Oculto
2 Esquecendo a existência.
Seus olhos cruzaram-se. A caça e o caçador, ambos confusos e desesperados. A caça, sentindo o desespero de encontrar a morte, e o caçador de sempre ter de oferecer o fim para seu prisioneiro. Não havia pedido por isso, mas conformava-se com sua condição. Era um maldito não-morto, vivo-morto, demônio, vampiro ou como queira chamar. Preferia pensar que a imortalidade lhe cabia como uma luva. O sofrimento era algo que precisava ser eternizado.
- Por favor....
Com um grunhido afundou suas presas em sua carne macia do pescoço e sentiu prazerosamente como sua vida esvaia-se a cada profundo gole de seu sangue. Era a segunda morte que causará hoje, nunca se sentia satisfeito; a vida, por minutos, parecia pertencer a ele, mas logo ia embora... Era preciso estar sempre se alimentando dela. Era um desespero que nunca experimentou, mesmo em dez anos de não-vida. Ouvindo o ultimo suspiro da mulher que jazia em seus braços, largou-a descuidadamente em cima de uma grande lata de lixo e arrancou-lhe a cabeça com um só golpe para encobrir a marca de suas presas. “Isso manterá a policia ocupada”, pensou com um leve sorriso em seu rosto. A pequena rua estava deserta devido a hora, 03:57 da madrugada, olhará Darius em seu relógio de pulso. Fora sorte encontrar alguém a essa hora da noite fora de casa. Percorreu com o olhar cada fundo dos prédios que davam para o local, era de se admirar que estivesse deserto, era uma área abandonada assim como seus moradores, prostitutas, traficantes, sem tetos, e todo tipo de escoria da sociedade. Alimentava-se sempre nesses lugares, onde sua vida tinha tido um fim.
Com um pequeno giro, direcionou-se ao centro. Mesmo a essa hora, os bares estavam cheios com homens apostando todos seu dinheiro em jogos, de mulheres procurando de forma mais fácil o seu ganho... Não mudará em nada em todos esses anos. Humanos continuavam... Podres. “Bar do Nelson” leu atenciosamente a um deles, um dos mais movimentados percebera com o tempo, via sempre na mente de seus clientes que a cerveja era a melhor, a mais gelada. Deprimia-se ao fato de não poder mais tomar nenhum tipo de bebida humana. As especiarias contendo o álcool havia tornado-se grande amigo seu após a perda de sua esposa e dois filhos, não que houvesse morrido. Mas uma mulher merece mais que a um homem ausente às 24 horas do dia.
- O que deseja?
Sobressaltou-se ao ouvir a voz, não havia se dado conta de que entrara no bar e muito menos sentar em uma das cadeiras que davam para o balcão em frente a prateleira de bebidas... Esclareceu a garganta.
- Estou... Esperando alguém. – Sua voz soara rouca ao seus ouvidos, desde de sua “morte” perdera o habito de falar, as vezes, pensava que não seria mais capaz de formular uma oração sequer. Não sobrou muita gente a quem conversar. Seus amigos, se podia chamar companheiros de trabalho assim, não sentira sua falta, nunca havia tentando incluir-se no circulo de amizade que parecia haver no antigo escritório, estava ali apenas fazendo o que era designado, proteger legalmente aqueles que pagavam por isso.
— Esperará por pouco tempo então, estamos fechando.
Olhou ao humano com certa descrença, havia ali ainda dois pares de dúzia de clientes e nenhum aparentava estar para ir embora. "Está desconfiado" o pensamento cruzou-lhe a mente como se não fosse dele. Sua aparência podia não ser das mais gloriosas, com barba por fazer (surpreendeu-se a primeira vez por saber que ainda teria de lidar com isso), seus cabelos bagunçavam-se querendo formar ondulações, mas ainda muito curto para isso. Sua pele adquira um tom pálido, sabia que sua boca era o que chamava atenção, de um vermelho vivo que contrastava junto com os olhos de um azul profundo com sua pele. Não havia muito que fazer quanto a isso. A estética de um vampiro era algo que não mudava tão facilmente, apenas quando passava dias, semanas ou até meses sem comer. Não no sentido literal...
- Que horas são?
-Tens um relógio. – Afirmou como se não soubesse.
- Esta parado. – mentiu.
Olhou a Darius com desconfiança em seus olhos e depois passou o olhar para o relógio em seu pulso. Com um pequeno grunhido olhou as horas.
- 04:23. – virou-se irritado e suspirou. – Então, espera alguém há essa hora? Não aparenta ser desses que precisa pagar por prazer.
Sorriu com malícia. Não era nada que ele imaginasse.
- Não.
"Certeza?".Olhou para trás, a voz sussurrou em sua mente. Certeza? Somente alguém como ele poderia fazer algo assim. Entrar em sua mente e implantar pensamentos. Suspirou profundamente, era improvável que perto dali houvesse outro maldito como ele, saberia isso. "Improvável, mas não impossível", sussurrou novamente a voz, feminina e suave. Como há uma noite de dez anos.
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