mas você nem me conhece?” Derek disse, protestando sobre a ameaça repentina de John.
O homem apenas sorriu para Hale.
“Eu sei. Mas na cadeia alimentar dos homens, donos de speakeasies vem antes de seus clientes errôneos. Nós precisamos viver nossa vida na ilegalidade pra manter um lugar desses aberto, então eu não acredito que seja assim complicado fazer qualquer outra coisa na ilegalidade.” John falou, calmamente. “Tipo esconder um corpo.”
Derek se engasgou de novo, olhando com olhos arregalados para o sorriso de John.
Fale com o autor