Obscure eyes
2 A bonança que antecede a tempestade
Notas iniciais
O vento açoitava meu rosto, jogando meu cabelo curto em todas as direções possíveis, enquanto tornava a simples tarefa de enxergar alguns níveis mais complicada. Não consegui impedir que um riso matreiro escapasse por meus lábios ao notar o agarre de Jude ao redor da minha cintura se intensificando como se sua vida dependesse disso e bem, em partes ele estava certo em se segurar firme, pois aposto que cair da garupa de Silver, minha bicicleta Schwinn Mark Iv Jaguar, na velocidade em que estávamos devia gerar algum estrago preocupante a sua integridade física. Abby me acompanhou no riso, ameaçando puxar Jude dali enquanto dava tudo de si para continuar constante em nosso lado com seu skate, ao qual orgulhosamente eu lhe dei com uma pintura personalizada no primeiro natal em que juntamos nossas famílias e comemoramos unidos. Nesse mesmo natal eu presentei Jude com uma pequena máquina de escrever que eu achei numa loja de velharias e bugigangas usadas, foi incrivelmente barata e me rendeu uma seção de choros em agradecimento.
— Ei, não tem como eu deixar a bicicleta rodando se por um acaso acabar desmaiar por falta de oxigenação! — Aumentei um pouco a voz para que ele pudesse me ouvir e por pouco não me desequilibrei quando ele apertou ainda mais. Diminui a velocidade em resposta, sentindo minha consciência pesar por quase ser capaz de ouvir uma oração desesperada sendo proferida em sua mente. — Pronto, me desculpe! — Exclamei, voltando a falar normalmente. — Pode relaxar agora, porque eu realmente acho que não estou recebendo oxigênio o suficiente no meu cérebro… — Usando de todo conhecimento que eu tinha sobre Jude, pude deduzir que ele estava na dúvida entre rir, me jogar da bicicleta — visto que agora, cair da garupa só o garantiria alguns arranhões — ou amaldiçoar minhas possíveis futuras gerações pela piada em péssima hora.
— Mesmo ele sendo tão pequeno? — Abby se intrometeu, um tanto ofegante visto o esforço que ela estava fazendo para nos acompanhar minutos antes. Revirei meus olhos e ameacei jogar a bike para cima dela, sendo recebida por um ofego desesperado de Jude e uma risada de Abby, era sempre engraçado presenciar o quão diferente eles eram e como mesmo assim pareciam funcionar tão bem juntos. Eu queria guardar cada característicazinha deles para esse “tempo longe”: Jude não podia falar, mas ele estava longe de ser tímido. Abby era uma garota esperta de rua, mas não sabia mentir.
— Ele pode não ser um dos maiores, mas funciona melhor que o seu! — Respondi, dando a língua em sua direção num gesto de maturidade explícita, podendo sentir quase fisicamente Jude nos julgando com sua tão usual expressão de frustração e de “eu juro que tentei dar um bom exemplo!”. Outra coisa interessante sobre nossa relação? Nós tínhamos um sistema onde Jude fazia o papel de “coração” do grupo, tendo como bússola moral suas emoções e sentimentos. Já Abby era nosso “cérebro” com sua racionalidade e frieza, freando as impulsividades de Jude, mas se harmonizando com ele em todas as tomadas de decisões, era realmente um bom equilíbrio. E eu? Bem, eu servia como uma colinha que juntava a todos e se encontrava estabilizada no meio, já que eu não tinha um emocional tão bem trabalhado e extenso, assim como não era completamente livre de atitudes impulsivas vez ou outra. Acho que éramos peças exclusas de um quebra-cabeça maior que pareciam se encaixar juntas muito que bem. — Agora, vamos logo ou não vai dar tempo de eu acabar com vocês no Street Fighter! — Provoquei, acelerando apenas um pouco mais rumo ao Arcade Paradise, rindo novamente de uma Abby gritando para esperá-la e de Jude rezando mentalmente para todos os deuses e entidades celestiais que ele conhecia por proteção.
Quando chegamos no nosso paraíso pessoal dos jogos eletrônicos, o que encontramos lá não atingiu muito bem nossas outroras altas expectativas para aquela tarde. Sr. Lee, um velhinho com espírito juvenil aflorado e claras descendências da terra do sol nascente, estava conversando animadamente com um entregador até então desconhecido, já que seu uniforme não nos remetia a nem um comércio local e, humildemente falando, nosso pequeno grupo de três vagabundos jovens adolescentes conhecia cada centímetro quadrado daquela cidade. Entretanto, deixando de lado a pessoa desconhecida e a óbvia animação do Sr. Lee, o que realmente prendeu nossa atenção foi a grande placa pendurada na porta com os dizeres:
“Fechado para reformas!
Tempo indeterminado”
— Qual será o grande plano dele dessa vez? — Comentou Jude, depois de saltar com as pernas bambas da bicicleta para a “segurança da calçada”, palavras dele quando olhei acusadoramente para sua expressão aliviada. Não era segredo que uma das recorrentes necessidades do capitalismo é a “reinvenção” de maneiras para ganhar dinheiro e disso o Sr. Lee meio que entendia muito bem, tendo como resultado as não raras obras em sua loja com objetivo de chamar mais atenção e nunca cair no desinteresse do público. Daquela vez, pelo que posso me lembrar, ele havia nos dito que comprara uma nova remeça de arcades com jogos novos e pretendia expandir também para jogos “não-eletrônicos”, como uma mesa de ping pong e outra de pebolim. Me perguntei quando eu poderia experimentá-los...
Posso dizer que frustrados era pouco para descrever como nos sentimos ao ter nossos planos fracassados, mas para simplesmente não desperdiçar nosso esforço de sair de casa, levando em conta de que eu não tinha atravessado a cidade com Jude a tira colo na minha garupa por nada, decidimos que voltar para casa não era uma opção. Ficamos uma meia hora na dúvida entre tomar sorvete na praça ou ir até o decrépito cinema para ver se havia algo bom em cartaz, mas logo Abby e Jude entraram numa discussão controversa.
— Que tal uma parada no DeSouza’s Café então? — Indaguei interrompendo a leve tensão que começou a se estabelecer ali, sentindo minhas panturrilhas reclamarem pelo esforço extra que eu fiz para tirar a bicicleta da inércia. Precisava tomar alguma iniciativa ou nunca sairíamos dali, pois por mais que nós fossemos amigos praticamente desde as fralda, não eram raras as vezes em que discordavamos de algo e discutiamos por isso, já que acima de tudo éramos pessoas individuais com gostos individuais: as vezes semelhantes, as vezes extremamente conflitantes.
— Me parece uma boa, ainda mais se você pagar! — Respondeu Abby, arrancando uma risada concordante do rapaz as minhas costas.
— Extorquida pelos meus namorados, que bela relação tóxica… — Murmurei em drama, forçando uma cara de “decepcionada, porém não surpresa”. — Mas é aquele ditado… O que vocês não me pedem sorrindo que eu não faça até pegando fogo? — Não importava o quanto eles me torrassem a paciência, eu sentiria muita falta dessas pestes e porra eu mal podia imaginar o quanto. Voltamos a programação animada pelo resto do caminho, provocações sendo atiradas sem filtros e risadas enchendo o ar abafado. Nem tudo estava perdido pelo visto, eu poderia priorizar o agora.
Dizer que nós adorávamos o DeSouza’s Café seria eufemismo, principalmente da minha parte. Tudo naquele lugar era incrível, desde de sua aparência ao serviço que era oferecido ali, entretanto a parte que realmente me era interessante era sua dona. Por favor, parem com essas mentes sujas cheias de hormônio adolescentes, quando eu digo a dona não envolve qualquer interesse libidinoso ou algo assim, me admirava sua história e bravura para levantar aquele estabelecimento quase que com suas próprias mãos. Se eu pudesse fazer uma lista de mulheres inspiradoras o nome Ana Maria DeSouzas apareceria provavelmente entre Amelia Earhart, Marie Curie, Rosa Parks ou Sabiha Gökçen.
Nascida numa cidade interiorana no Brasil, como ela mesma contou diversas vezes para mim, sua vida nunca foi das mais fáceis ainda mais tendo que lidar com o preconceito sobre si graças a sua clara afrodescendência e contexto econômico de extrema pobreza, mas isso nunca foi o suficiente para que tirasse de si o sonho de viver o melhor possível. Desde de sua meninice, Ana contava que queria conhecer o mundo depois de ver em uma revista em quadrinhos a representação do globo e o quão grande afirmava ser — ela não podia acreditar que existia algo tão grande assim, então prometeu a si mesmo e aos irmãos que veria com seus próprios olhos se era verdade -, não é surpresa dizer que com toda determinação que carregava foi dito e feito, não tão facilmente quanto essa frase deixa parecer, mas vamos apenas resumir como se fosse. Ela batalhou e lutou em todo e qualquer emprego que pudesse ser aceita desde os seus 12 anos — nada que realmente colocasse sua integridade física ou moral em risco, mesmo que não fosse menos admirável se ela tivesse traçado esse caminho -, finalmente conseguindo o suficiente para uma passagem clandestina com destino a Portugal, de onde viajou quase o mundo inteiro depois. Me impressionava ver que as paredes verde musgo do café eram quase completamente cobertas pelas fotos de suas aventuras pelos diversos continentes. Minha favorita com toda certeza é em Cuba, captando as belas cores das casas em estilo colonial e seus velhos carros ultrapassados. Eu realmente gostaria de conhecer aquele lugar, conseguia sentir um pouco do espírito depois de olhar aquela foto por tanto tempo.
— Ainda me pergunto porque você desistiu de todas as possíveis coisas que você poderia ver nas suas viagens para abrir um restaurante neste fim de mundo! — Abby murmurou em sua sinceridade crua diretamente para Ana Maria quando ela veio nos entregar nossos pedidos — uma xícara de café para mim, uma xícara de chá de laranja e hortelã para Jude, uma soda de limão para Abby e três pedaços de sua preciosa torta banoffee, este último item ela nos deu por conta da casa, mesmo eu insistindo em pegar -, eu e Jude nem nos importávamos mais com essa mania de não filtrar seus pensamentos ao proferi-los, coisa que tanto já havia deixado-a mergulhada em problemas, e acho que Ana Maria também não, pois ela só se dignou a rir e bagunçar os cabelos de Abby ternamente.
— É verdade que eu estive longe de ver todas as belezas que esse mundo tem para oferecer, mas acho que já vi o suficiente para passar uma porcentagem dessas belezas para quem não tem condições de vê-las ao vivo. E que melhor jeito de juntar um monte de pessoas para ouvir histórias e ver algumas fotos do que uma boa comida para exemplificar culturas diferentes? — Só para deixar claro, eu tenho meus sentimentos em uma balança pesando para o negativo sobre as romantizações das reações humanas, tipo “borboletas no estômago” e coisas assim, mas posso jurar que meus olhos brilharam com sua resposta e antes que eu ou qualquer um de nós pudesse responder a sineta na porta tilintou e ela rapidamente foi atender outro cliente que eu não me dei ao trabalho de reconhecer.
Soprei o líquido fumegante em minha xícara de porcelana branca e sem qualquer desenho, aspirando o aroma doce de café recém passado que subia em forma de vapores expiralados e sorri com satisfação ao sorver um gole da bebida ainda quente. Queimei minha língua e senti meu canal lacrimal se enchendo, todavia preferi me concentrar em sentir a óbvia diferença cultural explodindo em minha boca do que na dor. Com toda certeza o café passado a moda brasileira era incrivelmente melhor que aquela água suja inglesa que Alfonse tomava toda manhã.
— Então só pra resumir e eu entender de uma vez… — Abby começou, cutucando a flor de chantilly para fora do pedaço da torta, nem uma de nós duas suportavamos a textura daquilo e eu particularmente achava doce demais. — Você vai para uma mansão de não-sei-quem, para ajudar sua tia que não é sua tia a cuidar de duas crianças sendo que a mais velha delas é um ano mais velha ou da mesma idade que você, novamente nós não sabemos, e de quebra você não sabe quanto tempo vai ter que ficar por lá, pois você só volta quando os pombinhos, sua mãe e o cara-de-peixe no caso, voltarem do seu momento caliente no exterior? — Decretou de forma duvidosa, fazendo com que Jude e eu rissemos tanto por conta da sua bela síntese da situação, tanto pelo fato dela usar o apelido rude que a mesma inventou para Alfonse e sua expressão usual de perdido de sempre.
— É... Você pegou a essência da coisa, isso é algo sobre Alfonse achar que eu preciso conhecer mais pessoas e também, Kate é sua irmã favorita e uma das únicas pessoas da família que ele ainda tem contato… Ele deve querer que nós nos aproximemos. — Teorizei, me lembrando da discussão de mais cedo. Mamãe parecia tão nervosa que Alfonse gentilmente pediu para falar comigo sozinho, confesso que fiquei nervosa e temerosa em ter que interagir frente a frente com ele, afinal ele era alguém estranho que entrara na minha bolha pessoal sem meu prévio consentimento. Deixe-me explicar melhor, Alfonse morava com a gente, dividimos não só a mamãe, mas também o que eu tinha de mais íntimo que era meu lar, o único espaço nesse mundo inteiro que eu poderia chamar de meu, mas que por decisão da minha mãe eu teria que passar a chamar obrigatoriamente de nosso. — Eu a vi poucas vezes, mas ela me parece ser alguém legal… Aposto que não vai ser um pesadelo! — Conclui, tomando mais um gole da minha bebida.
— Mas você não poderia simplesmente ficar com um de nós? Eu tenho certeza que a vovó não se importaria se você ficasse em casa, ela te considere um neto tanto quanto eu… — Jude tinha uma leve expressão entristecida e suas mãos tremeram levemente ao terminar a sentença, conhecendo aquele bebê chorão como eu conhecia sabia que ele cairia em lágrimas ali mesmo se nós não levassemos a conversa para um patamar menos sentimental.
— Não se preocupem, eu não vou ficar lá as férias inteiras e quando eu voltar eu juro que faço o que vocês quiserem! — Prontifiquei, segurando ternamente uma das mãos de Jude entre as minhas, sentindo a divergência entre a pele macia e os calos nos dedos por escrever demais. Abby bagunçou o cabelo dele e guiou a conversa para planos do que faríamos quando eu voltasse, enviei-lhe um olhar agradecido e ela apenas sorriu do jeito exato que me fazia perder o chão. Brinquei dizendo que Jude era nossa criança e que eu e Abby, como mães, devíamos dar uma criação amorosa para ele, zombando dos nossos próprios problemas familiares como: o fato de Jude não ver seus pais a anos, eu nunca ter conhecido o meu pai e a ausência dos pais de Abby por conta do trabalho. Encenavamos nossas próprias piadas de humor negro e nos divertíamos a beça com isso.
“Seria tarde demais para desistir dessa viagem idiota e ficar onde eu realmente deveria estar?”, pensei ao voltar para casa, dando um tchau xoxo para Jude e vendo Abby seguir seu caminho. Tinha três dias ainda para aproveitar com eles até que Kate tivesse de vir me arrastar para quem-sabe-lá-onde, senti um famigerado gelar no estômago e torci para que esses dias se estendessem o máximo possível. Franzi o cenho pela minha covardia, qual é, eu nem me lembro se ser tão dependente assim…
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É, eu não vejo mais porque negar, eu sou extremamente dependente e péssima em resiliência. Onde porra eu estava com a cabeça de agir como se tivesse aceitado isso tão bem? Tudo bem, podem parar de me julgar ai, eu sei que vocês devem imaginar que eu simplesmente estou fazendo uma tempestade em copo d’água e que nem vai ser tão ruim assim. Sem medo de aceitar, vocês estão parcialmente certos, porém imaginem-se no meu lugar: eu nunca saí dessa cidadezinha antes, tudo o que eu conheço e estimo estiveram sempre aqui ao meu redor, todas as pessoas com quem eu interajo são partes da minha rotina a 16 anos. Eu nunca presenciei nada diferente. Fora que eu não sou a pessoa mais extrovertida dessa terra, posso até não sofrer com uma timidez forte, mas com toda certeza se “socializar” fosse uma matéria escolar eu reprovaria com nota negativa por desejo próprio, entendem?
Os três dias haviam passado mais rápido do que eu pude contabilizar, eu já estava de malas prontas com tudo o que eu precisaria, sendo: uma mala de viagens amarela que eu e mamãe havíamos pintado juntas, a mesma tinha flores roxas em trepadeira que atravessavam a mala em diferentes direções feitas com retalhos de tecidos tingidos e costurados a mão, era nela que eu levaria minhas roupas, e uma mochila inteiramente preta, onde a única outra cor provinha de um chaveiro de arco-íris que pendia do zíper principal, era nela que continha os três livros que Peckerton me emprestou, uma máquina de polaroids antiga, meu sketchbook junto aos meus materiais de desenho e meus produtos de higiene pessoal. Estava mais pesado do que aparentava.
— Raio de sol, já terminou aí em cima? — Rolei os olhos, não acreditando que até os apelidos estupidamente melosos da minha mãe já estavam me fazendo sentir saudades sem nem mesmo ter saído de lá. Gritei de volta que já estava descendo assim que joguei a mochila sobre o ombro e apanhei a mala do chão, observando por uma última vez o quarto ao meu redor, posso dizer que luxo nunca foi uma coisa ao qual eu tive contato e minha mãe levou uma vida simples desde que ela fugiu com meu pai: nunca me faltou nada, porém eu também nunca tive o que esbanjar. Talvez o maior luxo que eu tinha fosse o tamanho do meu quarto, já que o mesmo se encontrava no sótão e isso me garantia um espaço do tamanho total da casa, mesmo tendo que dividir isso com algumas tranqueiras e móveis caquéticos que ficavam empilhados em um canto sob um lençol velho e em farrapos. É, valia a pena a liberdade e tranquilidade que meu quarto me dispunha. Todavia a parte que eu mais gostava sem dúvida alguma, tirando as artes que adornavam as paredes feitas por mim mesmo, eram as pequenas estrelas de plástico fluorescentes que brilhavam no escuro e transformavam o teto inteiro em uma galáxia com constelações diversas. Me perguntei se faria algum mal levar apenas uma das estrelas comigo e antes que acabasse pensando demais, arranquei a que ficava sobre a porta e desci equilibrando tudo escada abaixo. De acordo com Alfonse, minha carona já estava me esperando…
O carro de Kate me era desconhecido, porém eu tinha quase certeza que ele poderia ser considerado um SUV. Ela foi gentil em me ajudar com as malas e até perguntou se eu não queria um tempo a mais para me despedir, neguei me lembrando do quanto minha mãe me abraçara naquela manhã e até mesmo Alfonse entrou na zona da manhosidade comigo. Jude e Abby não compareceram a pedido meu, eu me conhecia bem o suficiente para saber que lidar com despedidas não era meu forte e foi sobre a promessa de achar um jeito de me comunicar com eles que os mesmo acataram minha decisão. Tinha quase certeza que Jude estava na casa de Abby chorando em seu colo, porém dessa vez eu não o julgaria, já que ao olhar para o retrovisor e encarar por uma última vez aquela paisagem família, senti meus olhos lacrimejarem quase não obtendo o sucesso de engolir aquele drama todo.
Me acalma dizer que eu estava com razão sobre Kate, ela não era séria como Alfonse, sorria com mais frequência e parecia ser uma ótima apaziguadora. Achei que ia ficar em estado letárgico o caminho todo, aproveitando o clima melancólica que o tempo chuvoso proporcionava, porém a mulher ao meu lado tinha planos diferentes e já nos primeiros minutos me conquistou com o convite de cantar junto a si algumas músicas de muito bom gosto se me permite dizer, nós cantamos Smell like teen spirits de uma banda chamada Nirvana e depois fizemos jus aos nossos agudos com What’s Up de 4 Non Blondes, fechamos o show com chave de ouro performando Wonderwall de Oasis. Eu teria cantado mais, porém dormi quando Always do Bon Jovi começou a tocar, embalada pelo tamborilar da chuva na lataria, o balançar suave da estrada sem buracos ou muitas curvas, também acho que ter passado a noite toda em claro tenha ajudado um pouco no meu leve desmaiar. Em algum ponto do caminho, pelo que eu lembrava das informações que Kate contou a mamãe a viagem duraria três horas, eu senti pequenos arrepios de alerta infiltrando-se pelo meu sobretudo de lã e acordei com a sensação de ter fechado os olhos por menos de meia hora apenas. Minha visão ainda estava embaçada pelo sono, o que somado ao véu esfumaçado da chuva torrencial me dificultou a visualização de uma enorme construção se erguendo em nossa frente, tomando a forma de um gigante portão com barras grossas de metal, suas pontas afiadas como lanças desafiavam de maneira sádica qualquer um que ousasse tentar escalá-lo, ele estava preso a um muro de pedra bruta igualmente alto com heras escuras trançando sobre si um adorno rústico.
— Chegamos! — Notei o leve temor que Kate tentou inutilmente disfarçar, pois sua expressão delatava seu nervosismo, ainda mais com seus olhares ao redor como se algo fosse sair de trás das árvores retorcidas e estranhamente de copas desfolhadas que formavam uma fila em ambos os lados no decorrer do caminho e pular em frente ao carro, mesmo eu tendo sérias dúvidas de que alguém teria coragem de fazer aquilo sobre o fustigar violento que as gotas davam no para-brisa e no chão de carvalho. Conseguia ver as pedrinhas pulando aqui e ali pelo baque das gotas. — O que você acha? Não é um lugar de tirar o folego? — Indagou, parando o carro próximo a entrada que eu demorei a distinguir, ainda sentindo o entorpecimento pelo sono busquei esfregar meu rosto na tentativa de acordar completamente. Admirei a mansão e seu exagerado tamanho, quer dizer eu sabia que mansões eram grandes, mas aquela ali estava fazendo um trabalho excelente em questão de m² (metros quadrados).
Eu me recuso dizer que a construção não era bonita, pois tinha belos elementos que me remetiam a arquitetura romântica harmoniosamente misturados com a modernidade das casas de campo americanas. Contudo havia algo na construção em si me trazia inquietação, era como se desde o momento em que eu ousei adentrar sua propriedade a casa acordara não satisfeita com minha presença. Para exemplificar, poderia dizer que me sentia como Louis Creed na primeira vez que pisara no cemitério de animais, um perigo alarmante me cercava e eu era completamente incapaz de vê-lo ou deduzir onde ele atacaria. Eu era uma presa cega e ignorante dos meus arredores, não preciso dizer que odiei completamente a sensação.
— Sim, é tão linda que me faz pensar que passar as férias em Crystal Lake ou me hospedar no Hotel Overlook não seria uma má ideia… — Murmurei, vendo-a bufar falsamente em desagrado. — Até a Mansão Winchester parece mais convidativa! — Pontuei, rodando os olhos quando ela apertou uma de minhas bochechas, me segurei para não dar um tapa em sua mão, enquanto recitava mentalmente que Kate era uma amiga e eu não morreria se ignorasse minha aversão a toques de estranhos vez ou outra por ela.
— Não vou mentir, Nyne… — Ela começou, virando o corpo em minha direção quase completamente, enquanto prendia seus olhos cristalinos nos meus castanhos. Kate deveria ter no máximo 25 anos e eu ainda estava em dúvida se havia entendido sua personalidade, confiável eu sentia que ela era, mas parecia estar sempre em alerta e com um leve medo até da própria sombra desde que finalmente chegamos nesse lugar. Fora uma expressão de cansaço que parecia sempre fazer sombra em seus traços bonitos. — Alfonse acha que eu estou sendo paranoica e que tudo bem você me acompanhar nesse trabalho, de certa forma eu até posso acreditar que ele está certo, ter sua companhia será algo que realmente veio a calhar… — Vi um pouco da mamãe nela, ainda mais em como ela se embaralhou no seu próprio discurso antes de respirar fundo e começar mais uma vez. — Mas as crianças são peculiares… — Segurei um interjeição de contrariedade, não gostava nadinha quando os adultos denominavam algo como “peculiar” com aquele tom de cuidado, pois ficava claro que isso era só um jeito mais chique e educado de se referir a algo estranho e bizarro para eles. Não queriam ofender ao mesmo tempo que faziam clara demonstração de desinteresse para entender. Esperava que esse não fosse o caso dela. — Eles se sentem ameaçados com desconhecidos, mesmo que Flora jure de pé junto que gosta de mim e Miles me ignore a maioria do tempo! — Seu sorriso era dolorido e de alguma forma acho que Kate se identificava com os irmãos, seja lá os motivos dela eu estava comprometida a ajudá-la com uma boa convivência ali. — Por isso, por favor releve se eles fizerem alguma coisa estranha! — Sua voz tremera quando ela apertou minhas mãos entre as suas, não duvidaria que se ela tivesse espaço o suficiente ela se ajoelharia.
— Me mostre o caminho então! — Brinquei, buscando tranquilizá-la e conseguindo contornar o sentimento auto-depreciativo que emanava de si, já que o mesmo me ameaçava sufocar dentro daquele ambiente totalmente fechado. Quase podia sentir a falta de ar se fazendo presente e não queria ter uma crise e surtar logo nos primeiros minutos da minha chegada.
— O que estamos esperando? — Respondeu, batendo palminhas como uma criança que acabara de ganhar um brinquedo pelo qual esperou demasiadamente, enquanto abria a porta e enfrenta a chuva com uma animação contagiante. Imitei suas ações, projetando meu corpo para fora do carro e tomando cuidado para não molhar o banco do mesmo. Fui rapidamente abraçada pela chuva e senti a mesma ensopando meu sobretudo cinzento, alguns números maior que meu tamanho e que tinha um cheiro curioso de canela que eu nunca entendi como o marcou. Ao dar alguns passos para segui-la, depois que gentilmente ela retirou minhas coisas do porta-malas e carregou em segurança até a varanda coberta, meu pé esquerdo submergiu em uma poça camuflada na estrada de cascalho, fazendo com que eu desse um leve sobressalto pela sensação incômoda da água gelada em contato direto com minha meia. Olhei para minha bota de suede vermelho, eu havia ganho de Abby e Jude no meu aniversário de 15 anos e eles incrivelmente tinha o tom exato dos sapatinhos de rubi da Dorothy, mas eu sabia que não importava quantas vezes eu batesse meus calcanhares, recitando a famosa frase do encanto, eu estava longe demais de casa e nem a magia de Glinda ou a esperteza do mágico poderia me levar de volta ao meu lar...
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