Notas iniciais
Boa leituras!

Sabe qual foi o meu erro? E o que também pode ser o erro da maioria das pessoas? Foi achar que uma única pessoa poderia me salvar, achar que um garoto era o fim dos meus problemas, que minha vida dependia dele e que eu não conseguiria mais viver sem ele. Talvez você também se sinta preso a alguém, não importa quem seja essa pessoa, sua mãe, sua melhor amiga, seu namorado.

Temos tanta admiração por essa pessoa que esquecemos que ela é humana e comentem erros como nós. Elas não são as verdadeiras culpadas por nos decepcionar, nós somos, a partir do momento em que depositamos todas as nossas esperanças nelas. Eu sempre disse a mim mesma que uma única pessoa não era capaz de mudar o mundo. Por mais promessas que elas fizessem, por mais que ela quisesse resolver tudo, a mudança só acontece com uma equipe de pessoas e eu havia me esquecido disso.

Quando cheguei em casa depois daquela tarde com Álvaro, eu estava em outro universo. Como se estivesse presa a uma bolha de felicidade, as pessoas ao redor não me importavam. Eu nem liguei quando minha mãe veio brigar comigo pelas roupas do meu guarda roupa estarem bagunçadas.

Mas aquilo havia passado, eu voltara a realidade, ainda estava muito feliz é claro, um garoto reparou em mim, eu estava muito feliz! No dia seguinte seria o meu trabalho de filosofia e eu não havia pensado em nada. Até ver um vídeo de um parto que alguém havia publicado no Facebook.

Quando olhei para aquele pequeno ser indefeso vendo o mundo pela primeira vez me ocorreu a ideia. Nós nascemos sem saber exatamente nada sobre a vida, nascemos sem conhecimento, sem traumas, dores, sofrimento. E ao logo do caminho as pessoas com quem convivemos são responsáveis por nós ensinar as coisas e despertar em nós os sentimentos seja eles qual for.

Levantei da cama com um sorriso no rosto, era essa a teoria que eu usaria. Mas ouvi gritos vindos da sala, a briga havia começado mais uma vez. Ouvi meu nome sendo gritado e voltei a me sentir uma inútil no mundo. Eu queria poder salva-los, mas não sabia como. Pus meus fones de ouvido no último volume e fugi.

Na manhã seguinte meus pais estavam se ignorando o que fazia minha mãe me ignorar também. Ela me olhava como se eu fosse sua pior inimiga e eu sabia o porquê. Você é o motivo de eu ainda está nesse casamento, Émile. A voz ecoava em minha mente. Peguei um pote de vidro um pequeno prego e fui para o colégio destinada a fazer a melhor apresentação de trabalho da história.

Quando o professor chamou meu nome, caminhei até a frente da sala e posicionei o pote de vidro. Então me dirigir para o fundo da sala e comecei a falar minha teoria.

— Esse pote de vidro, somos nós quando nascemos, olha como parecemos tão vulneráveis, mas também somos vazios. Não temos, medos, traumas, lembranças, Nada. – Mirei o prego em direção ao pode e o arremessei. O pote se espatifou e cacos de vidro caíram por todo o chão da sala. – O prego representa a vida. Porque é isso o que a vida faz com a gente. Ela nos destrói.

Meus colegas de classe estavam tão perplexos quanto meu professor que me olhava com os olhos petrificados. Pequei minha bolsa e deixei a sala.

Fui para o shopping que ficava no bairro vizinho. Comprei um sorvete em um dos fast-food da praça de alimentação e logo a frente havia uma livraria. Entrei e dei de cara com um livro. Poemas de Luís de Camões. Um escritor português que tem um livro muito famoso chamado. Os lusíadas. Abri o livro casualmente e me deparei com o primeiro poema.

Amor é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer;

Eu conhecia aqueles versos. Era os mesmos de uma música do Renato Russo. Comprei o livro e sentei me em uma das mesas da praça de alimentação para avalia-lo melhor.

Eu nunca fui boa em interpretar poemas, eles são muito complexos e deixam meu cérebro bagunçado.

Me identifiquei perfeitamente com Camões quando ele diz que o amor é um não querer mais que bem querer, é querer estar preso por vontade. Aqueles versos me lembravam a Álvaro, quando se tratava dele um turbilhão de sentimento preenchia todo o meu corpo, como se eu estivesse acabado de ser eletrocutada e emanasse toda aquela eletricidade.

—Eu te entendo, Camões – sussurrei fechando o livro e o colocando em cima da mesa.

Afundei a colher de plástico dentro do sorvete cremoso e levei a boca, observando as pessoas a minha volta. Na frente da minha mesa estava uma família, mãe, pai e uma menininha. Os pais sorriam elogiando algo que a filha havia feito. Sorri automaticamente observando aquela cena. Infelizmente, nem todo mundo consegui ser motivo de orgulho para os pais.

Cheguei na porta do meu prédio e me deparei com Álvaro, ele estava encostado no seu carro com os braços cruzados. Usava uma camiseta branca e uma badana azul nos cabelos que ficavam posicionados para trás.

— Oi – falei em um tom baixo de mais.

—Vim saber se você está bem – ele desencostou do carro preto.

— Por que eu não estaria? – Eu estava nervosa.

— Você que sair? – Eu apenas maneei com a cabeça e entramos no carro. – O que foi aquilo hoje na aula de filosofia? – Perguntou ele dirigindo o carro concentrado.

— Eu só falei o que penso sobre a vida. Você tem sua teoria e eu a minha. – Dei de ombros. Eu já havia esquecido daquele episódio. Meu telefone começou a tocar. Era a minha mãe. – Alô – atendi amedrontada.

Eu não queria brigar com a minha mãe na frente de Álvaro. Eu faria de tudo para esconder dele os meus problemas familiares.

— Helena acabou de me ligar dizendo que você surtou, que fez um escândalo dentro da sala de aula e deixou o professor perplexo. – Disparou ela em cima de mim. Seu tom de voz estava elevado. – Onde você está agora?

— Estou chegando em casa. – Eu estava a alguns quarteirões da minha casa.

Olhei para Álvaro com uma cara de é melhor voltarmos. Ele começou a fazer a volta e minha mãe continuava a gritar do outro lado da linha.

— Eu estou cansada de você. Todos os dias é uma vergonha diferente que passo. Você foi o pior erro da minha vida.

As palavras atravessaram meus ouvidos me paralisando. Sabe qual a diferença delas e um soco na cara? Nenhuma! Os dois fazem o grande estrago, porém a dor de um soco dura algumas horas, mas a das palavras voltam sempre que você lembra delas.

Esqueci que não estava sozinha e comecei a chorar, eu me sentia uma inútil no mundo. Eu queria ser perfeita, queria muito ser perfeita, mas eu fazia tudo errado. Eu só queria agradar as pessoas. Eu era uma idiota e minha mãe estava certa, eu era um erro!

— Está tudo bem? – Álvaro afastou meus cabelos para trás e o fitei com o rosto molhado de lágrimas.

— Eu estou bem – falei passando as costas da mão no rosto, tentando afastar as lágrimas.

— Qualquer que seja o problema, você pode me contar. – Ele segurou minha mãe enquanto falava, a voz tão leve. Eu o abracei e comecei a chorar desesperadamente.

Eu não podia compartilhar isso com ele, nem com ninguém porque as pessoas não entendiam. Ninguém iria entender. Depois que me acalmei, entrei no prédio, em direção a minha casa, em direção a escuridão.