Obscuramente
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Me olhei no espelho mais uma vez, bem aquela não era a melhor versão de mim mesma. Eu usava um vestido de festa rodado preto. Meu cabelo estava com um penteado e meu rosto cheio de maquiagem. O gloss que a maquiadora contratada pela minha mãe havia posto em minha boca era grudento como se fosse feito de chiclete.
Era dia da festa de Luana e esse era o meu traje da noite. Minha mãe tirava várias fotos no celular para postar no Facebook, enquanto eu esperava sentada no sofá da sala. Ela ainda estava com raiva de mim pelo que havia acontecido no jantar. Eu poderia ter falado que aquilo tinha sido armação de Luana, mas ela não acreditaria. Ela sempre defendia Luana, essa era a verdade.
Chegamos na festa atrasados. Estava em cima da hora e a assistente, uma mulher com um ar de desespero no rosto segurando uma pilha de papel perguntou.
— Você é Émile Montenegro? – ela apontou uma caneta preta para mim.
— Sou sim – respondi.
Ela pediu para que eu a seguisse e me levou para uma sala onde todas as garotas com roupas iguais as minha estavam. E foi então que eu o vi. Ele se virou para a porta assim que ela abriu e nossos olhares se cruzaram. Ele sustentou o olhar, mas eu encarei o chão logo em seguida. Me posicionei ao seu lado.
— Oi – Ele me cumprimentou educadamente.
Eu não lembrava dele ser tão bonito assim na escola, mas aquelas roupas o deixam com um ar de homem maduro.
— Oi – respondi de volta tentando agir naturalmente.
— Eu não acreditei muito quando disseram que você dançaria comigo. – Disparou ele. – Você não parece o tipo de garota que curte essas festas.
— Eu não curto mesmo. Só estou aqui porque minha mãe e amiga da mãe de Luana. – Respondi rapidamente.
— Entendi. – Ele fez uma pausa. – Você está encantadora está noite. – Sorri timidamente. Eu não era o tipo de garota que chamava atenção muito menos de um cara como Álvaro.
Nosso nome foi anunciado e nós entramos no salão. Os convidados estavam inquietos, celulares e flash vinham de todos os lados. Ouvi minha mãe gritando "Sorria Émile". E a obedeci. Começamos a dançar, era como se tivéssemos voltado no tempo, a dança era estilo aquelas do século XXV, onde nós tocávamos as mãos uns dos outros. Até que eu estava me divertindo.
No fim saímos do salão com uma rajada de aplausos e gritos de excitação.
— O que você gostaria de fazer agora? – Perguntou Álvaro sorrindo. Seu sorriso era muito bonito. Daqueles que formavam linhas de expressão embaixo das bochechas.
— Eu quero mais diversão. – Respondi.
Um garçom passou na hora com um champanhe em cima de uma bandeja. Peguei o champanhe e saímos correndo para a noite.
— Esse era o champanhe para o brinde – falou Álvaro, sua voz era de preocupação, mas sua expressão era divertida.
Entramos no carro dele que estava estacionado do outro lado da rua e fomos para a praia. Abrimos a garrafa e bebemos direto do gargalo. Ele me olhava como se eu fosse louca.
— Eu sempre gostei de você – confessou ele olhando para o mar.
Estávamos encostados em um paredão de pedra que havia embaixo do calçadão.
— De mim? – Eu estava surpresa.
— É – seus cabelos grandes voavam na direção do vento. – Você é a única garota da escola que não me atormenta. Sempre me perguntei o porquê.
— Eu sou realista. – Dei de ombros e ele sorriu.
— Claro. – E voltou a olhar para o mar. – Será que eu teria alguma chance ou vou ter que ser realista também? – Aquela pergunta fez eu gargalhar, ou talvez fosse o álcool fazendo efeito.
— Você está me pedindo uma chance? – Minha voz saiu um pouco exagerada.
Ele não respondeu.
— Tudo bem – entreguei a garrafa a ele – se conseguir me pegar eu deixo você me beijar.
Sai correndo pela praia enquanto ele vinha atrás de mim. Eu estava sorrindo. Estava sorrindo de verdade, como não estive há tempos. Ele agarrou meu braço e me beijou. Senti um choque percorrer todo o meu corpo. Eu me senti bem, me senti viva, como se tivesse acabado de ressuscitar, como se tivesse sido puxada da obscuridade.
O dia do trabalho de filosofia se aproximava, mas eu só conseguia pensar em Álvaro, sonhava com o dia em que ele me chamaria para sair, e esse não demorou muito tempo. Na hora do intervalo da escola ele perguntou se eu queria sair depois da aula. Recebi uns olhares de reprovação enquanto falava com ele. Mas não me importei, pela primeira vez na vida as coisas estavam começando a ficar interessantes.
Depois que as aulas acabaram entrei em seu carro, as meninas que sempre havia sonhado com isso deviam estar com a pior cara possível e isso me faz sorrir. Eu senti que poderia ganhar o mundo. Quando estava com Álvaro eu esquecia dos meus problemas familiares, esquecia que Luana era melhor do que eu, porque ele fazia eu me sentir única. Ele fazia eu me sentir uma pessoa muito melhor que aquela garota mimada.
— Esse é o meu apartamento – ele falou enquanto abria a porta – Meus pais estão trabalhando agora, então não tem ninguém aqui.
— Bem legal. – Respondi dando uma boa olhada ao redor.
Era quase do mesmo tamanho que o meu, havia um sofá com uma tv presa a parede, uma mesa de jantar de vidro de frente para um corredor e no fim uma cozinha com balcão.
— Você que alguma coisa? – Ele apontou para a geladeira na cozinha.
Eu estava nervosa, nunca havia estado sozinha com um garoto antes.
— Não – sentei-me no sofá e ele sentou ao meu lado. – O que você vai fazer para o trabalho de filosofia? – Perguntei casualmente.
— Eu estou desenvolvendo minha teoria. E você?
— Não faço ideia. – Balancei a cabeça negativamente.
— Tenho certeza que pensará em alguma coisa. – Disse ele com convicção.
— E qual seria sua teoria? – Eu estava mais interessada em saber sobre o que ele pensava sobre a vida e não em roubar suas ideias.
— Eu acho que estamos aqui para viver a vida intensamente, sabe? Já ouviu a expressão em latim Carpe diem? Significa aproveite o dia, viva o hoje, faça tudo o que tem que fazer agora. Aproveite ao máximo as oportunidades. É nisso que eu acredito.
Ele falava com tanto intuíamos, que por um instante acreditei em suas palavras, então eu simplesmente o beijei. Os beijos começaram a se intensificar e quando vi já estávamos sem camisa. E a única certeza que eu tinha é que eu não perderia aquela oportunidade, não mesmo.
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