Ocean Motion
9 Capítulo 8 - Nervos
Notas iniciais
Parte 2 – Ponto de vista de Edward
Nervos
Meus olhos não desgrudavam daquelas palavras. Eu estava recebendo ameaças há muitos meses e, até hoje, nada havia acontecido. Contudo, nesta manhã estava sentindo que algo estava errado, embora eu não soubesse o que seria.
“Você não pode salvá-la.” dizia aquela carta impressa. “Dessa vez, você a perdeu.”
Eu chegara cedo, não mais do que o normal, e aquele envelope que me perseguia estava no chão da minha sala, diferente de todos os outros que recebi até então. Falei com Rosalie normalmente e, depois de ler aquela carta, disquei para minha mãe e para Alice. Elas me garantiram que estavam bem. Aquilo não fazia sentido. O teor da carta não era só ameaçador, como das outras vezes. Desta vez, parecia que alguém realmente tinha algo que eu queria.
Encontrava-me nervoso. Na verdade, aquele peso que senti logo ao acordar, só me deixava mais impaciente. Sabendo que apenas uma coisa melhoraria meu dia, abri o sistema de câmeras da empresa. Lá estavam. Podia ver Alice no RH com uma funcionária nova e suas colegas digitando furiosamente sobre algo que, provavelmente, envolvia o próximo feriado. Na costura também tudo parecia normal. Eu pude checar cada setor muito bem pelas câmeras instaladas. A liberação estava exatamente a mesma: Angela trabalhava com determinação e dava atenção à nova ajudante enquanto Isabella procurava outro serviço… espere um minuto.
Isabella.
Isabella não estava no setor.
Passei para as outras câmeras rapidamente procurando pela morena que me irritava tanto.
Isabella não estava em qualquer outro setor.
Isabella não estava conversando com Rosalie. Nem em direção ao RH. Isabella não tinha ido ao banheiro e nem estava na portaria.
Meus olhos pousaram na carta ao lado do mouse. Você a perdeu. Não. Não era nada sobre Isabella. Ela não era nada minha, exceto vizinha. Eu não a suportava. Não me importava com ela. Ela era apenas uma funcionária qualquer. Apenas uma garota pelo qual não valia a pena nem olhar mais de dois segundos. Ela era sem graça. Ela era normal. Eu não podia me importar menos.
—Ela pode ter ficado doente – falei comigo mesmo. – Não, ela estava bem ainda ontem quando cheguei e hoje não estava em casa. Ela pode ter feito pirraça, já que tem ajuda no setor. Hum, isso não é do seu feitio. Bem, ela não faltaria sem dar alguma explicação à Angela.
Decidido a tirar essa sensação incômoda de mim, caminhei a passos largos para o setor da liberação, apenas comunicando à Rose que checaria uma coisa e voltaria logo. Não dei tempo para ela me responder. Quando voltasse, pediria desculpas pela grosseiria.
Abri a porta do setor com certa fúria. A garota que trabalhava ao lado de Angela me olhou assustada, mas meu alvo nem virou a cabeça. Parei ao lado dela e coloquei as duas mãos na mesa, fazendo com que a mulher prestasse atenção em mim.
—Onde ela está? – minha voz saía num grunhido.
—Ela não veio hoje, Edward – respondeu sem deixar de trabalhar. – Não sei o que aconteceu, ela não avisou nem nada parecido. Acho que está doente.
—Não – falei contraindo os dedos e deixando minhas mãos em punho. – Ela estava bem ontem quando cheguei. Não estava em casa quando saí.
Depois disso, Angela parou seu serviço e virou o corpo completamente para olhar em meus olhos. Sua postura indicava que estava ficando impaciente, mas, mesmo assim, foi sucinta:
—Isabella não veio hoje, Edward. Ela pode ter pegado uma virose ou ter comido algo que não lhe caiu bem. Eu não sei. Bella não deixou recado comigo, não mandou mensagem e não deu sinal de vida desde que fui para casa ontem.
—Meu Deus – murmurei lembrando daquela maldita carta. “Dessa vez” – Meu Deus, o que eu fiz?! – a consciência pesou e minhas mãos foram direto para a bagunça que era meu cabelo.
As duas mulheres ficaram me olhando um pouco atônitas pelo meu comportamento que, agora, era dar voltas pelo setor, bagunçando meu cabelo e murmurando todos os trechos das cartas que eu estava recebendo desde o início do semestre anterior – quando ficaram realmente perigosas.
Coisas como: Você não pode ter tudo. Ela não é nada sua. Você não pode salvar todo mundo. Uma hora o império vai cair. Ela não vai escapar. Não adianta colocar o mundo, nada vai me impedir. Você não pode me impedir. Você não vai poder salvá-la.
Merda. Merda. Merda. Merda!
Deixei o setor correndo direto para onde minha irmã estava. Entrei na sala e já fui puxando Alice de sua mesa. Ela reclamou, rebateu e até me ameaçou de demissão, mas nada fez com que meu comportamento melhorasse.
Isabella. Ela era minha vizinha. Minha família a considerava uma Cullen. Era a melhor funcionária que a empresa tinha. Ajudava-me com assuntos que eu tinha vergonha de falar com minha irmã. Ela era uma ótima companhia nos sábados. E sabia me acordar na estrada. Merda. Ela era uma boa pessoa. Merda. Eu acabei com a vida dela. Merda!
—O que deu em você, seu imbecil? – Alice vociferou assim que entramos na sala de reuniões.
—Isabella não veio – respondi olhando para o chão.
—A Bella não veio? – ela estranhou, seu ataque de fúria completamente esquecido. – Mas a Bella nunca falta! Você falou com a Angela?
—Sim! – respondi com raiva. – Angela não faz ideia de onde Isabella se meteu.
—Você checou o celular dela?
Olhei para minha irmã desacreditado. Eu estava falando com ela porque não tinha escolha de contato mais certeiro. Se Bella não tivesse dado nenhuma explicação, nem para o RH, nem para a melhor amiga, com certeza, nunca atenderia uma ligação minha!
—Por que você acha que está aqui, Alice? Acha que eu estaria te importunando essa hora da manhã se ao menos tivesse a PORCARIA DO NÚMERO DELA?!
Mesmo que eu tivesse seu número salvo, nunca teria ligado porque ela nem sabe que eu tenho tal contato. Isso pareceria coisa de gente doente. Na verdade, era coisa de gente doente. Se não tivesse tão preocupado com a ideia de ter alguém sequestrando a moça, agora estaria cogitando a ideia de ir a um psiquiatra e pedir internação. Ainda assim, não me sentia mal por ter olhado em seu cadastro e salvado o número depois do primeiro sábado que trabalhamos juntos.
Revirando os olhos, a baixinha sacou o celular do bolso e telefonou para a amiga.
Ela tentou algumas vezes. Percebi isso porque de minuto em minuto, minha irmã tirava o celular da orelha e olhava de cenho franzido para a tela, apenas para teclar algo e voltar a escutar.
—Estranho, Bella sempre atende minhas ligações. Essa é a décima vez que estou te ligando, sua maluca! – reclamou Alice e pensei que Bella, finalmente tinha atendido. – Se eu te ligar de novo e você não me atender, eu vou pegar meu carro e vou até sua casa! É sério, Bella! Atende!
—A Isabella não estava em casa pela manhã – avisei antes que ela se prontificasse.
—Como você sabe?
—Tenho a chave. Verifiquei cômodo por cômodo. A bicicleta também não estava – expliquei, andando de um lado para o outro, olhando para o chão para não precisar encará-la. – Imaginei que estivesse vindo sozinha, como sempre fez. Tem certeza de que ela não comentou sobre uma possível entrevista de emprego? – finalmente olhei, ansioso. Afinal, foi o que disse que faria, não?
—Não. Bella nunca mencionou nada do tipo e que história é essa de você ter a chave dela?
Mordi o lábio, desviando novamente o olhar e coçando a nuca.
—Precisava ter certeza de que ela estava bem. – Então olhei para a moça e percebi minha maior gafe. Tive que me explicar melhor – Isabella deixa a reserva no batente da porta! Apenas fiz uma cópia sem que ela percebesse… não me olha assim, Alice!
—Assim como?
A cara-de-pau estava de braços cruzados, uma sobrancelha erguida e um sorrisinho debochado na cara enquanto me analisava por completo.
—Como se eu fosse o nerd desengonçado que está prestes a dizer que está apaixonado pela mocinha popular da escola! – frustrei-me e me sentei.
—É porque você parece esse nerd que está diante do sogro explicando por que deve ficar com essa menina – ela riu de leve e veio se sentar na minha frente. – Edward, você gosta dela.
—Porra, não gosto! – esbravejei batendo com o punho na mesa. – Perdão. Essa história de novo, não, Alice. Eu estou realmente preocupado por causa daquela maldita carta!
—Que. Carta? – seu tom de voz deixava claro que esse era um assunto novo.
Respirei fundo e a conduzi até minha sala, pegando a carta que estava em cima de minha mesa e entregando para ela assim que se sentou. Eu já sabia o que estava escrito. Fiquei andando nervoso de um lado para o outro. Ora encarando as rosas da minha mãe, ora olhando a janela. Ora fitando Alice, ora prestando atenção no chão.
—Há quanto tempo? – ela sussurrou.
—Tenho recebido essas cartas desde o ano passado – expliquei. – Eram só ameaças. Nunca veio nome qualquer. Sempre se referindo a “ela” seja “ela” quem fosse. Pelo teor, eu imaginava alguém da família. Coloquei seguranças para seguir vocês. Você, mamãe e Rose, principalmente. Eu amo vocês, Alice. Nunca me perdoaria se alguém fizesse algo a vocês por algum descuido meu. Eu nunca… merda! Como eu imaginaria que poderia ser uma funcionária? E por que a Isabella?!
—Edward, calma! Pode ser que não tenha acontecido nada com a Bella. Não temos certeza de que ela foi sequestrada. Meu Deus, a Bella sabe se cuidar! O pai dela é policial, não é?! Fica calmo, volte a trabalhar e assim que ela der algum sinal de vida, eu te aviso. Está bem?
—Ficar calmo?! Ela pode ter sido SEQUESTRADA, Alice! – parei na sua frente, minhas narinas dilatadas. – E se a prova que me derem for a merda do olho dela?! Ou pior, a cabeça inteira! Ela pode estar precisando de ajuda. Bella sabe se defender, mas você já viu o porte físico dela?!
O tapa que ela deu em minha cara me chocou completamente.
—Que merda é essa?! – vociferei.
—Para de dar chilique, pelo amor de Deus! – gritou, fazendo Rosalie entrar correndo em meu escritório. – Merda, Edward, você parece uma adolescente que perdeu o grampo de cabelo preferido! Cresça, homem! Eu vou lá ligar para minha amiga novamente e você trate de trabalhar! Oi, Rose, por favor, pode dar uma olhada nele para mim? – ela sorriu e saiu da sala.
—Edward, o que está acontecendo? – Minha prima veio ao meu encontro, colocou a mão em meu ombro e me olhou nos olhos. – Você está estranho desde que entrou na sua sala.
Os olhos preocupados da loira fizeram com que me lembrasse de como agi com ela nesses últimos minutos. Respirei fundo e fui me sentar. Rapidamente, ela foi até o pequeno filtro de água e me serviu um copo. Só percebi meu estado quando, ao esticar a mão para pegar a água, vi que tremia. Bebi o copo inteiro em goles grandes e ininterruptos.
—Essas merdas de cartas me deixaram paranoico.
—Que cartas? – ela franziu o cenho se sentando na minha frente e eu apontei para o papel que minha irmã tinha deixado em cima da mesa. – Mas isso não faz nenhum sentido! Eu não te entreguei carta nenhuma hoje. Como isso foi parar aqui dentro?
—Como eu vou saber?! Estava no chão quando cheguei. E hoje foi o dia que sua amiga Bella escolheu para faltar. E ela não atende a merda do celular. O que eu faço, Rose?
—Bem, primeiro você tem que se acalmar – disse como se fosse algo óbvio. – Por que não vai até os seguranças e pede para ver quando essa carta foi deixada aqui? Eu vou remarcar todos os seus compromissos e cuidar de tudo aqui. Assim que tiver uma resposta, tenho certeza de que Alice vai te ligar. Eu prometo que ela está bem. Toma, beba mais um pouco de água – e ela já me estendia outro copo cheio. — Tenta se acalmar, por favor.
Assenti com a cabeça, pegando o copo e bebendo tudo novamente. Ela deu um aperto no meu ombro ao se levantar e foi para sua mesa. Esperei um tempo, que pareceu uma eternidade para mim, e fui para a guarita tentando passar tranquilidade para Rosalie que me olhava desconfiada. Com o rabo de olho, consegui ver que ela estava me monitorando nas câmeras. Merda.
Depois de passar mais de uma hora ao lado do guarda, tentando decifrar quem foi que passou pelas câmeras despercebido, não consegui nada.
—Sinto muito, senhor Cullen, ontem, por volta da meia-noite, o sistema falhou por cerca de dez minutos. Logo o envelope apareceu, vê? – Carlos, o guarda, explica.
Frustrado, depois de pedir para ele voltar a cena várias vezes, passei a mão pelo cabelo novamente, agradeci e voltei para a fábrica, direto para o RH. Não precisei falar nada, Alice, ao me ver, mordeu os lábios e negou com a cabeça. Seu olhar, agora, tinha uma porção grande de medo.
Merda.
Não, de novo, não!
Saí dali direto para meu carro, já com o celular na mão, ligando para Rosalie.
—Vou para casa. Preciso procurar por ela.
—Edward, você pode estar se precipitando…
—Sinto muito – falei apenas, desligando em seguida.
Merda, Isabella. Isso não era hora de tentar ser rebelde!
Dez minutos. Esse foi o tempo que levei para chegar até o prédio onde morava. Mais alguns minutos para colocar o carro na garagem e mais outros para o elevador chegar ao nosso andar. Assim que cheguei, bati em sua porta até minha mão doer. Chamei seu nome, gritei por ela. Em todo o trajeto, mandei mensagens para ela. Graças à tecnologia, não precisava encostar no teclado para digitar, apenas ditava e enviava por reconhecimento de voz. Não me importava mais se ela me achasse um louco. Depois do desespero que estava me causando, ninguém poderia me culpar!
Meu cabelo já devia estar como um ninho e estava cada vez pior enquanto minha frustração com a chave da porta crescia. É, bem, assim que ficou claro que ela não atenderia a porta, lembrei que tinha a cópia da chave. O problema com o nervosismo é que as coisas nunca saem como planejamos. A chave escorregou da minha mão várias vezes e, quando consegui acertar a fechadura, ficou complicado girá-la para abrir. Aquele drama todo estava me irritando.
—Se você estiver em casa, dormindo, eu vou te arrancar da cama pelos cabelos – resmunguei ao escancarar a porta. – Isabella! Isabella?!
Nada. Abri todas as portas, janelas e cortinas. Olhei dentro dos armários, box e até debaixo da cama. Nada. Procurei sua bicicleta. Bem, não estava lá também. Como será que ela está?
Desanimado, voltei para meu apartamento, tendo o cuidado de trancar sua porta novamente. Deitei-me na cama e olhei para o teto com as mãos atrás da cabeça. Como fui deixar isso acontecer?! E por que ela? Isabella era apenas mais uma garota. Nem dormido comigo ela tinha! Algo nessa história não estava batendo. Havia alguma coisa que eu não conseguia perceber.
Peguei meu celular. Eu discaria para a polícia… mas somente depois de 48 horas eles eram capazes de fazer alguma coisa. Será que eu tinha esse tempo todo? Se eles a pegaram ontem, depois que entrei em meu apartamento, ela não tinha sumido nem por 24 horas ainda. Merda, eu precisava de provas de que ela estava correndo perigo.
O que eu faria?
Então meu telefone começou a tocar e a imagem de minha mãe apareceu na tela.
—Oi, dona Esme – tentei camuflar minha voz, não era necessário afligir minha mãe. – O que a faz ligar para o seu filho mais lindo?!
—Você já saiu do apartamento da Bella? – sua voz era bastante preocupada.
Opa.
—Como soube?
—Ah, filho – ela reclamou impaciente. – Você tem como assistente pessoal a sua prima e gritou com sua própria irmã para todo mundo ouvir! Agora, diga-me a verdade: você já saiu do apartamento da Bella?
—Já – suspirei frustrado. – Ela sumiu. Não deu telefonema para a empresa, nem me mandou ir à merda depois de deixar várias mensagens. Tanto de texto quanto de voz. Mãe, eu estou desesperado – confessei.
—Eu sei, meu filho, eu sei. Seu pai quer saber se você pode vir aqui depois do expediente.
Bufei.
—Já passo aí.
—Beijos, filho. Até mais tarde. Eu te amo, Edward.
—Também te amo, mãe. Até daqui a pouco – desliguei e fui tentar me acalmar um pouco.
Onde ela estaria? Por que não deu notícia? E se foi sequestrada, por que só mandaram uma carta? Por que não ligaram para o resgate, ou algo assim? O que querem de mim? Por que pegaram a ISABELLA?! Quem pegaria justamente ela?! Será que imaginaram que me prejudicariam com isso?! Será que acharam que eu estava apaixonado por ela?
Mas eu nunca me apaixonaria! Era uma promessa que eu tinha feito e eu cumpriria até encontrá-la. Mesmo que fosse daqui a um século, eu tenho certeza de que ela me encontraria aqui. Ela tinha que vir, eu já não lembrava a maldita cidade em que a tinham levado.
Não adiantava. Cada vez que pensava em minha pequena, meu coração se apertava. Imaginar como ela estaria hoje era muito confuso. Será que ela estava loira, como era tendência, ou ela continuava com aquelas madeixas avermelhadas? Seus olhos eram doces e inocentes, tenho certeza. Ela deve ter crescido e se tornado uma bela mulher. Eu imaginava se ela se preocupava com o físico, ou não se importava com uns quilinhos a mais. Não que fizesse diferença para mim… será que faria? Será que eu a reconheceria quando a encontrasse? E será que ela me deixaria maluco como a Isabella me fazia enlouquecer? Será que eu me sentiria tentado a cuidar dela, como me sentia com a morena? Será que ela cresceu bem? E se ela estivesse morta?!
—Não! – vociferei quando minha mente criou a imagem de Isabella num caixão.
Ultimamente, todas as vezes que me lembrava da minha promessa, era Isabella que eu via no lugar da minha prometida. Isso tinha que acabar! Eu não podia me apaixonar. Não pela Bella.
“Mas vocês gostam tanto um do outro! Não imagino ninguém melhor, irmãozinho!” a voz de minha irmã, dias depois de saber que minha família tinha acolhido Bella, estava me irritando. “Eu não sei o que você tem contra nós, mulheres, mas se continuar com essa canalhice, ficará sozinho.” Dissera a baixinha, há uns meses.
Geralmente, desmentiria Alice sobre gostar dela, mas naquele dia, apenas dei as costas e voltei para casa, sem dar explicações a ninguém. Hoje em dia, não entendo as razões para ter deixado o local. “Quem cala, consente” falou Bella em uma das nossas brigas.
Ficar aqui não estava me fazendo bem, então não me prolonguei muito para pegar a estrada.
Saí da minha casa remoendo todas as malditas cartas e todas as reações que Isabella teve quando contei sobre isso a ela. Quando ela riu de meu desespero, disse que eu estava dando muita importância a essas coisas. Chegou a dizer que poderia ser uma brincadeira de mau gosto das funcionárias “mal-amadas” com as quais eu saía. Lembro que isso gerou brigas e algumas vezes até um toque de consolo. Ontem mesmo foi um desses dias de consolo. Não que ela soubesse.
Assim que cheguei na mansão de meus pais, minha mãe correu me abraçar. Ela chorava copiosamente e falava várias coisas sem sentido algum. Imaginei que estivesse desesperada pelo sumiço de bela, mas alguns gritos puderam ser ouvidos. Isso só fez com que minha mãe chorasse mais alto.
Com um braço ao seu redor, conduzi-a pela entrada de casa e a levei para a sala. Fiz um gesto para a governanta e ela logo apareceu com um copo cheio de água com açúcar para dona Esme. Percebi que seus olhos também estavam inchados e ela continha o choro.
—Não! – o grito aterrorizante saiu do escritório de meu pai, seguido de muitos outros. – Não! Solte-me! Solte-me! O que você quer comigo?! Não! Não me toque!
Reconheci a voz imediatamente. Dei um beijo na testa de minha mãe e corri ao encontro da cena que mais me consumiria por dias.
No escritório de meu pai, tudo estava bem normal. Na verdade, a única coisa que se destacava era o envelope em cima da mesa e o papel que tremia nas mãos de meu pai. Os gritos preenchiam a sala e os olhos de Carlisle se fechavam com força todas as vezes que escutava.
Vi Bella acorrentada a algo plano que não parecia muito confortável. Tinha uma luz focada nela e tudo o mais estava escuro. Não se podia identificar nada. Ela estava vendada e seus cabelos soltos colavam em seu rosto molhado de suor e lágrimas, ao que parecia.
Meu coração se contraiu.
—Não – murmurei baixo, ajoelhando-me na frente da tela. – Isso não pode estar acontecendo!
—Por favor! O que eu fiz?! Quem são vocês?! – Ela gritava e se debatia. – Socorro! Alguém me ajuda! Por favor! Eu não fiz nada! Eu não fiz nada!
Sem perceber, meus olhos se encheram de água e minha mão se apertou em punho. Aquilo tudo era culpa minha. Eu tinha certeza. Não sabia o porquê, mas tinha certeza de que a culpa era toda minha. Minha garganta secou de repente. E não era porque eu tinha gritado, embora eu quisesse muito. Eu precisava saber onde ela estava.
—Filho – chamou-me Carlisle.
Ele estendeu a mão com o papel e me entregou. “Vocês a perderam. A culpa é do Edward. Entraremos em contato em breve. Aguardem nossas instruções.”
—Mas que merda! – consegui, finalmente, esbravejar. – O que eu fiz?! Por que ela?!
—Edward, a carta… vamos chamar a polícia. Precisamos da carta – meu pai estendeu novamente a mão e pegou o papel que eu tinha amassado sem notar. — Veremos se possui digitais…
—Por favor, pai! – Revirei os olhos. – Nunca conseguiram nada nos bancos de dados, por que acha que conseguiriam agora que a Isabella está com eles?!
—Isso quer dizer que já aconteceu antes?! – minha mãe me olhava assustada da porta.
Levantei-me e comecei a andar de um lado para o outro, bagunçando novamente meus cabelos com os dedos e limpando qualquer rastro de lágrima que poderia haver em meu rosto.
—Bella sabia das cartas – falei com certa calma. – Eu venho recebendo ameaças desde o ano passado. Em algumas das vezes, ela estava lá quando eu lia. Bella sabia que coloquei seguranças para proteger você, Rose e Alice. Ela riu de mim. Disse que você e Alice reclamariam e ela estava certa. Vocês chegaram a chutar meus homens com os saltos – dei uma risadinha. – Ela perguntou se algumas das minhas meninas estaria correndo perigo e lembrei-a de que já tinha me envolvido com muitas garotas e nunca ninguém tinha sequer encostado um dedo para machucar alguma delas. Exceto a própria Bella. Ela correu com uma garota que me seguiu até o apartamento. – Então algo me ocorreu e olhei assustado para minha mãe. – Será que não foi a Alison?!
—Eu não a conheço, amor. Só você saberia dizer se foi ou não essa garota.
Corri até a tela novamente, os gritos tinham recomeçado, mas somente porque uma silhueta grande e negra tampava o rosto de Bella e parecia com um copo de água. Não parecia uma mulher. Será que Alison tinha contratado alguém para sequestrar Isabella? A que custo? Só porque não a defendi da fúria da Swan? Mas ela quem tinha começado! Ou foi Tanya porque eu defendi Isabella do insulto que ela fez? Isso não fazia nenhum sentido!
Eu nunca saí com Isabella. Não com todos olhando, como fazia com as outras. Sempre que a levava para comer aos sábados, quando a empresa estava praticamente vazia. E quando a levava para casa, era em horário em que as outras estavam trabalhando. Ninguém nunca via como eu a tratava quando ela não estava me irritando. Não poderia ser ninguém da fábrica! Mas, quem mais seria?! Tínhamos Seth de amigo em comum e… só! Minha família não reagira mal quando contei os segredos que guardávamos. Eles até disseram: “Bella é da família, ela tinha direito de saber.”
—Socorro! – choramingou a morena na tela.
—Isso é gravado? – Olhei para meu pai que assentiu. – Então por que não tirou essa merda?!
—Edward?! — A repreensão de minha mãe fez-me encolher em culpa.
Meu pai retirou o CD, acabando com os gritos. Entregou-me a peça de plástico dizendo que viera junto com a carta. Eu encaminharia aquele objeto para a polícia juntamente a todas as outras cartas, com toda a certeza. Não sei o porquê, mas tinha todas elas guardadas. Creio que meu inconsciente já imaginava que precisaria disso como prova se alguma dessas ameaças se concretizasse.
Passei a mão livre pelo cabelo novamente. Bella estava certa, era um tique nervoso. Sorri um pouco com o pensamento. Ela era bastante perceptiva, afinal. Bella. Bella estava sofrendo nas mãos de alguém nesse exato momento. E a culpa era toda minha.
Aquela ardência na garganta voltou, mas controlei minha vontade de gritar e chorar de culpa. Eu não tinha tempo para essas coisas. Precisava passar em meu escritório e no apartamento para pegar as outras cartas e passar na polícia. Meus investigadores também deveriam ser acionados. E os amigos dela deviam ser avisados. Oh, Deus, como eu faria para dizer aos seus pais que ela estava desaparecida? Alice que se virasse, decidi. Ela tinha duvidado de mim, afinal.
Merda.
Eu teria que mostrar isso a ela.
Merda!
Ela surtaria e Rosalie a apoiaria.
Meda! Merda! MERDA!
Despedi-me de meus pais, prometendo manter contato, e voltei para o meu martírio. Digo, voltar para a Ocean era a última coisa que eu tinha vontade de fazer nesse momento, mas precisava justamente de coisas que estavam lá. Eu tinha certeza de que minha sala ficaria cheia assim que o carro passasse os portões da empresa.
Elas não me decepcionaram.
Rosalie, Alice, Angela, Tanya, Heidi e várias outras mulheres estavam em frente ao escritório antes mesmo de eu colocar os pés na recepção. Todas elas estavam em expectativa e temerosas. Como eu pude desconfiar delas?!
—Senhor Cullen – antecipou-se Angela. – O senhor recebeu alguma informação da Bella?
Engoli em seco ao olhar preocupado dela, dei um meio sorriso e assenti uma vez.
—Onde ela está, senhor? – Tanya agarrou meu braço.
—Voltem ao trabalho todas vocês – ordenei rigidamente. – Em minha sala só entrarão Alice, Rosalie e Angela. Não esqueçam que a câmera desse departamento foca exatamente em cima da minha porta. Bom trabalho a todas.
E entrei em minha sala, sendo seguido pelas garotas que mencionei. Pude escutar um burburinho, mas não parei para dar a atenção que elas queriam. Eu já estava irritado o suficiente para me exaltar com bobagens. Fui para minha mesa, liguei meu computador e enquanto carregava, olhei para as meninas que sentavam-se a minha frente.
—O que sabe sobre a Bella, irmão?
—Alice – comecei com um nó na garganta. – Isabella foi sequestrada. Como eu havia informado mais cedo.
Os arquejos de surpresa delas até me fez dar um pequeno sorriso. Peguei o CD e coloquei para funcionar no aparelho. Assim que apareceu a mídia, virei para que elas pudessem presenciar a mesma coisa que eu vira na casa dos meus pais, embora tenha deixado o volume o mais baixo possível porque não queria mais dor de cabeça do que já tinha.
Meus olhos se encheram de lágrimas e vi que as meninas já derramavam as delas. Isso bastou para que eu fechasse meus olhos na tentativa de conter meu choro. Ouvir novamente os gritos de desespero de Isabella não fazia bem para minha mentalidade. Senti braços me rodarem e lágrimas em minha nuca enquanto o cabelo de minha irmã pinicava meu pescoço.
—O que faremos? – sussurrou Alice.
Afaguei seus cabelos e beijei-lhe o ombro.
—Vou até a polícia, Alice – murmurei. – Essa gravação pode dar alguma pista de onde ela está. Eu não assisti tudo. Como poderia?! Como conseguiria olhar para isso e ver que ela está sofrendo por algo que eu fiz? Por algo que eu tinha o controle… — minha voz falhou.
—Shhh! – ela me calou, soltou-me e limpou as lágrimas de meu rosto que eu nem tinha percebido cair. – Não importa o que esse imbecil falou. Você não tem culpa, meu irmão!
Dei um meio sorriso e me desvencilhei completamente dela, apenas para abrir a gaveta que continha todas as cartas recebidas e pegá-las para colocar em uma pasta. Aproveitei que as meninas estavam se abraçando e retirei o CD também, já colocando no envelope com a carta que foi parar com meus pais.
—Posso dar um dia de descanso para vocês três, se precisarem – falei já me levantando. – Tenho que levar isso para as autoridades e não sei se volto hoje. Tenho que descobrir sobre o paradeiro de Isabella. Não tenho cabeça para ficar aqui. Rosalie…
—Cancelarei todas as atividades que requerem a sua presença. – Ela ainda estava abalada, mas sua eficiência falou mais alto no momento. – Não se preocupe. Fico aqui para arrumar tudo em sua ausência. Angela, se quiser ir…
—Não – fungou a morena. – Tenho uma garota nova lá e sem a Bella… essa empresa precisa andar, não é? – riu um pouco. – Não se preocupe, senhor Cullen, terminarei meu turno normalmente.
—Tudo bem – suspirei. – Alice, avise que amanhã toda a empresa vai parar até a semana que vem. Cuide disso com os lucros e remunere todo mundo com produção 100% se puder. Tire da minha conta, se necessário. Tenho que ir.
E saí.
Eu precisava encontrá-la.
Depois de passar na delegacia, contratar um detetive particular e pedir ao segurança do prédio para ver as gravações das câmeras, voltei para o nosso andar. Agora eu estava no apartamento dela, sentado no sofá que tantas vezes a vi deitada, com meu laptop no colo e vasculhando seu paradeiro pelo sistema de segurança do prédio. Meu detetive e um policial estavam revirando o local para procurar provas de algum invasor, ou digitais. Não sei.
—Senhor, precisamos que o senhor saia do apartamento – o policial me chamou.
Olhei para ele com a sobrancelha erguida.
—Sinto muito, mas não posso sair daqui – respondi-lhe com a maior arrogância que pude. – Vocês encontrarão minhas digitais pela casa inteira. Vim aqui procurar por ela três vezes, só hoje. Eu recebi as cartas e eu mesmo entreguei todo o material para seu chefe. Tenho certeza de que serei o primeiro suspeito e minha vida será revirada como vocês estão fazendo com as coisas de Isabella. Preciso colocar tudo em ordem assim que vocês terminarem.
—Senhor Cullen – chamou meu detetive. – Sabemos que a moça é muito querida sua e da sua família. Eu mesmo me encarrego de chamar o senhor assim que o policial e eu acabarmos de averiguar as coisas.
Bufando, peguei minhas coisas e fui para o meu apartamento.
Algumas horas depois, meu sangue gelou. Eu tinha acabado de voltar do apartamento de Bella para organizar o que aqueles dois tinham mexido quando um e-mail desconhecido apareceu em minha tela. Ao abrir a mensagem, tinha apenas um link, o qual cliquei sem pensar. Era da mesma câmera que tinha filmado Isabella. Reconheci a figura embaçada pelos gritos de desespero que ela soltava.
Eu estava sozinho em casa, então deixei minhas lágrimas correrem livremente. Não parecia ser gravação. Isso era ao vivo. E ela estava rouca de tanto gritar. Passei a mão na tela imaginando acariciar seu rosto. Ela parecia tão frágil amarrada daquele jeito!
—Bella, o que eu te fiz?! – murmurei.
—Socorro! – chorava ela sem forças. – Por favor! Alguém!
Fiquei olhando para ela por um longo tempo. Não tinha almoçado, nem mesmo sabia que horas eram. Quando o telefone tocou, corri atender achando que eram os sequestradores.
—Edward – minha mãe disse assim que coloquei o aparelho no ouvido. – Você já se alimentou?
—Eu não tenho fome, mamãe – choraminguei. – A Bella… ela… eu estou vendo-a agora.
—Ela voltou? – sua voz tinha esperança. – Ela está bem? Você está com ela em casa? Posso falar com ela? Passa o telefone, meu filho!
—Não, mãe – minha garganta se fechou. – Ela não voltou ainda. Estou vendo-a pela tela do computador. Ela está tão frágil, mamãe! Está tão aterrorizada! – um soluço escapou de mim.
—Oh, meu menino! Faça um favor para você mesmo, meu amor! Tire esse CD daí.
—Esse é o ponto, mamãe. O CD está com a polícia. Recebi um link que entra ao vivo.
O arquejo dela foi grande. Acabei me sentindo péssimo por ter falado. Ela não precisava saber que eu estava olhando para a garota como um maldito doente. Ouvi chamar meu pai e contar o que eu havia dito. Aposto que ela se escondia no peito dele, chorando, enquanto ele pegava o telefone de suas mãos. Contudo, esse fato passava quase despercebido por mim. Alguém entrava na sala onde Bella estava presa. Eu podia ver a agonia que ela tinha ao notar aquela presença.
—Você tem que passar o link para a polícia, meu bem – meu pai lembrou-me.
Gemi de frustração com minha própria irresponsabilidade. Como eu pude me esquecer de mandar isso para a polícia? Para meu próprio detetive? Garanti ao meu pai que o faria imediatamente e desliguei o mais rápido possível. Meus olhos grudados na tela. Eu podia ver a sombra de um homem ao lado dela, olhando-a.
—Hora de comer, princesa— a voz gutural não me era reconhecida e aquele “princesa” tinha um tom sarcástico. Era como se ele estivesse tirando sarro da nossa cara.
Então uma mão em uma luva de couro preta, estilo motoqueiro, apareceu na câmera, segurando um garfo com o que eu poderia dizer ser um pedaço de peito de frango. Bella fechou os lábios com força e virou o rosto.
—Não, não, princesa. – lá estava de novo: o sarcasmo na voz. – Você precisa comer. Afinal, como quer ser resgatada e voltar para os braços do seu amado Edward?
—Edward?! – Bella arquejou, virando o rosto para a voz. – O que Edward tem a ver com isso? O que ele fez para você? – sua voz era rouca das horas gritando. – Quem é você?
Uma risada ecoou pela sala e o garfo sumiu. Ouvi o tilintar do talher no que pensei ser um prato e passos de saída. Não foram longe, logo os passos voltaram para perto da câmera.
—Vê essa luz vermelha? – a voz estava próxima e a mão enluvada segurava o rosto de porcelana virado para a câmera. – Ele está vendo tudo, minha princesa. Você quer dizer algo a ele? Vá em frente! Enquanto estiver logado, você será filmada e a luz da câmera ficará ali. Ele está escutando nossa conversinha agora, minha querida. Provavelmente já envolveu a polícia também!
—Edward! — os olhos dela focavam a câmera e estavam cheios d’água. — Edward, por favor!
—Edward! Por favor!— imitou o homem. — Ele não sabe onde você está, princesa! Acha que dou ponto sem nó? Mas não se preocupe, ainda vou devolver você. Só basta ser boazinha.
Novamente ouvi os passos, creio que foi buscar o prato de comida, porque assim que a voz ordenou que comesse, o garfo voltou a aparecer.
Bella tentou resistir, mas outra mão enluvada segurou seu rosto enquanto alguém enfiava o garfo pela sua boca. Mordi os nós dos dedos enquanto assistia aquela cena. Senti que tremia e meus olhos estavam grudados ali. Por algum tempo, Bella resistiu bravamente. Chegou a se afogar, mas assim que se recuperou, obedeceu aos sequestradores e comeu tudo o que lhe deram.
Uma raiva subiu de meu estômago a minha cabeça rapidamente e tive o impulso de fechar o laptop, mas as palavras do homem não saíram de minha cabeça. Enquanto eu estivesse assistindo, Bella estaria sendo gravada. E se eu perdesse a conexão e não conseguisse mais entrar? O que eles fariam? Decidi pegar o celular e chamar meu detetive. Ele saberia o que fazer.
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