Oczy

1 Prólogo


Notas iniciais
Essa fic era pra ser original, mas eu decidi fazer Sterek pra vocês.

=D

Meu pai sempre disse que eu não devia falar assim, mas eu não tenho escolha. Não que minha vida seja completamente controlada por forças externas, superiores, que eu não possa tomar cabo. O que eu não posso é mudar muito do meu universo apenas com o meu pensamento. E minha voz se faz ouvir mesmo quando não é chamada, fazendo minhas ideias saírem pela minha boca como uma cachoeira, sem controle.

Na maior parte do tempo, no entanto, não há ninguém ao meu lado para ouvir o descontrole de ideias que brota de mim.

E meu pai, que sempre me disse que eu não deveria falar assim, não pode mais continuar afirmando essas mesmas coisas ao meu ouvido.

O tempo muda nossa percepção do mundo, mas junto com o tempo, muda nosso mundo também.

Nem sempre para melhor.

Se eu fosse como um daqueles garotos eu poderia estar brincando agora, tomando um gole de rum, batendo os meus pés, empurrando um melhor amigo para uma parede ou para outra. Eu poderia estar sorrindo e cantando cantigas antigas sobre viagens de trem, brincando sobre os aspectos da vida que muitos homens não podem mais apreciar — ou todos os aspectos da vida que eu nunca pude apreciar.

Eu poderia estar vivendo toda essa vida que eu descrevi aí.

Mas eu não posso.

Em termos.

Eu não sou como um daqueles garotos. Eu não posso estar brincando agora, pois as brincadeiras que eles podem fazer não foram feitas para mim. Eu também não tenho idade para pensar em brincadeiras, mesmo que durante o tempo em que eu poderia ter pensado nelas, minha vida estava mudando drasticamente, fazendo com que brincadeiras fossem minha última preocupação.

Eu posso tomar um gole de rum, mas isso não faz mais tanta diferença em minha vida. Posso bater meus pés; isso também não faz diferença. Meu tempo de ser um aproveitador dos pequenos momentos se passou e eu fiquei pra trás, eu fiquei perdido, sem ter escolha sobre boa parte das minhas ações.

Ou melhor, eu tinha o poder de escolha sobre as minhas ações, só não tinha muitas ações sobrando para escolher.

Claro, quando você perde a capacidade de ver as coisas o mundo se apaga pra você. O que é óbvio. Você precisa aprender de novo como viver nesse mundo, precisa aprender como direcionar seu corpo para novas experiências e modos de se adaptar ao lugar que você vive, o que leva mais tempo do que é possível imaginar e muito mais vontade do que se precisa para apenas viver.

Ninguém havia me dito que isso seria assim difícil, assim complicado de se resolver. Ao meu redor as pessoas falavam que tudo iria ficar bem, que eu seria ajudado por muitos e que as coisas, eventualmente, se encaminhariam para a direção certa — mas é muito mais fácil se dizer isso se você não precisa lidar com o garoto com cegueira todos os dias.

Ajudar alguém uma vez durante o ano não faz sua vida assim difícil.

Tente guiar uma pessoa que não pode enxergar por todos os dias de sua vida e durante a maior parte desses dias. O que era uma tarefa de caridade vira um exercício de paciência, onde apenas aqueles com bastante dedicação são capazes de completar.

Todas as pessoas à minha volta tem a sua própria maneira de enxergar o mundo. Todos tem seu jeito de ver as coisas, de analisar o mundo a partir dos seus olhos e poder adivinhar o que se secreta além do que nossos sentidos podem capturar.

Eu também posso fazer isso.

Eu posso imaginar um mundo inteiro com minha mente, pintar as coisas e as pessoas com minhas cores e criar um universo onde tudo segue as minhas leis, sem a influência de qualquer outra pessoa ou de qualquer outro conceito.

E a diferença mais importante é que eu tenho a chance de viver nesse mundo, eu tenho a chance de acordar todos os dias dentro do meu imaginário, do qual mais ninguém pode fazer parte, enquanto as pessoas tem apenas o universo comum que elas vivem.

Essas pessoas veem o mundo com seus olhos famintos, olhos cansados, olhos esperançosos. Elas veem com sua mente aberta ou veem com as crenças que as protegem do outro lado. Todos enxergam com seus olhos o que a mente quer ver ou não. Todos tem essa mesma percepção de mundo, essa mesma ótica, que varia em interpretação, mas parte de uma mesma fonte.

Todos podem ser iguais nas formas de enxergar as coisas, mas a minha ótica é um pouco diferente: é a ótica de quem não pode enxergar.

Enquanto todos fazem seus universos a partir das coisas que viram, o meu mundo é criado a partir dos sons, dos toques, das sensações. O meu mundo é criado apenas por mim. Eu sinto esse mundo, mas não posso enxergar ele. As coisas se fazem em minha mente à sua própria maneira e eu apenas sigo com ela, tentando adaptar o que eu sinto ao que eu imagino.

Minha forma de ver o mundo se baseia em não enxergar nada, então eu não tenho problemas em ficar no escuro e me perder do caminho, pois eu faço o meu próprio caminho — mas a mão amiga de alguém sempre facilita a nossa vida.

Por isso mesmo que a falta do poder de enxergar nos torna criaturas da gentileza e passivos por natureza — podemos até tentar agir com voracidade, mas nossa caça para antes mesmo de começar, pois nossos pés não podem seguir apenas os caminhos imaginários.

E nossos caminhos imaginários podem nos levar para um mundo todo longe do nosso mundo — mas eles também nunca vão nos levar a lugar algum.

Porque nós não podemos caminhar por pensamentos.

E também não temos a opção de descobrir nossos caminhos com o olhar.

Muitas pessoas podem escolher entre abrir os olhos e fechá-los quando elas querem ou não ver as coisas.

Eu não tenho escolha.

Não posso enxergar nada.