Obsesso

6 05. Quando dois gênios conversam


Notas iniciais
i'm back ~~enjoy

Sasuke dirigia um pouco mais rápido do que o normal, chegando perto do limite de velocidade. Adorava dirigir rápido, porém apenas no campo, bem longe da cidade; continuava sendo um oficial da lei, e não colocaria a vida dos outros em risco devido a um capricho seu – não que realmente achasse que fosse bater.

Demorou quase vinte minutos para chegar à sua casa, e sentiu seu estômago roncar ao fazê-lo. Suspirou, indo direto para a cozinha. Não possuía nenhuma comida já pronta, o que era um enorme problema naquele momento. Pegou o pão que estava sobre a mesa e conseguiu apenas terminar o sanduíche antes que a campainha tocasse, anunciando a chegada de Shikamaru. Comendo, atendeu à porta.

O homem de cabelos e olhos negros entrou sem qualquer convite, e Sasuke não estranhou. Shikamaru, que vestia uma calça negra e uma camiseta meio amarela, se jogou no sofá. Trazia uma pasta cheia de documentos em seus braços.

— O que descobriu sobre aquele cara?

— Muita coisa.

Sasuke também se sentou e voltou a comer, permitindo que Shikamaru continuasse.

Ao ver que o outro nada falaria, Shikamaru suspirou.

— Descobri coisas demais, Sasuke.

O Uchiha apenas arqueou uma sobrancelha, e Shikamaru revirou os olhos. A falta de palavras de Sasuke normalmente o irritava, principalmente em momentos como aquele – momentos sentimentais, onde a maioria das pessoas sentia alguma coisa.

— Ele realmente se envolvia em vários relacionamentos, e não fazia questão de esconder nenhum deles.

— Por isso a mulher desconfiou.

— Não, Sasuke, ele não esconde mesmo. Sai com uma mulher diferente sempre que vai a uma festa, e tem várias fotos espalhadas por aí.

O Uchiha franziu as sobrancelhas, confuso. Mordeu o sanduíche que fizera, porém não sentia mais o gosto dele. Era inteligente – talvez não tanto quanto Shikamaru, porém ainda assim muito inteligente – e conseguia acompanhar a linha de raciocínio do Nara.

— E a esposa?

— Não existe. – Shikamaru jogou um papel em Sasuke, que o pegou imediatamente. Até para seus olhos leigos em falsificação, era claro que a certidão de casamento que segurava havia sido forjada.

— Foi uma armadilha.

Shikamaru assentiu com a cabeça, e Sasuke colocou o sanduíche de lado, quase sem percebê-lo. Mastigou o que restava do alimento em sua boca, porém estava insípido. Tanto a comida quanto ele próprio. Uma armadilha? Alguém armara a morte de Itachi? Sentiu a ira inflamar ainda mais dentro dele, e se segurou para não jogar nada contra a parede. Era quase fisicamente doloroso saber que alguém armara a morte de seu irmão. E intelectualmente ofensivo imaginar que queriam cobrir isso de uma forma tão fajuta, a menos que…

— Quando disse que descobriu coisas demais…

— Quero dizer que eles estão nos entregando todas as pistas. – confirmou Shikamaru.

Sasuke encarou o homem ao seu lado com a mesma expressão vazia de sempre. Entretanto, por dentro, fervia.

— Estão armando pra nós também.

Shikamaru confirmou com a cabeça e Sasuke se controlou para não bagunçar seus cabelos e denunciar o que sentia. Lentamente apoiou os cotovelos em seus joelhos e encarou o vazio. Seu queixo repousou em seus dedos, que estavam entrelaçados. O Nara, conhecido de longa data, sabia que Sasuke ficava assim quando recebia notícias perturbadoras e não queria que ninguém soubesse o quão abalado estava.

— O que mais?

— Ele se encontra com a mesma mulher todas as semanas. Eles passam uma hora num quarto de motel, com as cortinas fechadas, mas eu realmente duvido que eles façam algo além de conversar.

— Por?

Shikamaru lhe entregou duas fotos. Eram praticamente iguais. O tal de David – com sua tez extremamente pálida – aparecia com uma camiseta branca e calça social negra. A mulher ao seu lado, quase albina, tinha os cabelos azulados soltos e vestia um curto vestido negro. Em seu seio, um broche de nuvem vermelha reluzia. Analisou ambas as fotos por vários segundos, tentando se concentrar. A mente de Sasuke vagava devido a tudo o que descobrira. Alguém odiava Itachi o suficiente para armar a morte dele, e parecia tentar fazer o mesmo consigo.

— As roupas não estão amassadas, e não há marca alguma que indique uma relação sexual. Não há um fio de cabelo fora do lugar em nenhum deles, e o batom vermelho da mulher está impecável.

Sasuke apenas assentiu. Outra possibilidade, ainda mais apavorante, passou pela sua mente.

— Itachi sabia que era uma armadilha.

Quando proferiu o que era para ser uma dúvida, percebeu que era uma afirmação. Sentiu a confusão e a raiva o dominarem por alguns segundos, e a expressão tomada pela ira que deixou transparecer fez Shikamaru desviar o olhar. O Nara não respondeu, pois sabia que Sasuke não precisava de uma confirmação. Os dois ficaram em silêncio por vários minutos.

O Uchiha não conseguia compreender. Por que Itachi não falara com ele? Por que não o informara a respeito daquilo? Se era uma armadilha, por que não pedira por auxílio? Sentiu seu estômago se revirar, e se recusou a aceitar que o irmão queria morrer. Itachi jamais desejaria algo como aquilo. Então… por quê?

— Passei a manhã inteira tentando compreender o motivo de ele ir sozinho, Sasuke, mas acho que isso não saberemos por enquanto. Há muitas possibilidades, e nenhuma delas é agradável. Por enquanto, o melhor é continuarmos com a investigação.

— É uma indagação muito pertinente para ser esquecida. – retrucou o moreno, rápido demais. Seu desespero transparecendo minimamente.

— Não será esquecida, apenas colocada de lado. Precisamos discutir sobre mais coisas.

Toda a irritação que sentia foi expressa apenas por um suspiro, e então a frieza costumeira voltou aos seus olhos. O Uchiha deixou aqueles pensamentos de lado e se concentrou no que era mais urgente, porém sabia que, à noite, ficaria horas pensando naquilo.

— O que mais?

— Eu pesquisei sobre essa mulher, e não há nada sobre ela.

— Como assim?

— Nada, Sasuke. É como se ela nem existisse.

O Uchiha gelou por alguns segundos, e então escondeu o rosto entre suas mãos. Sabia o que aquilo significava – qualquer bom detetive sabia –, mas não queria acreditar. Itachi não seria assim tão irresponsável para fazer o que Sasuke suspeitava. Não podia ser.

Sentiu vontade de ir até o inferno apenas para espancar o irmão. Itachi tinha merda na cabeça, só podia. Como alguém era tão inconsequente a ponto de fazer o que Sasuke achava que o irmão tinha feito, principalmente tendo dois filhos pequenos? Itachi não pensara em Aya e Naoto? Ou então nele? Realmente acreditara que Sasuke podia ser um bom tio?

— Ela faz parte de uma organização secreta, não faz?

Shikamaru assentiu com a cabeça, vendo como as notícias abalavam o Uchiha. Sabia que Sasuke era a pessoa mais controlada que existia, e se perguntou como ele ainda mantinha uma expressão de indiferença. Não permitiu que o delegado percebesse a dó que sentia. O Uchiha não via esse sentimento com bons olhos.

— Faz.

— Qual?

— Não consegui descobrir muito ainda, mas mexi nas coisas de Itachi e consegui recuperar algumas fotos antigas.

Sasuke pegou as fotos que lhe eram oferecidas, e franziu as sobrancelhas. Elas eram da mesma mulher que falava com David, porém a data não confirmava o que haviam descoberto até o momento.

— Acha que alteraram as fotos?

Shikamaru negou com um movimento de cabeça.

— Acho que Itachi os investigava há bastante tempo, e que foi descoberto.

— Acha que ele estava infiltrado?

O gênio assentiu com a cabeça, e Sasuke não resistiu, bagunçando os cabelos devido à frustração. Como Itachi podia estar infiltrado numa organização que apagara a existência de uma mulher? Por que não contara a ele sobre seu trabalho, ou então pedira ajuda? O mais velho era insano?

— Conhecendo seu irmão como conheço, tenho quase certeza disso.

Sasuke ficou em silêncio. Sabia que Itachi tinha muitas amizades, diferente dele, e que o homem com quem conversava era um dos mais próximos amigos do irmão. Não queria acreditar naquilo. Não podia. Seria como quebrar a imagem que sempre tivera do outro, como descobrir que a pessoa que mais admirava no mundo não passava de uma estranha. Sentiu a confusão e a raiva o dominarem, e voltou a bagunçar irritadamente os cabelos negros.

Apertou as melenas entre seus dedos, e escondeu o rosto. Aquilo não podia estar acontecendo. Uma conspiração? Itachi estava secretamente investigando uma organização muito provavelmente criminosa e fora descoberto? Descoberto…

— Eles não deviam saber que o Itachi é policial.

O uso do verbo no presente pareceu ecoar por toda a sala. Não se corrigiu ou permitiu-se abalar. A máscara de indiferença foi novamente posta em sua face, e Shikamaru sentiu-se mais aliviado. Sempre que Sasuke permitia que suas emoções aparecessem, sentia-se acuado. Porque eram sempre emoções negativas, e o olhar dele ficava daquele jeito meio insano que parecia clamar por sangue. Definitivamente, não era a melhor das visões.

— Acho que foi por isso que o mataram.

Sasuke assentiu, e repassou toda a conversa deles em sua mente. Itachi investigava uma organização provavelmente criminosa e fora descoberto. Então eles mandaram que investigasse um tal de David Reew, e montaram uma clara armadilha para ele.

— Ao descobrirem, enviaram o documento de Reew como um pedido de investigação. Assim que Itachi o viu com a mulher, entendeu o recado: Eles haviam descoberto sua real profissão. Itachi, por algum motivo, foi até a armadilha e morreu.

Shikamaru assentiu. Era o maior período de tempo que Sasuke se mantinha falando, e o moreno proferira as palavras de forma tão impassível que a cena de segundos atrás parecia irreal. Se os cabelos do Uchiha não estivessem bagunçados devido à sua reação exagerada, Shikamaru diria que imaginara o descontrole do outro.

— O que nos deixa com a pergunta: como eles descobriram?

Shikamaru perguntou e se calou. Passara em torno de duas horas pensando naquilo antes de finalmente desistir. As possibilidades eram muitas, e todas eram muito prováveis para que ele seguisse por um único caminho. Observou o irmão de um de seus melhores amigos, e perdeu-se em reminiscências.

Itachi sempre falava de Sasuke como um homem incrível. Era clara sua admiração pelo irmão mais novo, e o descrevia como uma das pessoas mais éticas e incorruptíveis que existiam. É claro que os adjetivos usados pelo moreno eram verídicos, porém o Uchiha mais velho parecia ter convenientemente se esquecido da frieza e da indiferença que rodeavam o delegado. Sentia falta de Itachi, pois este sempre conseguia tornar a presença de Sasuke menos diabólica e irreal. Shikamaru era um gênio – tanto que Sasuke nem ao menos perguntara como conseguira tudo aquilo –, entretanto tinha a estúpida impressão de que Sasuke iria simplesmente se desfazer em corvos e voar pela janela, em busca de uma nova vítima.

Afastou os pensamentos insensatos ao ver que o diabo voltava a se mexer.

— Itachi quase não ia até a delegacia nos últimos meses e, quando o fazia, era sempre de forma sorrateira. Ele era discreto, e duvido que alguém da organização pudesse descobrir que era policial.

Shikamaru assentiu. Não havia dúvidas quanto a isso, Itachi era o melhor agente duplo que se pudesse imaginar. Nenhum dos dois cogitava a possibilidade de que ele cometera um erro e denunciara seus reais objetivos.

— Ele foi delatado.

A afirmativa veio de Shikamaru, e a mesma frase passara pela mente de Sasuke segundos antes. Todos os policiais que com ele trabalhavam passaram pela sua mente, porém não conseguiu se focar em nenhum deles.

— Veio de dentro, não veio?

Shikamaru assentiu com a cabeça, e Sasuke sentiu a ira voltar a tomar conta de si. Não se preocupou em suprimir sua raiva, simplesmente deixou-a transparecer. Aceitava muitas coisas, porém traição não era uma delas. Todos sabiam que, no inferno, todos eram leais ao diabo.

O homem que o traíra realmente se arrependeria de ter nascido.

–-//--//--//--//--//

Sasuke estacionou na delegacia novamente; o relógio marcava quase seis horas – horário em que a escolinha fechava e as crianças precisavam voltar para casa.

Entrou e observou atentamente cada um que estava na sala. Gaara definitivamente não fora, pois o ruivo já provara mais de uma vez suas habilidades – e prezava demais os laços que mantinha com aqueles que o rodeavam. O Uzumaki não fazia parte da força policial na época, então suspeitar dele seria irracional. Lee era antigo e animado, porém tudo podia ser um disfarce. Caminhou calmamente até a sala de arquivos, e, com a chave que apenas ele possuía, entrou numa salinha reservada, bem nos fundos. Ali ficavam os arquivos internos, contendo os dados de todos os policiais. Seu passado, suas fichas criminosas, suas recomendações…

Pegou as fichas de absolutamente todos os policias que ali trabalhavam, e colocou-as em duas caixas grandes. Pegou-as e passou tranquilamente pela sala onde todos ainda trabalhavam, e percebeu que era observado. Não se preocupou em olhar para trás; sabia que eram os olhos azuis do novato que o perseguiam; ele o observava desde o primeiro dia, e Sasuke sabia que era apenas a curiosidade comum que todos os novatos sentiam.

Colocou ambas as caixas no porta-malas e voltou a entrar no carro, partindo em direção à creche.

–-//--//--//--//--//

Aya e Naoto esperavam o tio em frente à creche. Ambos cabisbaixos e entristecidos, sem saber como reagir. Não sentiam vontade de voltar ao lugar sombrio que agora chamavam de casa. Não havia vida lá, e os dois não se sentiam confortáveis na presença de Sasuke. Antes, quando não moravam juntos, o tio era um de seus heróis, e as crianças o admiravam quase tanto quanto admiravam o pai. Porém agora Sasuke se mostrava sempre distante, e elas estavam carentes.

Naoto segurava na mão da gêmea, e Aya parecia perdida em pensamentos. Observaram o carro grande e luxuoso do tio chegar, e o viram sair com graça de dentro do veículo. Ele era realmente maravilhoso, quase um Deus. E a imagem era assustadora, porque não sabiam como agir perto dele; tinham medo de irritá-lo.

Sem dizer uma palavra de carinho, Sasuke pegou as mochilas que eles carregavam e as colocou no carro, depois ajudou os dois a se acomodarem nas cadeirinhas – já pegara o jeito.

Aya observou o tio com o olhar magoado. Quando o pai ia buscá-los, sempre tinha um sorriso no rosto. Abraçava-os e dizia que sentira saudade, e perguntava como havia sido o dia na escola. Itachi sempre os ajudava com os deveres, e estava com um sorriso no rosto. Mas era quase como se nem existissem para Sasuke; como se não passassem de mais uma atividade na atarefada vida dele. Sasuke nunca sorrira para eles.

Naoto dormiu logo, porque estava exausto. Mas Aya não. Ela era quem mais sentia saudades de Itachi, porque queria voltar a se sentir como antes. Era assim que a menina definia sua vida. Antes de Sasuke e depois de Sasuke. Ela queria viver como antes, quando se sentia daquele jeito que fazia seus lábios se puxarem para cima. Entretanto vivia no depois, e seus lábios apenas se puxavam para baixo. Ela queria beijos, abraços, e carinho. Queria Itachi.

Fez um beiço nos lábios rosados, decidida a conseguir o que queria.

— Tio Sasuke, eu quero meu papai.

Sasuke suspirou, cansado. Tinha problemas demais em sua mente, e ter que lidar com a birra – porque era assim que o moreno via a tristeza dos dois – de duas crianças de quatro anos era irritante. Itachi morrera, ponto. Não havia volta, e ele tinha que encontrar o desgraçado que fizera aquilo.

— Seu papai morreu, Aya. Não tem como ele vir aqui.

— Mas eu quero ele!

Sasuke não respondeu, e a menina começou a chorar. O Uchiha revirou os olhos, bufando. Por que o irmão não podia ter tido logo dois adolescentes? Crianças eram tão chatas!

— Tio Sasuke… – a menina choramingou novamente.

Sasuke não respondeu, apenas deixou-a falando sozinha. Aya controlou os soluços e ficou quieta, deixando as lágrimas escorrerem lentamente.

O Uchiha a encarou pelo espelho que ficava acima de seus olhos, e a cena o deixou desconfortável novamente. Não gostava daquela sensação – a que sempre o atingia quando Aya ou Naoto se entristeciam –, porém não conseguia defini-la muito bem.

— Eu sinto saudades. – a menina sussurrou, tentando controlar o choro.

Sasuke parou o carro em um semáforo, e as palavras da garota ecoaram por alguns segundos em sua mente. Normalmente a deixaria sem resposta, porém percebeu que queria respondê-la.

— Eu também, Aya. Eu sinto muito a falta do seu pai, mas eu não choro o tempo inteiro, não é? Você precisa superar.

Foi uma das frases mais longas que a menina já ouvira dele, e apenas fizeram os olhos negros como ébano derramarem mais lágrimas. Sasuke ficou confuso, sem saber exatamente o que falara de errado.

— Papai disse que você é um diabo, e que é por isso que você não chora. – ela retrucou teimosa.

Sasuke transformou sua corriqueira expressão indiferente em uma carranca. Pela primeira vez em sua vida, o apelido “diabo” o desagradou. A luz verde apareceu, e ele seguiu em direção à sua casa.

Notas finais
Eu sei que tem pouca interação Sasuke/Naruto por enquanto, mas é que a fanfic não é baseada no romance deles, e sim na profissão. Sendo bem honesta, eu já escrevi algumas cenas que demorarão a acontecer no meu caderno, só porque quero ver os dois juntos. Entretanto, isso não significa que eles ficarão bem bonitinhos e puritanos, claro que não. Mas, enfim, alguém percebeu que o Sasuke sempre soube das olhadelas "discretas" do Narutin? asuhaushhuahsuhhs Aaah, é. Adorei a Aya má u-u E o Sasuke será um "ótimo" tio no próximo, assim, ó: perfeito. asahsasha E então, curiosos a respeito da morte do Ita-kun? Reviews o// Bjs e teh + ^3^//