Ocultum - Magos da Poeira

2 Meia Travessa, Meia Vida


Os dois correram, e correram escondendo-se em cantos escuros, passando por vielas, corredores de carga e de descarga, pulando muros de locais a muito abandonados, casas repletas de seringas e preservativos usados espalhados pelo chão. Assustando alguns de seus moradores ilegais no processo.

-Iara, você faz alguma idéia de onde nós estamos indo?! — Davi disse escapando de mais um terreno baldio através de uma grade corroída por ferrugem ao ponto de criar uma abertura grande suficiente para que pudessem invadir o quintal de alguma casa dilapidada, onde alguém parecia estar vendo TV.

-Shh! Tem gente que mora aqui! — Iara fez com o dedo, logo antes do som da TV sumir.

-Vamos! — Ela atravessou a grama alta da casa, procurou algo no muro oposto antes de tocar um símbolo estranho riscado com algum objeto afiado na lateral de um botijão de gás tombado entre outras sucatas.

-Hey! Tem alguém aí!? — Eles escutaram alguém exclamar para o pânico de Davi.

-Pula pra esse lado! — Ela disse, usando o botijão como plataforma para pular outro muro.

Davi escutou latidos, um grande cão corria em sua direção. Ele teve tempo de jogar as sacolas com as coisas que haviam pego do posto para o outro lado e agindo puramente por instinto rolou o botijão na direção do animal para ganhar tempo.

O cão saltou por cima do enorme cilindro, mas o “invasor” havia ganho tempo suficiente para pular o muro.

Iara estava do outro lado, com metade das sacolas na mão. Eles estavam em um espaço estreito e tomado por mato alto atrás de algum tipo de depósito, entre o muro de chapisco da casa um enorme paredão de tijolo do outro.

-Me ajuda a achar um kanji em algum dos tijolos! — iara exclamou.

-Aaah… O que é um kanji? — Davi perguntou suor pingando de seu queixo com aquela correria. Iara o encarou por alguns segundos.

-Ah! É um símbolo japonês, a mamãe deixou um riscado em um dos tijolos dessa parede, é um que significa espiral.

Davi a encarou em pânico sem saber o que estava procurando. E Iara apressada exclamou.

-Um símbolo japonês! Não vai ter nenhum outro riscado aqui!

-É pra já! — Davi exclamou enquanto os dois tateavam pelo paredão escutando os latidos incessantes atrás deles. E então o som de um helicóptero próximo.

Iara se jogou contra o amigo derrubando-o na grama alta.

-Não se meche! — A garota exclamou apavorada.

Iara estava deitada no peito do amigo, Davi imóvel deitado olhava para o céu tinjido de laranja pela poeira no ar. um pacote de chips havia caído fora da sacola.

O garoto enxergou entre as folhas um helicóptero passando lentamente, próximo do chão. Davi juraria que apenas alguns metros do telhado do depósito. Ele sentiu o mato se movendo com o vento das hélices.

-Tá vendo alguém? — Iara cochichou, mas o amigo engoliu a seco e continuou imóvel e sem respirar. Na porta aberta do helicóptero ele enxergou um policial militar com fuzil em mãos.

O coração do rapaz batia tão forte que ele escutava os próprios batimentos entre o som das hélices próximas.

Ele podia ver a silhueta de mais dois na aeronave.

Uma voz que ele reconhecia como o morador do imóvel que eles haviam acabado de invadir exclamou algo, e o olhar do policial que estava na porta foi do terreno ao lado, para o chão próximo de onde estavam.

-Nos dedurou Iara, se prepara. — Davi sussurrou. A amiga se virou lentamente rolando para o lado dele tentando não chamar atenção.

-Merda, ok. Você me cobre? — Ela sussurrou suor escorrendo da sobrancelha para a bochecha, e ela pegou uma das duas garrafas de refrigerante em mãos.

Davi indicou um objeto alguns metros deles.

-É para isso que eu sirvo. Você consegue pegar aquele vergalhão encostado no muro lá longe?

Iara estendeu a mão de forma elegante e uma garrafa de cerveja suja, mas fechada voou com força para a mão de Davi.

-O máximo que eu consigo sem me levantar.

Duas cordas desceram do helicoptero para o mato ao redor deles. E com um leve impacto os três policiais escorregaram até o chão a altura do mato chegava quase até a cintura oferecendo uma boa cobertura. Escopetas em mãos, prontas e posicionadas procurando os dois.

-Atrás de mim. — Davi sussurrou extremamente baixo, e o rapaz estendeu a mão apanhando um grande punhado de terra.

O rapaz torceu para que o grupo os procurasse na direção errada, mas para o seu azar eles vinham lentamente na direção dos dois, claramente sem enxerga-los.

Então um deles parou, virou de costas e realizou um sinal para os outros dois. Que olharam entre si compreendendo um sinal do qual Davi não fazia ideia do que se tratava.

Iara chacoalhou a mão e repentinamente todo o gás do refrigerante em sua mão expandiu de uma vez. Explodindo a tampa vermelha da pet com o som de um tiro que acertou a nuca do homem de cinza. O susto fez com que os três saltassem cada um olhando para direções diferentes.

O rapaz frustrado, saltou com um único grande impulso. Todo o seu corpo saltou em um piscar de olhos na direção do Homem de Cinza mais próximo jogando o enorme punhado de terra em seus olhos. Um truque de seus tempos nas ruas.

-X-5! Temos um X-5! — Ele exclamou. E um dos colegas viraram a escopeta na direção de Iara ainda no chão.

O rapaz aproveitou o impulso e girou o corpo todo arremessando a garrafa na cabeça de um dos homens de cinza antes que pudessem realizar o tiro.

Vidro estilhaçou no rosto de um deles.

O caçador na frente do rapaz não estava completamente cego e agarrou o rapaz pela gola da camiseta. Davi não viu para onde o cano da escopeta apontava, mas com medo que Iara recebesse um tiro ele acarrou o cano sem pensar onde estava colocando a mão.

Um tiro de fuzil ecoou somando aos gritos na passagem estreita, Davi não sentia nada naquele braço até o cotovelo e urrou de dor, olhando apavorado, sua mão e todos os seus dedos estavam alí, mas com terríveis hematomas e algumas queimaduras.

-Como você ainda tem esse braço Aberração!? — O Homem de Cinza exclamou prensando o rapaz contra a parede.

“As coisas estão saindo de controle?!” — O rapaz pensou em pânico.

Olhando para o lado, Iara havia formado dois globos de água ao redor da cabeça dos outros perseguidores.

-Foge Iara!!! — Davi exclamou antes de receber um soco no rosto. Seguido de outro. Então o guarda agarrou o cabelo do rapaz e puxou sua cabeça antes de socar sua nuca contra parede atrás dele.

-Cala a boca e se preocupa com você!!! — O homem de cinza exclamou ignorando os parceiros afogando em terra firme.

-Não! Eu consigo segurar eles!!! Derruba esse! — A garota berrou.

-É! Me derruba! — O guarda puxou a cabeça do rapaz para baixo, centando-lhe uma joelhada no rosto. Que fez o rapaz sentir um de seus dentes trincando em sua gengiva. Seguido de um soco no estômago que o fez vomitar um pouco do que havia no estômago para fora.

-IARA PORRA!!! — Davi berrou estirado no chão.

-Não!!! — Iara berrou de volta, sem se mover.

“Eu estou usando tudo de mim pra segurar eles, se eu soltar… se eu me mexer. Só EU vou conseguir fugir!”

O homem de cinza olhou para os colegas ainda se debatendo conforme o globo de agua parecia congelar ao redor de suas cabeças. Ele estalou o pescoço, e sacou o cacetete que para a surpresa de Davi emitiu o estalo seguido do zunido alto de uma descarga elétrica.

-Você vai me falar a localização de cada um dos outros Aberrantes que você conhece. — O Policial comandou. Davi apenas sorriu torto, a idéia de que haviam vários Magos como ele por aí, e que ele saberia a localização de cada um de cabeça soava ridículo demais. Que ele soubesse eram apenas os três.

O rosto do Policial Militar retorceu não compreendendo a reação do rapaz.

-Que foi?! Pelo jeito nunca experimentou um aparato né vagabundo?

A visão do rapaz ficou branca, e ele sentiu todo seu corpo convulsionar conforme a descarga elétrica percorria seu corpo. O cheiro de pele queimada preencheu suas narinas com o aroma de carne queimada.

-Quinhentos mil volts em uma bateria do tamanho de uma moeda! Aberrações não merecem nem chegar perto da tecnologia que nós carregamos todo dia. Vamos! Me transforma em um sapo! Faz alguma coisa imbecil!!!

-Davi!!! Só foge! Nós damos um jeito! — Iara gritou recuando ao ver o corpo do amigo estremecendo em meio a grama alta.

O pavor quebrou a concentração dela, libertando os dois guardas do sufocamento, ambos continuaram de pé, e se moveram para frente mesmo com os olhos fechados e bocas abertas.

Claramente estavam inconscientes, mas seus movimentos pareciam… pendurados. Inertes. Havia algo errado com os corpos dos dois homens afogados.

A visão de Davi estava completamente branca, e ele se perguntou se estava consciente ou não. Uma voz familiar ecoou por sua mente, uma memória de alguns meses atrás.

“Você sabe porquê eu estou te treinando com o bastão até seus braços incharem?” — A Sensei havia perguntado naquela tarde.

-Para… me proteger? — Davi lembrou de ter respondido.

-Sim, mas eu não preciso me preocupar com você. Sua essência te protege de quase tudo, mas a Iara tem o corpo de uma menina de 17 normal. Quando eu não estiver por perto vocês sempre terão um ao outro. Eu preciso que você seja o guarda costas da minha filha.

Davi sentiu o coração disparar como uma locomotiva, dor, suor frio sua mente gritou que ele deveria acordar imediatamente.

-Porquê ela é só uma garota…

Davi tentou gritar, tentou sentir o próprio corpo, berrando em sua mente e torcendo para que o corpo fizesse o mesmo.

-Se ela levar um tiro sequer, chances são que a minha filha vai morrer. Você precisa abraçar cada bala que voar na direção dela.

Davi sentiu um chute na boca, e escutou o homem de cinza berrando alguma ordem. Sua boca sangrava, e ele sentiu a dor de dezenas de hematomas da surra que estava levando.

“Minha quintessência deve ter parado de funcionar enquanto tava apagado!”

-Levanta e me olha no olho, ABERRAÇÃO! — O caçador berrou, acionando a descarga elétrica do cacetete novamente. E para a sua surpresa, Davi cospiu na palma da mão e se levantou mais rápido do que a adrenalina bombeando em seu sangue.

Com a mão cospida ele agarrou o rosto do caçador, com a outra ele segurou a ponta do cacetete no próprio peito.

A visão de Davi ficou branca novamente, o homem de cinza tentou jogar o rapaz para longe, mas a voltagem trancou a musculatura da mão do rapaz impedindo que escapasse.

Iara gritou ao ver os dois convulcionando de pé, e o cheiro de carne queimada preencheu o corredor.

Após cinco segundos de descarga elétrica, o rosto do homem de cinza se tornou extemamente vermelho. O cuspe na palma da mão do rapaz servindo de condutor para que parte da descarga elétrica retornasse para o atacante.

Apos dez segundos, a pele do policial começou a escurecer e formar bolhas ao redor do contato com a palma da mão de Davi. Uma singela gota de sangue escorreu por baixo da mão do aprendiz de Bruxo até o queixo do policial.

Aos quinze segundos, gotas de sangue escorreram dos ouvido, dos cantos dos olhos e uma espuma fina se formou nos lábios do policial. E a bateria finalmente acabou.

Davi sentiu uma sensação horrível na boca do estômago, a dor no corpo tão intensa que sua mente não compreendia.

Ela soltou o atacante que imediatamente caiu de costas na grama alta, vivo ou morto. Davi se encontrava novamente naquele vazio branco, sentindo o corpo rígido envergando para trás.

-Idiota!!! — Iara berrou agarrando o amigo pelo braço tentando mante-lo de pé.

O chacoalhão fez com que o rapaz percebesse que a mente estava se esvaindo de novo.

“Eu não posso dormir ainda!”

Ele sentiu a própria mente puxa-lo de volta ao corpo. Ele respirou fundo, sentindo a própria musculatura do corpo estremecer com espasmos da enorme descarga elétrica, e uma queimadura feia na palma da mão.

Ele respirou fundo utilizando o treinamento que havia recebido para estabilizar a própria mente.

“Respirar... Dor é uma ilusão. O corpo uma caixa. Nada disso é real. Eu tenho o controle da minha mente.”

O rapaz havia treinado por meses para aprender a manualmente desligar os sinais de dor dos seus nervos. Para ultrapaçar os limites de uma pessoa comum.

Seus olhos ricochetearam pela cena ao seu redor captando o máximo de informações possíveis.

A sua frente haviam dois homens de cinza inconsciêntes pés visívelmente flutuando alguns centímetros do chão, cabeças tombadas para o lado. Uma enorme mão cinzenta e pálida que se dobrava em ângulos impossíveis acima dos dois. Como um marionetista controlando. Um braço estranhamente fino e longo era visível e parecia pertencer a alguma criatura que escondia o resto do corpo acima do telhado do depósito.

-Eles trouxeram um Fomore, sem rota de fuga. Eu não sei o que eles vão fazer, e não consigo chegar até a coisa controlando eles. — O rapaz disse rápido, vendo os “bonecos” se moverem na direção deles alguns centímetros. Como que analisando-o de volta.

Mas antes que pudessem avançar mais, Iara ignorou o amigo e deu um soco no paredão ao lado. O ambiente ao redor deles estremeceu vibrando violentamente, antes de se dissipar em um caleidoscópio de imagens distorcidas.

Os dois sentiram uma sensação de queda livre. Que acelerava, e acelerava, e acelerava até os dois não suportarem mais a sensação horrível de que quando chegassem ao chão só sobraria uma fina núvem de partículas de cada um.

A viagem durou exatamente dois segundos. E eles surgiram do teto do hall de entrada do prédio, caindo de costas no chão com a força de uma queda de dois metros comum.

Uma queda dolorida, mas longe de ser letal. Pacotes de salgadinhos em grande parte intactos se espalharam ao redor deles. Mas a pet de refrigerante que havia sobrado explodiu com o impacto no piso de ladrilhos adornados mas imundos.

Os moradores do edifício dilapidado escutaram o estalo de um feitiço que conectava dois pontos do universo transportando aos gritos dois adolescentes, arrebentando as costas no hall de entrada.

Mas ninguém se importou, o som ocasional de alguns gritos, objetos caindo ou quebrando, uma briga aqui ou alí ou o eco distante do disparo de uma arma ao longe eram parte do cotidiano daquele lugar.

E sinceramente. Se fosse você escutando, você interferiria?

Condomínio Meia Travessa era o nome, e quase ninguém vivia alí. Era comum que prédios próximos da baixada do rio Negro fossem quase vazios, apenas aqueles que não podiam morar em um lugar melhor vivia na região que sofria inundações anuais.

Aquele lugar foi um dia um hotel de luxo na era dos barões do café, e o passado de glória ainda refletia nos grandes espelhos, nos ladrilhos ornameitais e escadas de madeira esculpida de forma fluida com entalhes da fauna e flora pseudo-extintas da região.

-A gente nunca vai poder ter uma vida normal né? — Perguntou Davi.

-Não fala isso. — Resmungou Iara.

-Mas é verdade. — Retrucou o garoto ainda recuperando o fôlego.

-Uma hora vamos conseguir nos mesclar melhor! — Iara disse tentando consolar o amigo.

-Nos mesclar como gringo no carnaval né? Aliás. — A expressão do rapaz foi de um sorriso fraco para um olhar vazio de preocupação.

-Eu quase matei um cara com um extintor na cabeça hoje…

-Eu tô... tentando não pensar nisso migo. — Iara disse se levantando.

-Nunca mais quero sair de casa… — Davi comentou, e Iara levantou a sobrancelha.

-Você quer passar o resto da vida preso em casa? Podia se jogar na porta de uma delegacia e pedir pra eles te levarem para o labirinto logo… Não faria muita diferença.

-Não tem jeito de você saber isso. — Davi retrucou.

-Estuda mais um pouco e você vai entender como estar empacado na vida é sempre a mesma coisa. — Iara retrucou séria e se levantou estendendo a mão para o amigo.

-Como tá a dor? Você apanhou bem agora pouco. — Ela perguntou preocupada. Davi aceitou e sentindo dores terríveis por todo o corpo ele grunhiu fazendo seu melhor para ignorar a sensação.

-Fora um chute na boca quando eu acordei, e o tiro de fuzil que deixou minha mão dormente. Nada demais…

Iara encarou o amigo por alguns segundos, era sempre engraçado ouvir ele falando de tais coisas como se fossem acontecimentos casuais. Mas a mão do rapaz estava machucada de verdade, e ela agarrou o membro inchado e roxo fazendo com que o rapaz se encolhesse imediatamente.

-Você agarrou aquele bastão elétrico com a mesma mão? A mamãe já disse que você tem que lembrar de distribuir o estrago pelo corpo. — Ela disse metódicamente, pensando em que plantas usar no emplasto para tratar a queimadura e os vasos sanguíneos estourados.

Ela deslizou os dedos sentindo os contornos da pele ferida.

“Resistente, não indestrutível. Mas se aquele fuzil me acertasse…”

Davi puxou a mão, apressado para chegar em casa e dormir.

-Me ajuda a pegar o que sobrou das compras. Minhas costas estão me matando, se você puder só agachar pra mim, eu agradeço. — O rapaz disse se curvando com dificuldade para pegar um pacote.

Iara empurrou o amigo contra um pilar ornamentado do hall, encarando-o frustrada.

-Resistente, não indestrutível. Você não precisa se fazer de forte. Não comigo. Descansa por uns cinco minutos.

-Aah. Tá bom. — O rapaz disse cedendo, mas verdadeiramente envergonhado por não dar conta de proteger Iara direito.

“É a única coisa que eu sei fazer… Se eu não puder fazer nem isso.” — Ele pensou.

-Desfaz essa cara, eu já te falei. Eu quero meu melhor amigo vivo, não um guarda costas levando um tiro por mim. — Ela retrucou, adivinhando a expressão do amigo.

-Não é como se eu pudesse deixar se virar tomando aquele tiro. — Davi resmungou. Iara empurrou um dos sacos de compras nos braços de Davi.

-Eu tenho pelo menos uns quinze anos de treino a mais que você, obrigada. Mas se eu não… congelasse, se eu fosse mais… se eu fosse melhor… Eu poderia ter molhado a pólvora das armas deles. Eu não precisaria te usar de…

-Cedo assim e já estão de brigando?! Isso não é bom, Iara você precisa ser mais paciente com seu irmão!

Uma figura surgiu das escadas, uma senhora que morava alguns andares acima da dupla. Ela sempre usava roupas humildes, mas sempre de maquiagem e sempre usando um perfume forte e enjoativo.

-Oi dona John John! — Disse Iara mudando completamente de assunto, a vizinha sorriu gentilmente e respondeu com um sotaque forte do nordeste.

Davi cobriu o rosto sentindo um pico de ansiedade.

-Minina! Tá muito tarde pra ir pra rua! Vocês sabem o que falam da baixada né?

“Quando o sol se põe, você some com ele.” — Davi pensou, já que havia escutado aquela frase dezenas de vezes. Inclusive quando morava por aí.

-Agente tava resolvendo umas coisas pra mãe no centro da cidade, mas tá muito quente...

A senhora riu.

-E quando não faz calor nessa cidade querida? Lá no norte, Mamãe falava que o calor do sertão é só o sol testando quem tem coragem de sair e brilhar lá fora!

O olhar da senhora pousou gentilmente sob Davi. Ela tentava o tempo todo convence-lo a se abrir mais, por algum motivo ela sempre se esforçava.

“Eu não preciso dessa indireta hoje. Eu estou fazendo o melhor que posso.” — Ele pensou, lamentando. E mesmo detestando a pressão, ele apreciava o fato de que ela pelo menos pensava nele o suficiente para tentar.

-Com esse pó vermelho todo eu nem gasto com blush no rosto! — Ela disse com um gesto dramático jogando os longos cabelos escuros para o lado Iara riu.

-A noite esfria pelo menos... — Iara riu.

-Ah, só se for no seu, lá em casa… — Ela se interrompeu. Percebendo que estava falando algo que não deveria para uma menor de idade. Iara sabia exatamente do que ela estava falando, e sorriu fingindo não entender.

Davi estava ocupado sentindo-se incapaz de falar. Ele queria conseguir participar da conversa, mas também queria fugir e desaparecer. As palmas das mãos suavam de nervosismo.

Por isso ele deixou as duas falarem. Ele detestava estar perto de pessoas fora a Sensei e Iara... Ele detestava sentir o aperto do pavor gutural, irracional que o paralizava quando tinha que interagir com estranhos.

Ele não viu mas John John acenou para ele.

-Tchau Davi! Será que ainda não gosta de mim? — Ela tentou rir sem graça.

Davi abriu a boca e tentou responder educadamente, mas sua voz não saiu, a garganta estava travada e ele grunhiu incoerentemente por alguns longos segundos, tão baixo que felizmente não conseguiram ouvir sua vergonha. E Iara interviu percebendo sua ansiedade.

-Ele disse que só está tímido, e deu tchau! — Respondeu a garota acenando por ele.

-Tímido é? um garoto tão bonito, vai virar um homão um dia! Bom, diz pra sua mãe que a pomada caseira que ela fez funcionou muito bem! Parece o tipo de remédio que a minha vó fazia.

Iara riu contente.

-Nós gostamos de cuidar de plantinhas, então sempre sobra o suficiente pra fazer umas pomadas com sobra! Mas a mamãe vai ficar super feliz em saber!

A senhora passou pela porta e uma lufada de ar quente invadiu o ambiente.

Davi mordeu o lábio frustrado.

"Toda vez que eu saio de casa…" — Ele apertou os punhos com força exausto e odiando a sí mesmo. Por se sentir incapaz, fora de controle. Fraco.

"Ela acha q eu não gosto dela mesmo? Não. Eu não tenho nenhum problema com ela eu não quero que ela pense isso..." — Ele concluiu sentindo-se extremamente culpado por talvez magoar uma pessoa que sempre tentou ser gentil com ele.

Os dois foram até o elevador, e viram uma folha de papel colada com fita adesiva na porta.

-“Fora de serviço”, tudo o que minhas pernas precisam… — Iara lamentou.

-Davi ignorou o comentário e começou a subir os primeiros degraus em sua jornada até o décimo terceiro andar.

-Vamos queimar as calorias desses isoporitos aqui. — Ele brincou referênciando os salgadinhos baratos tentando ser bem humorado.

As escadas eram mal iluminadas, e sem janelas. Os degraus construídos antes de uma norma de construção existir eram altos e estreitos e por isso tinham que tomar muito cuidado para não tropeçar e rolar escada a baixo.

-Iara, Me explica. Porquê o caminho insano pra fazer a rota de fuga? Não seria mais fácil a gente não ter que pular os muros de metade dos terrenos baldios da cidade?

A garota que detestava exercício suspirou.

-Um feitiço desses precisa ser mais trabalhado, mais passos, mais energia gasta para ativar. Além disso a sequência longa impede pessoas de ativarem por acidente, e se você olhar por cima o nosso trajeto forma o mesmo kanji significando espiral.

-Espiral sendo um símbolo um rodamoinho na água que puxa e engole pessoas, levando elas para o mundo bizarro de baixo d’agua?

A amiga deu um leve soco no ombro de Davi.

-Isso! Muito bom, você está pegando o jeito em olhar para feitiços de forma simbólica.

Davi não se deu ao trabalho de falar que aquele ombro estava doendo para um caramba. E não se sentiu satisfeito.

-Eu não pensaria em algo assim em um aperto, eu provavelmente só usaria um símbolo obvio de “viagem” no lugar. Eu não consigo pensar desse jeito no dia a dia.

Iara revirou os olhos e eles continuaram subindo, o segundo andar.

-Desculpa por te forçar a ir sozinho na loja. Eu queria te encorajar, não que você fosse levar um mata leão de um homem de cinza. — Disse Iara preocupada.

-Você não fez nada de errado, eu acho que foi mais culpa minha por não conseguir agir como uma pessoa normal… Eu tenho consciência que tudo começou porquê eu estava agindo de um jeito neurótico.

-Mas. — Iara hesitou, e Davi se virou segurando o braço da amiga olhando para baixo melancólico.

-Um dia eu vou conseguir... ser normal, eu quero dizer... pelo menos normal como um bruxo consegue fingir ser normal. — Ele murmurou.

-Vai sim. Eu sei disso. — Ela respondeu aliviada.

Aquele lugar cheirava a naftalina, uma tentativa dos proprietários de esconder a terrível infestação de mofo do subsolo. A tinta das paredes era craquelada como um mosaico desagradável de olhar, expondo o concreto que começava a gradualmente esfarelar deixando uma superfície irregular por baixo.

-Ah. Merda! — Davi lamentou.

-Que foi? — Iara parou no meio das escadas e encarou o amigo preocupada.

-Vamos ter que fingir que nada aconteceu hoje, senão a Sensei vai acabar com a gente.

Davi respondeu antes de voltar a subir as escadas.

-Sim, óbvio. E porquê a surpresa? — A garota perguntou estranhando o amigo.

-Eu tenho muita tarefa de matemática pra fazer. eu ainda tô me sentindo meio em choque.

Ele esfregou os cabelos agressivamente.

-Drogaaaa, eu não estou com cabeça pra isso!

Iara revirou os olhos.

-Eu te ajudo vai...

No quarto andar de escadas Davi parou confuso observando uma entidade parada no meio do corredor.

Era como uma massa de cordões escuros que vibravam loucamente, o corpo tinha uma forma cilíndrica e vagamente humanoide, e ainda assim se assemelhava a um ponto de exclamação invertido. A cabeça no topo era completamente redonda com dois olhos brancos leitosos como pequenas lâmpadas.

-Iara, Iara o que é essa coisa? — O rapaz perguntou sem se mover ou tirar os olhos da entidade.

Iara apertou os olhos não enxergando a entidade imediatamente. Então as sobrancelhas dela relaxaram.

-Ah, sei lá. Mas não é conosco. Deixa ele.

-Como assim deixa ele? Eu vou sonhar com essa... coisa. — Retrucou Davi sem tirar os olhos da entidade.

-Vamos logo! — Iara puxou ele pelo braço impaciênte, e os dois continuaram subindo, Davi confiou no julgamento dela.

“Quinze anos a mais vivendo nesse mundo cara.” — Ele pensou humilde.

No oitavo andar, Iara se curvou para frente com um enorme suspiro, apoiando o corpo nos joelhos. Pernas queimando, musculatura mole.

Davi veio logo atrás, não tão exaurido, mas com a respiração levemente acelerada.

-É por isso que eu ando falando que você deveria treinar conosco. — Ele comentou.

-Shh. — A amiga sinalizou focando a vista em uma porta específica. Uma porta familiar. Diferente das várias portas de madeira cuja pintura havia ao longo do tempo desgastado deixando o material exposto. Era uma porta de cor verde escuro vibrante.

Um pequeno vaso de lanças de São Jorge ao lado da porta. E o rapaz escutava o som suave de algo raspando na porta.

“O que, diabos ela está tentando ver?”

O rapaz então se lembrou que as vezes os olhos de um desperto não enxergam automaticamente entidades e lugares cuja vibração era muito distante de sua própria.

Iara costumava enxergar os vizinhos com mais frequência, pequenos espíritos vivendo entre as folhas dos vazos. Ou vagantes flutuando no céu como sacos de plástico sendo levados ao vento.

“Enquanto isso, eu geralmente só vejo coisas ruins… Aahhh… Ok, vamos lá.”

O rapaz apertou os olhos e se concentrou em expandir sua visão, antes de que ele pudesse reconhecer a silhueta de algo, as sobrancelhas da amiga se levantaram e ela andou alguns passos na direção da porta.

-Dona Cochicho? Tudo bem com você?

“Ah não…” — O rapaz pensou atterrorizado com a imagem surgindo em suas córneas.

Era como se alguém tivesse decepado uma mão e a cabeça de um gigante e entuchado a cabeça no cotoco do pulso. A figura tinha o rosto enorme de uma idosa que parecia sorrir gentilmente envolvida em um chale vermelho desbotado.

Debaixo do chale a cabeça opoiada no topo de uma mão do altura dos dois caminhava sob os dedos médio e indicador, cada um mais largos do que as coxas do rapaz.

Os olhos da senhora não se abriam, mas ela parecia ver. A boca não se abria, mas um chiado sutil pareceu ecoar pelo corredor, um cochicho quase intelinigível.

-Faz tempo mesmo! Você veio checar a John John? — Iara perguntou, e se aproximou sem se preocupar bem próxima aos enormes lábios da entidade vizinha.

O rapaz escutou outro cochicho, os lábios não se abriram apenas se contraíram levemente, os cantos da enorme boca que poderia engolir iara se levantaram quase imperceptívelmente.

-Ah sim! Acabamos de ver ela! — Iara exclamou.

-Hey, uh. Eu. Iara, uhm… Um contexto?… — Davi balbuceou tentando se aproximar sentindo o pavor agarrar seu estômago.

Iara olhou para ele espantada, e então sorriu.

-Ah! Essa é a Dona Cochicho! Ela é mãe, ou tia da John John. Eu nunca consegui entender direito. Mas ela passa aqui as vezes!

-Porquê?? — O rapaz perguntou incrédulo.

-Não fala assim como se ela não pudesse entender. Porquê ela quer saber se a John John tá bem!

Dona Sussurro se voltou para a porta, e sem dizer nada ou abrir os olhos, levantou um dos dedos que a apoiava, e se equilibrando ela arranhou suavemente a porta.

O rapaz se virou para a entidade, de fato. Ela era uma uh… Entidade consciênte. Sentindo um arrepio de ansiedade subir sua espinha ele pensou.

“Eu deveria falar alguma coisa. A John John deve voltar daqui umas horas.”

Ele sentiu a garganta doer, a musculatura no fundo da boca contraiu e ele sentiu seu coração disparar como antes.

-E.. A. Ack! Coff! Coff! — Ele tentou falar, mas a dor no vundo da garganta engatilhou uma crise de tosse.

“Merda! Porquê eu não consigo falar agora?! De novo isso?!” — Ele berrou no fundo de sua mente, ainda tossindo sem controle. Iara deu alguns tapas no ombro do amigo.

-Calma, respira. Fala de vagar. — Ela tentou tranquiliza-lo.

-N-mão, ten.ta… N~um me, mannda… Icar CALMO!!! — Ele explodiu frustrado!

Dona sussurro se aproximou dos dois, os rapidos passos de seus dedos ecoava com um tip tap, que parecia coçar os ouvidos dos dois. Como o som de uma enorme aranha em um piso de madeira.

O sorriso sutil de volta. O rosto se voltou para Davi, e então brevemente para Iara, com uma enorme intensidade.

Iara pareceu confusa, mas calma. Davi sentiu que aquela enorme boca iria se abrir e levar metade dele entre os dentes.

Então ela se virou, voltou até a porta e a abriu sem dificuldade. Porém do outro lado não havia um apartamento, a luminosidade era estranha, como um dia ensolarado.

-Woow! — Iara suspirou se deslocando até o batente para ver o outro lado.

Davi a acompanhou, e o que ele viu foi uma mata extremamente densa. Era como se a abertura da porta fosse do tamanho de uma formiga. E ao horizonte haviam troncos gigantescos de árvores. Que se elevavam como arranha, céus flores do tamanho de postes.

-Iara?! O que- ONDE É ISSO?! — Davi exclamou incrédulo da existência de um lugar como aquele.

-Não sei! Talvez o Sonho da Mata?

-Você fala como se eu soubesse o que é isso! — Davi exclamou frustrado.

-É tipo… Uma versão do nosso mundo, que alguns tipos de vizinhos vivem. Aaah, é tipo. Você sabe o que são os fey? É tipo o reino dos fey.

As cores eram vibrantes, acaxapantes. E os dois atordoados observavam os enormes pilares que eram as árvores no horizonte. E em sincronia os dois se perguntaram se conseguiriam enxergar onde as copas desta mata começam.

Sem pensar duas vezes, os dois passaram as cabeças pelo batente para tentar enxergar onde as árvores se conectavam ao céu quando Dona Sussurro surgiu repentinamente bloqueando a vista dos dois empurrando-os de volta para o corredor escuro, imundo e de cheiro questionável.

Uma cacofonia de sussurros preencheu o lugar e apesar da expressão ter mudado de forma quase imperceptível, os dois sentiam que Dona Sussurro estava exasperada.

-O-o que foi i-isso? — Davi se perguntou percebendo que havia deixado de pensar por alguns instantes.

-O… o reino dos fey faz isso. Você tem vontade de largar tudo e ir para o outro lado. Mas é quase impossível de voltar.

Dona Sussurro fechou a porta e se voltou novamente aos dois com uma expressão calma e gentil.

-P-porquê? — O rapaz conseguiu sussurrar a Iara na presença da entidade que os encarava. Ela massageou as têmporas sentindo uma dor de cabeça chegando.

-Os fey adoram humanos, e geralmente nos “adotam”… De acordo com um livro que eu li pelo menos. — Iara constatou.

Os dois observaram Dona Sussurro, empurrar duas pequenas caixas gentilmente com seus gigantescos dedos. A presença da entidade parecia um tanto opressiva.

-E bom… O Sonho da Mata tem um jeito de, uhm. Mudar as pessoas. — Iara concluiu a explicação voltando o rosto para Dona Sussurro.

-Ah, é um presente! — A garota pegou a caixa e começou a desembrulhar. Já o amigo pegou a outra lentamente e temerosamente observou o pacote.

Era uma caixa pequena, delicadamente embrulhada em papel reluzente com estampas de pequenas estrelas e planetas. Um laço vermelho vistoso no topo.

Ele voltou a olhar para a enorme vizinha e se perguntou.

“Se ela é algo da John John, e já foi uma humana. Qual é a história que nós não sabemos aqui?”

O rapaz abriu o pacote com cuidado, e se surpreendeu com o que havia dentro. Uma boneca de tricô delicadamente produzida.

Dona Sussurro sorriu visivelmente para os dois.

-Ah! Eu, acho que eu me lembro de alguém assim! — Iara sorriu, com uma pequena boneca de uma com adereços e roupas dos povos originários, incluindo padrões delicados e triangulares em vermelho vivo. Desenterrando sutilmente uma memória confortávelmente nebulosa do fundo sua mente.

Ela se virou sorrindo para o amigo, que tinha um olhar confuso.

-P-porquê, você está me?… Isso é? — Nas mãos dele havia o que parecia ser a boneca de tricô de uma figura feminina feita completamente em lã preta. Sem cabelos, sem olhos, e fixa em uma posição específica com uma perna esticada e a outra dobrada lembrando o formato do número quatro.

-Davi? Ah. O que é isso? — A amiga perguntou. E o rapaz se virou para ela com uma expressão confusa entre dor e raiva.

No corredor escuro a boneca em suas mãos lembrava um pedaço de carvão.

-Eu… — Ele mordeu os lábios até machucar. E como que engarrafando o que estava sentindo, ele sussurrou tentando se comunicar apesar de ter alguém além de Iara por perto.

-A intenção foi ser um presente. Agradece e vamos embora. Por favor.

Iara se virou e sentindo um tom de emergência ela se curvou sutilmente tal como sua mãe tinha o costume de fazer, e educadamente falou.

-Obrigada pelos presentes Dona Sussurro, o meu amigo agradeceu também.

O sorriso da enorme cabeça se dissipou, e em seu lugar um olhar de preocupação formou novas rugas no rosto velho.

Davi deixou a boneca completamente escura na caixa e colocou educadamente no chão, devolvendo o presente. E sem falar mais nada ele se virou e começou a escalar as escadas novamente. Louco para chegar em casa.

-Davi? — Iara perguntou, e o amigo suspirou ignorando-a.

-Davi! Eu não sei o que foi, mas eu não fiz nada! — Ela reclamou, fazendo com que o rapaz suspirasse mais alto.

-Não é nada.

-É sim! Me fala o que foi!

Ele pausou a subida no meio de um dos últimos lances de escada.

-Eu… não sei se foi intencional. A boneca parecia muito algo. — Ele confessou.

-Não diga! — A garota exclamou agora irritada.

-Eu não quero falar disso… não disso… eu não tô bem hoje. Eu… É difícil.

Ele voltou a subir as escadas querendo mudar de assunto.

“Pelo menos você se lembra dessas coisas. Eu era muito pequena. Por algum motivo as bonecas da Dona Silêncio sempre me lembram de pessoas que não estão mais comigo.” — A garota lamentou em sua cabeça antes de mudar de assunto.

O rapaz pensou por alguns momentos suspirando.

-É melhor lembrar de algo horrível? Ou saber que algo aconteceu mas não saber o que? É isso que acontece quando você fica amiga de “coisas” não humanas.

-Você tem que se acostumar a ver “coisas”, espíritos são só entidades que vivem do outro lado do véu. A maioria não consegue nem nos perceber!

Sem energia para discutir assuntos como esse, mas grato pela mudança de assunto, finalmente no final da última escada que levava ao décimo terceiro andar.

Ele levantou os braços como se tivesse ganho uma maratona, espreguiçou-se. E de volta ao normal, colocou as mãos nos bolsos em uma postura relaxada.

-Mas como eu vou saber se uma “coisa” não vai machucar alguém? … Tipo eu.

Iara frustrada sacou a chave do apartamento, uma chave longa e rústica, que abria o mecanismo da porta que a Sensei trouxe de algum lugar antes de formar aquele santuário. Aparentemente aquele mecanismo tinha mais de trezentos anos.

-Primeiro, “COISA” é a sua cara. Segundo, na real. É como lidar com humanos. — Ela disse levantando os ombros.

-Você nunca sabe se alguém só está tocando a própria vida ou se vai jogar um carro em uma multidão. Mas você pode aprender a pegar alguns sinais.

-Tipo?

Iara tentou colocar a chave no mecanismo, mas era sempre um sufoco fazer o mecanismo enferrujado se mover. Sem se virar ela suspirou e respondeu.

-Não tem tanta diferença entre nós e os “vizinhos“, eles vivem lá, nós vivemos aqui. E é como com pessoas normais. Você aprende a sentir intuitivamente, no jeito de se mover, no jeito de olhar, na aura deixada no ambiente. Com o tempo você pega o jeito

Davi ponderou um pouco.

-O que você quer dizer com não ter tanta diferença? Aquela… A Dona, lá. Não tem nada de humano nela.

Iara respirou fundo, a subida de treze lances de escada acabou com o fôlego da garota.

-Quando a mamãe me explicou… Ufa minhas pernas! Todos nós somos consciências vivendo em um corpo certo? Almas, ou mentes controlando uma casca externa certo?

-Huh, ok. Eu acho que eu entendo até aí. — Respondeu Davi vigiando se nada os seguia.

-Bom, em essência todas as almas são iguais. O que muda é a casca externa, e o como a alma se expressa habitando “formas” diferentes certo?

Iara respirou fundo perdendo o fôlego.

-Porquê todo mundo acha que todo vizinho está aí pra te assombrar?! Nem eu, nem você somos especiais. Tipo, é muito se achar o centro do universo!

Davi não esperava a bronca. Mas Iara respirou fundo se acalmando, exausta.

-Desculpa... — Davi murmurou arrependido de ter perguntado.

-Ah, não é nada. Desculpa eu por perder a paciência. Não tenha tanto medo do que não conhece. A real é que da perspectiva deles, NÓS somos os fantasmas!

Ao abrir o mecanismo um sutil flash de luz iluminou o corredor vindo de baixo da porta.

“Criptografia espacial…” — Iara se lembrou da definição da mãe para o feitiço que protegia o lar dos três.

“Não que eu faça alguma idéia do que isso significa” — Ela pensou, Davi não perdeu tempo antes de se jogar no sofá com um enorme suspiro.

-Vai tomar um banho! Nós rolamos na terra hoje!

Davi cerrou os olhos internamente percebendo que estava errado.

-Eu já estou aqui, e eu fui eletrocutado faz o que? Uns 15 minutos atrás? Deixa eu respirar um…

Os dois sentiram algo no ar. Como um pulso, uma onda ecoando pelo edifício.

Davi sentiu um intenso calor repentino, uma descarga de adrenalina como se todos seus instintos estivessem tentando puxar seu corpo em todas as direções ao mesmo tempo.

Iara sentiu a sensação de um grito mudo, um berro sem som, algo engarrafado rependinamente explodindo em um mar de sensações horríveis.

O rapaz teve a sensação de ver as paredes ondulando sutilmente enquanto a bruxa já descança dentro de casa sentiu o chão esquentar vários graus repentinamente.

Os dois se encararam imediatamente e tão repentino como surgiu a sensação passou. Davi foi até a varanda e olhou ao redor.

-O que caralhos foi isso?! — Ele exclamou sem ver nada.

-Alguma mudança forte… — A amiga respondeu um tanto desnorteada.

-Não diga! Mas o que?! — A bruxa puxou um punhado de folhas enroladas em barbantes e amuletos de uma gaveta.

-Arruda salgada, frescor de hortelã… Limpa, leva nas ondas… Por favor. — Ela murmurou colocando fogo na ponta da massa de folhas secas preenchendo o apartamento com um delicioso aroma e dispersando o que havia sobrado daquela vibração tenebrosa.

-Será que alguém morreu? Não. Isso não foi normal. — Ela pensou.