Enquanto olhava para o loiro parado na porta com os lábios entreabertos como se houvesse algo mais a dizer, Midoriya desejou forte e intimamente ouvir todas as explicações não ditas e um pedido para voltar.

— Midoriya. — Todoroki chamou-o com tom suave, apertando seu ombro com cuidado e suporte, não tendo percebido a presença de Bakugo.

O esverdeado então colocou os olhos sobre o amigo com a cicatriz e apertou os lábios, decidido a sair dali o mais rápido possível. Ele não disse nada, apenas pegou o Todoroki pelo braço e foi puxando-o consigo, sabendo que ele se deixaria levar.

Midoriya não olhou para trás, sabendo que se o fizesse só ia doer mais.

XXX

Midoriya andou apressado até o elevador, pretendendo ir até o quarto de Todoroki, mas sem olhar nos olhos heterocromáticos uma única vez. O outro também só o acompanhou e se manteve em silêncio. No elevador nenhuma palavra foi trocada. Midoriya tinha os olhos no chão, cheio de vergonha, e ainda hiper focado no processamento de informações.

Foi só quando pararam em frente ao quarto que Todoroki tomou a frente e o destrancou, convidando o amigo com outro toque em seu ombro.

— Pode entrar Midoriya. Eu vou te ouvir caso queira desabafar.

O mais baixo acenou com a cabeça rapidamente e tirou os sapatos para pisar no tatami do quarto estilo oriental.

— Com licença. — Midoriya se forçou a dizer, sentindo que parecia ter uma pedra em sua garganta, tão tenso que estava.

— Fique à vontade.

Alguns instantes depois, Midoriya sentou-se à mesa central, pensativo. Todoroki deixou-o relaxar, tirando uns minutos para preparar um chá e oferecer silenciosamente algumas toalhas de papel para o amigo, que as aceitou sem nem conseguir agradecer.

Midoriya limpava os olhos, sentindo-se profundamente tímido por alguém vê-lo naquele estado tão frágil. Sua sorte era ter se deparado com um colega do tipo estoico. Sua consciência estava mais tranquila em saber que Todoroki-kun era uma das pessoas que não faria brincadeira da situação.

Enquanto a luz entrava suavemente pela janela, aquecendo seu corpo que parecia congelado da tensão do momento, o chá quente e de suave aroma foi colocado à sua frente. Seu amigo se sentou ao seu lado, mais próximo do que o comum, um dos joelhos dobrados. Ambos trocaram olhares tranquilos. O dono do quarto transmitia uma energia relaxante e seu olhar dizer que ali era um lugar totalmente seguro. E Midoriya quase imediatamente se acalmou por isso.

— Obrigado, Todoroki-kun. — sua voz saiu fraca, mas em genuíno agradecimento.

O rapaz respondeu com um som monossilábico, mas a pequena extensão do som não era nada menos do que um carinho aos ouvidos. Todoroki o observou por um segundo para então complementar:

— Você quer conversar, Midoriya? Talvez eu não possa dar bons conselhos, mas posso ouví-lo.

Midoriya sorriu de leve, mesmo que fazer isso doesse ainda mais seu peito. Se sentir-se miserável assim era o que acontecia quando se terminava com alguém que se ama, ele gostaria de nunca mais amar alguém.

Ele balançou a cabeça em negação e pegando o copo de barro em mãos.

— Você já me ajudou muito, Todoroki-kun. Por ter falado comigo e agora pelo chá. Se você não se importar, posso apenas ficar aqui com você por um tempo? Pelo menos até me sentir melhor?

O maior piscou levemente, sua expressão nunca mudando.

— Sem problema algum. — Todoroki assentiu, servindo-se também. — Só não tem nada muito divertido aqui para fazer.

Midoriya deu um sorriso sabido.

— Tudo bem. Podemos falar sobre qualquer coisa.

Todoroki coçou a nuca, um pouco perdido. Ele pensou, olhando para qualquer parte do quarto, mas ele realmente só dormia, relaxava e lia. Seus livros e materiais de estudo estavam num compartimento separado.

— Pode falar do dia no colégio hoje? — o mais baixo pediu, mesmo sabendo que Aizawa-sensei tinha mandado que ninguém passasse as lições para os dois durante o castigo.

Todoroki acenou quietamente e começou a falar sobre as aulas e sobre as interações de toda a 1-A durante o dia. Enquanto tentava achar palavras e lembrar o mais detalhadamente possível para ocupar o tempo, Todoroki sentia ao seu lado como Midoriya ia gastando os lenços da caixa e se servia de mais chá.

Depois de muito tempo ele parou. Sua garganta doía, já que não era acostumado a falar daquela forma. Ele fitou Midoriya, deparando-se com olhos inchados e olhar perdido. Aquilo lhe doeu como nunca antes. Ver seu primeiro amigo assim não era fácil.

O de olhos bicolores levantou os dedos, tocando o topo da cabeça esverdeada, tirando uma expressão surpresa de Midoriya. E ele tinha plena noção de que era muito íntimo, ainda mais entre os dois, que ainda não tinham uma amizade que envolvia toques. A última vez que eles se tocaram, inclusive, foi durante uma luta.

— O que quer que tenha te chateado, parece ter te pegado de jeito. Espero que você se sinta melhor logo, Midoriya. — Todoroki disse, com atenção e carinho. Não estava feliz de ver seu amigo assim e não queria ficar parado vendo.

Midoriya tapou os olhos com o antebraço, assentindo várias vezes. Todoroki apenas pode ouvir os murmúrios do rapaz e compartilhar daquela frustração. Manteve sua mão sobre a cabeça do garoto, movendo os dedos levemente.

Por volta das nove, Midoriya ganhou coragem para voltar ao próprio quarto. Durante aquele tempo, ele se manteve no quarto de Todoroki-kun, estudando juntos e assistindo alguma série no smartphone.

Ele estava imensamente agradecido e prometeu retornar o favor quando pudesse. Todoroki apenas sorriu para ele do jeito reservado de sempre e reafirmou sobre estar disponível sempre que ele precisasse. O anfitrião até o acompanhou de volta para o quarto, garantindo que ninguém ia perturbá-lo.

Ambos se despediram e Midoriya finalmente deixou-se apagar em sua cama, exausto. Pela manhã ele precisaria estar firme para olhar Kacchan nos olhos sem desabar.

XXX

Naquela noite, Bakugo não pregou nenhum olho. Suas pupilas tinham ficado bem abertas, os olhos vermelhos fitando o teto de seu quarto, suas mãos molhando o edredom que apertava com força toda vez que se recordava das palavras finais de Deku antes de abandoná-lo.

A sensação de espasmo e repulsa o tomava toda vez que revia com clareza, como se estivesse sussurrando em seu ouvido em alto e bom tom: “Eu não consigo fazer as coisas do seu jeito. Eu quero, mas não consigo Kacchan”. Seu estômago começava o aperto, causando-lhe ânsia, mas ainda era cedo, pois havia o segundo golpe: “Se você quiser apenas um lance, eu acho melhor repensar e ir atrás de outra pessoa.”

Bakugo fechou os olhos com força, mordendo os lábios, lembrando-se da sensação de esfregar diretamente contra Midoriya. A mistura de sentimentos que acontecia agora era uma aberração que ele não queria lidar.

Mas o pior de tudo, o que realmente destruiu toda sua autoconfiança, foi a lembrança da expressão de Deku.

“Ele desistiu de mim. Totalmente.” Foi o que o loiro pensou, jogando o braço sobre os olhos. Ele tinha visto como o Deku olhou para si com aquela expressão cheia de emoções, cheia de mágoa, cheia de desejo, mas ainda assim preferiu sair com aquela tábua branca que era o Todoroki e foi embora. Doeu como ele nunca tinha esperado antes. Foi o golpe final.

— Não tem mais volta. — ele murmurou para o ar, sentindo seu peito apertar como nunca. Um sentimento de perda corrosivo.

O sentimento era final. Sem conserto. Sem volta. Ele nunca mais ia ter chances com o Midoriya.

Nesse momento, Bakugo se rendeu ao vazio, decidindo se entregar em silêncio a esse novo sentimento, tão poderoso era. Ele podia se permitir sentir assim agora, pois na manhã seguinte, ele precisaria voltar a normalidade e, sinceramente, não fazia nem ideia do que fazer.

Foi assim que ele ficou até de manhã, tomado de pura insônia e pensamentos que não sumiam por mais que ele tentasse. Em frente ao espelho ele proferiu mentalmente alguns auto xingamentos, massageando seus olhos inchados que revelavam para o mundo o quão patético ele era.

— Merda... — ele murmurou uma vez, jogando água gelada no rosto, tentando parecer menos destruído.

Ele passou alguns minutos avaliando-se. Sentiu raiva de si mesmo, mas principalmente do Deku por tudo o que estava fazendo com ele. Se talvez desde o começo não tivesse cedido aos seus desejos, ele não estaria passando por tudo isso agora.

Mas como diz o ditado, não adianta chorar sobre o leite derramado.

Bakugo tinha plena consciência de seus deveres e seus objetivos. Deku podia até mexer com seus sentimentos e destruí-lo por dentro, mas nunca, nunca, que Bakugo deixaria as pessoas perceberem. Ele sempre tinha sido assim e não era agora que ele iria mudar.

Na próxima manhã...

Midoriya não conseguia disfarçar sua distração, seu olhar fundo e sua voz embargada durante a manhã. Mas seus amigos entenderam e foram discretos sobre. Até mesmo a dupla dos idiotas agiu normalmente, desejando um bom dia, fazendo uma piadinha genérica e seguindo para a aula.

Já Todoroki, quem sabia minimamente o que tinha rolado na noite anterior, passou pela cozinha antes, achando o Midoriya encostado no balcão. Ele imaginou que veria o Bakugo, que sempre era tão pontual, e como ele não estava lá como esperava, isso imediatamente levou-o a pensar que muito provavelmente os dois tinham brigado.

“Uma briga entre amigos de infância”. Todoroki pensou, fitando o chão de forma pensativa. Ele estava curioso, já que não fazia ideia de como era estar brigado com um amigo. Como ele poderia? Logo ele que nunca tinha nem discutido com um de seus irmãos.

O esverdeado demorou um pouco para notá-lo ali na porta. Seu estresse estava tão alto que ele momentaneamente hesitou para se virar ao sentir uma presença. Mas assim que o fez percebeu o garoto estoico ali, confortável em seu uniforme, mãos nos bolsos e olhar relaxado, Midoriya expirou um suspiro de alívio.

— Todoroki-kun... Bom dia.

O maior se aproximou dele calmamente e cumprimentando-o com a cabeça. Todoroki mexeu um pouco a alça da bolsa.

— Bom dia Midoriya. Como você está? — indagou casualmente. Midoriya desviou os olhos um instante, sentindo que o amigo tinha entrado um pouco mais em seu perímetro do que na noite anterior. Era óbvio como ele estava demonstrando preocupação.

— Hm. Estou bem, estou fazendo um chá agora. Quer um pouco antes de ir para a aula, Todoroki-kun?

O sorriso do rapaz foi pequeno, mas perceptível. Todoroki negou gentilmente com a cabeça pelo chá e se aproximou só um pouco mais.

Midoriya não esperava tal ação da parte de seu ex-oponente nesse momento, mas Todoroki levantou os dedos da mão esquerda e tocou seu rosto – seu rosto – causando-lhe um breve choque.

— Você está com olheiras fundas. Tente pegar mais leve hoje se puder.

Mas o mais baixo piscou umas duas vezes sem ouvir, muito perdido na face de Todoroki e seus olhos bicolores e a sensação aquecida daquela palma. A mesma bochecha que o mais velho tocava esquentou. Além do toque gentil, também de vergonha súbita. Midoriya desviou os olhos, completamente envergonhado.

— U-Uhm... — Midoriya respondeu, quase num sopro.

Ao perceber o que estava fazendo, Todoroki se afastou, sem ser repentino demais. Mas talvez tivesse sido pior. A sensação boa da pele roçando em seus dedos. Ele conseguiu ver pela forma que o rosto de Midoriya se contorceu e nos olhos verdes desesperados como estava próximo demais.

— Desculpe. — Todoroki murmurou, guardando suas mãos para si e tomando uma distância amigável. — Se precisar de qualquer coisa, pode me chamar. Nós trocamos números faz um tempo.

O mais baixo voltou a fitá-lo, um pouco mais confortável, e ganhou um novo sorriso, coçando a cabeça, sentindo-se derrepente bem humorado.

— A gente não pode usar o celular na sala de aula, Todoroki-kun.

O mais alto piscou e sorriu de novo, um pouco mais do que o normal.

— Não precisa se preocupar. Se você não contar eu não conto também.

E ele saiu com um aceno ao dizer isso.

Bem. Aquilo tinha sido...

Midoriya se virou para o balcão e passou a mão pelo rosto e por toda a testa, sentindo-se febril. Era difícil explicar o que estava sentindo agora, mas ele não estava bem.

O estômago estava virando de nervosismo, mas seu rosto estava quente – aquele toque gentil, quente e delicioso, como se estivesse recebendo um carinho que há muito estava desesperado. E por dentro, seu corpo tremia pelo vazio e pela frustração ao se recordar de como era não ter essa mesma sensação vinda de Kacchan. Ele quis chorar novamente por um instante, sabendo como seu corpo e mente estavam lhe pregando peças.

Se tinha uma palavra para descrevê-lo agora era “miserável”. Midoriya, o miserável. Ele precisava se recompor ou-

— O que é que você tem, Deku?

Midoriya arregalou os olhos, sentindo seu corpo em choque. Mas apenas por um instante. Ele se recompôs. Se obrigou a fazer isso. Pés firmes, olhos estreitos, tom estável. Tinha que ser forte na frente dele.

— Bom dia Kacchan. — respondeu, voltando a mexer com a chaleira e já cortando o olhar. Seu coração, no entanto, batia a mil.

— Bom dia.

O loiro se movimentou um pouco para lá, andou uns passos, mexeu nos armários e se dirigiu ao fogão como sempre.

Os dois se mantiveram em silêncio de novo. E estaria tudo bem normalmente, mas o ar do local... Midoriya não queria conversar, mas talvez conversar o distraísse daquele maldito cheiro que ele simplesmente adorava. Kacchan e as características de sua individualidade o faziam cheirar naturalmente muito bem.

Bakugo tinha decidido vir direto da cama , sem trocar as roupas. Midoriya viu que ele ainda estava de pijama e o cabelo bagunçado.

Antes de surgir qualquer ideia para iniciar uma conversa, a voz desinteressada do loiro soou no ambiente.

— O que você quer fazer? Nós vamos fingir que nada aconteceu ontem?

Midoriya engoliu a saliva. Alto. E seus olhos atingiram as costas do loiro em sua regata clara, músculos se movendo, acompanhando o movimento da espátula e da frigideira. Agora o ambiente pelo menos cheirava a ovo e não à pele suada e a lembrança do sexo que tiveram várias vezes.

— Não vou parar de falar com você, Kacchan. Só não vamos falar sobre o que aconteceu.

Depois de alguns segundos de tensão, Midoriya pode ouvir um pequeno:

— Entendi.

E Midoriya não detectou nenhuma outra reação além dessa. A sensação em seu estômago pareceu apenas se aprofundar.

Ambos se colocaram a fazer suas tarefas, como no dia anterior, mas hoje os dois demoraram o dobro do tempo e, na hora dos estudos individuais, Midoriya pegou o sofá enquanto Bakugo se sentou à mesa.

Os dois sentiram na pele. Sentiram como queriam se torturar mutuamente fazendo isso.

Naquela noite...

Ele não soube como conseguiu.

Estar no mesmo ambiente com alguém que lhe proporcionava tudo, porém, sem poder tocar.

Era masoquismo.

“Esse nerd de merda!” Bakugo mordeu os lábios no banheiro da sala de estar do Heights Alliance, seus olhos fechando e abrindo com força. Seu corpo ardia inteiro, internamente em seus órgãos e por toda sua pele, como centenas de formigas andando sobre ela.

Sua face no espelho piorava a cada minuto, contorcendo-se. O brilho vermelho no ambiente todo. Seus olhos, sua face, a luz. Sua visão toda vermelha. Mostrando que ele era só uma pilha de carne.

Não havia um discernimento correto. Se era raiva ou tesão.

Ele só não queria se render a esses sentimentos. Ele não podia se dar o luxo de dar isso para alguém.

Ele tinha resolução e sempre cumpria. Ele era Bakugo Katsuki. Ninguém tinha uma resolução como a dele. E ele tinha que provar ser melhor que o Deku.

Com isso, ele liberou o banheiro para o infeliz do Mineta e voltou para onde toda, mas toda a 1-A estava. A sala estava lotada, o cheiro de pipoca no ar – que ele mesmo tinha estourado – e apenas a luz das cenas passando na tela da televisão. E não era para ele estar ali. Era para estar em seu quarto dormindo, mas os colegas tinham incomodado tanto para ele participar daquela sessão de cinema ridícula que teve que ceder. Decidiram por um filme de comédia no início, mas alguém teve a incrível ideia de por um terror logo em seguida. Em um momento estavam todos quietos, no outro a comida e o refrigerante estava voando.

Mas o pior: Deku sentado no meio dos amiguinhos. Patético como sempre. Ninguém tinha percebido como o metadinha tinha decidido praticamente grudar em Deku, causando-lhe uma fúria que ele não sabia ter guardada. Também não era segredo o quanto odiava como Todoroki ficava se envolvendo. Ele já tinha essa questão bem clara em sua cabeça, que não se orgulhava, mas tinha aceitado pelo menos.

— Ai meu deus, é agora-... — a voz de Hagakure murmurou, aumentando ainda mais a tensão.

Bakugo girou os olhos, se encaminhando de volta para seu lugar, ao lado de Ashido. Logo no começo, quando estavam decidindo os lugares, ele tinha decidido ficar nas beiradas para, assim que visse a oportunidade, ele sairia. Mas agora que tinha chegado a isso, ele também não conseguia sair. Seus olhos tentavam prestar atenção na trama. Algumas vezes ele até conseguia acompanhar o filme, mas a maior parte do tempo desviava para baixo, onde o nerd se sentava na outra extremidade, sobre o carpete no chão junto com o grupinho, Todoroki, Iida, Mineta e Aoyama.

Os minutos passaram assim. Seu coração doendo ao vê-lo ao alcance, mas tão distante. Nada do que tinham discutido saía de sua mente. E ele não tinha para quem contar.

Também não sabia o que fazer com tudo aquilo que estava acontecendo. Como fazer seu corpo conectar com sua mente? Em sua cabeça ele sabia que não ia funcionar entre os dois pela simples razão de não ser produtivo.

— Ei, Bakugo. — a voz veio do seu lado.

A dançarina dos cabelos róseos piscou para ele, falando muito baixo e tocando seu ombro.

— Eu vou buscar mais lanchinhos. — ela apontou a cozinha e fez um movimento com a cabeça. Ela queria que ele a acompanhasse.

O loiro então pensou um pouco. Ele não queria conversar sobre nada com ninguém, mas ao mesmo tempo ele só estava tendo um desgaste desnecessário olhando o Deku como um doente obsessivo.

Então ele não demorou em anunciar sua saída com os potes vazios para ir cumprir seu papel naquela noite: estourar a pipoca. Enquanto isso a menina fazia a parte de levar bebidas e doces.

Logo que ficaram a sós, ela largou a face brincalhona, mas manteve a voz baixa.

— Todo mundo sabe que vocês brigaram de novo. Não precisa fingir que está tudo bem.

Ele franziu a testa tão forte que Mina ficou com medo de ele começar a estourar o milho nas próprias mãos.

— E o que você tem a ver com isso?

— Eu só estou dizendo. — ela deu de ombros, colocando as bebidas em cima do balcão.

Bakugo empinou o nariz para ela, pegando o milho para estourar e já se colocando em posição para fazer seu serviço. E a garota rósea permaneceu em silêncio ao seu lado, ordenando os potes e esperando o óleo esquentar. Pelo menos até ela abrir a boca de novo para atormentá-lo. Típico de Mina.

— Um passarinho verde me contou que um certo garoto explosivo não soube se expressar com seu amigo de novo e acabou gerando mais problemas. — ela cantou com um bico, fingindo inocência.

Isso só fez o loiro ranger os dentes e fitá-la com olhar mortal.

— Bakugo, manda a real. Você não vai conseguir resolver sua situação com o Midoriya sem uma ajudinha exterior. — ela balançou o rosto, muito convencida e séria sobre o assunto.

Bakugo jogou o milho e fechou a tampa. Mina contemplou a face pensativa do louro.

— Eu não preciso de ajuda porque não tem mais o que resolver. — ele rosnou, enfezado, mantendo os olhos no milho fritando aos poucos.

Mina suspirou, chegando mais perto no balcão.

— Que decepção... Não é muito seu tipo desistir das coisas.

Bakugo rangeu os dentes com isso, franzindo ainda mais a testa e ela não deu tempo para ele interromper:

— Não que eu saiba muita coisa, mas o Midoriya é bem expressivo e de ontem para hoje alguma coisa séria aconteceu entre vocês dois. Não é da minha conta o que houve, mas vocês são amigos de infância não são? Nós moramos todos juntos aqui no dormitório. Se esse clima continuar, vai começar a afetar todo mundo. Já deu pra notar não é?

Bakugo girou os olhos, mexendo a pipoqueira.

— Não é problema meu. Se vocês tem algum problema com isso, porque não conversa com o nerd? Ele que é a causa disso tudo. Aliás, não temos mais nada para resolver porque ele decidiu que não tem mais nada para ser discutido.

Mina bufou com a resposta e puxou o loiro para encará-la.

— Você realmente acha que ele não quer uma iniciativa da sua parte? Ele pode até ter encerrado o assunto, mas é óbvio que ele não está satisfeito com o resultado.

— Pelo que eu vi ele está perfeitamente bem. Eu não tenho obrigação de correr atrás...

— Vocês são realmente amigos?! — ela estourou, franzindo o cenho e pondo a mão no balcão. — Até um cego consegue ver que ele não tá legal, Bakugo. Faz um tempão que a Uraraka-chan comenta sobre o Midoriya estar agindo diferente e menos animado. Talvez você não perceba porque você está tão vesgo olhando pro próprio nariz!

Bakugo apertou os punhos e foi para discutir, mas a pipoca estava começando a transbordar e ele começou a rosnar e a xingar enquanto resolvia. Mina suspirou, começando a se preparar para voltar à sala.

— Não custa você abaixar a bola de vez em quando. Se vocês só discutirem e não conversarem sobre o que vão fazer a partir de agora, a única coisa que vai acontecer é você perder um amigo.

Bakugo, pôs a mão na testa, fervendo. Ele sempre fazia o que o Deku queria. Deku sumiu, ele ficou quieto. O Deku veio conversar, eles conversaram, embora ele não tenha gostado de sua resposta. O Deku decidiu cortar o assunto e não falar mais sobre isso, Bakugo aceitou e não se fala mais sobre isso. Ninguém enxergava como ele só estava seguindo as vontades de Deku. Era simplesmente patético. Ele só estava se deixando puxar pela coleira de Deku. Tudo isso era tão patético, pois era só o Deku dar sua palavra que eles podiam estar juntos.

Era irritante porque ele não tinha obrigação alguma de decifrar o que se passava na cabeça do nerd. Eles só estavam nessa confusão porque o Deku quis complicar tudo.

— Bakugo, você é sempre tão direto com tudo, que até me impressiona vocês não terem posto os pontos nos i’s ainda. Por acaso você está com medo de falar o que pensa pra ele?

O aperto no estômago que vinha sentindo desde então se aprofundou um pouco mais ao ouvir essas palavras. Se tinha uma coisa que ele não admitiria era isso. Ele não queria admitir que no fundo no fundo o problema revolvia no fato de ele ter que falar sobre sentimentos que estava tentando ignorar.

“Eu não quero perder pro Deku.” Ele pensava constantemente. Ele já tinha que gastar toda sua energia em ser o melhor. Todo o peso de ser o responsável pela queda de All Might o corroendo. Ele só não queria parecer quem tinha gostado primeiro, então era melhor ter uma relação sem rótulos, assim ele estaria protegendo sua própria autoestima.

A menina rósea nunca havia presenciado tal expressão no colega e, apesar de não entender os motivos por trás de tanta preocupação, ela bateu em seu ombro de novo.

— De vez em quando a única coisa que você precisa fazer é ir atrás da pessoa e dizer que está tudo bem. Que juntos vão resolver as coisas. — Mina falou baixo. — Afinal vocês dois estão envolvidos. Não é só uma parte decidindo tudo que vai realmente sair algo frutífero. Comunicação é a chave, certo?

O loiro a fitou, pensativo. Ele não sabia realmente se só isso ia resolver toda sua situação com Deku. Ele simplesmente tirou a mão da menina, fechando os olhos e bufando.

— É só mais uma tentativa. A gente nunca sabe o que pode acontecer no futuro. E vamos todos virar heróis certo? Com uma vida assim, precisamos estar sempre tomando cuidado para não nos arrependermos com as nossas decisões. — ela afirmou, um pouco séria demais para seu personagem.

Ele não pode negar que ela tinha um bom argumento. Ele deu de ombros.

— Ha, você se intromete demais.

Nesse instante, enquanto ela ria animadamente para Bakugo e equilibrava as bebidas nos braços, Kirishima pôs a cabeça para dentro da cozinha, a expressão estranha. Ele sorriu, mas obviamente tinha algo errado.

— Vocês estavam demorando tanto que o filme acabou. Precisam de ajuda para carregar as coisas? — ele ofereceu, se aproximando do loiro. Bakugo percebeu como ele aparentava estar sem graça.

— Eu dou conta aqui! Ajude o Bakugo, Kirishima. — Mina anunciou com uma piscadela e saiu pela porta, indo se juntar ao grupo.

Kirishima ficou em silêncio após a saída dela e Bakugo bufou com aquilo. “Comunicação é a chave”, certo?

— Se vai ficar de bico, melhor sair da minha frente. Ou desembucha logo. — Bakugo resmungou, organizando os potes de pipoca e começando a distribuição.

O ruivo deu uma risadinha sem graça e começou a ajudá-lo.

— Posso conversar sobre uma coisa com você depois, Bakugo? É meio... Não quero falar exatamente agora.

— Tch! Quanta besteira. Vamos levar a comida e depois vamos lá para fora.

XXX

— A alma dele! A alma dele está voando! — Denki chorava alto enquanto tentava segurar o espírito.

— Midoriyaaaa! — Mineta gritava, balançando o corpo meio morto de Midoriya.

Alguns riam da situação, mesmo porque não era só o fã de All Might que tinha desmaiado ridiculamente com o filme de terror. E um bem basiquinho ainda. No entanto, aos poucos foi recobrando a consciência, voltando a comentar sobre os filmes.

A conversa ia e vinha. Midoriya estava passava a mão na nuca, falando de seus calafrios para quem estava à sua volta. E por algum motivo as meninas estavam reunidas na frente da televisão discutindo sobre alguma coisa secretamente. Mineta tinha seus olhos e ouvidos bem atentos, mas era inútil.

Enquanto tudo isso acontecia, Midoriya entre um riso e outro viu como Bakugo e Kirishima saíram da cozinha juntos.

Não foi sua intenção de forma alguma, mas ele não conseguiu tirar seus olhos da cena, sentindo que aquele minuto passava em câmera lenta, absorvendo todos os detalhes daquela interação. Ambos estavam carregando os potes de pipoca personalizados da 1-A, Kirishima falava algo que ele não conseguia identificar e Kacchan fazia um bico feio e irritado, mas claramente participativo. Midoriya conseguia vê-lo respondendo algo em resmungos.

Ao passo que eles se aproximavam dos colegas, Midoriya pensou ter visto a face de Kirishima ficar vermelha. E, com isso, tudo o que vinha negando sentir até então escapou pela rachadura que vinha rasgando dentro de si.

— Midoriya tá me ouvindo? — Mineta chamou sua atenção pela segunda vez.

— Uhm... — ele sorriu, amarelo, e tentou prestar atenção nos amigos, mas sua atenção estava travada na movimentação de Kacchan pelo cômodo.

Quando eles começaram a se aproximar do grupo, Midoriya sentia seu nervosismo gradualmente aumentando, seu coração acelerando como se estivesse numa pista de corrida. Seu orgulho e irritação o faziam querer ficar para olhar nos olhos de Kacchan, reunindo bravura para confrontá-lo, mas seus nervos gritavam para correr, dominado por uma covardia enorme de se decepcionar outra vez.

E de súbito, ele se pôs em pé, avisando aos amigos rapidamente que ia sair e já voltava. Bakugo e Kirishima por pouco não o alcançaram. Para os quatro garotos, ficou bem claro que Midoriya tinha fugido. Claro, pois como a Ashido tinha dito, todos sabiam perfeitamente bem que Bakugo e Midoriya tinham discutido de novo.

— Eita... — Denki balbuciou, olhando para as costas do Midoriya sumindo pela porta afora.

Bakugou só bufou com aquilo e continuou fazendo sua tarefa de entregar os potes. O pote com o desenho de All Might em suas mãos permanecendo.

Mineta balançou a cabeça em desaprovação e tomou-o das mãos do loiro.

— Vocês são crianças é? — Mineta comentou e foi sentar com o amigo elétrico novamente, esperando o plano das meninas, qualquer que fosse, ser concluído.

Kirishima fitou o amigo e esperou ele dizer algo, mas tudo o que saiu de Bakugo foi:

— Você tinha algo para discutir não tinha? — seus olhos mortais.

O rapaz ruivo levantou as mãos e acenou.

— Sim, mas você tem coisas mais importantes agora não tem?

O punho levantado de Bakugo ameaçou acertar o nariz do colega e não cedeu por nenhum segundo.

— Se você não falar agora, eu vou quebrar sua cara, Kirishima. Vamos lá para fora.

— L-Lá para fora? Mas o Midoriya acabou de...

— Vamos-lá-pra fora. — Bakugo rosnou, ameaçadoramente, enxotando o amigo ruivo em direção à porta.

Minutos antes...

Não era de seu feitio, mas ele acabou agindo no impulso ao ver Kacchan vindo em sua direção. Ele obviamente teria ficado em silêncio ou agradecido quando seu pote fosse entregado, porém, ele sabia que não conseguiria olhar nos olhos dele. Ainda mais com aquele sentimento tão errado arranhando seu corpo.

— Midoriya! — uma voz soou em suas costas alguns metros de distância. — Midoriya, espera!

Foi só então que ele notou como estava andando muito rápido em volta do prédio e tinha ido parar no jardim do fundos. Ele diminuiu seus passos, as mãos massageando-se, mordendo os lábios em nervosismo. Até que parou ao lado da mureta do jardim, sentindo a aproximação do amigo, que veio correndo em sua direção tentando alcançá-lo.

— Midoriya... — ele parou ao seu lado. — Você saiu tão rápido.

O garoto então levantou os olhos, fitando o Todoroki, sentindo-se muito exposto e constrangido por ter tido uma reação tão indigna de um herói. Ele sabia que seu rosto estava esquisito, mas não conseguia evitar.

— Desculpa, Todoroki-kun.

Ambos ficaram em silêncio um instante antes de o garoto esverdeado soltar um suspiro pesado e se sentar, o maior esperando um tempo e decidindo se sentar à direita de Midoriya.

O de olhos bicolores contemplou o silêncio do melhor amigo e como seus dedos cheios de cicatrizes remexiam sem parar. Todos já tinham aceitado que Midoriya era do tipo de pensar demais, ainda que positivista, mas para algumas situações isso preocupava um pouco.

Então os suspiros continuaram por um tempo e o Todoroki não aguentou mais vê-lo assim. Nunca foi seu costume se meter em problemas alheios, porém, Midoriya tinha mudado tudo isso nele. Nesse momento tão importante, ele era o único que podia ajudar.

— O que realmente aconteceu entre vocês dois, Midoriya? — ele indagou, a voz calma e baixa. Ele estava ali, pronto para apoiá-lo.

A reação de Midoriya foi tensionar os ombros e apertar os olhos. Ele parecia estar pensando em suas palavras. O silêncio se estendeu um pouco mais, os olhos melancólicos e perdidos revelando toda a insegurança de Midoriya e todo o peso das coisas que ele podia dizer.

Todoroki apertou os dedos na calça de seu pijama cinza, incerto. A noite estava fresca e a luz das lâmpadas do jardim iluminavam os garotos em uma luz tênue e borrada. Alguns insetos noturnos zumbiam aqui e ali. A expressão de Midoriya o fazia se sentir impotente. E o fazia desejar.

A mão de Todoroki pousou entre os dois, próximo ao corpo do amigo, querendo se aproximar.

— Midoriya. — ele chamou mais uma vez. Pediu. Seu rosto perto, seu corpo querendo tocá-lo e demonstrar o quanto se importava.

O garoto abriu os lábios, perto de dizer, mas ainda segurando a voz, com o olhar distante. O jovem Todoroki conseguia ver como Midoriya queria, mas o conflito dentro de si era grande demais.

Todoroki tocou seu braço, tirando-o de seus pensamentos e fazendo-o olhar somente quem estava à sua frente. Midoriya teve que encarar em seus olhos bicolores o quanto estava sério.

— Eu estou aqui com você, Midoriya. — ele dizia, enquanto o aperto ficava mais firme e os olhos verdes se tornavam mais e mais convencidos. — Eu quero me tornar um companheiro com quem você consiga se abrir. Sobre qualquer coisa.

A gravidade e a confiança na voz de Todoroki naquele momento causou um tremor em Midoriya. Tudo o que passava por sua mente, as cenas que o perturbaram por meses, o medo de rejeição e o sentimento de solidão, tudo se tornou calmo e silencioso. Ele acenou com a cabeça para o rapaz bicolor, notando como tinha preocupado o sempre tão estoico Todoroki. E ele tinha se importado realmente e ele não precisava ficar guardando seu segredo mais.

— U-Uhm... — ele assentiu com a cabeça, murmurando com a voz embargada de choro. Ele era um bebê chorão, mas Todoroki-kun nunca ia julgá-lo por isso. Além disso, não tinha ninguém ali além dos dois.

Sua mão em recuperação se levantou, segurando o pulso do amigo. Então ele percebeu como o calor de Todoroki tomava o espaço sutilmente, como se o estivesse abraçando.

“Por isso ele se sentou desse lado. O lado quente. Por minha causa.” Ele não conseguiu evitar um sorriso envergonhado.

Vendo a forma que o rosto de Midoriya se transformou, Todoroki sentiu seu coração batendo de uma forma diferente, uma que ele nunca havia sentido antes... um sentimento que definitivamente era diferente.

Os dois abaixaram as mãos, separando-se e com o silêncio confortável retornando. Midoriya tomou um ar e se preparou mentalmente para o que viesse.

— Isso é algo muito delicado e eu não quero que absolutamente ninguém saiba disso. Para nós que vamos nos tornar heróis... Isso não é algo que deveria ser espalhado por aí. — ele pausou um instante, olhando para baixo. — Na verdade não é algo bem aceito na sociedade, o que seria pior ainda. Mas eu sei, eu sinto que preciso contar para alguém, senão eu vou explodir.

— Midoriya, pode confiar em mim. Eu prometo que isso é só entre nós dois.

O esverdeado então concordou e começou a contar sua relação com Kacchan. Ele tentou explicar como eles eram quando mais novos, como eles cresceram e como de uma relação confusa eles saltaram para encontros íntimos. E então sobre sua insegurança sobre tudo, seu afastamento de Kacchan, sobre suas discussões e sobre seus sentimentos remanescentes. Até o presente momento, quando Todoroki o ajudou.

O Todoroki escutou tudo, confirmando sua presença a todo instante, passivamente absorvendo todas as informações. Chocado, esperançoso, feliz e decepcionado ao ouvir cada palavra de Midoriya. Seus próprios sentimentos reviravam em seu corpo, mas ele sabia que precisava estar ali pelo amigo. Tudo ali era sobre Midoriya. Ele precisava ser um amigo agora, nada mais.

— Não consigo parar de me atrair por ele. Não consigo parar de sentir obsessão e me sentir poderoso quando ele olha só para mim. — Midoriya murmurou, constrangido demais para olhar Todoroki. — Às vezes eu sinto como se fosse uma doença.

Numa hora como essa, era muito difícil não sentir medo de receber rejeição e olhares de repulsa. Era o que mais temia agora, por isso ele não conseguia olhar.

Todoroki arqueou as sobrancelhas, captando tudo o que o colega sentia. Ele melhor de que muitas pessoas, tinha começado a prestar atenção nele. Ele até podia ser lerdo, mas nunca tinha sido negligente com alguém que cumpria um papel tão importante em sua vida. Por isso, ele tomou os dois ombros do outro e o virou para si.

— Midoriya! Você não está doente. — sua voz penetrava na consciência do Midoriya. — Não tem nada de errado com você.

O rosto de Midoriya, perturbado, se apertava um pouco mais, seu nariz vermelho de tanto fungar. Suas mãos buscaram a camisa do amigo e afundaram-se no tecido, puxando-o com força.

— É claro que tem! Isso não é normal, Todoroki-kun! Eu não posso me sentir assim quando eu decidi acabar com tudo!

— Midoriya... — Todoroki levantou a mão quente, ainda mais ousadamente. Ele via o desespero do amigo, o choro quente e sentimentos que ele nunca esperaria de alguém tão corajoso. Seus dedos tocaram o topo da cabeça, no cabelo volumoso e fofo. Midoriya rangeu os dentes e não se segurou mais, escondendo o rosto em seu ombro, as mãos segurando forte sua camisa.

— Eu não sei o que fazer para parar de me sentir assim...

Todoroki o envolveu com seu braço e o manteve perto. Sua voz interior querendo sair, porém, hesitando. Não era a melhor hora para ele ser corajoso. O que estava fazendo era suficiente e ele não precisava se por em risco. Ele mal tinha certeza do que sentia em relação a Midoriya. Ele sabia que nesse momento sentia uma vontade imensa de protegê-lo e quem o tinha feito se sentir assim devia pagar.

O tempo foi passando lentamente. Midoriya ganhou espaço para desabafar tudo o que sentia e recebeu o apoio que precisava. Seu corpo começava a ficar um pouco mais aliviado de todo o estresse.

Todoroki esperou ele parar com o choro e voltar a se sentar reto, separando o corpo aquecido do seu. Ele sentiu uma falta imensa. Midoriya também.

— Midoriya, sabe. Eu acho que consigo te entender um pouco...

O rapaz levantou os olhos que pareciam de vidro, vermelhos e cansados das noite mal-dormidas. Todoroki murmurou, como um segredo:

— Você me ajudou a superar um sentimento com o qual eu vinha sofrendo há tanto tempo. Mas não é como se tivesse sido da noite pro dia, sabe? Depois de você me dar o empurrão que eu sempre precisei, eu pude finalmente sair da linha de partida.

— Todoroki-kun...

— E eu acho que é o mesmo que você está precisando agora. Você talvez consiga ver um leque de possibilidades depois de perceber que esse sentimento não te domina. Você é quem tem que pegar esse sentimento e transformá-lo em algo que você controla e se superar a cada dia.

Midoriya engoliu em seco, seu coração ganhando mais espaço. Ganhando mais ar para respirar. Ele passou o braço sobre os olhos enquanto concordava rapidamente com a cabeça.

— V-Você está certo!

— É igual a um super poder não é?

Midoriya parou um instante, parecendo ter notado só então.

— S-SIM!

Todoroki sorriu levemente, recebendo como resposta o olhar que fazia seu estômago borbulhar de satisfação. O olhar corajoso e sempre otimista de Midoriya. O olhar de um verdadeiro herói.

O esverdeado riu um pouco, falando sobre como ele iria encher o saco de Todoroki agora que ele compartilhava de seu segredo. O rapaz bicolor sorria satisfeito por ter cumprido o papel de bom amigo... ainda que algo estranho estivesse se remexendo no fundo. Ele não conseguia deixar barato pro Bakugo, que tinha parte em tudo isso.

— Midoriya. — chamou-o, muito sério.

— O-O que, Todoroki-kun?

Ele tomou coragem, olhos focados e seu ar tão gélido como o frio de uma montanha.

— Você entende que se você gosta de alguém, esse sentimento devia te fazer sentir bem. Se isso te machuca, te faz sentir esse medo todo e você não consegue sentir-se confortável com ele, talvez você esteje forçando algo que não era para ser. Pense bem se você quer realmente desistir ou se você quer tentar uma última vez, para não ter arrependimentos. Mas se lembre que se precisar, você sempre vai ter alguém para voltar, certo?

Foi estranho, mas Midoriya pôde sentir o peso que Todoroki estava colocando na situação, colocando a si mesmo como responsável. Ele era uma testemunha, um confidente, mas pareceu tão seguro e confiante... Midoriya sentiu-se completamente afortunado por ter alguém como Todoroki dando-lhe suporte. Alguém que o deixava confortável e seguro.

“Podia ser ele a pessoa certa.” Midoriya pensou por um instante e, em seguida, sentiu seu estômago e rosto quente com algo tão embaraçoso assim.

Ele nunca havia pensado assim sobre ele. Ele não entendia se esses eram falsos sinais ou se Todoroki-kun estava insinuando que... Midoriya sentia-se cada vez mais envergonhado. Se fosse isso, Todoroki-kun meio que... gostava dele?

— Já ficamos muito tempo aqui. Logo mais vão aparecer procurando a gente. — Todoroki anunciou, levantando-se, afastando-se do Midoriya estupefato. — Você está bem para voltar?

Midoriya se ajeitou uma última vez, decidindo ignorar seus pensamentos. Ele provavelmente tinha entendido errado e Todoroki-kun só queria dizer no sentido de amizade.

— Sim, estou muito melhor, vamos voltar.

Todoroki acenou com a cabeça e tomou o caminho pelo que eles tinham vindo e Midoriya o seguiu, não o deixando se distanciar demais. A silhueta de Todoroki continuava calma como sempre.

— S-Shouto-kun.

Todoroki fitou-o, demonstrando uma leve surpresa.

— Obrigado. — Midoriya sorriu para ele, seus punhos mais firmes, demonstrando força. — Eu não vou desistir ainda.

O garoto de olhos bicolores assentiu com a cabeça depois de um instante e voltou a caminhar.

— Muito bem.

Continua