Ocean Motion
8 Capítulo 7 - Paranoias
Notas iniciais
Paranoias
Os dias passaram depressa. Entre paranoias de perseguição na saída do condomínio e almoços testando Alice sobre a reação dos familiares, chegamos ao sábado pela tarde com um suspiro de esgotamento.
—Promete não contar para ninguém, Allie? – supliquei mordendo o lábio inferior.
—Sempre contamos as coisas uma à outra, Bella! Eu não tenho segredos escondidos de você, tenho? – seus grandes olhos violetas pareciam inocentes. Inocentes demais. – Okay, tenho segredos com você, mas se você contar sobre Thony, eu conto o meu segredo mais obscuro.
Suspirei e deixei-me cair sobre a cama.
Estávamos na casa dos Cullen. Alice me chamou para dormir lá porque acreditava que a buscas seriam mais frutíferas se pudéssemos juntar todos os pedaços da história e eliminar alguns suspeitos pelas redes sociais antes de testar uma busca em campo na manhã seguinte.
—Prometa que não falará nada para ninguém! – ordenei. Como promessa, ela beijou os dedos cruzados. – Thony nunca foi meu namorado. Éramos crianças e antes de eu sair de Chicago ele prometeu que me buscaria em Forks quando crescêssemos.
—Você não disse que morou aqui, Bella – a baixinha franziu o cenho.
—Sério, Alice? – bufei. – Essa foi a primeira coisa que te contei quando viramos amigas! Onde estava a sua cabeça, hein?
—Uau, desculpe-me, não guardei a informação porque não achei que era tão relevante! – desculpou-se erguendo as mãos. – Mas então, quantos anos vocês tinham? As características? Qualquer coisa que possa me ajudar aqui! Espera um pouco, você disse que se lembra da rua dele?
Tomei uma respiração profunda antes de dar alguns dos detalhes à minha amiga. Expliquei que não me lembrava exatamente o nome da rua, mas meus pais tinham guardado algumas cartinhas que eu escrevera naquela época. Também havia alguma conta, se não me engano. Eu trouxera apenas uma das cartas que encontrei aos 19 anos e acabei guardando tão bem guardado que perdi dentro de casa. Falei que meu amigo tinha três anos a mais do que eu e seus olhos eram azuis.
—Amiga, você não está descrevendo meu irmão montando seu amigo aí, não é? – instigou Alice. – Porque, se você está fantasiando que Edward é seu amigo, você está ferrada. Ele não é daqueles de manter esse tipo de promessa, não! Desde que o conheço, ele jura que não se apaixonará.
—Ficou louca? – questionei jogando uma almofada nela. – Por que eu estaria procurando por seu irmão? Eu conheço o Edward e tenho certeza de que não é porque uma pessoa não muda de doce e romântico para pervertido sem escrúpulos assim. Além do mais, não podemos esquecer a Liz.
—Ah, sim, a encantadora Liz! – debochou Alice, revirando os olhos.
—O que estou vendo aqui? – estreitei os olhos e cutuquei seu braço. – O monstrinho do ciúme está possuindo minha melhor amiga?
—Não – ela cruzou os braços. – Só acho que você fala muito bem dessa menina e nem sabe se ela continua assim. Na verdade, pode ser que ela nem se lembre da sua existência, portanto, ciúmes da minha parte seriam infantis e sem fundamento!
Eu ri, lancei-me para Alice e a apertei num abraço que nos fez cair deitadas na cama dela. Assim que conseguiu me empurrar para longe, gritando que eu era louca e que não fazia o seu tipo, a baixinha agarrou o laptop e o carregador do aparelho antes de se dirigir para fora do quarto gritando meu nome.
Acabei dormindo no antigo quarto de Edward por cansaço. Minha amiga foi para o quarto do irmão porque aparentemente o desktop dele era melhor que seu pequeno eletrônico de última geração. Tentei contestar, mas não deu muito certo. Bem no fim, eu peguei no sono na cama de casal ali posta com o laptop aberto ao meu lado. As buscas estavam bastante infrutíferas e o dia cheio me abateu sem que pudesse assimilar que estava no quarto errado da casa dos Cullen.
E acordei com gritos do lado de fora. Edward abriu a porta, embora ainda crucificasse Alice.
—Não acredito que você fez isso – rosnou.
Encarei-o confusa com sua reação. Primeiro que nem sabia a hora, então, nunca que eu imaginaria qual a razão dessa ira toda. Não era como se eu tivesse feito xixi na cama dele. Minha amiga apenas olhou para mim suplicando um pedido de desculpas.
—Ah, pare com isso, olhe-me nos olhos! – Ordenou para ela. – Ela está na minha cama e você manchou todo o tapete com pizza e vinho! Quantas vezes eu já não falei que nenhuma garota poderia dormir na minha cama, Alice?
E então o que já não fazia sentido, ficou ainda pior. O que ele tinha a ver com a cama que mal usava na casa dos pais? O tapete manchado até concordava ser um problema, mas eu dormir na cama não fazia mal algum. Nem cheiro dele tinha aqui dentro! Só para não dar o gostinho da vitória, voltei a me cobrir e virei para o outro lado disposta a ignorar o homem na porta.
—Alice, leve sua amiga para casa, ela não é bem-vinda aqui. Essa casa também é minha! E, por mim, ela não FICA! – ele gritou as últimas palavras pontuando cada uma.
—Sou filha também! – enfatizou Allie. – Tenho meu direito de colocar aqui dentro quem eu bem entender!
—Ah, poupe-me! – zombou ele. – Você sabe das regras! Sem consenso da família, ninguém fica! Nem namorado, nem amigo, nem mesmo um cachorro! Então Isabella está fora!
—Cresça, Edward! – rugiu a baixinha.
—Cresça você! Sabe que a casa é minha. Eu sou o l... mais velho – interrompeu-se.
—As coisas não funcionam mais assim, antiquado! Tenho tanto direito à casa quanto você! Metade para cada um! E se não aceita isso, vá para o seu precioso apartamento!
Furioso, percebi seus passos na escada e a porta da frente bater. Virei-me para minha amiga que se encontrava sentada na cama e olhava para a porta.
—Não se preocupe – ela sorriu. – Logo o paspalho volta e pede desculpas.
Aconteceu quase isso, eu diria. Edward voltou para explicar que exagerou. Deu algum motivo esfarrapado para estar ali pelo segundo domingo consecutivo e fez de tudo para que Alice não seguisse o plano de encontrar Thony pelas ruas. Para mim, apenas uma olhadela significativa com relação ao assunto. O segredo mais obscuro de Alice foi o primeiro beijo tirado por Jasper.
—Você é uma burra, Swan! – Edward esbravejou quando mencionei estar a par da segurança excessiva sobre Esme e Alice. – Abre a boca só para falar o que não deve!
—Quem você pensa que é para falar assim comigo? – retruquei no mesmo tom.
Depois que Edward pediu desculpas pela explosão de raiva, os ânimos voltaram para a maioria dos que estavam na casa. A maioria porque meu vizinho tinha o semblante fechado e sua mãe olhava com desconfiança para nós dois. Não que ela deixasse transparecer muito, todavia estava atenta a qualquer passo meu ou de Edward e foi isso que desencadeou o mau humor do rapaz e o fez segurar em meu braço para me guiar até seu maldito quarto novamente.
—Sou o homem que é obrigado a aturar sua presença todos os dias de domingo a domingo!
—Oh, cuidado! – alertei com zombaria. – Quem escuta, entende que moramos na mesma casa!
Estávamos batendo boca frente a frente. Eu com o pescoço erguido e ele rosnando baixo. Poucos centímetros nos separavam e a família se preparava para almoçar no andar de baixo.
—Deus me livre!
—Mas saiba que só atura minha presença porque quer! – lembrei-o com acidez. – Se tivesse me demitido antes, eu teria voltado para minha cidade e você não precisaria me ver tanto!
Ele não me respondeu de imediato. Seu rosto ficou muito mais vermelho do que já estava e seu olhar mais agressivo. Talvez fosse algo de minha mente, porém eu podia ouvir um chiado raivoso subindo por seu peito.
—Nunca mais repita isso – rosnou. – A Ocean só sobrevive porque você está lá dentro.
Depois disso, ele saiu marchando para fora da casa de seus pais.
Suas palavras atingiram o objetivo, porque eu estava no quarto dele, na casa dos pais dele, como parte da família dele e participando das coisas que ele geralmente deveria participar. Eu era convidada oficial de sua família. Sem mim, não havia festa e jantar de família. Pelo menos era o que afirmavam.
As lágrimas se apossaram de meus olhos, sentei-me na cama que havia ali e chorei copiosamente. Ele tinha razão sobre a Ocean também. Aquela empresa só funcionava comigo lá dentro. Eu quem mandava o serviço para o restante da fábrica. Sem mim, agora, a Ocean não poderia subsistir por mais de dois dias. E isso era horrível, pois eu não aguentava mais tanta dependência.
—Eu quero a minha casa! – choraminguei baixinho.
—Bella, você está bem? – Alice bateu na porta e foi entrando lentamente. – Não está chorando por causa do babaca do meu irmão, não é?
Funguei um pouco e olhei aquela imensa cabeleira preta ao redor do ponto branco que era seu rosto.
—Eu sinto muito. Não devia estar aqui nessa casa e...
—Nem pense em terminar essa sentença de palavras, Isabella! – ela me cortou imediatamente. – Você é convidada dos meus pais e casa não é do Edward. Ele não pode interferir nos convidados dos nossos pais desde o dia em que saiu de casa para viver a vida dele.
—Mas eu o deixo desconfortável com minha presença.
—O problema é todo dele, Bella – ela sentou-se ao meu lado e afagou minhas costas. – Se você for embora agora, tanto Carlisle quanto Esme e eu nos sentiremos ofendidos. Você é praticamente da família, Bella! A irmã que eu nunca tive.
—Ah, mas seu irmão não segue essa mentalidade. Edward me odeia.
Ela soltou um risinho bobo e levantou-se. Então, de frente para mim, pegou meus braços e quase me deixou sem eles ao tentar me erguer. Logo conduziu-me para o banheiro de seu irmão, obrigou-me a lavar o rosto, passou um produto estranho em mim e sorriu.
—Novinha em folha. Só não chore mais, senão estaremos ferradas.
—Que troço foi esse que você empastou minha cara? – reclamei assim que o produto foi impregnando em minha pele. – E, para que seu irmão teria uma coisa assim no quarto dele?
—Uma pasta que funciona. – deu de ombros. – Edward comprou para mim na Índia, mas esses dias precisou emprestado e esqueceu de devolver. Como é minha, uso em quem eu bem entender. Agora vamos porque a mesa já deve estar posta e eles estão esperando apenas nós duas.
Ela estava certa. Quando descemos, todos nos esperavam sentados com os pratos vazios e a mesa posta. Edward nem me olhou enquanto seus pais abriram sorrisos de compreensão e conforto. Sorri de volta para aquele casal tão bondoso.
Carlisle e Esme eram o que eu tinha de apoio quando necessitava de conselhos e colo. Por meus pais estarem longe, era a eles que eu recorria. Lembro-me das inúmeras vezes que Edward fora posto para fora de casa quando eu entrava correndo em prantos e abraçava um deles. Preocupação não é o forte do filho deles. Alice era a herdeira dessa qualidade. Olhar para minha amiga — a minha direita — fez-me lembrar das razões para eu não ter largado tudo e sumido do mapa.
Assim que nos servimos e começamos a comer, Carlisle tentou puxar conversar.
—Quando conheceremos a próxima da lista, filho?
—Eu tenho que ver com Rosalie qual seria – respondeu o mais novo dando de ombros. – Agora, a maioria tem parceiro e as outras não são dignas.
—Já chegou a vez dela, meu bem? – Esme indagou despreocupadamente.
—Ela não possui vez – rosnou. — Sequer está na lista, mãe.
Angela já havia mencionado a tal lista e eu até tinha pensado que nunca chegaria minha vez. Quantos anos eu estava na Ocean e tudo o que ele fez comigo foi gritar e reclamar?! Todavia, ouvir isso da boca dele, deixava tudo mais concreto, mais real. Perceber o que aquelas palavras significavam mexeu com meu inconsciente de forma negativa. Em algum lugar do meu cérebro, sem querer, eu nutri a esperança de que meu dia chegaria e eu o faria sentir raiva de si mesmo por ter me maltratado verbalmente por tanto tempo.
—Fecha a boca, Bella! – Alice cutucou meu braço em brincadeira. Algo em minha face a fez olhar mais de perto e questionar preocupada: – O que aconteceu?
Um silêncio inquietante atravessou a mesa enquanto toda a atenção dos Cullen era voltada para mim. Fulminei-a com o olhar antes de sorrir aos outros um pouco forçadamente.
—Só estava pensando em meus pais – dei de ombros, mentindo. – Faz tanto tempo que não os vejo! Minha mãe tem me questionado sobre a possibilidade de eu visitá-los em dezembro.
Esme e Carlisle sorriram complacentes para mim, enquanto a atenção de Alice foi para Edward e ele descobriu que a comida era mais interessante.
—Já pegou suas férias vencidas, meu bem?
—Ainda não, Esme – suspirei. – Eu não imagino como a empresa pode andar se me ausentar por mais de dois dias – fiz uma careta ao lembrar das palavras de Edward mais cedo. – Até porque ninguém sobrevive sem a Swan lá para dizer o que deve ser feito ou não.
Enquanto falava, revirei os olhos algumas vezes e arrumei o macarrão no garfo, como quem não se importasse muito sobre a decisão do chefe. Alice soltou um bufo e voltou a comer. Minha amiga já dissera milhões de vezes que assinou minhas férias, mas quando apresentava a situação para Edward, acabava com os papéis rasgados e gritos sobre a ineficiência de meus substitutos.
—Que bom que sabe – imaginei ter ouvido Edward falar, mas não pude ter certeza.
—Que exagero, querida! – Carlisle se manifestou, sem parecer ter ouvido o que o filho dissera, com um grande sorriso. – Edward lhe dará as férias no instante em que você quiser, tenho certeza, é só pedir para ele, não é, filho?
Como resposta, o rapaz apenas assentiu brevemente, mas eu o conhecia o suficiente para dizer que não seria bem assim. Carlisle se deu por satisfeito com a resposta e continuou:
—Quantos anos você possui de empresa? E quantas vezes tirou férias?
—Não consigo mais me ver voltando para Forks nem para visitar – dei de ombros.
Era uma grande mentira, mas parecia ser contra as regras sociais falar para o pai do seu chefe que o tal estava agindo em contradição à lei ao me entupir de serviços impossibilitando de tirar férias. Até porque, se eu as exigisse, usaria meu tempo livre para procurar outro emprego. Não que não gostasse da Ocean, porém Edward era um saco como chefe e vizinho.
Acho que o chato percebeu a mentira, pois retorceu o canto dos lábios e ergueu uma das sobrancelhas. Obviamente, sua cabeça continuava como se olhasse a comida do prato, mas foi intimidante. Como instinto, baixei minha cabeça também e enchi o garfo com o spaguetti maravilhoso da Esme.
O silêncio voltou a reinar na mesa. Até que, ao final da refeição, Alice levantou-se num salto.
—Edward lava e Bella seca – declarou rapidamente. – Todo mundo de acordo, beleza, fui.
E saiu correndo na maior cara de pau. Pisquei algumas vezes para tentar entender que minha melhor amiga estava me usando para se safar da louça. Edward gemeu e jogou a cabeça para trás, resignado com sua tarefa. Carlisle olhou condescendente entre nós dois e começou a recolher suas coisas, já amontoando seu prato com o de Alice.
—Não precisa se incomodar, querida – disse Esme com afeição. – Edward pode fazer isso sozinho. Afinal você trabalha tanto durante a semana e sua casa deve lhe dar um trabalho tão grande!
—EI! – reclamou meu chefe, cruzando os braços. – Não vou fazer nada sozinho, mãe! Trabalho o mesmo tanto que a Swan e minha casa tem o mesmo tamanho que a dela!
O mais incrível é que um homem daquele tamanho ainda fazia beiço para amplificar sua expressão de descontentamento. Parecia uma criança mimada. O que me deu vontade de rir.
—Edward, comporte-se como homem feito! – Carlisle ralhou. – Isabella é visita!
—A Alice não é – pontuou o outro.
—Edward, não comece – Esme olhou enviesado para o filho.
Ele bufou, levantou-se recolheu os pratos e talheres e saiu em direção da cozinha. Assim, todos nós nos levantamos e, enquanto os outros iam para a sala de estar, comecei a retirar a mesa.
—Bella, pode deixar aí – Esme instruiu sorrindo para mim.
—Melhor ajudar – dei de ombros. – Podem ir descansar, eu cuido do resto com o Edward.
Essa resposta surpreendeu aos donos da casa, mas desobedecer a Alice estava fora de negociação. Além do mais, tinha a esperança de que poderíamos trabalhar em conjunto como nos sábados. Fora que poderia pegar no pé sobre a lista e sobre as brigas de mais cedo. Sério, o cara nem tinha falado para ninguém que eu sabia sobre o Instituto tampouco por que isso era relevante!
Ao entrar na cozinha, Edward estava com os braços cheios de espuma e os olhos fixos na pia enquanto seus lábios se moviam em murmúrios incompreensíveis. Dei umas batidas na porta aberta para anunciar minha presença, coloquei a louca que carregava ao seu lado e já fui pegando o pano para secar o que estava escorrendo.
—Não devias estar descansando? – resmungou.
—Por que se importaria? – retruquei tão acidamente quanto ele.
—Por que fazes tudo o que te mandam? – retrucou erguendo a sobrancelha.
—Porque não tenho mais o que fazer – dei de ombros, logo soltei um sorriso debochado – e estava ficando com saudades de te ver.
A risada dele ecoou pelo cômodo. Então parou de lavar as peças e me encarou.
—Acredito que isso signifique que você tenha consciência da lista – declarou. – Ora, por que não me surpreende?! Desde quando? E por que nunca me disse?
—Não vejo como isso possa ser da sua conta, já que meu nome nunca esteve nessa lista – pontuei com a mesma resposta que ele dera na mesa. – E nunca estará, não é mesmo?
—Não.
—Ótimo. Era exatamente o que eu precisava saber.
E voltei minha atenção aos pratos, tentando não ficar triste pelo fato de que o homem que eu tecnicamente odeio nunca ter imaginado sair comigo. Não é como se eu fosse aceitar o pedido, mas machuca saber que nem sequer foi cogitada a ideia. Eu não era uma má pessoa. Certo que nunca cheguei a namorar, por causa do Thony, contudo podíamos fazer como Angela e sair como amigos.
—Diga-me uma coisa, Isabella – ele pediu puxando meu braço e fazendo com que meu corpo se aproximasse consideravelmente do dele. – Se eu lhe pedisse para passar o final de semana comigo, sem compromisso, você o faria?
Considerei a ideia por alguns segundos. O que ele queria dizer sobre sair sem compromisso? Levar para jantar fora? Tomar café e conversar sobre a vida? Chamar o outro quando tem problemas em casa, como uma queda de energia no prédio? Já éramos assim.
—Eu já não faço em quase todos os finais de semana? – questionei olhando em seus olhos.
—Não dessa maneira – revirou os olhos, atordoado por um instante. – Você sabe. Estou querendo saber sobre ter relações comigo. Sem compromisso.
A ficha caiu lentamente enquanto eu analisava a situação. Aparentemente, o homem era bom no que fazia, mas eu não tinha nem começado com os beijos direito. Depois, eu era aquela que fora adotada verbalmente pela família dele e teria a imagem exposta para Rose e Alice. O que, claramente, cairia nos ouvidos dos pais Cullen. Esme e Alice já imaginavam nossa vida juntos, não quero nem pensar no que seria planejado se soubessem que acabamos “saindo” alguma vez. Pior, nossa relação já é amor e ódio durante a semana, não consigo imaginar o que aconteceria se isso mudasse completamente no final de semana. Eu morreria de vergonha dele, no mínimo!
—Edward, com que cara eu olharia para você na segunda-feira? Ou, pior, que classe eu iria mostrar aos seus pais no evento seguinte?
Seus olhos se arregalaram e ele me soltou bruscamente, começando a andar pela cozinha. A louça completamente esquecida cheia de espuma dentro da pia. Suas mãos pingando água pelo chão.
—Então, se não fossem esses fatores, você o faria – não era uma pergunta. – Se você não precisasse parar ao fim de domingo, você gostaria de passar o final de semana comigo? – e finalmente fitou-me com algo que parecia muito com ansiedade no olhar.
—Que raio de pergunta é essa? – guinchei. Não parar no final de semana? Já era difícil ficar dois dias sem brigar, imagina passar mais tempo do meu dia com ele? – Como assim, não parar no fim de domingo? E, quem disse que eu o faria se não fossem esses fatores? Esqueceu que nos odiamos? Edward, você bateu a cabeça? Essa conversa parece um pedido de namoro! Namorar é a última coisa que pode nos acontecer!
—Desculpe-me, eu me esqueci desses detalhes. Obrigado por me lembrar.
E ele voltou aos seus afazeres com uma raiva no olhar que era inexplicável e um silêncio absurdo. Por isso, consegui terminar minhas tarefas em silêncio. Todavia, meus pensamentos voavam cheios de perguntas que chegavam na ponta da língua, mas não saíam.
O que ele queria com toda aquela conversa? O que aquilo significava? Por que essas perguntas agora? O que mudou? Ele realmente estava pensando em sair comigo? Edward queria dar corda ao falatório das mulheres da família dele? Ou queria fazer com que eu me sentisse incluída nas conversas entre suas conquistas? Será que ele nunca pensou que as putas dele não eram vizinhas?
Mas também... Por que meu nome não constava na lista tão amada das mulheres da Ocean? Por que ele achou que eu nunca saberia da lista? Por que eu soube dela só agora? Era tão estranho que Alice, Rosalie e Esme nunca tenham sequer cogitado algo! Contudo, se cogitassem, o que mudaria a respeito da imagem que eu tinha dele? Sempre soube que ele fazia rodízio, mas nunca imaginei que pudesse haver uma lista. Na verdade, por que ele fez uma lista? Não era só chamar qualquer uma?
Eu não entendia mais nada e Edward nunca falaria. Por isso, decidi que era melhor voltar para casa antes que mais dúvidas aparecessem em minha mente. Assim que terminei de secar louça e guardar tudo, fui me despedindo dos Cullen e indo em busca de dinheiro para o ônibus. O que se mostrou desnecessário, já que Edward também decidiu voltar para casa e me deu carona.
—Está tentando me fazer mudar de opinião sobre sair com você? – brinquei entrando no carro.
—Um dia você pode se surpreender, Swan – ele disse assim que deu partida.
Aquela frase me deixou arrepiada, mas Edward não percebeu. Apenas colocou uma música agitada para fazer o caminho da volta, tornando o clima mais ameno do que o da cozinha.
Não preciso dizer que ele apenas me levou até o portão e depois saiu para os braços de uma qualquer da empresa. Porque é algo que já se esperava de seu comportamento de canalha. Mesmo assim, sussurrei um "não volte muito tarde" enquanto saía do carro e fechava a porta. Ele olhou para mim, deu uma piscadela com o sorriso torto e arrancou com tudo o Volvo prata.
Assim que cheguei, joguei-me na cama e deixei o sono me levar. Algum tempo depois, senti meus sapatos sendo retirados, algo me ajeitando na cama e me cobrindo com direito a beijinho na testa. Um perfume conhecido encheu meus pulmões e o hálito quente fez minha pele formigar.
Despertei com a batida de porta do apartamento ao lado. Edward voltara. Aquela sensação de que algo não estava certo atingiu-me como uma flecha. Olhei minhas coisas, tudo no lugar, porém, não lembrava o momento que chutara meus sapatos e me cobrira. Afinal, eu ainda não tinha tomado banho! Isso foi corrigido imediatamente.
Assim que saí do chuveiro, olhei para o relógio e constatei que dormira demais. Era praticamente hora de dormir mais uma vez, por causa do trabalho na manhã seguinte. E por isso, domingo não era um dos meus dias preferidos. Antes de voltar para a cama, dei uma checada na casa. Ah, beleza, a porta não estava trancada. Algo meio insignificante, já que ninguém parava nesse andar a não ser o Edward ou a sua família. Sem me preocupar, tranquei a porta e fui atrás de cereal com leite para jantar.
—Mas o quê?! – ouvi Edward gritar. – Como inferno você chegou aqui, Alison? Fora da minha casa! Saia! Não! Poupe sua saliva para quem acredita em você!
—Você me convidou! – ouvi uma voz feminina insistir.
A porta da frente dele foi aberta e as vozes ficaram mais claras. Edward abrandou o volume, mas a voz ainda era cortante quando ele continuou:
—Nenhuma delas vem para minha casa. É a segunda regra! Não apareça mais na minha empresa. Lembrarei Alice de contactar você em algum momento da semana. Agora, suma!
—Mas, Eddie – ela tentou.
—Eddie é o bicha do teu irmão! – ele vociferou. – Saia, Alison!
—Edward...
Irritei-me. Uma coisa era ter que aturar os gritos do chefe na empresa, outra era ter que ouvir a voz enjoada de suas putas dentro da minha própria casa! Em quatro anos, Edward nunca subiu com uma das meninas dele. Quando saiu mais cedo, acredito que não era para voltar acompanhado, já que passaram mais de cinco horas desde que me deixara em casa. Abri a porta num rompante e deparei-me com um Edward furioso tentando fazer com que a mulher não passasse por sua porta mesmo que esta estivesse com as mãos em seu tórax e praticamente se esfregava nele. Era nojento!
—Você está surda, vadia? – intrometi-me, já prestes a gritar. – Vá para o elevador e desça até a esquina para encontrar com seu TIPINHO!
Então Alison virou-se para mim. Reconheci sua face como uma das meninas de produção do setor de decoração da Ocean. Era morena, a pele num tom bronzeado natural, os cabelos lisos em corte V até o início da bunda e os saltos faziam com que seu 1,70 quase alcançasse os 1,95 do chefe.
—Olha só quem apareceu! – disse sorrindo com malícia e desprezo. – Se não é a retardada da liberação. Ela é tão insuportável que nem o chefe gosta.
Minha paciência estourou. Certo que na empresa eu não podia encostar nela, mas estava na porta da minha casa e ela estava me incomodando. Passei-lhe o pé por trás e puxei seu cabelo até o elevador, apertando o botão para que a máquina parasse nesse andar.
—Sou mais mulher do que você, imbecil – vociferei enquanto a conduzia.
Fiquei com os cabelos dela na mão até o elevador chegar e Edward encostado no batente da porta, braços cruzados e um sorriso torto, apenas nos olhando. Quando as portas do elevador fecharam e os números começaram a descer, ele caiu na gargalhada e eu não me controlei, rindo junto enquanto voltava para minha porta.
—Você foi demais, Swan! – ele conseguiu dizer em meio aos risos. – Estou feliz de ser irmão da Alice e ela me proteger da sua fúria. Você acabou com aquela maluca num piscar de olhos!
—Mas a sua irmã me dá razão, se eu quiser esquartejá-lo – observei erguendo a sobrancelha.
—Verdade! – ele riu mais. – Mas dona Esme não gostaria nada.
—Eu driblo a tia Esme. – pisquei. – O grande problema é que não tenho muita vontade de atacar você. Mesmo quando estou fula da vida, você parece ser capaz de me dominar, se necessário. É três vezes maior que eu!
—Três vezes maior?! – ele arqueou uma sobrancelha se aproximando. – Só isso?
—Sim. Quer testar? Minha janela está aberta, acho que consigo te jogar de lá – apontei para dentro de casa enquanto o encarava sorrindo.
—Quem sabe em outra oportunidade – citou e virou-se para sua porta – Boa noite, Swan. – foram suas últimas palavras antes de entrar.
Respirando fundo, voltei para dentro, bebi um pouco de água e me deitei de novo. Edward que não sonhasse, mas eu nunca conseguiria sequer fazer ele se mover sem um esforço da parte dele. Falando em Edward, ele estava com um cheirinho bom, não?
Na manhã seguinte, começou tudo de novo. Edward me incomodou pouco, para o comum dele. Sim, ele parecia ter uma meta a cumprir de "encheção de saco" da Swan por dia, geralmente cada dia era maior que o anterior. Porém, naquele dia, ele não cumpriu tal meta. E nem no restante da semana. Angela chegou a comentar esse afastamento dele, mas eu não soube responder e Alice disse que o irmão estava tentando resolver problemas burocráticos. Não acreditei nela, porque sabia das cartas, mas não falei nada para não preocupar Angela, porque os dois tornaram-se amigos.
—Saudades de mim, Swan? – um hálito fresco soprou em meu pescoço.
Claro que eu levei um susto, dando um pulo para trás e acertando o pé do anta que se dizia meu chefe. Era terça-feira da semana seguinte ao evento com a Alison e eu tinha usado o final de semana para procurar por Thony na internet e lançar alguns currículos. Eu apenas estava chegando de uma entrevista que aconteceu depois do meu horário de serviço.
—Porra, mulher, para de pisar em mim! – ele berrou, afastando-se.
—Modos, Cullen. Tia Esme não gostaria nada de saber que você está usando palavreado chulo comigo – rosnei, fuzilando-o com os olhos. – Além do mais, ninguém mandou vossa mercê dar susto em mim!
—Uh, vossa mercê! – desdenhou. – Aprendendo palavras novas?
—Treinando para meu novo emprego – retruquei dando de ombros.
O rosto dele se fechou num átimo. Só então pude ver o quão abatido ele estava.
—Quer contar o que está te incomodando mais do que eu? – ergui uma sobrancelha.
Ele ficou surpreso com minha percepção, mas negou dando de ombros e deu-me as costas. Sua mão girou a maçaneta de seu apartamento e ele virou a cabeça minimamente para despedir-se.
—Não tem importância. Boa noite, Swan, até amanhã.
Na manhã seguinte, a paranoia me abateu. Eu tinha furado novamente o pneu da bicicleta naquela segunda-feira, então caminhava até a fábrica enquanto sentia que era seguida.
—Não é ninguém, Isabella, pare de ser paranoica! – murmurei para mim mesma depois de parar pela terceira vez e não encontrar nada atrás de mim.
A sensação voltou e mais uma vez meu medo fez com que virasse o corpo para trás, apenas para ver um pequeno vulto entrar por um beco e fazer barulho nas latas de lixo antes de miar.
—Um gato! – reclamei voltando meu caminho. – Agora tenho medo de um gato!
Edward e sua expressão abatida não saíam da minha cabeça. Jurava que era por causa das cartas, contudo, parecia que não estava mais com vontade de partilhar informação. Alison podia estar espreitando, não podia? Afinal, foi depois daquele show que comecei a me sentir vigiada mais insistentemente. Então a realidade me abateu. Não fazia sentido Alison me vigiar porque eu já mostrara que ela não era páreo para mim.
—Isabella? – questionou uma voz feminina.
Estranhei. Ninguém que eu conhecia morava tão perto do condomínio. E quem morava, não saía às quatro da manhã para nada, como eu saía para trabalhar. Virei-me para encontrar com uma figura vagamente familiar.
—Sim? – perguntei.
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