Obsessão

37 Mate a Guerra PT 9


Atônica, era provavelmente a única palavra que podia ser descrita, pela expressão de Esdeath. Atônica, catatônica, estupefata, surpresa, chocada, impressionada, extasiada...

Enojada. Esse sim, parecia ser um sentimento que ela conhecia bem agora, nojo, desprezo, ódio, esses agora eram os sentimentos que a mulher que é conhecida como demônio estava sentido, nada além de um ódio puro e real estavam sendo mostrados perante aquele orbe azul, o seu braço de gelo chegava a tremer por tamanho ódio.

Muitas pessoas naquele lugar, os poucos que estavam vivos, os poucos que eram relevantes. Olhavam para o que estavam acontecendo, com uma raiva não escondida, com um profundo pesar na alma, com uma forte vontade de acabar com isso.

Kushina, mãe de Naruto, uma mulher forte, conhecida pelos reinos por sua força de vontade e determinação, de joelhos perante o próprio filho, que ela quase não conseguia reconhecer, manchas escuras cobrindo todo seu peito, suas costas, e seus braços, a única coisa que era remetida ao único ser que ela ainda amava, era do pescoço para cima.

Najenda, companheira e líder de Guerra da revolução, mais um exemplo de que nada é impossível, contanto que você tenha a força necessária, sem palavras.

Lubba, um rapaz que era conhecido pelas expressões carismáticas em momentos ruins, com os olhos turvos e a expressão em o mais profundo mar de raiva.

Leone, a moça que provavelmente fazia de tudo para salvar seus amigos, uma mulher que nunca se rendeu a nada do que aconteceu a sua vida, não conseguia encontrar forças para mover suas pernas.

Mine, uma jovem dama, tomada pela coragem em todos esses anos para continuar vivendo, continuando acreditando que o amanhã vai ser melhor do que o hoje, já não podia ser mais tão convicta disso.

Quisera todos eles, entenderem que qualquer pensamento de lógica de todos anos depois, não fazia mais sentido algum.

Diante deles, diante de cada um deles, uma coisa que quebrava todas as lógicas desse mundo estava acontecendo, a imensa raposa que antes lutava pelo seu usuário de Teigu, estava encolhendo, ficando perto dele, e começou a brilhar no mais profundo vermelho escuro que já haviam presenciado antes. Esdeath tentou se erguer, mas suas pernas não tinham tal força, e seu corpo pesava.

Mas ela continuava a observar, uma grande esfera escura pairava sobre o corpo de Naruto, a única coisa que era visível naquela esfera, era uma raposa, uma raposa mudando. Esdeath sentiu seu coração querer pular para fora. Ela tinha um pressentimento ruim sobre isso.

Temerosa com o que podia acontecer, ela formou uma enorme estaca de gelo a partir do nada, e lançou em direção a esfera, tomando o cuidado necessário para não atingir o rapaz, ela não queria que sua morte fosse dessa maneira. Se fosse para partir para outro mundo, que fosse de outra jeito.

Esdeath e os demais não esconderam a surpresa quando a esfera derreteu o gelo antes mesmos de chegar perto, era como se o calor daquilo, fosse mais forte do que qualquer gelo que Esdeath pudesse criar.

Dentro da esfera, podia se ver uma raposa grande, se encolhendo, parecia esconder-se com suas caldas, como se fosse tímida, evitando os olhares dos demais, mas podia se ver, que algo estava acontecendo ali.

Era quase possível, ouvir estalos de ossos, osso se partindo em pedaços, carne sendo rasgada, pelos sendo soltos ao ar e derretendo, era possível ver orelhas de raposas sendo amassadas, era possível ver presas serem partidas, olhos sendo furados, era quase possível ouvir batidas de coração, sendo paradas por breves momentos...

Era possível tantas coisas naquele momento, mas aquilo, aquilo com certeza não deveria ser possível.

Esdeath queria gritar, queria matar, queria destruir, ela queria comandar, ela queria tudo o que sempre fez. Mas ela não podia. Ela queria poder matar o que estava em sua frente, aquilo... Era injusto.

Por quê?

Ela só queria entender o porquê, ela só queria entender os motivos disso estar acontecendo, era uma coisa que ela já havia superado, um trauma do passado, uma inveja que ela queria esquecer, um rancor que ela queria nunca ter admitido que ela teve, uma enganação da própria alma que ela achou ter superado.

Mas não... Ela não havia superado.

Com uma voz trêmula, que não condizia com a sua fama, ela ousou dizer, com uma voz tão baixa e tão assustada que congelava o próprio coração.

— Por que você está aqui Chelsea? — Esdeath largou a pergunta para a esfera.

Nenhuma das pessoas ali presentes, podiam explicar, no futuro o que estava acontecendo. Nenhum ser humano podia descrever o que houve.

Kurama, a raposa que era conhecida como uma das armas mais fortes já feitas, já não era mais uma raposa, já não tinha mais uma forma humana bestial, ela tinha uma forma de uma perfeita mulher, uma mulher que eles conheciam.

Uma coisa saiu da esfera, uma coisa que já não era mais uma criatura, era um ser humano...

Era a mulher que um homem que todos conheciam, mais amou na sua vida. A única mulher que ele aceitou e que o havia aceitado.

Mas a verdadeira mulher, que havia o amado, estava enterrada, a sete palmos da terra, não muito longe dali, no seu próprio altar.

Era tão real, e ao mesmo tempo parecia tão ilusório.

Chelsea, estava ali, diante deles, nua como havia vindo ao mundo.

Mas tinha algo diferente, algo muito diferente. Algo que não estava certo, uma coisa muito errada.

Chelsea, estava morta, era algo que todos sabiam, mas essa mulher, se parecia tanto com ela...

Esdeath sentiu seu coração doer e pareceu difícil até para respirar naquele momento, mas ela não escondeu o desprezo, e nem o medo.

Medo do desconhecido, e medo do passado que ela queria tentar esquecer.

Chelsea, estava na sua frente, mas aquele corpo, não era dela, a cor dos olhos, não eram os olhos de Chelsea, nada era de Chelsea, a única coisa que lembrava a falecida, era o rosto. O rosto antes conhecido pelo sorriso zombeteiro e para certo homem amoroso, a voz antes divertida e suave, ás vezes séria, era diferente, uma mulher tão acolhedora, não era como essa mulher que estava diante deles.

Essa Chelsea, era diferente de tudo o que eles conheciam e acreditavam.

Kushina nunca esqueceu, até o dia da morte, as primeiras palavras que essa mulher disse, foi pregado a sete estacas na alma.

— Eu sou aquilo que vocês tentaram revogar. — Kurama disse, com uma voz tão forte, tão fria, tão imponente, tão magistral, tão magnifica, que Esdeath, que estava diante dela, ajoelhada, tombou para o lado, com um medo tão visível quanto o dia, para Kurama, aquele momento, era o momento em que ela se libertou de todas as suas prisões. — Eu sou aquilo que vocês nunca vão conseguir entender...

— É você? Chelsea? — ousou perguntar Leone, mais atrás, naquele momento, a invasão das demais nações, pareciam ser irrelevantes para ela. Para todos os presentes ali. — Chelsea, eu estou tão feliz que você está viva.

Leone tencionou ir em direção a mulher, mas antes que ela pudesse correr e ir até ela.

A mulher falou com ela.

— Não sou Chelsea. — Kurama lhes disse, os olhos vermelhos cintilantes demonstravam isso muito bem. — Não sou digna de ser chamada pelo nome de uma mulher tão boa. — ela ignorou a todos e se virou para o homem que ela com certeza amava sua própria maneira. — Eu sou uma mulher ruim, gananciosa e mentirosa, uma mulher sem qualquer respeito para os vivos... E para os mortos.

Ela se abaixou e pegou Naruto em seus braços. O mesmo estava agora desacordado, ele era tão lindo, mesmo naquele momento, tudo o que Kurama queria fazer era tomá-lo para si, e levá-lo para um lugar onde ninguém jamais poderia encontrá-lo. E ela faria isso. Mas ela tinha assuntos mal resolvidos. E ela daria cabo de todos eles, mas tudo no seu tempo. A proteção de seu usuário, era sua principal preocupação.

Kurama parecia estar tão absorvida em seus próprios pensamentos, que chegava a assustar os demais, parecia que quando ela olhava para o rosto de Naruto, ela imigrava para um mundo imaginário, tão perfeito, que ela se desconectava desse mundo caótico, que era a realidade deles.

— Eu estou aqui para você, eu sempre estarei aqui, da forma que você me desejar... — ela o beijou, baixando sua cabeça, o beijo não foi correspondido, mas somente a sensação, de poder tocá-lo e de senti-lo, já fazia o novo coração da raposa saltar.

Ela sempre quis isso, ela sempre quis poder sentir o que Esdeath e Chelsea sentiram, e agora ela podia fazer tudo, ela podia tudo. Não havia restrições, não havia nem uma pobre alma, que a pudesse impedir.

Isso era liberdade... Ela olhou para seu próprio corpo, um corpo perfeito, um corpo feminino, um corpo que podia fazer tudo com seu artesão.

— Você vai ficar bem agora. — ela olhou as marcas no seu corpo, o preço pelo seu poder, um corpo não podia aguentar nada disso, mas não fazia mal agora, tudo iria melhorar. Tudo estaria melhor agora. — Eu vou te proteger. — as palavras, desta vez, se continham em uma emoção quase maternal, era como uma mãe protegendo sua cria, ou algo mais primitivo do que isso, era como uma sensação reconfortante.

Esdeath já não aguentava mais nada disso. Ela estava farta disso tudo. Ela colocaria um fim nisso.

— Se erguendo com forças que ela não sabia de onde havia tirado, ela reforçou o gelo que ocupava seu braço decepado. — É melhor não ter levado a sério suas próprias palavras... — começou Esdeath. — Nós dois, morreremos aqui...

Kurama, que estava absorvida em seus próprios pensamentos, acordou repentinamente do próprio transe, e antes os olhos parecendo tão calorosos e tão convidativos, se transformaram em algo que com certeza não era desse mundo, era muito ódio, era muito rancor, era muita inveja...

— Eu acho que você não entendeu. — ela colocou o corpo de Naruto mais perto de si mesma, ainda o segurando, como uma noiva, sua noiva. — Está tudo bem para ele agora que eu estou aqui. — ela sorriu para o rapaz desacordado, e voltou os olhos raivosos para a azulada. — Não vou deixar nada de ruim acontecer com ele, jamais deixarei nada acontecer novamente.

A força nas palavras dela pareciam ter abalado a sádica. — Você é um monstro... — ousou dizer Esdeath, ainda tentando entender o que ela era. — O que é você? — a pergunta que ela realmente queria ouvir a resposta, e ela veio.

— Eu sou o fruto do meu próprio desejo, eu sou fruto do meu próprio poder, sou fruto do que o meu criador me permitiu fazer. — ela continuou. — Eu sou o que o meu usuário mais deseja, eu sou o que ele mais precisa, eu sou o que ele mais quer, eu sou o que ele necessita, eu sou o que ele implora quando dorme, eu sou o que ele quer nos momentos mais sombrios da pobre vida que ele carrega.

Esdeath mal respirava.

— Eu sou Chelsea, eu sou Kurama, eu sou o que ele quer que eu seja. Independente da forma. — ela falava com orgulho dela mesma. — Eu posso ser qualquer coisa agora. — ela segurou seu artesão mais forte, quando notou que os demais estavam se aproximando dela. — Se vocês ousarem tocar no meu usuário, eu matarei todos vocês.

Era claramente uma ameaça, Kushina, que estava ouvindo atentamente, só queria se reunir com o filho, a única coisa que lembrava dos bons tempos, a única pessoa que ela podia dizer que se importava de verdade.

Os demais queria se aproximar do companheiro, tratá-lo, tirá-lo dali, deixar o resto do trabalho para eles, deixar o resto para os soldados, ele já fez muito.

Esdeath já não era mais um problema, não naquele momento. As pessoas sabiam disso agora, Esdeath já não tinha mais motivações necessariamente contra o exercito revolucionário. E se ainda fosse, o que ela teria para proteger? Nada, o que todos estariam lutando naquele momento? Quantas pessoas estavam morrendo para um antigo reino grandioso, que agora estava desmoronando em ruínas, valia a pena morrer para isso?

Em momentos de desespero, muitas coisas se tornam claras como o dia. Esdeath já não sabia mais dizer, nada dela mesma, nada por trás de suas ações egoístas, ela só queria morrer, e levar Naruto com ela, se esquecendo da filha dele, deixando-a sobre os cuidados do próximo.

— Ele é meu filho, seja lá quem você for. — Kushina começou, alargando suas correntes e se aproximando em passos lentos. — E além disso, como você pode lutar enquanto está o segurando? — ela apontou olhando diretamente nos olhos da outra. — Ele é meu filho, meu bem mais precioso...

Kurama só pôde rir com isso. — Que coincidência. Ele também é meu bem mais precioso. — ela respondeu. — E se você acha, que eu realmente preciso usar as minhas mãos para lutar contra vocês...

A voz dela abaixou um tom, a atmosfera ao redor dela começou a mudar lentamente, tornando-se sufocante, uma pequena bolha vermelha começou a se formar ao redor do corpo de Naruto, como se estivesse o protegendo.

— Você acha mesmo, Kushina, que eu sequer preciso me mover de onde estou, pra sucumbir todos vocês conforme eu desejar? — ela lhe mostrou um sorriso quase inocente, a única coisa que os assustara eram os olhos vermelhos.

Kushina recuou alguns passos imediatamente.

Mas Esdeath ignorou o aviso.

— Me entregue ele... — disse ela. — Me entregue ele, agora! — ela exclamou furiosa.

Kurama varreu os olhos para a mulher sádica, quase a zombando com os olhos.

— Eu acho que você não percebe que não estamos mais no mesmo nível, Esdeath. — Kurama a respondeu, imóvel. — Agora que eu tenho meu próprio corpo. — ela começou a formar caldas atrás dela, as mesmas caudas de energia que ela sabia que eram perigosas. — Você pode me chamar de Deusa...