Oblivion

3 Olhares.


Notas iniciais
Olá, pessoal! Que saudades de vocês, hihi Espero que gostem deste capítulo!

染まりだしたら 止まらぬ心

Quando conhecemos alguém por tantos anos, os olhares podem se tornar mais significativos que as palavras.

Sentados de frente um ao outro, Haiako evitava olhar o homem em seus olhos. Uma xícara de chá e seu vapor, iluminado pela luz baixa amarela das lanternas, era seu ponto seguro em meio a um mar de mágoas não ditas. A mulher, com seus cabelos ondulados repousados em seus ombros, os fios acobreados dançando com as chamas alaranjadas e a brisa na janela entreaberta, e um leve rubor nas bochechas causado pelo álcool, sabia que Aizen Sōsuke, que há tanto tempo a conhecia, decifraria todas as suas emoções, até as mais conflitantes — apenas com um olhar. Os lábios cor-de-amora seguravam, entre os dentes, palavras que apenas a embriaguez gostariam de dizer. E ele a via, de verdade. Cada detalhe.

Aizen, por sua vez, se manteve em silêncio absoluto desde que a mais nova oferecera uma infusão de frutas vermelhas e Pu’er — odiada por ele, que bebia apenas seu costumeiro chá verde japonês. Ele era um homem que insistia na tradição. Ao redor de ambos, os livros nas prateleiras faziam um papel importante no cenário: todos eram conhecidos pelo homem, e organizados por tema e autor, da mesma forma que ele fazia, há muitos anos. Mesmo a bainha da espada da mulher repousava no canto direito da porta da frente, assim como Aizen tinha o costume, quando os dois viviam juntos.

Ao notar as semelhanças e detalhes simples, mas semelhantes ao estilo de vida que ele levava, sua expressão séria e descontente deixou escapar um sorriso suspirado, o que finalmente fez Haiako olhar diretamente a ele.

— Qual a graça? — Ela cortou o silêncio com uma pergunta ríspida. Prontamente, antes mesmo que Haiako preenchesse todo o espaço de sua frase, Aizen perguntou…

— Eu vim ver se você estava bem, após nosso encontro. Afinal, se passaram…

— Mais de 100 anos. — Haiako o interrompeu, rispidamente, com os olhos fixados em sua bebida.

— Sim. Mas, para a minha surpresa, você aparenta estar muito bem habituada com minha ausência. — A ênfase em suas palavras faziam alusão ao homem que anteriormente estava junto a mulher. Esta, por sua vez, ignorou a tentativa de Aizen de provocá-la.

Agora de pé, Aizen observava as obras literárias e se recordava de momentos do passado. Com os dedos, acompanhava as escritas de algumas capas, e sua bebida esfriava na mesa, intocada.

— É rude para uma visita recusar o chá do anfitrião. — A mulher declarou, como se estivesse contente.

— Não vou tocar nessa bebida, Flor.

Ela riu, e respondeu com um humorado "eu sei". Os desgostos de ambos, afinal, também eram conhecidos. Apesar do breve momento de humor, Haiako não deixou de sentir o arrepio subir pelas suas costas e eriçar os pelos de sua nuca ao ouvir a forma que ele a chamara, pigarreando seu desconforto em forma de uma postura enrijecida. Flor. Minha Flor. Quantas vezes ele proferiu essa alcunha com doçura nas palavras? Ela se lembrava de todas. Controle-se, era a ordem que ela mesma se dava em sua mente. O álcool possui uma maneira engraçada de retirar nossas defesas e trazer à tona sentimentos e palavras enterradas. Aizen virou-se de costas para a estante, e passou a olhar a mulher com um sorriso calmo.

— Estou deixando-a desconfortável?

— Sempre. — Ela sorriu com os lábios de amora.

O silêncio voltou a assolar o local. As palavras se perdiam no caminho entre a mente e os lábios de ambos. Passado, presente e futuro, sobrepostos na mistura de aromas que ambos exalavam como uma dança proibida, na qual a dor e o afeto também participavam. Ela, jasmim, orquídea negra e cereja. Ele, ládano, camurça e absinto. No entanto, eles não se olhavam. O horizonte a frente de cada um era o ponto focal de suas memórias. Aquele perfeito silêncio poderia se manter por horas, se não fosse…

— Eu não irei me desculpar pelo passado. Você entenderá, mais cedo do que imagina, minhas motivações e minhas ações. E solicitar sua transferência para o 5º Esquadrão, ainda que você não possa enxergar, é o início disso.

— Acho melhor você ir. — Haiako se levantou abruptamente e recolheu as louças da mesa, como se evitasse ouvir quaisquer palavras sobre aquele assunto. Mesmo a breve queda em sua guarda havia desaparecido, ao pensar na possibilidade de trazer à tona assuntos pendentes. — Agora, olhando fixamente nos olhos castanhos-escuros reluzentes do homem. — Por favor, não volte aqui. Você tem o meu indivisível respeito como meu capitão, e eu tenho um dever com a Sociedade das Almas. Pretendo cumpri-lo.

— Pois bem, como deseja. — Dando-se por vencido, ao passo que a conhecia o suficiente para entender seus limites, Aizen caminhou em direção a porta e, antes que pudesse abrir a porta… — Mas, antes, diga-me algo. — Uma breve pausa, para se certificar que a mais nova prestava atenção. — O dano foi permanente?

Foi? Ela pensou, sem encontrar forças para respondê-lo. E ele, como o seu aroma, se ausentou.

Olhares. Armas poderosas, aqueles olhares. Naquela noite, Haiako sonhou com mais do que apenas aromas se embaralhando.

Irei te mostrar… o que 100 anos de desejo fazem com um homem.

+

Alguns dias e, rapidamente, semanas, se passaram. A Soul Society permanecia calma, e os dias de trabalho não possuíam grandes novidades. Em meio aos treinamentos de aptidão conduzidos aos novos recrutas do 5º Esquadrão, Aizen e a mulher trocavam apenas alguns olhares distantes e palavras curtas, de cunho meramente profissional.

A aparente calma no mundo espiritual, no entanto, escondia um movimento silencioso que se iniciou no coração de Haiako. Afinal, o encontro de ambos trouxe sensações que ela havia escolhido enterrar no passado, e as palavras, olhares e sorrisos tocavam como um disco arranhado em sua mente.

Mas esse é o segredo do caos. Ele nunca se apresenta de forma avassaladora, no início.

Em um final de tarde, dentro de uma sala ampla e organizada, mas ainda sem muitos itens, cuja porta mantinha-se entreaberta com a escrita “3º Posto”, a mulher sentava-se à mesa, com diversos livros espalhados à sua frente. Técnicas de controle de Reiatsu, liderança em batalha e os diferentes estágios do poder espiritual de um Shinigami, eram os temas escolhidos por ela. Em suas mãos, uma obra de capa verde, em couro legítimo, espinha costurada a mão e escrita em letras prateadas, o título “Estudos Avançados da Purificação de Almas” iluminava-se contra a luz.

Concentrada em sua leitura, como sempre o fazia de modo a trazer novos conhecimentos aos seus subordinados, Haiako era uma professora eficiente e dedicada. Os membros do esquadrão caminhavam pelo corredor do lado de fora do escritório, conversando entre si e compartilhando experiências, com risos e brincadeiras. De forma abafada, a mulher pôde ouvir de uma dupla de jovens recrutas:

— Capitão Aizen, boa tarde! Tenente Hinamori, boa tarde!

Com um coque levemente solto para esconder alguns fios de cabelo tomados pelo suor, e seus óculos de leitura, — com armações brancas e finas, uma vez que gostava de detalhes minimalistas. — olhou discretamente para a porta, por cima de seu livro. Um copo d’água repousava na mesa e ela o alcançou, bebendo-o sem tirar os olhos do corredor.

— Takeru, Hiroto, como vocês estão neste fim de tarde? — A voz de Aizen, apesar deste não estar visível apenas pela porta, era grave o suficiente para ser ouvida por todo o espaço. A gentileza em suas palavras soltou um sorriso discreto da mulher, que voltou a focar em sua leitura. Será mesmo que tudo havia mudado?

— Boa tarde, Takeru-san, Hiroto-san! — Hinamori Momo, Tenente do 5º Esquadrão e uma fiel companheira de Aizen, exalava educação e amistosidade.

— Estamos bem, obrigado por perguntar, Capitão Aizen, Tenente Hinamori! — Takeru, o rapaz mais velho, agradeceu, e ambos se curvaram aos seus superiores. — Vocês estão indo a Rukongai?

— Sim! Estamos indo convidar a 3º Posto Kikuchi Haiako para nos acompanhar! Achamos que será uma ótima ideia realizar uma confraternização para trocar experiências, e vocês são muito bem-vindos!

Com os olhos brilhando e em grande felicidade pelas palavras doces da Tenente, os jovens agradeceram a gentileza. Aizen, por sua vez, retribuiu o sorriso, e acenou.

No entanto, Haiako sentiu desconforto ao se imaginar em um local público com os dois. Ou melhor, com ele. Ainda que os ânimos estivessem calmos, seu encontro com Aizen deixara mais perguntas que respostas — as quais ela não queria confrontar. Sim, cedo ou tarde ela teria de participar dos eventos sociais requeridos de alguém de sua posição e, mesmo quando estacionada no 1º Esquadrão, Haiako não era conhecida por qualquer timidez, apesar de sua seriedade no trabalho. A verdade é que ela apreciava esses momentos de confraternização como uma oportunidade de fortalecer sua equipe e criar laços que se estenderiam ao campo de batalha. Ainda assim, estava hesitante em colocar-se em uma situação de confronto direto com seus sentimentos.

Por quaisquer razões intangíveis e, até então, inexplicáveis, algo lhe era claro: o Sōsuke que conhecia era diferente do Capitão Aizen que a Soul Society admirava.

Antes que pudesse agir, Capitão e Tenente entraram pela porta. Haiako, então, se levantou, curvando-se à presença de ambos em sinal de respeito. Seu olhar, inevitavelmente, encontrou-se com o do homem, que sorria calorosamente.

Hinamori, por sua vez, realizou o convite mencionado anteriormente e, para sua surpresa e confusão, recebeu uma resposta negativa.

— Muito obrigada pelo convite, Tenente Hinamori, Capitão Aizen. Estou estudando as instruções do início da semana, avaliando como posso melhorar, e ainda preciso preencher os relatórios de rondas de vigilância. — Curvando-se novamente e, ao levantar, segurando as próprias mãos, ela continuou. — Tenham uma ótima noite.

— Mas… você não precisa fazer isso hoje, Kikuchi-san! Hoje teremos fogos de artifício! Amanhã teremos o dia de folga. — A mais jovem protestou, aproximando-se de Haiako para convencê-la a aceitar um merecido descanso. Com um sorriso e a postura desarmada, a mulher ouvia as palavras, e não podia evitar se sentir verdadeiramente acolhida por Hinamori.

— Você é muito gentil, Tenente Hinamori. Ainda assim, muito obrigada por lembrarem de mim.

— Kikuchi-san, — Aizen, tratando-a de maneira formal, as interrompeu. — tire o resto do dia para descansar. Você tem contribuído grandemente para nossa equipe. Considere uma ordem de seu Capitão, que se preocupa com você. — Ao terminar sua fala, tocou no ombro de Hinamori com sua mão esquerda, evidenciando o contraste entre a altura de ambos, e acenou, como se dissesse para irem.

Após a saída de seus superiores, Haiako sentiu as energias de seu corpo drenarem. Alguns pontos pretos atingiam sua visão cansada, forçando-a a retirar os óculos e apertar seus olhos com os dedos polegar e indicador. Um leve formigamento, então, surgiu em seus lábios, a incomodando o suficiente para, instintivamente, esfregar a mão esquerda em seu nariz.

E, então, sangue. Sua mão esquerda e parte de seu shitagi por baixo das vestes negras indicavam um sangramento. Com seus dedos, tocou seu rosto para identificar sua intensidade, mas este já havia cessado.

E é assim que o caos se inicia. Com um minúsculo sinal de exaustão.

Tudo mudaria.

+

Semanas antes.

No 12º Esquadrão, uma sala escura era iluminada apenas pelo brilho das telas dos computadores. Eram, ao todo, cinco aparelhos, dos quais dois reproduziam cenas advindas de câmeras de vigilância.

Sentado em frente aos computadores, fitando as imagens com indivisível atenção, Aizen Sousuke repousava o queixo em sua mão direita, apoiada no braço da cadeira, e seus óculos, assim como o restante do local, refletiam o brilho azul intenso das telas. Ao lado de fora do edifício, a lua permanecia na posição mais alta, iluminando o céu ao lado de estrelas brilhantes.

Mais uma noite se passaria sem que ele dormisse. Afinal, não há descanso para os que almejam grandes coisas. Mas suas articulações e estratagemas não eram as únicas coisas mantendo-o acordado.

— Se eu, em um lapso de imprudência, a visitasse agora, como a encontraria? Como estariam suas vestes, seus cabelos, seu cheiro… seu calor? Se eu lhe olhasse, deitada em sua cama, protegida e segura… você me receberia?

Os pensamentos lhe tomavam a mente, e as imagens que pretendia analisar eram apenas borrões sem foco em sua frente. Recentemente, o passado lhe fazia visitas mais frequentes, e as lembranças daquela mulher tentavam a todo custo invadir a fortaleza que Aizen construiu para se proteger.

— Se ela soubesse, iria entender. — Era a mentira mais contada por ele para si mesmo, em uma tentativa falha de justificar o imperdoável. A realidade era um pouco mais dura: se ela soubesse, não iria me perdoar. E ela, em breve, irá descobrir.

No computador central, localizado no centro de sua visão, uma imagem familiar o retirou de seus devaneios. A mulher de cabelos castanho-acobreados, com ondas amplas, lábios arroxeados, pele bronzeada e bochechas ruborizadas pelo álcool conversava intimamente com um homem alto, de pele oliva, sorriso malicioso, e um kimono floral por cima do haori de capitão. Ambos se encostavam sem cerimônias, mostrando uma intimidade pregressa, e riam com piadas internas e brincadeiras, sem se importarem com o volume. Apesar do claro descontentamento com a cena, Aizen se viu sem conseguir desviar a atenção do que aconteceria em seguida, uma vez que a mulher levantou-se, apoiando no homem para caminharem juntos.

Agora, com os cotovelos apoiados na mesa, e os dedos das mãos entrelaçados, os braços serviam de apoio para os lábios de Aizen, que os pressionava em uma tentativa de regular a própria raiva. O homem que tanto aparentava calma e controle escondia uma imensa fúria dentro de si.

Fúria essa, que em poucos minutos ele estava à frente da porta da residência de Haiako: um esforço falho e imprudente de interromper aquilo que, inevitavelmente ocorreria. E ele sabia que era o único culpado. Entretanto, ao se ver sozinho e irresponsável, olhou para o céu e sentiu que até mesmo aquela lua, tão brilhante, o julgava. Então, fechou os olhos.

Quando concentrados suficientemente, e com experiência para tal, os Shinigamis podem sentir o reishi ao seu redor como um fluxo de água tocando superficialmente suas peles, semelhante a estar deitado em um calmo riacho de água cristalina. Toda matéria e energia na Soul Society é feita de partículas de energia espiritual em constante movimento, evolução e ciclo, e isso inclui os ceifadores e sua reiatsu.

Com os olhos ainda fechados, Aizen deixou aquele gentil fluxo de reishi percorrer através de si, e se tornou um com o ambiente. Mesmo o vento que anteriormente atingia seu corpo, os fios de seu cabelo e suas vestes, parecia não se lembrar da existência do homem. Assim, pôde camuflar sua energia espiritual, sem utilizar quaisquer artefatos tecnológicos para este fim.

Lembrou-se, ainda, de uma remota possibilidade: em seu passado com Haiako, vivendo juntos na mesma casa, os dois guardavam as chaves abaixo da madeira no primeiro degrau das escadas da varanda. De estrutura semelhante, pensou que, talvez, a mulher não tivesse desfeito de alguns costumes. Quase não conteve o sorriso ao avistar o brilho dourado da chave exatamente onde imaginava.

Agora, dentro do local, ele sabia: no primeiro sinal dos dois, sairei. Preciso de apenas alguns minutos.

Todos os detalhes daquela casa lhe pareciam familiares, e Aizen enxergava sua antiga parceira em todos os cantos, conforme explorava. Na poltrona ao lado da estante de livros, estudando com grande concentração. Na cozinha, bebericando um copo de saquê e olhando através da ampla janela que se estendia por toda a bancada da cozinha, revelando os crisântemos vermelho-sangue do jardim, e um pequeno rio ao longe. No espelho do banheiro, conforme tocava os próprios lábios com o polegar. Na cama…

Abruptamente interrompendo seus devaneios e o trazendo de volta a realidade, as vozes de Haiako e Kyōraku deixavam claras as intenções do mais velho. Para a surpresa de Aizen, no entanto, a mulher o dispensara, ainda que com carinho e cuidado. Permitiu-se, finalmente, um momento de calmaria, e sentou-se na poltrona que anteriormente avistara.

— Estive esperando por você. — Ele proferiu. Ele não era mais o Capitão Aizen. Era apenas Sōsuke, o homem que há tanto tempo a conhecia. E ele nunca sentiu tanto desejo pela verdade.

Tudo em seu tempo.

+

Notas finais
Tudo em seu tempo... Acho que podemos dizer, com certeza, que as coisas estão mudando para nossa querida Haiako. Que tal movimentar o pêndulo e buscarmos algumas respostas no passado? Confira os próximos capítulos.