Oculto
3 Um Toque de Humanidade.
"O senhor deveria procurá-los."
Judie, a anciã que estava presente em sua família antes mesmo de nascer disse-lhe certa vez. Essa frase não saia de sua cabeça, por que deveria procurar aqueles que lhe abandonaram?
"Ela sentia sua falta, assim como o senhor sente dela."
"Por que foi embora?"
Ela apenas havia lhe soltado um olhar triste. Tinha ido embora por que era um homem ausente, apenas. Ainda sentia falta de sua ex-esposa, Beatrice embora fosse algo que não se permitisse sentir já que a culpa era inteiramente sua.
Despertou com esse pensamento lhe rodeando a mente como fez diversas vezes durante a década passada. A solidão envolvia-lhe até mesmo em sonhos, e tudo que ele conseguia com isso era o breve pensamente de que, o motivo de continuar aqui era somente para atormentar sua alma e mente por tudo que fez, se é que ainda havia uma alma para prezar. Uma vida como advogado por treze anos não lhe fez nenhum mal, portanto nenhum beneficio alem de um salário rechonchudo, e dinheiro era o que mais lhe trouxe a infelicidade de perder aos que amam...
Iria procurá-los, decidiu pondo um fim em uma rebelião que começava em seu interior. Não poderia aparecer a eles simplesmente, mas acompanhá-los de longe não traria prejuízo a ninguém.
Seus caninos abriam caminho por sua fileira perfeita de dentes. Mais uma noite como qualquer outra, sem nenhum sinal de salvação para si mesmo. Saia lentamente de sua cômoda ataúde, o galpão totalmente envolvido na escuridão não lhe incomodou, por um tempo procurou um local isolado onde ninguém mais pensava que conseguiria usar para algo. Uma antiga construção feita por paredes descascando, a tinta não resistindo mais a fatores externos. Um lugar triste, pensara a primeira vez que viu. Triste e perfeito para ele. Era apenas um galpão grande e cheio de entulhos de materiais para construções, e em um canto escuro dormia ele. Por dez anos,incomodava-se com isso. A pequena garota que lhe fizera isso durante esse tempo não lhe Dara a cara ao menos uma única noite. Transformara a ele e o largara como um qualquer, no beco em que o encontrou. Vivia apenas para lhe encontrar, e perguntar o porquê. Estava começando a temer que esse dia chegasse.
Com um pequeno solavanco, pôs-se a sair do abafado deposito, “a noite é uma criança” como diria Judie. Perguntava-se como terá sido sua morte, não desejava mal nenhum a mulher que havia lhe criado em vez de sua mãe. Ao chegar ao centro, deparou-se com vários carros de policia. As, porem, não tinha nada de diferente para o horário, era como se todos os habitantes locais resolvessem estar no mesmo local. Dessa vez todos movidos pela curiosidade.
“Um corpo foi encontrado com a cabeça decapitada, hoje pela manhã na ruaschirmer. Autoridades locais acreditam que essa seria mais uma vitima do mesmo assassino de mais outras mortes, todas vitimas mulheres..."
Não havia reparado que matou apenas a mulheres, afastou-se do local dirigindo-se a mesma rua qual a repórter dirá para o noticiário. Apenas por impulso. Não demorava para chegar ali, por vez que usasse a sua habilidade em locomover-se com mais rapidez, agradecera a isso. Odiava dirigir a automóveis para chegar onde queria, eram sempre mais indiscretos, passar-se despercebido era algo vital para ele agora e sempre. Não sabia de nenhuma lei vampiresca, mas uma coisa era certa, se até agora humanos acreditavam ser apenas algo fictício então não seria ele a lhes trazer a verdade.
– Vanessa? Onde você esta sua cadela? Não pense que vai fugir tão fácil assim.
Aguardou um momento para que o homem que gritava com uma pequena faca em mãos o visse. Não esperava encontrar alguém ali, muito menos um homem.
– Anda. Não vou perder todo meu lucro de sábado por sua culpa. – Deu um salto em direção a Darius, e a dez passos do mesmo parou, ficando subitamente imóvel assim como o farejava o medo em suas veias. – Quem é você? O que faz aqui? – A grosseira em suas palavras incomodou ao vampiro, não deixaria que um mortal dirige-se assim a ele. – Gato comeu sua língua? O que você fez a Vanessa?
Apontou-lhe a faca, a raiva brotando em seus dois olhos tom mel. Cuspiu no chão e aproximou-e desferindo-lhe um golpe.
– Anda porra, estou falando com você.
Sem esperar uma resposta voltou a atacar, nenhum golpe atingindo seu alvo apenas servindo para cansar ao humano. O vampiro sem muito esforço para esquivar, dando apenas uma inclinada para a direita ou esquerda, depois de alguns minutos cansou-se e com um leve sorriso estendeu a mão erguendo o homem pelo pescoço. A faca caiu ao chão, seus olhos quase pareciam saltar de suas órbitas, apertou mais quase sentindo os ossos esmagarem-se em dentro no homem. Com a pressão, sangue escorreu de sua boca, os dentes lutando para sair-lhes da gengiva.
– Eu não sei de Vanessa nenhuma.
Disse quando finalmente a cabeça lhe desprendeu do corpo. A mesma rolou até os pés descalços, deu-se conta na hora. Não recordava alguma vez ter ao menos trocado de roupa, aparentava mais ser um morador de rua...
– Pyt? – Soou uma voz feminina. Avistou a uma garotinha vestida apenas com um manto sujo que não lhe cobriam quase nada, seus cabelos dourados eram curtos e estavam sujos de algo que parecia ser graxa e sangue, seus olhos grandes e azuis demonstrava confusão e medo. Quando avistou ao homem em pé a um corpo degolado deu um grito pôs-se a correr.
– Merde.
Alcançou-a em um piscar de olhos, agarrou-a pelos braços magros tentando evitar que seus chutes atingisse a ele. De seu nariz levemente arrebitado escorria sangue em uma fila reta, sua boca inchada e com hematomas. Deveria ser a garota que o homem antes procurava Pyt. Recordou o nome que a menina usou para lhe chamar. Quando finalmente parou, pôs a menina no chão, sem tirar suas mãos de seus braços, agachou-se até ficar de sua altura. Respirava ruidosamente, chegando a emitir alguns chiados às vezes... Estava chorando.
– Por... Fa... Favor.
Seus corpo tremia violentamente. Por um longo momento apenas a olhou, confuso e perdido. Tudo nela começava a lembrar a sua filha mais vela de doze anos, Cassanda. Fitou-a tristemente. Quando parou de chorar, secou-lhe as lágrimas de sua bochecha e sorriu.
– Vanessa, certo?
Olhou-o temerosamente e depois assentiu. Tinha os olhos fixos em sua boca que com um sorriso fraco revelava seus perfeitos dentes.... E os caninos estendidos denunciando sua fome que rebelava-se, a principio, com pequenas câimbras no estomago. Nada que não pudesse suportar.
– Seus dentes. — Fechou os olhos e inalou o ar, mesmo para um humano o aroma do sangue era bastante perceptível. — Vai me matar?
– Não costumo poupar vidas, Vanessa. Mas você me lembra alguém, e isso... — Pressionou levemente o dedo em seu nariz, atento a qualquer reação que tivesse. Deslizou o dedo pelo sangue que escorria por ali e levou a boca... Doce, embora não muito fresco. A fome aumentou. — Isso lhe salvou por hoje.
Sorriu. Estava quase se acostumando a fazer isso ultimamente, o prazer da vida retornando... "Não". Sobressaltou com a força dessa palavra em sua mente. Não havia prazer na vida, muito menos na morte.
– Não está com medo.
Da pequena Vanessa, sentia cheiros diversos, mas não o medo. Franziu o cenho para a garotinha. Estava agora se distinguindo de sua filha que temera até os próprios gritos.
– Eu tinha medo, do Pyt. Mas você o matou. — Em seus olhos ainda haviam desconfiança em aceitar o fato como prova do medo que sentia pelo morto. Quase parecia aliviada. — Ele era um cara mau. Obrigava-me a fazer coisas que não queria. — Soltou-se de seu forte aperto co dificuldade e ajeitou o cabelo mesmo que não houvesse alteração nenhuma nisso, continuou. E estendeu-lhe a mão. — Você vai me obrigar a fazer coisas que não quero?
– Perdão?
Piscou confuso. Achava que a levaria com ele? Perguntou-se aturdido, poupara-lhe a vida, mas não a carregaria consigo.
– Como nas histórias, você matou o homem mau. — As lágrimas começavam a formar em seus olhos. Levantou-se com um salto, deixando-a assustada com sua velocidade.
– Não sou bom.
– Disse que não me mataria.
– Sim, mas não a levarei comigo.
– Posso contar a policia o que você faz. Pyt estava furioso que suas mulheres estivessem morrendo, você fez com ele o que aconteceu com elas.
Seu sorriso triunfante o pegou de surpresa. Não era a primeira vez que se deixava levar por uma carinha inocente. Havia inteligência ali e não estava disposto a saber até onde iria.
– Quantos anos têm?
– 12.
– Onde estão teus pais?
– Eles morreram.
– Como veio parar aqui?
– Você tem uma casa?
"Sim, tenho. Mas não moro la há dez anos".Pensou, sem dar voz as palavras.
– Lhe fiz uma pergunta.
– Eu também.
Ergueu seu nariz, e olhou-o presunçosamente.
– Se quiser viver, garota. Fará o que quero, e neste momento quero que me responda a pergunta que lhe fiz.
Vacilou por um instante. As lágrimas só então vieram a tona.
– Podemos ir a sua casa, senhor? Os outros vão notar que fugi.
Com um suspiro pôs-se a andar. Arranjaria um fim para a pequena, nem que tivesse de mata-la, sabia o que ele havia feito. Não estava de fato sujeito a sua ameaça, mas essa era uma oportunidade de mudar sua maldita rotina adquirida em décadas. Seria uma distração interessante até que se cansasse e lhe fizesse o que era da sua natureza, alimentar-se de seu sangue.
– Qual seu nome?
– Darius.
– O que você é?
Parou abruptamente, sentindo o impacto da queda dela em cima dele. O que ele era? Riu maliciosamente.
– O homem que todos temem.
– Seus dentes...
– Sim, um vampiro.
– Besteira, vampiros não existem.
– Então, dê-me uma definição para isso.
Agarrou rudemente seus cabelos dando-lhe um puxão para trás, seu pescoço descoberto o fez salivar, podia ouvir o sangue fazendo sua travessia por seu corpo frágil, o coração palpitando com o medo. Mostrou lhe os dentes prontos para adentrar em sua carne como uma forma de provocação, sentiu suas lágrimas quentes tocar seu braço. Seu corpo tremia, bem... Isso só tornaria as coisas mais dolorosas, pensou ao afundar-se a sensação do sangue em sua boca, não a mataria por agora, apenas amostraria que deveria temê-lo. "Sabia que não me decepcionaria, filho".Sussurrou a voz em sua mente. Atormentando, largou a menina ao chão e procurou freneticamente alguém que estivesse ali, uma garota um pouco mais velha que a Vanessa que chiava histericamente enquanto sangue derramava-se no chão. "Por que deixá-la viver?"
– Diga-me você.
Rugiu para o alto, não obteve nada em resposta. Deixou-se cair sobre os joelhos, não queria que lhe invadisse a mente e o condenasse a um homem louco, apenas queria que aparecesse a ele e lhe por um fim das dúvidas. "Mate-a. Terá suas respostas em breve.".
– Não.
Agarrou a menina que jazia inconsciente no chão úmido. Não a mataria, essa seria sua forma de rebelar-se contra o que havia crescido em dentre dele. "Isso sou eu, Darius. Quem te fez. Não pode lutar contra mim, logo descubrirá isso".
– Veremos.
Não esperava resposta, assim como no fundo fora todo esse tempo. Com um salto atingiu o alto do prédio mais próximo, as coisas a partir daquele momento sairiam conforme o seu desejo.
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