Plac! … Plac! … Plac!

-Vamos filho, me acerta! Você se meche como se tivesse trezentos anos garoto! — Provocou a Sensei bem humorada. Mas Davi não estava achando engraçado.

Os dois estavam em um campo vazio. A grama não balançava, pois não havia vento naquele lugar. O sol iluminava sem queimar pois aquela luz era apenas uma imitação. Não havia nada até o horizonte, só a grama, o campo, o céu e os dois segurando imitações de espadas em madeira maciça e sem corte.

A Bokuto era a arma favorita de Davi. Não que ele tenha tido tempo de treinar com muitas, mas o peso, o comprimento e a inércia daquele bastão, e o CRACK que uma boa pancada gerava gradualmente se tornaram satisfatórios para seus ouvidos.

Aquela arma de treino era em teoria não letal. Não letal como um tijolo em teoria não é letal, mas tem potencial para abrir o crânio de alguém se aplicado com força e velocidade suficiênte.

Davi nunca se esqueceria da descarga de adrenalina quando ele havia começado a treinar.

A Sensei havia deixado Iara e ele sozinhos no apartamento para trabalhar, quando os dois escutaram gritos mais altos e agressivos do que o normal.

Uma briga de casal havia se tornado violenta, Iara correu para buscar ajuda. Sabendo dos perigos de usar sua Quintessência em público.

Davi sentiu que não havia tempo e em um momento de pânico buscou a Bokuto ao lado da porta de casa, e correu balançando o bastão pesado para espantar o amante.

Uma pancada no pulso foi forte suficiênte para fazer o homem a poucos segundos agressivo e corajoso cair no chão em terror agarrando o pulso assumindo que havia quebrado o membro e ameaçando o adolescente emaciado de retaliação.

Final da história… O amante não havia quebrado nada, mas aparentemente nunca precisou enfrentar alguém disposto a revidar.

Davi se lembrava da adrenalina, do calor emanando de seu corpo, de medo. Raiva. Foi a primeira vez em que ele havia verdadeiramente resistido a algum tipo de abuso.

Por algum motivo era mais fácil resistir quando era por outra pessoa. Aquele momento havia mudado sua vida.

A Sensei sempre falava que ele podia ser o que quisesse, e sinceramente Davi não fazia idéia se queria ter uma profissão, viver como uma pessoa normal, se dedicar completamente ao estudo da magia.

Mas ele sabia que se ele poderia ser o que quisesse, ele nunca mais seria uma vítima.

—Eu queria ver você falar isso… aah, se não fosse uma… velha imortal… — Resmungou o garoto, o cansaço físico e mental muito mais real do que o ambiente ao seu redor.

A senhora de mais de trezentos anos suspirou. Seu corpo aparentava não ter mais de cinquenta e estava relativamente em forma.

Ela era alta e esguia, se movia de forma calculada e elegante mas o kimono estava amarrado de forma frouxa e confortável. Ela se movia com movimentos amplos e expressivos, os sentimentos no rosto eram um livro aberto. Como alguém que passou a vida toda em um regime de disciplina restrita até que um dia decidir que estava velha demais para se importar.

-Você sabe muito bem que todo mundo é imortal, eu só estou conservando meu corpo para ficar mais tempo com meus queridos!

Davi não viu o movimento, mas ele con certeza sentiu a bokuto da adversária acertando seu estômago como uma marreta de demolição.

A força aplicada e quase fazendo o garoto de dezessete expelir todo o ar de seus pulmões para fora, chegando a sentir seu corpo do lado de fora quase colocar o almoço para fora.

-Davi, você também sabe que não pode relaxar aqui só porquê não está no seu corpo material. O que acontece no imaterial reflete no material.

A professora estava em uma postura impecável, costas retas, perna esquerda para frente, direita atrás pronta para saltar em sua direção. Espada firme nas duas mãos na postura mais básica do estilo Santen ichi Ryu. Ombros relaxados, ponta da espada apontada diretamente na altura do pescoço do oponente.

O sorriso da maga se desfez lentamente esperando o aprendiz de joelhos tentando recuperar o fôlego.

-Você tem alguma idéia… ufa… de quão difícil é manter esse lugar sólido na umbra enquanto você me espanca? — Davi resmungou.

A velha, começou a sapatear impaciente. E revirou os olhos.

-Se fosse para ser fácil qualquer um faria… — Ela tirou a mão da espada e tirou o cachimbo fino e longo da cintura puxou um pouco do incenso para dentro do pulmão, contraiu os lábios e liberou de uma vez fazendo a fumaça se espalhar como uma pequena explosão.

Um pilar de pedra explodiu do chão na diagonal acertando Davi como uma marreta novamente no estômago. O rapaz sentiu o gosto de vômito se espalhar por sua boca rapidamente antes do corpo ainda no plano material mandar para baixo de novo como um reflexo inconsciênte para não engasgar.

-Você reclama demais… É por isso que estamos treinando! — Exclamou a Professora.

Davi sentiu como se suas costelas tivessem sido quebradas e estivessem perfurando seus pulmões.. Mas ele se levantou sabendo que sua Magia havia protegido seus ossos.

-Isso filho, se concentra. Dor não passa de um alerta, o que não destroi seu corpo não deve abalar sua mente.

Davi se concentrou na sua quintessência, formando sem perceber pequenos cristais de vidro ao redor de seus pés. Ele avançou reto tentando não deixar claro para que direção iria no último momento.

“Eu consigo aguentar umas duas pancadas sem perder a concentração! Vamos ver se ela aguenta… Mais que eu!”

A Professora sem tirar o cachimbo da boca volta a posição adequada.

Davi fez como se fosse tentar acertá-la nas costelas como vingança, mas no último instante ele jogou as pernas para a frente deslizando no nível do chão brevemente pronto para estourar os joelhos da adversária. Mas ela não saiu do lugar.

Ao invés de desviar, ou bloquear. Ela puxou o cotovelo para trás e com uma enorme força perfeitamente concentrada cravou o aprendiz no chão com uma estocada como se estivesse impalando um inseto com uma lança

Todo o momento do aprendiz anulado contra ponta da Bokuto que aplicava uma enorme pressão no centro das costelas do aprendiz que sentiu uma dor inesperada e intensa se espalhar pelo seu peito como se seu coração estivesse sendo esmagado

Ela rapidamente ajoelhou no pescoço do aprendiz sufocando-o sem deixar de aplicar força da ponta da espada de madeira em um ponto muito específico.

-O plexo solar é um ponto fraco na anatomia, com força e jeito você consegue quebrar multiplas costelas de umas vez. Também dá para atordoar um oponente expulsando o ar de seus pulmões. Pode até parar o coração de um oponente se praticar o suficiente.

Davi se contorceu desesperado tentando empurrar a Professora para longe, mas ele não conseguia aplicar força suficiente naquela posição.

Ele sentiu uma dor gigantesca crescer e irradiar do centro de seu peito, ele tentava puxar ar mas nada passava pela sua traqueia enquanto a Sensei tinha um joelho em seu pescoço.

O rosto da Professora era sério e vazio, como se estivesse citando informações memorizadas havia muito tempo.

-A dor causada por esse ponto de pressão também pode ser utilizado para render um oponente teimoso sem mata-lo… Mas o importante é lembrar, que a dor não é real. É só o seu corpo avisando que algo está machucando seu envelope de carne, você precisa aprender a ver a dor como uma ilusão, você é a alma não o invólucroe onde ela habita.

A instrutora soltou a espada girou o corpo e abraçou o braço do rapaz, cruzando as pernas em seu ombro, era uma chave de braço. E gradualmente ela arqueou as costas para trás forçando o cotovelo do rapaz no sentido errado. Que se contorceu no chão.

-Ai ai ai ai!!! MEU BRAÇO, VOCÊ VAI QUEBRAR MEU...!!!

-Eu completamente apoio sua tentativa de improvisar, mas você não pode simplesmente se jogar como um idiota! SE seu golpe não conectar o que você vai fazer, huh?!

Davi sentiu uma série de estalos na articulação dos cotovelos, uma sensação quente descendo e se espalhando por seus ombros.

-Ok! Eu entendi! Sai de cima de mim!!!

-Não! Você não entendeu! Você é um Mago, ninguém pode imobilizar a sua mente! Me jogue para longe!

-Eu não sei como! Ai ai ai ai!!! — Gritou o rapaz.

-Você sabe! Você só não se lembrou nessa vida ainda! Siga sua intuição!

Ela girou o corpo apoiando o joelho na garganta do rapaz que começou a engasgar sem conseguir respirar.

-Meu filho, você já foi um Mago pelo menos três vezes já, você só não se lembrou ainda nesse envelope que sua alma está vestindo.

Ela encarou o rapaz confuso e sufocando por alguns momentos antes de suspirar.

-Você e a Iara ainda não passaram pelo segundo despertar, eu sei que é difícil. Mas todo mundo pode realizar feitiços espontâneos, você só precisa descobrir o seu jeito.

Davi se contorcia, sua visão estava escurecendo sem ar, e aquele pequeno mundo que os dois estavam mantendo sólido aos poucos começou a escurecer. Se desfazendo aos poucos. O sol se apagando, a grama desaparecendo. O mundo perdendo detalhes conforme sua mente se tornava incapaz de manter aquela idéia sólida.

O garoto, se lembrou das lições de alquimia e com o dedo desenhou um símbolo do elemento terra no chão colocando toda a sua concentração em fazer um pilar de terra, tal como a Sensei havia feito um minuto atrás surgir empurrando a professora para fora de sua garganta.

Ele se concentrou, se concentrou. Rocha, sólido, um vetor de direção, a sensação de terra se movendo entre seus dedos, ele sentiu vizualizando o movimento da matéria…

A professora olhou para o lado e viu uma pequena estalagmite surgir lentamente do chão, parando de crescer com um palpo de altura. Com um pequeno sorriso e um suspiro

Ela se curvou e sussurrou no ouvido do aprendiz.

-Nada mal… Mas você ainda está levando o universo a sério.

Davi estava sentindo sono, queria fechar seus olhos e dormir. Mas ele sabia que aquilo era apenas uma reação de seu corpo tentando desesperadamente diminuir seu consumo de oxigênio. Mesmo que ele consciêntimente ele soubesse que seu corpo estava perfeitamente seguro.

A visão do rapaz se fechou em um manto escuro enquanto ele tentava manter a consciência. Ele não sentia nada, era como se sua mente estivesse flutuando em um vazio sozinha. E a única coisa que existisse fosse seus pensamentos.

“Será que essa é a sensação de morrer? Você sente fraqueza, fraqueza, fraqueza, tudo some e você só cai no sono?” — Então ele escutou a reverberação da voz da professora vibrando dentro de seu crânio.

-O seu problema, é que você ainda está levando a vida a sério. Lembra que isso tudo é um sonho. Você precisa acordar dentro do sonho.

Ela então se levantou do pescoço do rapaz que puxou o ar com toda a sua força, tossindo violentamente, sentindo a vida retornar ao seu corpo.

-Você já teve um sonho e percebeu no meio do caminho que você estava sonhando? Sonhos lúcidos são muito divertidos, eu sempre saio voando pela cidade! Quando você percebe que está sonhando você pode começar a mudar as coisas conforme a sua vontade.

Ela se ajoelhou ao lado do aprendiz e ambos se olharam olho no olho, Davi ainda engasgando sem controle tentando recuperar a oxigenação, o mundo começou a se estabilizar, recuperando um pouco da iluminação e detalhes.

-E então você pode transformar o monstro te perseguindo em um cachorrinho. Pode decidir sair voando ou visitar entes queridos que não estão mais conosco. Para nós Magos, todos os mundos não são mais do que sonhos lúcidos. E somos limitados apenas pela nossa concentração, conhecimento e treino.

Ela ofereceu a mão para que ele se levantasse, o garoto esfregou a garganta finalmente conseguindo falar.

-Você tá maluca?! E se eu parasse de respirar no meu corpo também?!?! — Davi gritou tentando se levantar sem ajuda enquanto dobrava o braço dolorosamente.

-Você não ia sufocar eu já fiz isso muitas vezes. Relaaxa! Além disso, um pouco de pânico é ótimo para a memorização! Você pode apostar que vai se lembrar do que eu falei! — A Professora riu voltando a atitude informal.

Ela olhou para o filho adotivo pálido, sem fôlego, e em dor e andou até ele abraçando-o com carinho.

-Eu preciso ser dura com você meu filho! A sua quintessência, a única magia que você consegue fazer consistentemente é essa pele adamantina. Eu preciso… não, VOCÊ precisa saber se defender! A suportar níveis de dor física que pessoas comuns não conseguem! Para a sua segurança! E a da sua irmã…

Ela soltou o rapaz, e Davi abaixou a cabeça, olhando para o chão sem graça.

-Você tem razão, eu vou…

Assim que seus olhos se voltaram para a frente ele viu apenas um borrão, e a Bokuto da Sensei acertou sua têmpora com toda a força.

Ele sentiu como se sua mente estivesse vazando para fora do corpo e finalmente perdeu completamente a concentração.

Tudo ficou escuro e os olhos do rapaz se abriram enxergando a sala do pequeno apartamento, a professora do outro lado da mesa de jantar com o dedo apontado em seu rosto.

Iara quase derrubou a louça quando os dois que até aquele momento estavam fora do corpo, repentinamente retornaram gritando um com o outro ao mesmo tempo.

-AAH! ISSO DOEU! — Ele gritou.

-Não tire os olhos de um oponente! NUNCA!

Iara colocou um copo de água para cada um na mesa e com um gesto delicado dois fios de água se bifurcaram do filtro na da cozinha, flutuando até preencher os copos.

-Eu fiquei preocupada mãe. Teve uma hora que o Davi pareceu ter parado de respirar! — Iara comentou.

-Não foi nada demais, eu só precisei ser um pouco brusca. — A senhora que geralmente vestia apenas roupas formais disse do outro lado da mesa, com os pés cruzados de forma desleixada e usando roupas velhas, desbotadas e largadas.

-Não! Você me estrangulou! — Davi exclamou furioso.

-Exagerado! Foi só por um minuto e meio! Se você parar de se debater consegue aguentar pelo menos uns cinco! — A professora abanando a mão casualmente.

-Eu odiava quando você treinava bruta assim comigo mãe. — Iara comentou frustrada.

-É importante, eu vejo o jeito que eles operam todo santo dia. Os Homens de Cinza não vão entrar no Dojo, e seguir as regras. Eles vão sequestrar vocês, e transformar cada parte útil do corpo de vocês em anomalias. — A professora respondeu frustrada antes de tomar sua agua.

-E é por isso que eu não treino mais com você, E eu odeio lutar! -Iara suspirou.

-E você está livre para voltar a qualquer momento, eu adoraria que você se tornasse a quarta sucessora do estilo Santen ichi Ryu. -Disse a Professora estendendo o copo pedindo mais água.

-Vocês treinaram juntas? Eu não consigo imaginar a Iara tentando acertar alguém. — Comentou Davi finalmente conseguindo respirar direito.

-Ela é muito boa, toda a coordenação que ela tem dançando com uma Bokuto. Imagine só! A minha dançarina de navalhas! — Comentou a Professora estufando o peito ao falar da aprendiz.

-Não vai rolar, eu não gosto de armas. Isso é coisa de homem branco, e eu não preciso disso. — Ela respondeu com um olhar vazio.

-Uuuh, eu não tenho nada a ver com seja lá o que você está falando. — Disse Davi desconfortável.

-Não, não. Esquece o que eu disse, eu só estava lembrando de uma coisa… — Respondeu Iara apressada.

-E eu já vi você nocauteando algumas pessoas com a sua Quintessência. Eu não sabia que você era “pacifista”. — Davi comentou tomando seu segundo copo d’agua.

-A princípio sim, a vantagem da minha Quintessência é água é extremamente adaptável, se eu puder incapacitar alguém sem machucar. Porquê eu não faria isso? — Ela comentou se sentando na mesa com o resto de sua família.

-Eu não acho que eu tenho essa opção, eu preciso melhorar muito ainda pra poder me defender sem machucar a outra pessoa. — Ele tomou um pouco de água pensativo.

— Minha magia só me transforma no saco de pancadas perfeito. O resto depende de mim. — Ele comentou frustrado.

-Você está melhorando, já deve conseguir se defender sem muito problema de uns trombadinhas. — Intercedeu a Professora se levantando, indo a geladeira para abrir uma lata de cerveja.

-Eu sei que vai ter horas que não vai dar pra proteger as pessoas. Mas se você pelo menos tentar não machucar mais do que o necessário eu já fico feliz. — Respondeu Iara olhando para o chão aflita.

-É claro que eu vou pelo menor tentar, eu não sou um monstro. — Disse Davi encarando olhando os origamis no centro da mesa e ponderando.

-Sem sorte? — Iara perguntou.

-Nada, até consegui fazer uns se mexerem. Mas fora a minha Quintessência todos os meus feitiços saem super fracos. — Davi comentou desanimado.

-Normal, eu descobri que o meu “meio” era a dança faz um tempo. Mas eu comecei com cinco anos, eu demorei bastante para me encontrar. — Iara comentou com um sorriso no rosto.

-Afinal, se magia nada mais é do que canalizar a nossa vontade e intenção para mudar o universo, ou o “sonho” como a professora fala. Tudo isso depende da minha cabeça certo? Porquê eu preciso ficar fazendo esses artesanatos pra poder fazer feitiços mais fortes?

Iara colocou a mão no queixo pensando por uns momentos antes de responder.

-Pensa assim. Quando você percebe que está sonhando em um sonho você consegue mudar tudo o que quiser porquê o sonho se adapta a você certo?

-Hum, a professora me explicou de forma parecida. — Respondeu o rapaz tentando seguir o raciocínio, Iara fez o símbolo de aspas com as mãos e continuou.

-O mundo “real” é sonho compartilhado por todas as pessoas que vivem aqui então ele vai resistir muito a mudar pra uma pessoa só, lúcida ou não. Mas Magos podem usar técnicas e métodos para aumentar muito o foco, nós tornamos o sonho ao nosso redor menos “real”.

-Como assim… real? — Davi perguntou imitando o gesto das aspas, e Iara pensou um pouco antes de falar.

-Esse lado do véu, o material já é mais denso do que o normal, o fato de que as pessoas passaram séculos sendo convencidas de que apenas o que elas podem tocar é real torna a realidade mais… sólida. Mais estável, menos deformável.

-Certo, e é por isso que usamos rituais. Para tornar o espaço ao nosso redor mais fantástico, mais maleável e onde entram os origamis?- Perguntou Davi pensando que havia perdido a tarde fazendo algo inútil.

-Cada um tem um jeito de canalizar sua vontade, uma das mais poderosas é a inspiração. A paixão de criar algo, representando a mudança que você quer! Dança é a minha paixão, e quando eu estou girando, parece que tudo desaparece, e só existe eu, e os movimentos!

“A Sensei está me forçando a experimentar de tudo, ver se eu encontro um foco, acho.”

-Hum, eu não tenho nada assim. Eu nunca tive muito tempo pra explorar o que eu gosto.

Davi ponderou um pouco sobre o que havia acabado de falar, percebendo que nunca havia pensado consciêntemente sobre isso.

Uma sensação de vazio preencheu seu estômago, e ele começou a buscar qual era seu livro favorito? Qual era sua música favorita? Hobbies. E não encontrou nada.

“Tudo o que eu faço é acordar, ajudar na casa, estudar, dormir e repetir…” — Ele pensou. E aquela conclusão o incomodou profundamente. O rapaz pensou nos momentos prazeirosos do dia a dia.

“Tem que ter alguma coisa que eu gosto!” — Ele pensou consigo mesmo. A mente do rapaz quicou de um lado para o outro e se lembrou de todos os momentos em que Iara e a Sensei o ensinava sobre o mundo real.

O mundo mágico, sobre lendas e artefatos mágicos do passado. Sobre antigas civilizações e seus feitos. Talvez fosse isso?

“É alguma coisa. Um ponto de partida, talvez.”

Eu acho que eu gosto de histórias, mas eu não sei “criar” nada. — ele murmurou sem confiança, Iara cantarolou algo movendo os ombros de forma delicada. E mais água flutuou do filtro para o copo do amigo.

-É por isso que você está experimentando coisas, uma hora você vai descobrir algo que te faz entrar na “onda”.

Davi riu baixinho.

-Onda? Virou surfista? Haha.

Iara fez bico e cruzou os braços.

-É o jeito que eu chamo quando a sua cabeça entra em um estado alterado! Quando você está na “onda” você consegue se concentrar muito mais do que o normal, o mundo fica menos “sólido”.

Davi encarou a amiga.

-O nome disso é estado de flow, fluxo é um termo científico filha. — A mãe comentou do outro lado do apartamento, jogada no sofá com roupas velhas e confortáveis. Uma pessoa completamente diferente da fachada que vestia no dia a dia.

“Esse é um jeito bem você de explicar as coisas. Provavelmente funciona para você, mas não comigo… ” Ele pensou se levantando da mesa.

-Vou dar uma descansada. — Ele resmungou.

-Se você está empacado em um problema, um pouco de ar fresco é a melhor coisa! — Iara comentou regando as plantas.

O rapaz foi até a janela e se debruçou observando as luzes da cidade ao longe.

“Aaah sim, ar fresco. Delícia de cheiro de rio podre e fumaça de escapamento… muito delícia.” — Ele pensou rindo consigo mesmo.

O apartamento tinha um aroma confortável de incenso e ervas aromáticas. Era um combo simples de sala cozinha, com uma pequena varanda e dois quartos. Um da professora e outro que ele e Iara dividiam usando uma cortina como divisória.

Os móveis eram uma mescla maluca de armários, mesas, cadeiras baratos e gastos, mas aqui e alí havia alguma peça de decoração incrivelmente antigas e refinadas que destoavam completamente do ambiente.

A única coisa que todo aquele conjunto tinha em comum é que nenhum era novo, cada objeto tinha uma história de como acabou nas mãos da Sensei. Cada um carregado de histórias, algumas trágicas, outras honestamente hilárias.

“Esse vaso é da primeira dinastia Koreana, NUNCA ABRA” — Foi uma das primeiras instruções que a Professora disse a Davi quando ele conheceu o lugar logo depois de ser tirado das ruas.

E quase toda noite, quando ele acordava com o apartamente as escuras para ir ao banheiro, ou tomar um copo d’água, ele podia escutar sons sutilmente vindo daquele vaso.

Notas de algum instrumento de corda extremamente delicadas, o gargalhar e o tilintar de copos e travessas de comida. O rapaz podia jurar que se aproximasse o rosto do objeto, ele podia sentir aroma de alguma bebida alcoólica que ele não sabia identificar no ar.

Havia também alguns quadros da renascença italiana, e páginas de Iluminuras medievais emolduradas. Todas envolvendo criaturas mitológicas, espíritos e pessoas utilizando estranhos artefatos, conjurando raios e monstros.

Uma vez Iara disse que eram originais, mas que alguns museus pelo mundo tinham cópias alteradas. Com certos símbolos e detalhes omitidos por algum burocrata.

Em um canto da sala havia um pequeno altar onde a Sensei oferecia preces e incenso todas as manhãs para “amigos que ela não encontra a muito tempo”. No centro do altar havia uma bainha de espada vazia, sem a lâmina. Davi nunca perguntou o porquê.

No canto oposto não era possível enxergar a parede que estava completamente tomada por livros do chão ao teto. Todos detalhadamente organizados e encaixados para não sobrar nenhum espaço entre eles, mas era possível remover cada um com facilidade e sem desequilibrar a pilha.

“Um pequeno feitiço útil que minha Sensei me ensinou uma vez. Ela adorava a imprensa do tal de Guttenberg, até me ensinou a imprimir alguns textos antes do processo se tornar muito mais simples.” explicou a Professora quando o rapaz comentou a respeito.

No teto haviam dezenas de cordas atravessando o ambiente de um canto a outro. várias lanternas de metal, cada uma contendo velas que emitiam uma luz serena e delicada ao ambiente, e nunca se esgotavam.

Também haviam vários ramos de plantas, cogumelos e outros ingredientes desidratados aguardando uso. A Professora tentava manter um estoque respeitável de ingredientes para produzir poções e medicamentos. Mas ela mesma admitia que nunca gostou de cozinhar, e gostaria de um dia encontrar alguém mais experiente na produção de substâncias Arcanas do que ela para ensinar os aprendizes.

Davi pegou um dos muitos livros que ainda não havia lido na pilha, “Fábulas Druídicas e outros Sussurros do Verde” era o título.

-Tudo bem, eu vou tomar banho e ir pra cama, tá ficando meio tarde. UÁÁÁH — Respondeu Iara pegando uma toalha e bocejando.

Ele se sentou no sofá, e começou a ler com dificuldade. Os anos afastado da escola fizeram ele desaprender um pouco de sua alfabetização, e ele estava treinando incessavelmente para poder ler rápido como a Iara.

“Hum, não tem o nome do autor, mas é outro livro escrito a mão. Eu preciso começar a perguntar de onde a Professora tira esses livros já que somos os únicos Magos que sobraram.”

Então Davi sentiu uma onda, como se o ar ao seu entorno tivesse perdido o equilíbrio e caído em direção do chão. Algo estava errado, mas tão logo a sensação surgiu ela desapareceu.

O rapaz se levantou pálido com um olhar vazio.

-Filho? O que foi?! — A Professora exclamou tirando a lata de cerveja dos lábios.

-Eu, uhh… Senti algo, errado. Eu não sei explicar. — Ele respondeu confuso.

Enquanto alguém normal concluiria que o rapaz teve apenas um leve caso de vertigem, a Sensei segurou o praço do aprendiz firmemente e perguntou séria.

-Pensa, isso se assemelha a sensação que vocês tiveram alguns dias atrás?

Davi havia até se esquecido, ele tinha um talento para deletar memórias ruins, e o dia em que os dois foram escondidos ao posto foi particularmente ruim.

-E-eu. Acho que sim? Talvez?

-Talvez não. Pense, a intuição é uma das ferramentas mais importantes de um Mago. Sensações repentinas, fortes o suficiênte para causar vertigem nunca devem ser ignoradas.

O rapaz concordou, e fechou os olhos, avaliando aquela sensação. Algo lhe dizia que havia algo lá fora,e ele andou sem dizer nada para a varanda.

A Sensei o seguiu com uma lata de cerveja na mão. Ela Professora tinha experiência o suficiente para saber dos perigos de ignorar a própria intuição. Ela estava treinando os dois para não repetirem os erros da mestra.

O rapaz olhou para o outro lado da rua, como que tentando focar os olhos em algo, ela apenas observou em silêncio.

“O Davi tem um atunamento completamente diferente do nosso, é melhor deixar ele explorar a intuição sem a nossa interferência.”

Davi estava encarando uma entidade misteriosa ao lado de um carro preto estacionado do outro lado da rua. Um vulto escuro, como uma silhueta sem preenchimento, encarando-o de volta, vibrando de uma forma que nenhuma criatura viva poderia.

Os ouvidos do rapaz captavam um tilintar metálico sutil, como um conjunto de correntes ao vento e uma aura que fazia o ar sentir pesado e pegajoso.

Aquela mesma aura invadiu a mente de Davi com uma barragem de sensações que não era sua. Frustração, irritação, raiva, raiva, ravia.

Porém a Sensei viu apenas o carro, não conseguindo perceber a entidade mesmo com seus olhos extremamente treinados.

E assim que ela encarou o carro ao lado da entidade, o motorista ligou o motor e foi embora. Fazendo a entidade desaparecer da vista de Davi.

-Filho… — Começou a Professora meio que ainda pensando no que falar.

-Huh? Oi, você viu também né? — Disse Davi ainda meio atordoado.

-Vi sim, não se preocupe sobre isso. Se você demonstrar ansiedade, você pode atrair a atenção deles — Ela mentiu, não querendo preocupar o filho adotivo.

-Uh, ok? Se você tem certeza que não vai ter problema… — Davi respondeu.

Davi estava falando sobre a entidade misteriosa que havia observado. Enquanto a Sensei falava do carro que ele havia percebido estar sempre por perto ao longe, quando ela caminhava na rua. Quando entrava e saía do trabalho. Quando estava em casa.

Coincidentemente as suas palavras de cada um se encaixaram de forma perfeita para que ambos acreditassem estar falando da mesma coisa.

Este foi o primeiro erro dos dois.

Se a Professora soubesse do o rapaz estava realmente falando, ela jamais tomaria a decisão que estava para fazer.

-Eu preciso pesquisar algumas coisas sobre isso, e eu não quero que você se preocupe, mas eu vou para a delegacia checar uns arquivos, e eu só vou voltar daqui amanhã, quando eu resolver esse problema.

Sem que soubessem aquele momento havia selado um destino terrível.

-Agora? Mas é sábado a noite! — Exclamou o garoto achando tudo aquilo estranho.

-Provavelmente não é nada, mas eu preciso garantir. Não fale sobre isso com a Iara eu não quero preocupar ela também. Você pode fazer isso por mim? — Ela perguntou ao aprendiz.

-Eu não gosto de mentir por você. Fala a verdade pra ela.

Ele detestava quando a Professora tentava esconder coisas para “protege-los”.

Ela resmungou algo em uma língua que Davi não reconhecia antes de responder.

-… tá, você está certo. Eu… vou avisar ela antes de sair.

A Sensei pegou o cachimbo longo característico, colocou um pouco de fumo e puxou soltou a fumaça com aroma doce e delicado.

-Eu sempre me perguntei o que você coloca nessa coisa. — Davi comentou, a Professora o encarou sem esperar aquela pergunta.

-Ah, isso? É uma receita que a minha Sensei me ensinou. Acalma os nervos. — Davi crusou os braços e riu baixinho.

-Posso experimentar? Eu achava que fumar fosse mal para a saúde, mas se você pode não deve ser tão ruim assim. — Ele disse sarcástico, provocando a Professora, ela olhou para ele e então para o cachimbo sem saber o que responder.

-Eu detestaria achar você com um cigarro na boca, não faz isso. — Davi não falou nada, apenas levantou a sobrancelha vendo ela puxar mais um pouco de fumaça para dentro.

-As vezes eu prefiro quando você está tímido e não consegue me cutucar.

Ela bateu as cinzas no beiral da sacada.

-A verdade é que eu preciso disso.

-Deve ser difícil, a dependência química e tal. — Comentou o rapaz, tentando se colocar no lugar da mãe adotiva. O olhar dela se tornou vazio por uns instantes, de um jeito que ele nunca havia visto antes, mas ela rapidamente trocou para o sorriso leve habitual.

-Não é nem isso, nenhum vício é divertido ou gostoso. É sempre um jeito de anestesiar *algo* que nunca passa. Vai perguntar na cracolândia se a vida de algum usuário estava ótima antes de experimentarem crack.

Davi nunca escutou a Sensei falar assim. Ela continuou.

-Existem coisas nesse mundo que vocês mal podem imaginar. Eles nos apagaram dos livros de história. Mas eu ainda estou aqui, sabendo o que realmente aconteceu.

Os lábios dela tremeram brevemente enquanto ela ponderou uns intantes qual seriam suas próximas palavras.

-Eu sou a única sobrevivente, e eu tenho que testemunhar o amanhecer de um mundo distópico e sem magia. Mas, eu tenho vocês. -E você acha que nós não estamos prontos para lidar com isso. — Davi afirmou aborrecido.

-Vocês absolutamente não estão prontos para lidar com o mundo real. E eu tenho medo por vocês, eu não sei o que eu faria se algo acontecer com vocês.

O garoto olhou para a Sensei, e então mediu o peso das palavras dela. Ela não costuma falar o que ela realmente pensa mas ele sentiu que seria melhor mudar de tópico.

-Sobre isso… Onde foram todos os outros? Como nós sabemos que somos os únicos que sobraram mesmo?

-Eu não estou a fim de falar sobre isso hoje, mas eu prometo que quando eu voltar eu te explico do começo ao fim.

Davi suspirou, frustrado. Mas entendendo que seja lá qual for a resposta que ele esteja procurando, é um assunto dolorido para a pessoa humana na frente dele.

-Eu detesto quando você esconde coisas de nós, eu sei que você faz isso para nos proteger. Mas eu… tenho medo do que pode acontecer por não saber a situação completa.

A Sensei puxou mais um pouco de fumaça e apagou o cachimbo. Ambos não percebendo ainda que haviam observado coisas diferentes.

-Seria estranho não se sentir frustrado. Sinceramente eu era bem pior com a minha mestra. Escuta, algo está nos observando. Algo ruim. Se eu explicar muito vocês vão ficar preocupados e não vão agir naturalmente enquanto eu estou fora, ou pior! Vocês vão querer fazer algo a respeito!

Ela parou engolindo o que sobrou da lata de cerveja.

-Então eu quero que vocês me esperem sem sair do prédio até eu resolver este problema eu mesma.

Davi se lembrou do homem de cinza no posto, ele havia prometido a Iara não falar para a Sensei. Mas encarando o olhar dela, ele suspeitou que ela talvez já soubesse.

-Nós vamos ter que fugir então? Para algum lugar seguro? — Ele concluiu.

-Nós dois não temos para onde fugir filho. Essa identidade falsa como investigadora é o que me permite desviar a atenção deles para longe de nós. Eu preciso manter as aparências.

Davi, escutou e aceitou a situação em que estavam sem sentir muito a respeito.

“Estranho, eu deveria estar com medo. Mas eu não sinto nada… isso não é normal né?”

-Você consegue se manter calmo nas piores situações porquê tem memórias piores que ainda estão frescas na sua cabeça. Mas nem todo mundo está acostumado a viver em modo de sobrevivência...

A Sensei pareceu buscar as palavras querendo explicar algo. Mas mudou de idéia no meio do caminho.

-Só não fala nada sobre aquilo pra Iara, tá? Você pode fazer isso pra mim? Eu conto para ela quando voltar, prometo. — Perguntou a Sensei. Ele cruzou os braços levemente frustrado e mandou a real.

-Aaagh… Taaah, bom. Eu não gosto de esconder coisas, mas ok. Mas eu vou cobrar respostas quando você voltar. Se você esconder coisas demais você não vai ser muito diferente das pessoas que nos querem mortos.

Sensei abraçou Davi com força rindo.

-Haha, tá bom mãe. Eu confio na sua responsabilidade tá? Cuida da sua irmã que ela cuida de você.

Ela foi até a geladeira, pegou mais uma lata de cerveja.

-Eu tenho que preparar umas coisas antes de sair. Não saiam do prédio até eu voltar. A vida de vocês depende disso.