Ocultum - Magos da Poeira
4 Escada Sobe. Escada Desce.
As três da manhã Sensei checou o quarto dos aprendizes, e ao confirmar que estavam dormindo saiu sem fazer barulho.
Ao passar pelo portão do Condomínio Meia-Travessa ela crusou os caminhos com John John que estava chegando aparentemente exausta. –Oi Hana, saindo agora? Aconteceu alguma coisa? — A vizinha puxou conversa. –Ah? Ah, sim. Uma emergência no escritório. Você pode checar se os meninos precisam de alguma coisa quando acordar? Acho que vou demorar para voltar, respondeu a Sensei que atendia por um nome falso. –Claro, quer que eu faço um arroz e levo pra eles? –Não precisa, a Iara está ensinando o Davi a cozinhar, melhor não desestimular eles né? –Eles são bons meninos né? Topei com eles hoje a tarde jogados no chão depois de correr nesse sol Rio Pretano. — A Sensei levantou a sobrancelha. “Huh, eles saíram escondidos mesmo.” –Eles aprontam as vezes, mas eu acho não posso reclamar muito. — A Sensei discretamente abriu a bolsa e colocou latinha de balas velha e selada nas mãos de John John. –Aqui, para o hematoma no pescoço. John John pegou a lata com ombros baixos. –Eu… achei que não dava para ver. –Eu que tenho uma vista boa... herdei do lado da minha mãe. Passa agora que chegar em casa, e mais um pouco quando acordar, a mancha vai sumir rapidinho. As duas se olharam em silêncio por alguns momentos. -Obrigada pelos remédios, eu sei que você trabalha muito… –Anos na delegacia da mulher bem. A gente tem que se ajudar. E Quem não trabalha muito? E você ainda fica de olho nos dois quando eu não posso voltar pra casa, nada mais justo. John John riu baixinho, já abrindo a pomada com aroma adocicado herbal para cobrir o machucado. –Não é nada demais, eu já cuidei muito dos meus primos no norte. Eles me davam bem mais trabalho se enfiando no mato. –Sim, mas você não precisava ajudar com os meus. De qualquer forma, eu já dei o seu currículo para alguns conhecidos, se der tudo certo você vai poder arrumar um emprego decente logo. -Tomara, apesar que eu estou tão acostumada. Se der para ter um horário de sono normal já seria ótimo! — John John comentou tentando manter uma boa atitude. A Sensei queria dizer mais, mas apertou os lábios até se tornarem uma fina linha branca no rosto. -Nenhuma chance de você fazer uma denúncia anônima? Eu posso garantir que… -E causar problemas para os meus melhores clientes?! Não. Mamãe não criou uma princesa delicada, e eu cansei de ouvir gente reforçando isso. Iara acordou antes do sol nascer, ela se sentou na cama e limpou os olhos. “Que horas são? Ugh, que sensação ruim a cama tá desconfortável, o sono tá desconfortável…” Ela checou o relógio do despertador. –Quatro e meia da manhã? … droga, hoje eu vou passar o dia todo cansada. A garota se levantou, escovou os dentes letárgicamente. Escovou os cabelos e saiu do quarto encontrando o irmão adotivo acordado na sala, livros e cadernos espalhados na mesa. –Ué, acordou cedo e já tá estudando?! Nada mal! — Ela exclamou impressionada. Ele levantou o olhar pesado do caderno, olheiras embaixo dos olhos. –Não fui dormir ainda, eu to me sentindo esquisito hoje. Acho que é o calor, o sono não vem. –Ah, você também? Você acha que tá uma vibe esquisita? — Iara perguntou abrindo a geladeira buscando algo para fazer de “café da madrugada”. –Defina “vibe estranha”. — O rapaz perguntou se espreguiçando. –Ah ok, certo. É um princípio mágico, você entende que tudo tem uma “energia” certo? Tudo o que existe tem um espírito próprio. Até objetos inanimados. O garoto piscou lentamente pensando, claramente exausto. –Hum… eu não entendo muito bem como uma mesa pode ter um espírito, mas a professora já falou um pouco sobre isso. Ela chamou isso de Animismo. –Isso. Você não precisa entender completamente agora... Ela pegou um pote de manteiga da geladeira e colocou na mesa, logo a frente de Davi. –Todos nós temos sentidos que nos ajudam a compreender o universo. Então essa manteiga por exemplo. Você percebe o como a luz reflete dela com os seus olhos. Seu nariz e o seu paladar te ajudam a sentir do que é feita e se é segura de comer. Ela pegou o pote de manteiga e colocou próximo do ouvido. –Sua audição te ajuda escutar os sons da manteiga… Davi riu baixinho. –E como a manteiga está soando hoje? –Gelada e difícil de passar no pão. Mas exatamente o que eu preciso agora. — Iara respondeu com um sorriso no rosto. –Sua pele te ajuda a perceber a textura e temperatura. MAS Além disso, todo mundo tem um sexto sentido. –Pera, então essa história de sexto sentido é real mesmo? Eu achei que era lenda urbana. Iara colocou a mão na cintura incrédula. –Você tá estudando magia! O que você acha!? –Não sei! O pé grande é real também?? Uma coisa paranormal é real então todas precisam ser também?! –Ah. É, eu acho que não. Bom ponto. — Iara respondeu pêga de surpresa. –E eu tô estudando matemática. — Disse Davi jogando a cabeça para tráz em agonia. –Pera, sério? –Sim! Eu anos morando na rua! Eu tô super atrasado, A sua mãe vai arrancar meu couro se eu não souber adivinhar o valor da porcaria do X até semana que vem!
–Ah. Falando nisso ela saiu? Ela geralmente vem despedir quando sai de madrugada. Davi ponderou um pouco e se lembrou que a Professora pediu para que ele guardasse segredo de Iara. –Ah, não.Primeiro termina de me explicar do sexto sentido. Depois te conto. — Ele disse tentando ganhar tempo percebendo que não havia pensado em uma desculpa para a Sensei ter saído abruptamente. –Certo, bom. Basicamente todo mundo tem um sexto sentido que percebe a energia das coisas. Na verdade dos espíritos das coisas. Se as suas intenções são hostis. O tamanho, o atunamento. –E porquê a maioria das pessoas não sentem isso? — Davi perguntou cético. –Como eu disse todo mundo tem. É como o senso de direção, se você nunca usa, ele pode não sumir, mas com certeza atrofia. Iara levantou e colocou o pote de manteiga de volta na geladeira –A Hierarquia fez um bom trabalho em convencer todo mundo que um sentido inteiro não existe. A Sensei ainda vai te ensinar umas técnicas pra sentir a energia das coisas com mais precisão. Davi ficou em silêncio por alguns momentos antes de comentar cético. –Não sei, como você faz pra fazer as pessoas esquecerem de um sentido inteiro? –Também não sei. Mas a mamãe me disse que nos tempos da Sensei dela existia uma cor entre o roxo e verde chamado Amanomia. Davi pausou por alguns momentos. –Pera. Uma COR. Tipo Vermelho?! — Ele exclamou incrédulo. –Sim. –Uma cor. Eles convenceram todo mundo que uma COR não existe?! — Ele repetiu. –Uhum, e parece q um dia uma vogal chamada enclava existiu, mas eu acho que nesse ponto ela já estava zoando comigo. — Ela adicionou. Davi ficou sem palavras por alguns instantes. –...Não, não. Eu sei que eles são tipo o Diabo na terra, mas não! Como alguém faz uma cor e uma vogal sumir?! –Eu não sei! Olha, eu não tô te zoando, ela me falou faz tempo, bêbada! Pode ser loucura da cabeça dela, pergunta pra ela! Davi deitou no sofá. Mentalmente exausto. –Tá bom. E é bom que ela tenha uma boa resposta. –Falando nisso cadê ela afinal? — Iara perguntou novamente. –Ah… Ela falou que chamaram ela para uma reunião e ficou com pena de te acordar. Eu só cruzei com ela porquê acordei a noite para tomar agua. Iara fechou a geladeira frustrada. –Ah, é a cara dela sair correndo sem avisar. Ela devia ter falado! –Ela avisou, você tinha ido pra cama já. Iara se debruçou no balcão da cozinha vendo a luz do sol finalmente surgindo. –Não tem pão pro café da manhã, mas padaria aqui na frente de casa abre super cedo. –Você vai? Traz café. — Davi gemeu no sofá. –Tá eu vou. Como você tava estudando madrugada a dentro eu nem vou te cobrar de ir comigo. Davi não levantou do sofá, estendendo apenas mão com um polegar pra cima. –Valeu, muito agradecido. Iara colocou um chinelo, colocou uma nota de vinte no bolso e saiu trancando a porta em seguida. Davi fechou os olhos, e rapidamente cochilou. O cansaço rapidamente levou sua mente a um entranho estado entre consciência e inconsciência. Imagens passavam rapidamente por seus olhos, de uma silhueta escura, uma pessoa… Observando-o pela fechadura da porta do apartamento. O olhar penetrava o apartamento como um feixe de luz vermelha que penetrava e atravessava tudo no caminho. Ele sentiu uma segunda presença atrás da primeira. E o sono do rapaz se tornou sereno, como se qualquer presença houvesse simplesmente evaporado. O rapaz sentiu o cheiro de comida caseira. Feijão tropeiro no fogão. -Menino! Não acredito que você está bem! — John John exclamou. Davi esfregou a cabeça se levantando. -É, essas coisas acontecem comigo. — Ele lamentou. -Sim, mas foi uma prateleira que caiu em você! Eu nem consegui varrer todo o vidro do vaso! — A vizinha exclamou preocupada. Iara interviu não querendo causar alarde na vizinha que realmente não sabia que eram bruxos. -É que caiu meio de lado, eu vi! Por isso não deve ter machucado! John John ponderou a respeito e sem uma explicação melhor ela concordou. -Tá bom, pelo menos não se levanta. Eu levo um prato de comida quentinha pra você minino. Iara ajudou John John a por a mesa. O sotaque espesso, a música popular que ela colocava no celular, a comida, o jeito dela era familiar para a garota. Mesmo que não se lembrasse da vida ao norte. -Ai de mim falar isso Iara, mas teu irmão parece amaldiçoado, o tempo todo ele tá se machucando… Tem que benzê isso tudo. Iara riu por dentro. -É verdade, mas não fala isso pra ele que ele fica chateado. A garota fechou os olhos e se aproximou da panela, um mar de odores deliciosos preencheu suas narinas, mas para a sua surpresa, ela sentiu sentiu algo mágico daquela mistura. Mais do que o aroma, uma vibração vinha daquela panela. Se assemelhava ao formigamento que ela sentia quando cozinhava poções com raízes de plantas que ela colhia em segredo. Com os olhos fechados ela sentiu cores imperceptíveis, e sensações… familiares que ela só podia descrever como. “Cheiro de uma memória empoeirada mas quente e tenra. Chuva no final de uma tarde escaldante, sabor de sal de maresia.” Ela se afastou, um tanto atordoada pela experiência. “Eu. Eu nunca parei para prestar atenção na comida da John John nesse sentido. Eu não sei o que ela fez, mas isso com certeza é mágico.” A garota sacou uma colher e tirou uma prova do ensopado de feijão com carne seca. O cheiro era rico, impossívelmente rico, uma energia leve e reconfortante emanava da pequena poção. E quando ela pôs na boca ela sentiu uma explosão de energia revitalizando todas as células de seu corpo. A garota revirou os olhos aproveitando cada momento daquele sabor em sua boca. -Hey! Nada de ficar provando! Vai acabar com o seu apetite menina! — John John disse arrancando a colher de uma Iara completamente desnorteada. -O-O que é isso? O que você fez? — Ela perguntou desajeitada. -Uh?! — John John se virou sem entender a reação da garota. -Nossa sinhora, eu errei na receita? Não precisa comer se ficou ruim! — Ela exclamou assustada. Iara abanou as mãos e riu. -Não! Muito pelo contrário, está uma delícia. Eu… não sei o que você fez mas ficou muito bom! A vizinha chacoalhou a cabeça encabulada, cabelos negros balançando como uma cascata escura. -O que é isso? Fico feliz que você gostou. Vem. Vamo comer. Davi estava segurando a bolsa de gelo na testa. Ele não quis interromper, mas curioso, ele observou a conversa. Iara pegou mais uma colher e experimentou mais do ensopado. -Você já experimentou, uma comida e sentiu algo especial? Como se fosse algo uhm… mágico? Que tem uma certa energia própria e tal? John John crusou os braços e sorriu. -Tipo comidinha da mamãe? Que esquenta a barriga e faz você se sentir melhor quando está doente? Iara sorriu de orelha a orelha empolga. -É! Isso mesmo! -Haha, bom mesmo! É a receita da minha máinha. — Ela disse intencionalmente exagerando o próprio sotaque. Iara se empolgou curiosa. -Ah é? E de onde ela tirou essa receita?! De alguma tradição de vó para filha? -Ah sei lá. Mamãe fazia sempre pra mim e pros meus irmãos. Eu nunca conheci a minha avó, eu acho que ela um dia só pensou em por mandioquinha bem molinha no caldo pra engrossar e agente gostou. John John tinha um sorriso tenro no rosto mas os olhos foram se tornando cada vez mais melancólicos. -Sabe, morando aqui no sul. Eu só cozinho pra mim. Acho que faz uns dez anos que eu não faço essa receita. Iara se debruçou na bancada da cozinha. -Porquê? É tão gostoso… Desculpa, você. Você tá triste? — Iara se preocupou. -Nah. Eu raramente faço porquê foi a última coisa que a minha mãe fez para nós. Iara ficou vermelha se sentindo super culpada. -Não! Desculpa, eu não queria te fazer se lembrar de nada muito ruim! John John passou a mão na cabeça dela. -Ah, não se preocupa. Sabe, as pessoas falam que o mundo tá acabando. Que tá tudo pior. Mas na minha época, quando os milicos podiam sair matando qualquer um… Ela respirou fundo, e a voz dela tremeu por uns momentos. Como que decidindo em uma fração de segundo se deveria se calar ou falar. Então ela se decidiu. -Na minha terra… Eu sempre fui diferente. A gente era criado pra trabalhar desde pequeno, e estar limpo e arrumado na igreja de domingo. Mas eu. Eu nasci pra brilhar. Iara chegou perto da vizinha, e bateu o quadril contra o da vizinha. -Ai, você brilha muito! — Ela disse rindo. E o ar melancólico da mulher de meia idade evaporou. Ela sorriu e continuou.
-Bom, eu gostava de vestidos. E de dançar, e de sair com todos os meninos bonitos que moravam perto da gente. De dia eu ajudava a capinar a nossa plantaçãozinha, de noite minha vó me ensinava a bordar e tricotar. E eu tricotava bonequinhas lindas! -Mas? — Iara indagou. -Sempre tem um mas. Tem gente que não suporta ver os outros felizes. Um dia me pegaram ficando com um minino, depois veio o padre. Querendo me por nos eixos, me fazer deixar de ser quem eu sou e ser igual a todas as crianças. Todas as crianças que tinham um olhar vazio e faziam tudo o que mandavam para não apanhar… — Ela explicou com um tom sombrio na última parte. Iara ficou em silêncio e segurou a vizinha pelo braço, querendo dar o espaço que ela precisava. Davi estava imóvel com o gelo na testa. Fingindo que havia cochilado. -Quando eu era pequena, muitas vezes uma coisa não precisava ter lei para ser proibido. Eu não quis jogar minhas bonecas,meus tricos e os meus vestidos fora. Então um dia… um jipe do exército apareceu. Pra me levar embora, eu tinha só catorze anos. E eu estava “corrompendo a juventude.” Ela engoliu seco. -Minha mãe era muito doce sabe. Ela acordava todo dia cedo pra regar as plantinhas, e falava com cada uma como se fossem fadinhas hahaha. Quado a PM apareceu, ela disse que se tivesse algo de errado comigo era culpa dela. John John apertou o punho até ficar branco. -Ela nunca mais apareceu em casa quando levaram ela. A gente procurou e procurou, pediu informação. Mas ninguém sabia de nada. Os vizinhos começaram a jogar pedra em mim quando eu passava por ser uma “má influência”… Aos poucos até minha família que me aceitava começaram a me odiar. -Eu sinto muito que isso aconteceu. Eu… não sei o que dizer. — Iara falou dando um abraço em John John. -As vezes só é. Não tem o que falar. Um dia me trancaram para fora de casa e quando o sol nasceu eu comecei a andar. Eu fui embora e nunca mais voltei. -E você tem vontade de voltar? — Iara perguntou sem saber se deveria. -Eeeeeeh… — John John rangeu indecisa. -Não sei. Depende. É complicado. Mas eu consegui fazer uma vida aqui onde ninguém me diz quem eu posso ou devo ser. E sabe essa sopa? Quando levaram minha mãe embora, ela deixou uma caldeirada dessa no forno. Comi até passar mal. Levou uns anos, mas é como se algo no fundo da minha cabeça sussurrasse o como ela fazia sabe. “Talvez não tenha nada de especial nessa receita, e ela é mágica porquê mesmo não sendo Bruxa, para a John John é uma comidinha mágica.” — Iara concluiu com um brilho no olhar de quem descobriu algo fascinante. As duas ficaram em silêncio por alguns minutos, sem saber o que dizer. John John se sentindo um tanto culpada por contar algo assim para o que para ela era uma criança. -Eu escuto muito desses tempos da minha mãe. Ela parece que perdeu muita gente também — Iara confessou. -Era terrível. -Muito pior do que hoje? -Eles precisam fingir que se importam pelo menos. John John tomou um pequeno gole do café agora gelado que ela havia servido e esquecido de tomar depois que uma prateleira caiu na cabeça de Davi. -Eu tenho dó da molecada de hoje. Antigamente a gente achava que pra fazer as coisas funcionarem era só trabalhar muito, dar educação pra todo mundo. Mas nada disso funcionou. Vocês vão ter que descobrir um jeito de melhorar as coisas por conta própria. Iara riu. -A gente não sabe nem o que estamos fazendo aqui. John John sorriu, terminando o café frio com bom gosto. -E quem disse que a minha geração sabe de alguma coisa? É só olhar pela janela. Eu pelo menos não sei de nada. Davi tentou continuar escutando a conversa com os olhos fechados, mas a voz de John John foi se tornando mais vaga, mais distante. O ar se preencheu com o som surdo de gritos mudos abafando suas orelhas com uma pressão que parecia apertar sua cabeça. Vibrando o ar em cores estranhas, seria alguma daquelas cores a tal cor que foi deletada do universo?
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