Obscure eyes
3 As primeiras gotas da tormenta
Notas iniciais
Numa primeira impressão gerada apenas pela imagem de seu exterior, pensei que aquele lugar era grande, todavia depois de ser arrastada por Kate através de cômodos e mais cômodos, pude constatar que na verdade era infinito. Demorei um tempo até sair do entorpecimento gerado pela surpresa, mas assim que consegui foco para observar ao meu redor, notei outra coisa curiosa sobre a construção: sua decoração era um total contraste entre seu interior e exterior.
Enquanto o lado de fora, por mais intimidante que soara mais cedo, ainda possuía uma confortante pintura em cores claras e limpas, assim como uma vastidão de plantas coloridas e brilhantes, o que rendia uma ligeira sensação de familiaridade, o lado de dentro seguia na direção contrária, sendo quase todo composto por madeira de ébano e decorações mais rústicas. Particularmente achei interessante tal variação, mas não demorou até que esse sentimento fosse abruptamente substituído por uma brisa fria vinda de algum lugar e nem mesmo a visão das incríveis obras renascentistas que adornavam as paredes, conseguiram tirar da minha cabeça que aquilo era um sinal muito, muito ruim.
Acelerei o passo assim que me dei conta de que estava ficando para trás, afinal se aquele lugar era capaz de me dar arrepios com companhia, não queria sequer imaginar meu desespero sozinha. Acredito que meus temores ficaram óbvios, pois Kate gentilmente passou um dos braços pelos meus ombros, puxando-me para mais perto de si num toque maternal ao qual verdadeiramente agradeci, mesmo relutando em minha própria mente contradizente sobre toques de terceiros.
Quando estava quase desistindo de toda aquela andança, onde minhas únicas distrações eram observar os quadros que se espalhavam pelas paredes e ouvir os sons ocos dos baixos e amarelados saltos da mulher ao meu lado, paramos em frente a uma porta dupla de madeira escura — extremamente semelhante as outras, diga-se de passagem — com maçanetas de porcelana branca e flores pequenininhas entalhadas em seus beirais. Pareciam narcisos, mas levando em consideração meu “vasto conhecimento” em botânica, poderiam ser qualquer outra planta das amaryllidaceae.
— Nós geralmente tomamos chá nessa sala, cinco em ponto e nem um minuto a mais. Isso é indubitavelmente importante na visão da Sra. Grose... — Ela começou, sua voz não passando de um sussurro, enquanto me enviava a tentativa de um sorriso brincalhão. — Sei que no começo ela parecerá um tanto rígida, mas tenho certeza que gostará de você! — Seu conforto parecia incerto, como se nem mesmo ela pudesse acreditar piamente nas próprias palavras e obviamente, isso causou o oposto do seu objetivo inicial.
Num movimento delicado, ela abriu passagem e nos guiou para uma sala tão ricamente ornamentada quanto todas as outras por quais passamos. O lugar era amplo e bem iluminado, havia um chique jogo de chá de prata na mesa de centro, junto a cerâmicas que pareciam perdurar por eras sem quaisquer imperfeições e mais artes seculares pelas paredes, cujas quais nunca vi nem sombra nos livro de história da arte que já havia lido. Foi uma surpresa e tanto quando minha missão de reconhecimento foi bruscamente atrapalhada por uma silhueta rígida, prostrada bem no centro do lugar. Se minhas suspeitas estivessem certas, aquela mulher de vestido cinza e expressão severa era a governanta.
— Você está atrasada, Senhorita Kate. — Dizer que eu esperava uma recepção com balões e confetes seria exagerado, mas pelo menos um muito prazer seria legal. A mulher já de idade apenas se dignou a fuzilar Kate com seus olhos de um azul álgido, ignorando completamente minha presença.
— Acredito que a senhora tenha notado a chuva, vim o mais rápido que se pode ir sobre um asfalto encharcado. — Por mais educada que a frase parecera soar, seria mentira dizer que uma tensão quase palpável não estivesse planando entre elas. Forcei uma leve tosse de forma impulsiva, apenas tentando terminar com tudo logo.
— Óh e você deveria ser…? — Deixando a resposta petulante de Kate, a senhora voltou sua atenção completamente a mim, como se só então fosse capaz de me notar.
Talvez, mas apenas talvez eu tivesse pedido mentalmente para Kate soltar qualquer outro comentário ou, quem sabe, até começar uma discussão direta. Qualquer coisa seria melhor do que ter suas burcas cristalinas me fuzilando em um julgamento ao qual eu não havia sido informada previamente sobre interpretar o papel de réu.
— É, bem… É um prazer conhecê-la, Sra. Grose! Pode me chamar apenas de Nyne, por favor. — Iniciei brandamente, fingindo limpar a mão na minha calça social azul petróleo quando a mesma não fez menção a corresponder meu convite a um aperto de mão. E com vergonha carmim salpicando minhas bochechas, trouxe para trás da orelha — em um reflexo involuntário — um dos cachos loiro-queimado que insistiam em escapar por baixa da minha boina preta.
— Posso dizer que o prazer é todo meu, bem… — Seu tom me segredava-me o contrário, mas fora outra coisa que se priorizara para mim: a tensão fora sufocada pela comicidade ao notar sua confusão em analisar minhas roupas e não achar um termo adequado para se referir a mim. Em partes, aquilo até me tentou a soltar um riso, mas tive de reprimir qualquer tipo de reação que pudesse ser mal interpretada como rudez. — ...Meu jovem. — Concluiu, não muito certa de sua escolha.
Olhei para Kate, buscando apoio, mas não verdadeiramente me sentindo incomodada com a categorização masculina.
— Primeiras apresentações feitas, que tal chamarmos as crianças? — Mesmo que o timbre em sua voz soasse animado, o vinco leve entre suas sobrancelhas e o brilho preocupado que adornava seu olhar lhe entregavam. Em compensação, aparentando estar totalmente alheia as entrelinhas da sentença, a senhora Grose parecia ter finalmente sido acometida por algum sentimento positivo, esticando as marcas do tempo em seu rosto num sorriso que teve como objetivo ser visto como contente — falhando de forma completa no processo, se me permite comentar.
— É uma ótima ideia, querida! Por que não vai chamá-los, enquanto eu providencio um chá para atenuar essa tarde tão fria? — Ao tempo em que Kate se dirigia para sair da sala, me vi tentada a ir atrás dela ou buscar proteção sob as furiosas gotas que fustigavam residência a fora. Isso parecia muito mais confortável do que ficar tendo apenas a governanta como companhia. — Ah meu jovem, você os adorará, eu garanto! — Num gesto de ternura duvidoso, suas mãos ossudas apertaram meus ombros num agarre tão firme que me trouxeram dúvidas de se isso não seria uma ameaça velada.
— Eu aposto que irei, Sra. Grose! Kate me contou um pouco sobre eles, espero causar uma primeira impressão tão boa quando eles já causaram em mim. — Não era algo do qual eu me orgulhava, mas graças a muitas experiências e ensinamentos com Abby, mentir me era tão natural quanto respirar e eu conseguia me sair tão bem nisso quanto com as aquarelas ou os grafites que tingiam meus dedos constantemente.
— Tenho certeza de que, se você se esforçar eles terão. — Bem, considerando todo o nosso diálogo até agora, não posso dizer que fiquei ofendida ou surpresa, talvez menos encorajada do que ela possa ter tentado me deixar. Me dignei a apenas lhe enviar o sorriso mais meigo que fui capaz de projetar em resposta, só queria que ela fosse o mais rápido possível ferver o chá e me deixasse sozinha para organizar a torrente de informações que recebi. — Eles são sangues puros, querido… Não se esqueça disso! — Uma expressão fugaz de confusão escapou do meu controle, tão rapidamente oprimida quanto o relâmpago que conspiratoriamente acendeu os céus por alguns milésimos de segundos.
Novamente me recusei a responder, apenas acenando em concordância a sua sentença — ou melhor, a sua ordem.
Suspirei aliviada, sentindo finalmente a sensação libertadora de poder respirar satisfatoriamente bem quando a Sra. Grose tomou seu caminho por uma outra porta lateral. Esfreguei meus braços, tentando reter o calor que me faltava, ao mesmo tempo em que amaldiçoava quem quer que tenha feito o projeto daquela casa com uma miríade de metros, mas não concebeu a ideia de instalar uma calefação decente.
Decidida a retomar minha exploração daquele ambiente, mirei minha atenção até uma velha estante de madeira lustrosa que se apresentava aos meus olhos num marrom enrubescido, cuja origem não me era nem um pouco desconhecida.
— Jacarandá… — Murmurei perdida em pensamentos. Memórias de infância invadiram minha mente, ao tempo em que eu podia me ver correndo até a casa do nosso vizinho, Senhor Alon.
A primeira vista, o Senhor Alon Frank era um viúvo mal encarado e que parecia sempre carrancudo demais com seus 61 anos. Entretanto, depois que eu o achara um figura deverasmente solitária e incomodara mamãe por horas e horas até ter permissão de levar-lhe um bolo como oferenda, descobri que ele tinha uma habilidade hipnotizante ao contar histórias e mãos divinas para artesanatos com madeira.
Por alguns anos eu estava decidida a me tornar marceneira e fiz com que o pobre senhor me desse aulas e mais aulas sobre os diferentes tipos de madeira e suas utilidades. Minha favorita sem dúvida vem da árvore Peltogyne, mas a madeira da Dalbergia não fica muito para trás em questão de finesse ou raridade — quanto ao meu sonho de trabalhar com madeira? Acabou assim que eu tive contato com o trabalho braçal e as farpas, literalmente, que se enfiaram na minha mão mesmo com luvas próprias. No final me rendi a ir incomodar o senhor Alon apenas para ouvir suas histórias dos tempos sombrios que viveu em tão tenra idade.
Um dia Alfonse me disse que eu teria de parar de viver sonhando ou morreria com a cabeça nas nuvens, devo dar-lhe alguns créditos, pois realmente cheguei perto de um ataque do coração em resposta ao alto barulho das portas sendo escancaradas. Uma maneira rápida de me despertar dos meus sonhos acordada.
E foi com o coração aos pulos que vi pela primeira vez o casal de irmãos Fairchild, tendo sua beleza equiparada com a presença de seu sobrenome.
A primeira figura que me chamou atenção foi Flora, a irmã mais nova, uma garotinha de 7 anos que naquele momento me remetia muito a Alice com seu vestido rodado e azul, cabelos longos e lisos adornados com uma faixa preta, sapatinhos de boneca e uma inocência curiosamente superficial. Confesso que me senti intimidada e ainda mais nervosa ao dar-me conta que seus olhos possuíam a malícia do Gato de Cheshire.
Ela deve ser só uma criança madura demais para a idade, foi o que eu mentalizei para acalmar os nervos.
Entretanto, meus nervos foram açoitados de novo pelo Fairchild mais velho. Um garoto pálido com cachos tão negros quantos as penas de um corvo — Edgar Allan Poe sentiria inveja de tanta lugubridade — e aparentemente bagunçados de forma milimétrica. Seu rosto era anguloso e parecia esculpido com esmero. Com toda certeza Deus tinha seus favoritos no quesito aparência e esse garoto era um deles. Mas usando de uma tentativa para não dar-lhe tanto crédito, suas roupas transbordavam requinte e isso o ajudava muito.
Por um segundo, observando os trajes casuais deles, senti-me envergonhada dos farrapos que vestia. Talvez se eu ficasse quieta e mal me movesse, eles não perceberam os remendos aqui e ali.
— Bem, esses são Flora e Miles… — Kate começou, interrompendo o concurso de encarar que nós estávamos jogando. Flora agarrou-se na cintura da mulher, mandando-me uma risada pueril que decidi usar como deixa.
— É um prazer conhecê-los e podem me chamar de Nyne. Espero que nos demos bem durante minha estadia com vocês! — Flora pulou um pouco, como se quisesse dizer algo ou só precisasse extravasar um pouco da sua hiperatividade, Miles parecia apenas continuar vendo algo muito interessante em mim — mas com toda certeza não de um jeito bom.
— Nynes é estranho! — Foi impossível não rir da forma espontânea que a menina havia apontado sua exprobação.
— Primeiramente é Nyne, sem “s”! — Nos primeiros segundos já pude ter um vislumbre de uma qualidade similar entre nós: odiávamos ser contrariadas ou corrigidas, então tinha que tomar cuidado ao agir com ela de agora para frente. — E em segundo lugar, é um apelido, pois posso te garantir que meu nome consegue ser ainda mais estranho e feio.
Como se para ser lembrado — não que ele necessitasse disso — Miles pigarreou, interrompendo Flora de qualquer outro comentário que ela se preparara para fazer. O que estranhamente a deixou ainda mais animada.
— Nyne é muito encantador… — Ele começou, sua voz algumas oitavas mais baixas do que eu esperava e com um tom mais rouco também. Confesso que senti minhas bochechas serem pinceladas com carmim até que seu sorriso ladino me trouxesse ao estado de alerta novamente. — ...Para alguém tão baixo quanto você. — Sua frase fora um balde de água fria sobre mim, ainda mais álgido que as lágrimas derramadas pelo céu em ira. Isso lavou qualquer expressão do meu rosto, mas fez queimar em meu interior o fogo que por muito tempo pensei ter conseguido controlar.
Eu não era a melhor mistura a se fazer com raiva.
Pois vejamos, deixe-me refletir um pouco mais sobre isso. Não querendo me gabar ou tentando parecer uma adolescente rebelde sem causa, mas eu lidara com garotos arrogantes quase que minha vida inteira, eles simplesmente pareciam um formigueiro na minha escola e a única diferença real entre eles e Miles, era sua conta bancária. Ou assim, eu pensava.
Garotos idiotas sempre serão garotos idiotas, mas o melhor jeito de ensinar-lhes o seu lugar? Seja pior que eles.
— Fairchild me remete a uma luxuosidade em abundância, assim como essa casa e seus adornos… — Comecei despretensiosamente, calando qualquer interjeição irritada de Kate e quase podendo sentir Abby apoiada em meus ombros, me encorajando a continuar com a fachada que ela tanto me ajudou a aprimorar para momentos como esse. — Não pode imaginar o quão frustrante é saber que ao invés da sua educação ser assim, sua descortesia toma lugar. — Como se o universo estivesse um pouco ao meu favor, assim que terminei de proferir a afronta, a Sra. Grose achou que seria um momento apropriado para aparecer, impedindo que Miles tivesse qualquer oportunidade de resposta — ou chance de pular no meu pescoço, já que seus olhos me encaram com uma raiva bestial quase palpável.
E naquele momento eu soube, havia sem qualquer noção ou intenção, despertado algo dentro dele, algo que minha pessoa não queria e muito menos poderia lidar.
Eu havia despertado um monstro.
E me autoproclamado seu alvo.
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