Notas iniciais
Ocultum é um universo de ficção fantástica onde Bruxos e Magos tentam sobreviver em uma realidade terrívelmente semelhante a nossa. "O fim dos tempos está chegando. E é a melhor coisa que poderia acontecer conosco." ~ Paracelsus - 1523

Capítulo 1

Almas na poeira.

Rio Negro. Chamada de Califórnia Brasileira pela sua riqueza é o Motor econômico da região, capital da cerveja, acidentes automotivos e desaparecimentos misteriosos.
Quando chegamos aqui era tudo mata atlântica, e os índios Caiapós nos ensinaram tudo o que sabemos sobre as plantas e os espíritos do novo mundo.
Não sobrou um Caiapó. Transformaram a região inteira em um enorme cemitério indígena e decidiram construir uma cidade em cima. O que poderia dar errado?
A poluição no ar acabou com a camada de ozônio, por isso a radiação solar é extrema quase todo o dia e a terceira maior causa de morte por aqui é câncer de pele perdendo apenas para balas perdidas e roubos armados.
Sem a mata o ar ficou tão seco e quente que as árvores simplesmente morrem se não tiver um humano para regar todo dia religiosamente, algo que a prefeitura falida nunca faz... a grama que quase não tem onde crescer está sempre amarelada e seca, e quando nem a grama consegue sobreviver ela se torna marrom escura antes de esfarelar ao vento.
Toda a riqueza da região veio do chão, da terra vermelha rara, um dos solos mais férteis do mundo combinada com o aquífero cada vez mais esgotado no subsolo.
Normalmente as raízes das plantas seguram o solo no lugar, mas fora da cidade só deixam crescer dois tipos de plantas... café e cana... as raízes de ambos não tem tempo de crescer muito antes das máquinas e do exército de garis maltrapilhos cortarem tudo.
A cana não só esgota o chão de tudo o que tem, mas gasta mais água do que o aquífero subterrâneo pode repor. Mas por enquanto as torneiras não estão secando, então pouca gente realmente faz barulho sobre a futura seca que irá arruinar a região.
Por isso, em Rio Negro o vento não traz alívio, só a poeira vermelha que tinge o céu, as paredes e as pessoas de laranja, amarelo, marrom e é claro, vermelho. Mas a secretaria da saúde garante que usar máscaras sempre que a atmosfera está saturada de pó elimina a maioria dos problemas de saúde causados por anos respirando terra.

Meio dia. 40C. Índice UV 12. Ventos moderados, é recomendado o uso e óculos solares, evite ficar fora da sombra por mais de dez minutos sem proteção.
-Você não quer mesmo ficar embaixo do guarda chuva? Tem espaço. — A jovem constatou.
-Nah, com o capuz meu problema não é sol. É calor… ugh, as minhas roupas estão encharcadas… — O rapaz respondeu percebendo que a amiga teria que ficar parcialmente exposta ao sol se dividissem a pequena sombrinha roubada de algum mercado.
O rapaz fechou os olhos por um instante esfregando os olhos e odiando cada segundo daquela caminhada. Sua pele ardia sob a luz extrema do sol, o vento carregava o pó vermelho diretamente em seus olhos. A cacofonia de carros parados no transito bombardeava seus ouvidos com o ronco de dúzias de motores, e seu olfato com o jato de gases quentes e tóxicos expelidos pelos escapamentos.
Ele tropeçou em um saco de lixo e abriu os olhos, só para ser obrigado a olhar para as calçadas repletas de crateras, lixo expalhado e as fachadas de múltiplos comércios fechados.
-Merda de cidade… — Ele resmungou baixo demais para que a amiga escutasse. Sabendo que ela não apreciaria a negatividade.
O rapaz era extremamente magro, alguns diriam emaciado, com a pele pálida, um nariz fino e longo e motivo para que pessoas tenham feito piadas sobre seu aspecto que lembrava um certo pássaro.
Ele tinha feições angulares, e uma barba fina e rala no queixo, em conjunto com seus olhos afiados e não muito simpáticos que escaneavam o entorno da dupla constantemente. Sempre preocupados e alertas.
Usava uma camiseta sem mangas com um capuz que protegia sua cabeça do sol, com calças práticas com vários bolsos, ambas grandes demais para seu corpo. O que aumentava mais ainda sua aparente magreza criando um aspecto doentio.
Sua mãe adotiva vivia reclamando das roupas que o rapaz insistia em continuar usando, mesmo que lhe dessem uma aparência ruim eram práticas, moderadamente confortáveis no calor e não chamavam atenção… do jeito que ele se sentia mais seguro.
Ele coçou a cabeça embaixo da longa cabeleira selvagem de cachos ondulados extremamente escuros.
Perto de onde os dois estavam, a famosa califórnia brasileira se encontrava com as águas fétidas do rio pardo. Um rio de águas barrentas (daí o nome) e considerado pela maioria da população um rio morto e estrangulado pelas indústrias e o esgoto doméstico de mais de quinhentas mil pessoas.
As águas estéreis do Rio Negro e incapaz de sustentar vida carregavam uma enorme mágoa contra os habitantes da cidade que a cercavam.
A dupla sabia que as margens do rio eram perigosas. Talvez vida de carne e células não sobrevivesse em tal lugar, mas certamente muitos vizinhos ainda se conclomeravam demaixo das águas… entre sussurros e grunhidos tentando retomar seus lares de volta embaixo da superfície.
Os dois pararam em um semáforo, e Davi não pôde evitar de encarar a imitação ao lado do sinal de pedestres.
Do outro lado da rua seus olhos encaravam um homem estremamente longo, estático cuja pele tinha uma textura e coloração prateada. Ele devia ter aproximadamente dois metros e setenta, seu pulso tão fino quanto seus dedos. E os dedos se alongavam em um emaranhado caótico na fiação dos postes ao redor.
Pó escarlate se acumulava em seus enormes pés mostrando que ele aparentemente estava naquele lugar, naquela posição haviua pelo menos algumas horas.
O que mais incomodou Davi era o rosto do homem, retorcidos como se alguém tivesse torcido seu rosto como um pano úmido. E assim haviam três buracos alinhados verticalmente em seu rosto, os dois de cima eram seus olhos, o último sua boca, todos do mesmo tamanho e o mesmo formato perfeitamente redondo.
Davi encarou a entidade sem saber como reagir, e para seu terror a entidade o encarou de volta com seu olho na cavidade central.
-Psst, hey! Encarar é mal educado! — Exclamou a amiga no guarda chuva com uma cotovelada um pouco mais forte do que o ideal.
-Ow! m-mas…! — Davi exclamou confuso.
O semáforo abriu, a lâmpada verde o único objeto daquela a vista de todos.
O homem longo se virou lentamente para o semáforo, e ao perceber que a luz havia mudado de cor ele imitou o objeto projetando luz da mesma cor de sua boca.
Os dois passaram ao lado da entidade, que os ignorou completamente.
-Tenta não encarar os vizinhos tanto… — A garota murmurou assim que se afastaram um pouco.
-Eu não consigo evitar, eu passei a minha vida toda apavorado deles, e agora eu tenho que ignorar?! — O rapaz retrucou frustrado.
-SIM! — A garota exclamou atraindo os olhares de alguns motoristas presos no transito, Davi apenas suspirou e concordou sabendo que ela estava certa.
Iara tinha aproximadamente a mesma altura e idade de Davi, porém não podia ser mais diferente.
A jovem usava um vestido de corte simples esvoaçante, fácil de se mover. Afinal, para as suas habilidades funcionarem ela precisava do máximo de flexibilidade possível. E algo rápido de secar.
O vestido ia até quase a canela e tinha uma estampa víva de praia que contrastava com a pele parda.
Curiosamente ela apresentava duas tatuagens apesar de ter apenas 18 anos. Uma linha vermelha e fina correndo na horizontal em seu rosto que se curvava quando ela sorria. Outra no braço esquerdo que se assemelhava a um bracelete com um padrão geométrico de triângulos.
-Você pode segurar um pouco a sombrinha? Aproveita e pega uma sombra um pouco. — Ela pediu ao amigo.
Ela tirou o chapéu de palha com aba larga, abanou um pouco o rosto para ajudar a secar o suor. Então ela soltou o cabelo longo e extremamente liso.
-Prende o cabelo e a minha cabeça cozinha, solta o cabelo e meu pescoço fica ensopado… ugh… — Ela reclamou.
-Você pode cortar o cabelo se estiver incomodando tanto. — Davi comentou.
-Não! Eu adoro o meu cabelo! Além disso, eu tenho um err… motivo prático. — Ela disse.
O rapaz colocou a mão na cintura e sorriu malicioso, acreditando que a amiga estava inventando uma desculpa.
-Huh. E que motivo prático é esse? Gastar mais shampoo?
Ela cruzou os braços na defensiva.
-Cabelo carrega muito da essência da pessoa, então é um material comum em poções, e feitiços.
-Uhum... Pera, ah você está falando sério. — Davi percebeu.
-Eu ainda não aprendi nada disso. — O rapaz esfregou a cabeça, sem graça.
-Você se tornou um neófito faz o que? dez meses? A mamãe me ensina isso desde que eu devia ter uns cinco anos, é normal migo.

As fachadas antigas da baixada eram adornadas com geometrias e detalhes que tentavam imitar de maneira superficial e tosca estilos arquitetônicos que um dia foram populares na gringa, como o barroco, neoclássico e art nouveau, porém a baixada deixou de ser uma área nobre havia muito tempo.
Os casarões, hotéis e cassinos que chegaram a abrigar os poderosos barões do café da época imperial estavam em grande parte, dilapidados pelo abandono, tempo e as enchentes anuais do rio negro que devastavam o comércio local inundando as humildes lojas montadas no nível da calçada.
E não raramente pessoas são levadas pela correnteza das enchentes, para nunca mais serem encontradas. Como que levadas para algum lugar pelos vizinhos que habitavam as águas mortas.
Quase todas as construções da região exibiam uma “faixa” nas fachadas, onde a pintura era mais escura, e a tinta era consideravelmente mais descascada.
Davi observou uma dessas faixas na entrada de uma loja de alimentos, e imaginou que em algum momento as águas alcançaram o nível do seu peito.
“Ainda bem que eu não estava dormindo por aqui naquele ano…” — Ele pensou, certo de uma escolha errada sobre onde passar a noite poderia ter sido sua última decisão.

O problema era conhecido havia anos, décadas. Havia trezentos anos que Bandeirantes chegaram ao vale do Rio Negro, eles construíram uma cidade ao redor de um rio que enche todo ano. E ao longo de três séculos os habitantes cobriram cada centímetro de chão com concreto, fazendo com que todo o volume das chuvas anuais sobrecarregassem o sistema de drenagem, alagando a região.
Na época em que os grandes hotéis, cassinos, cervejarias e fábricas ocupavam a região da baixada, uma barragem protegia a alta casta de Rio Negro das enchentes.
Mas eventualmente, como acontece em toda cidade, o centro histórico foi se tornando cada vez menos atraente para a população mais alta, conforme a infraestrutura se tornava a cada ano mais defasada, e as calçadas se enchiam com a população mais baixa.
Quando os comerciantes e fidalgos migraram para os bairros mais mais afastados, mais altos, e mais... limpos. A prefeitura abandonou completamente a manutenção da barragem que protegia a região agora irrelevante.
Para Rio Negrences, as enchentes eram um fato da vida. Todos sabiam o motivo do abandono dos habitantes da baixada, mas ninguém tinha o poder, ou a vontade para forçar a prefeitura utilizar recursos públicos para salvar vidas.
Isso porquê quando os moradores de bolsos fartos saíram… Bom, o universo não aceita espaços vazios, e sempre que há um vácuo algo irá ocupar seu lugar.
Neste caso a horda de trabalhadores e sem teto que viviam próximos a alta sociedade um dia se encontraram cercados de palácios abandonados, e dilapidados, mas perfeitamente habitáveis, e invadiram ilegalmente estas grandes torres.
Quando o espaço acabou, pátios ornamentados e os poucos terrenos vazios foram preenchidos com barracos e edificações ilegais.
Houveram protestos dos donos dos imóveis, é claro. Mas a única forma de reapropriação seria despejar várias centenas de pessoas de baixa renda utilizando a força policial, e para quê? Reaver construções não ocupadas, cujos donos pagariam pouquíssimo impostos?
Como sempre a prefeitura solucionou o problema, com a antiga tática Brasileira do silêncio. A câmara de vereadores deixaram o problema circulando em burocracia por décadas, sem comunicação alguma com os proprietários até que aqueles que buscavam reapropriamento desistiram de cobrar uma solução do conselho de surdos e mudos, ou até mesmo faleceram ao longo das décadas.
E foi assim que o centro histórico de Rio Negro se tornou um emaranhado de pequenas favelas, cortiços e habitações irregulares cravadas entre e dentro dos grandes arranha céus da era de ouro da região. Inadequadas para qualquer um morar. Hoje em dia, qualquer Rio Negrense sabe que quando o sol se põe na baixada, é melhor desaparecer das ruas perigosas.
Esse é o tipo de cidade que Rio Negro é. Uma cidade comum, cravada no interior do sudeste Brasileiro, mas que poderia ser qualquer outra que não surgiu nos últimos trinta anos.
Seres humanos são muito influênciados por sua criação e o ambiente em que vivem.
Como uma vida em uma cidade comum, ecologicamente moribunda e socialmente falida afeta o futuro de uma pessoa?
Quando uma pessoa experiência algum tipo de trauma, a mente costuma ter duas alternativas para lidar com aquela terrível realidade.
A primeira escapatória é aceitar aquela realidade como ela é e fazer parte dela. O abusado se torna um abusador, o pai transmite o mesmo trauma para os filhos… Ou em casos mais raros, com rejeição absoluta e furiosa daquela realidade.
Muitos vivem em Rio Negro, Uma cidade como tantas outras no mundo que simplesmente não funcionam.
O que acontece quando um grande grupo que desesperadamente busca seu lugar nesta realidade distópica convive com a minoria que rejeita esta mesma realidade com todas as suas forças?
Um ano havia se passado desde que os dois haviam se conhecido, mas Iara percebia muito claramente o como estava sendo difícil para Davi se adaptar a uma vida normal. Bom, normal como dois adolescentes com uma recompensa por suas cabeças poderiam ter.
-Porquê eu tenho que ir? — Ele protestou.
-Shh! Fala baixo... Já é perigoso estamos aqui fora sem a mamãe. Alguém precisa vigiar se alguém suspeito está vindo. — Iara sussurrou de volta colocando o indicador em frente aos lábios.
-Eu posso fazer isso, eu dou uma batidinha na janela se ver alguém! — O garoto respondeu com uma expressão apavorada.
Iara segurou a mão do amigo com carinho.
-É, mas você consegue improvisar algum truque pra ganhar tempo? Não. Se algum homem de cinza aparecer... vai dar tudo certo, eu vou estar aqui do lado. Você só precisa entrar, pegar as coisas e voltamos para casa o mais rápido possível.
Davi se virou, e encarou a porta de vidro da loja de conveniência. Não tinha quase ninguém no posto de gasolina, o céu estava alaranjado com poeira e não havia uma brisa para aliviar o calor.
-Vai estar mais fresco no ar condicionado, eu te falo isso! — Iara comentou, Davi riu por uma fração de segundo antes de ser puxado de volta a sua concha metafórica por uma onda de pavor.
O rapaz percebeu que estava perdendo o controle novamente, fechou os olhos com a mão no peito e respirou fundo três vezes, focando em sentir os próprios batimentos no peito desacelerarem. Tal como a Professora havia ensinado.
“Tudo o que eu preciso fazer era comprar uns dois refris, umas batatas fritas e pipoca.” — Ele revisou mentalmente tentando se encorajar. Ele deu um passo para frente e congelou. A mente inundada por um turbilhão e cenários hipotéticos.
E se a câmera da loja os identificasse? E se o cara no caixa o achasse suspeito? E ele enxergasse um vizinho que ele não conseguisse ignorar? Será que o caixa reagiria a ele reagindo a algo que não podia ver e sentir como um lunático?
-A gente não pode vir outro dia? tipo de noite? — Ele perguntou.
-Não. O aniversário da mamãe é amanhã, e de noite as coisas fecham, não dá tempo!
Iara bateu o pé e deu um leve empurrão no amigo para que ele entrasse.
O rapaz cobriu o rosto com o capuz e entrou com o corpo todo travado pelo nervosismo, olhando fixamente para o chão, e evitando cruzar olhares com qualquer pessoa.
"Nem um pouco suspeito migo…" — Iara observou frustrada antes de voltar a prestar atenção no movimento da rua. Mas ela sorriu um pouco.
“Mas é como a mamãe fala. Tem que prestar atenção na melhora, ele está conseguindo pelo menos tentar enfrentar o medo agora!”

Davi caminhou entre as prateleiras tentando não deixar o rosto exposto para as câmeras. Memórias invasivas do que aconteceu quando ele havia dormido em uma garagem de caminhões invadindo sua mente.
A respiração pesada, ele não havia corrido mas faltava ar. Ele agarrou a costela direita, lembrando-se do como “lidaram” com ele.
Ele colocou alguns pacotes de junk food no cesto e foi até a geladeira para pegar uma garrafa de refrigerante. Antes de abrir a porta ele observou o atendente com uniforme do posto atrás do balcão pelo reflexo no vidro.
O homem de meia idade estava falando casualmente no telefone.
“Será que ele está falando sobre mim? Não. Isso é paranóia.”
Ao abrir a geladeira uma garrafa de vidro caiu em sua cabeça e por sorte não quebrou. Porém ele ignorou a dor e com um movimento rápido com a mão conseguiu segurar no pescoço da garrafa antes de se espatifar no chão.
O rapaz suspirou aliviado, antes de grunhir de dor, colocando o produto de volta na geladeira.
“Se eu pudesse parar de me machucar por meia hora seria ótimo.” — Ele resmungou em sua cabeça.
antes de pegar uma garrafa do refrigerante que Iara não gostava, irritado por ser obrigado a fazer isso.
“Mas, eu sei que eu estou sendo paranóico. E eu sei que eu devo estar parecendo suspeito…”
Suor escorreu de sua testa oculta pelo capuz. Ele então percebeu que estava suando mais do que quando estava lá fora, exposto ao sol.

Enquanto isso Iara observava do lado de fora, por movimentos suspeitos… e bocejou.
“Que clima de domingo. Ninguém na rua.”
Ela acompanhou com os olhos uma bicicleta passando lentamente.
“Será que hoje é algum feriado nacional? Como a gente não vai pra escola ou trabalha eu sempre esqueço quando é feriado.”
Ela contemplou por alguns momentos como seria ter uma vida normal. Acordar cinco dias por semana em horários que não se encaixam ao ciclo do sono. Passar oito a dez horas fazendo tarefas que não beneficiavam ela mesma ou ninguém próximo a ela em troca de dinheiro. E ainda ter que devolver parte do dinheiro para o governo em troca de quase nenhum benefício.
Ficar feliz da vida em dias de feriado por não precisar passar a maior parte do dia ganhando dinheiro.
A garota sentiu-se sufocada de imaginar não poder escapar de uma situação como essa, e suspirou pelo nariz sentindo um misto de irritação e alívio.
“Acho que eu nunca poderia ser ”normal“ como esse cara na bicicleta. Eu precisaria ter ido para a escola, e passado vários anos sendo introduzida a esse esquema de trabalho… Mesmo se eu pudesse eu não acho que eu poderia compensar o tempo perdido”
Iara era de fato, alfabetizada. O fato de que ela seria acorrentada e mandada para o Labirinto se ela fosse enviada para alguma escola nunca foi desculpa para que escapasse dos estudos.
Ela não sabia disso, mas o estudo que recebeu em casa foi de muito maior qualidade do que a maior parte dos alunos do sistema público poderiam ter. Algo que sua mãe sempre falava é que sabedoria era impossível de mensurar. Seja por testes de QI ou provas escolares, o que importava era a capacidade de compreender e aplicar aquele conhecimento. Algo que garota era mais do que capaz de fazer.

Alguns minutos depois ela olhou de volta, Davi parecia ter encontrado as coisas e estava balbuciando algo para o caixa que pela expressão do rosto parecia não entender. O corpo inteiro dele parecia estar rígido, e era visível que suas mãos tremiam.
"Preciso prestar atenção na rua, vai dar tudo certo. Ta indo tudo bem. Não é?" Pensou a garota tentando manter a calma, mas se sentindo ansiosa pelo amigo.

Falando em ansiedade enquanto isso, dentro da loja Davi tentava fechar a compra.
O rapaz observava compulsivamente todos os movimentos do atendente, sua garganta estava apertada e até doía um pouco, ele sentia seu coração batendo violentamente no peito, marcas visíveis de suor aparentes nas roupas.
Ele sabia que era irracional, ele sabia que não tinha motivo para estar tão tenso. Mas ele não tinha controle de sua própria mente.
Pensamentos e memórias invadiam sua mente, contra a sua vontade. Tão vívidos que ele lembrava das sensações físicas. Mais de uma vez ele foi confundido com um ladrão, outras vezes ele de fato roubou para ter o que comer.
E mais de uma vez ele foi pego. Ele colocou a mão na costela novamente, lembrando-se e sentindo a sensação da barra de ferro acertando seu peito, tantas vezes.
Ele parou de escutar o funcionário, sua visão se fechou e tudo o que ele lembrava era daquela noite, havia parado de chover, o ar frio e carregado de umidade, o chão molhado, suas roupas frias e encharcadas.
Fome, um lojista furioso gritando algo. Davi se curvou no chão tentando proteger o rosto, mas o lojista continuou acertando suas costelas de novo e de novo.
Seu rosto ficou vermelho e lagrimas quentes escorreram de pura humilhação quando ele viu que pessoas do outro lado da rua observavam a situação sem falar nada a respeito. Seus olhares eram como o de curiosos observando o local de um acidente. Porém no caso ele era a atração mórbida.
O espancamento continuou, suas costelas não quebraram, sua pele não tinha hematomas, ele não sangrava. Mas sentia tudo, por meses ele sentiu os pulmões queimarem cada vez que ele respirava fundo.
Seu corpo continuava inteiro, mas sua mente não deixava de processar a força de um linchamento sendo aplicada aos seus ossos, pulmões e órgãos internos.
Tudo porquê ele não prestou atenção nas câmeras de segurança antes de enfiar uns pacotes de bolacha no bolso. Cameras, cameras são perigosas. Eles conhecem o rosto do rapaz, desde… desde aquele dia! E ele sentia tudo novamente…
-OI. SÃO QUARENTA REAIS!!! … brother! — O funcionário disse profundamente irritado.
Davi então voltou ao mundo fora de sua mente. Sentindo a dor nas costelas novamente, tão suado que o atendente não pôde perceber que algumas das gotas em seu rosto vinham de seus olhos.
O rapaz percebeu que ele havia ficado vários longos segundos encarando o nada enquanto o atendente falava com ele, e seu rosto ficou mais quente dessa vez devido ao constrangimento.
“…toda santa vez…?” Ele resmungou sentindo vergonha, ansiedade, pavor, vulnerável.
A vida havia se tornado muito mais segura desde que a Professora o tirou das ruas. Mas, ele ainda era constantemente atormentado por flash backs.
Falar com estranhos era extremamente exaustivo, e costumava engatilhar crises de pânico. Quando alguém sobrevive a certas situações traumáticas o a mente reage em uma de duas formas… Bloqueando memórias para se proteger. Ou relembrando intensamente do trauma, em uma tentativa desesperada de nunca mais passar pela mesma experiência. De reconhecer perigo antes mesmo dele acontecer, sob o menor sinal.
Em certos casos, a mente se torna tão sensível que pequenos gatilhos podem gerar flashbacks, onde a pessoa vividamente revive aquela mesma situação constantemente.
Davi se lembrou em uma fração de segundo de todos os anos onde teve que dormir nas ruas, e toda a sua confiança escorreu do corpo. Seu corpo e mente condicionados a nunca se sentirem seguros.
E o fato de que por algum motivo super natural ele estava sempre se machucando sempre reforçava o sentimento.
Sair de casa era um tormento para o rapaz que sentia que algo terrível poderia acontecer a qualquer momento. Cada pessoa por perto um risco de ser identificado.
Davi enfiou as mãos trêmulas no bolso para sacar o dinheiro e a chave de casa caiu no chão, ele se agachou com vergonha, pegou a chave e procurou no outro bolso da jaqueta.
-Ah... e-eu... — Ele derrubou a chave novamente, agachou de novo para pegar.
"Será que eu estou parecendo suspeito? ah não, ah não, ah não... eu esqueci de pegar o dinheiro com a Iara."
-E-eu, já vo... — Sua voz falhou e ele se virou para correr para a porta para pegar o dinheiro com a amiga o mais rápido possível.
-AMIGO! Você tem que pagar! — O atendente gritou e Davi percebeu que ele ainda estava com o refrigerante na mão.
—N-não, eu…
Imediatamente algo agarrou o pescoço do rapaz prendendo-o em uma chave de braço. Davi olhou para trás e percebeu que estava sendo imobilizado por um policial fardado.
"NÃO! De onde ele... Não, eu não estava roubando!"
-Parado! Vacilou rapaz.
Davi tentou protestar mas ar não saia de sua garganta, ele estava paralisado de medo novamente.
-Ainda bem que eu escutei do banheiro você gritar, Lúcio. — Disse o policial para o atendente.
-Na verdade, eu estava contando que você ouvisse. — O atendente respondeu cruzando os braços.
-É por isso que eu tento passar por aqui quando estou fazendo patrulha, nunca se sabe quando um bandidinho vai aparecer.
O policial forçou Davi contra uma parede e começou a revistá-lo.
-Vamos lá rapaz, mãos na parede e não resiste. Eu só vou checar se você não está com mais alguma coisa antes de te levar pra delegacia.

-Hey! o que ta acontecendo?! — Iara gritou surgindo ao lado do policial que a encarou confuso.
-Quem é você? Você está com ele? O que você é dele? — O policial respondeu enquanto revistava o garoto com um olhar catatônico.
-Ele é meu… irmão. — Iara explicou.
-O que aconteceu? Eu tenho certeza que isso é um mal entendido. — Ela exclamou
O atendente fuzilou a garota com o olhar.
-Uhum, ele tentou sair sem pagar pelas coisas.
-Não resiste! O que que você tem no bolso? — Exclamou o policial.
Iara andou até o caixa e colocou duas notas de vinte no balcão.
-Porquê eu esqueci de dar o dinheiro pra ele! O meu irmão tem uma fobia social horrível então eu convenci ele a entrar sozinho enquanto eu esperava na porta… pra ele se acostumar a fazer esse tipo de coisa sozinho sabe?
O atendente encarava Iara furioso, mas seu olhar começou a se desmanchar lentamente conforme ele percebia o erro.
-Então é por isso que... aaah."
O rapaz tentou esconder as lágrimas e finalmente conseguiu murmurar ainda sendo revistado.
-Ca-caramba irmão, eu viro os bolsos na sua frente se quiser…
-Realmente, ele não está escondendo nada. — Policial reconheceu soltando o rapaz que arfava sem fôlego, o rosto branco como cera.
-Eu disse que meu irmão nunca roubaria nada! — Iara bateu no peito satisfeita.
-Documento? — O policial estendeu a mão para ela aguardando.
-Que? — Ela perguntou.
-Documento, vamos! Ele não roubou nada mas vocês dois estão agindo de forma suspeita. — O policial explicou sério.
-Eu... esqueci em casa... — Iara tentou explicar, mas o policial colocou a mão no coldre da arma na cintura e segurou Davi pela gola.
-Sem documento? Todo cidadão acima de dez anos tem que carregar uma identificação. Nesse caso, vocês dois vem comigo para a delegacia por omissão de documentos e mentir para um policial.
-M-ma como assim? O que agente mentiu?! — Davi começou a gaguejar.
-Vocês não parecem nem um pouco, um é branquelo e outra tem cara de japa. De jeito nenhum vocês são irmãos...
O atente preocupado por saber que seu gerente poderia demiti-lo por constranger um cliente dentro da loja tentou defender os dois.
-Qual é Jorge, os dois podem ser meio irmãos...
-Nah, eu não confio nessa história. Os dois devem ser namoradinhos que arrumaram uma boa desculpa para caso um furto não desse certo. Tá na cara que se eu não estivesse aqui eles iam tentar alguma coisa.
O atendente parecia extremamente desconfortável. Davi e Iara se entreolharam rapidamente. Iara piscou duas vezes rápidamente para o amigo e Davi entendeu a instrução.
O garoto respirou fundo e acumulou toda a coragem que ainda tinha.
-P-pra va-variar um policial prendendo alguém por ser racista. Porco filho da…! — A idéia era ele tentar falar baixo como se estivesse murmurando, mas o pavor fez com que ele tivesse que forçar as palavras para fora em um grito, imediatamente o policial prensou o rapaz na parede e sacou a algema.
-Cala a boca! Nunca desrespeita a farda mole... — No instante de fúria, Iara aproveitou a distração para jogar um punhado de pó de wasabi diretamente nos rosto do policial. O policial gritou jogando a farda no chão e esfregando olhos em uma dor excruciante.
-FILHA DA PUTA! O QUE VOCÊ FEZ?! EU VOU MATAR VOCÊS! VOCÊS NÃO SABEM QUEM EU SOU!!!
O policial sacou a pistola do coldre e apontou a esmo e todo mundo se jogou no chão em pânico. Ele se debatia sem controle tentando encontrar os dois, derrubando várias prateleiras no processo.
Iara pulou o balcão e se escondeu ao lado do atendente. Os gritos continuaram por mais uns momentos até que ela escutar um som algo metálico seguindo de algo parecido com um saco de batatas caindo no chão.
Então houve um o estouro de um disparo seguido de um som pesado e metálico, o eco ensurdecedor do tiro dentro da pequena loja fez os tímpanos de Iara doer. e Os gritos pararam e quando o atendente e Iara se viraram, Davi estava do lado do policial estirado no chão, pernas estremecendo com pequenos espasmos com um extintor de incêndio em mãos.
Havia um pouco de sangue na camiseta do rapaz. Casualmente ele colocou um dedo dentro do pequeno buraco redondo no peito.
-Você tá bem?! — O atendente berrou achando que o sangue era do rapaz.
-Ah? É… Desculpa, alguém precisava sossegar ele. Ou vocês acharam mesmo que esse balcão protegeria de alguma bala? — Ele resmungou sem responder a pergunta.
O rapaz jogou o extintor levemente sujo de sangue no chão, andou até o balcão e pegou o dinheiro que iria pagar pelas coisas de volta e enfiou no bolso.
-Migo? Você tá bem? — Iara se levantou, e colocou a mão no ombro do amigo que estava com os olhos inchados contendo o choro. Ele limpou os olhos nas costas da mão e resmungou.
-Claro que não… Ah, e é claro que não me machucou mas tá doendo muito na hora de respirar..
O garoto pegou os salgadinhos que tinha tentado comprar e colocou nas mãos da amiga, então ele colocou a pet de refrigerante embaixo do braço.
-Eu só vim pegar isso... — Ele murmurou.
-Foi culpa minha, eu te forcei. — Iara respondeu preocupada.
-Não, é culpa minha se eu não fosse tão... inútil. Se eu conseguisse funcionar! — Davi respondeu cobrindo o rosto.
-Não fala assim, por favor! — A amiga exclamou abraçando ele.
Os dois olharam a loja de conveniência toda arrebentada, com estantes derrubadas e itens quebrados no chão. Iara soltou Davi e disse com um tom firme.
-Precisamos ir, agora antes que mais gente apareça. Ainda bem que as nossos rostos vão aparecer embaralhados nas câmeras.
Ela correu até a porta e Davi acompanhou ela, mas antes que ele saísse o garoto parou ao lado de uma das prateleiras intactas e pegou uma caixa inteira de barras de chocolate antes de resmungar.
-Já que eu sou ladrão, então eu vou levar isso mesmo... — Ele murmurou, antes de correr atrás da amiga.
O atendente finalmente se levantou de trás do balcão e viu a loja demolida, no centro o cunhado policial estava desacordado.
"Como que eu vou explicar a merda que eu fiz pro gerente?" — Ele pensou.