Oblivion

4 Unworthy.


Notas iniciais
Olá, pessoal! Hoje atualizamos mais um capítulo para voltarmos ao passado e compreender como algumas coisas aconteceram! No último ano, eu tive um neném e fiquei bem ocupada para atualizar a história, mas voltei com força total ♥ A gente cresce, vira mãe, trabalha e cria uma família, mas o amor por Bleach nunca passa hehe Estou encontrando novamente o fluxo da história, e vou buscar sempre colocar uma frase de uma música no início para determinar o tom da leitura. A de hoje é Burn Butcher, Burn.

You turned your back on me

What for do you yearn?

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Memória de Aizen

Eu não busco compreensão, ou mesmo aprovação acerca das minhas ações. A empatia alheia não é do meu interesse, especialmente de seres inferiores que não podem compreender a magnitude e responsabilidade de carregar o meu fardo. O caminho que escolhi para mim é fundamentalmente solitário, como tem de ser. No entanto, existe uma variável incalculável em quaisquer planos ou estratégias de luta, com o poder de dobrar até mesmo a vontade dos deuses.

O coração.

Não o órgão que bombeia o sangue em nossas veias, mas sim, aquela força intangível e imprevisível que nos move em direção a um objetivo. O coração é, das armas, a mais poderosa e, se contaminado, pode pôr tudo a perder. O que contamina um coração?— Você me pergunta.

Cada ser possui uma fraqueza… Não. Não uma fraqueza, mas um veneno capaz de contaminar as intenções do coração: ódio, ganância, vaidade, inocência... O meu era ela.

A tarde trazia consigo cores vibrantes no céu da Soul Society, com um misto de rosas, roxos e laranjas que saltavam aos olhos. O vento frio cortava a pele daqueles que ousavam se expor ao início da noite de inverno sem agasalhos, e ainda me lembro vividamente da sensação de ter as mãos quentes de Haiako em minhas bochechas, despedindo-se de mim com aquele sorriso doce.

O dia em que nos conhecemos foi como se, há tanto tempo na escuridão, no fundo do oceano, eu finalmente pudesse enxergar a luz do sol dançando na superfície da água. E, admito, essa mesma luz por muito tempo me cegou. Algo muito mais forte que o meu eu-jovem e suas convicções, se conectou instantaneamente com aquela pequena mulher, que se tornou um pedaço de mim. Meu corpo clamava por ela, cuja energia espiritual e beleza eram diferentes de tudo que eu havia sentido e, ainda assim, tão familiares.

Sempre que baixava a minha guarda, me pegava perdido naqueles lábios, bochechas coradas e longos cabelos, os quais, vez dourados, vez acobreados, deslizavam com facilidade por entre meus dedos. Suas ancas encaixavam em minhas mãos como um perfeito quebra-cabeças, e o silêncio entre nós nunca era acompanhado de desconforto. O sexo-fogo que descobrimos juntos me colocava de joelhos, à disposição de todas as suas vontades e caprichos. Sua inocência, à minha mercê, me enlouquecia.

Haiako era, para mim, como um espelho. Nela, eu via uma possibilidade de desistir de todos os planos que havia traçado, apenas pela remota possibilidade de me entregar completamente ao seu amor. Nela, eu enxergava claramente a minha queda. O meu fracasso. No entanto, como uma droga, eu não conseguia me desvencilhar por completo.

Ao sair pela porta, agora com o vento gelado atingindo meu rosto como pequenas lâminas afiadas, eu podia sentir seu olhar melancólico me seguindo, e sabia que, sozinha naquela casa, ela se perguntava o que poderia ter feito para justificar a minha ausência, minha distância. Sabia, ainda, que no momento em que a encontrei naquele campo de crisântemos, e a acolhi em meus braços, eu havia a condenado.

Uma vida ao meu lado não seria possível, e uma perspectiva de futuro juntos era impensável. Eu me recusava a deixar qualquer coisa entrar no caminho do que eu almejava. Ainda assim, meu coração falhava em deixá-la.

A possibilidade de usar a minha Kyōka Suigetsu, confesso, passou diversas vezes em minha mente. Mas não pude me convencer a enganá-la desta maneira: novamente, meu coração entrou na equação. Por isso, não espero compreensão. Eu estava consciente de que iria machucá-la, e não me impedi. Decididamente, se eu não fosse capaz de utilizar a hipnose total em Haiako, era imperativo que eu a afastasse.

Conforme os dias, semanas e, por fim, meses passavam, eu me tornava gradativamente mais distante: saía antes que ela despertasse, e chegava apenas após ela já ter dormido. Não demorou para que parássemos de compartilhar a mesma cama. E eu, como um viciado, me contentava com as pequenas doses de sua presença, com os breves momentos em que passava pela porta de seu quarto, assistindo-a dormir pacificamente, pois temia que, ao deixá-la por completo, sem justificativas ou adeus, eu não conseguiria seguir em frente.

Haiako, por sua vez, não tinha o costume de compartilhar seus sentimentos, mas eu sentia sua solidão, muito semelhante a minha própria. Entretanto, ela não era culpada pelo próprio estado.

Chegou o dia, no entanto, que algo mudara drasticamente naquela jovem com a qual eu me conectei tão profundamente. Talvez, tão inserido em minhas próprias estratégias e planos, eu não notei as mudanças sutis, até o momento em que elas vieram como avalanche.

Em uma noite, minhas vestes negras estavam manchadas de sangue próximo às mãos, devido a um combate ocorrido em Rukongai, onde houve uma rara aparição de Hollows na região. Eu precisava, afinal, atrair atenção de alguns oficiais superiores para minhas habilidades.

Ao chegar em casa, me surpreendi ao vê-la esperando por mim na escadaria de madeira da varanda, sentada com os braços e pernas cruzadas, e olhando para o chão, em oposição às outras noites em que a encontrei profundamente adormecida. Algo está diferente, eu pensei, enquanto observava aquela curiosa cena. Meu coração se solidarizou com a solidão daquela pequena mulher, e meus instintos me diziam para abraçá-la, perguntar o que estava errado, e até mesmo fazê-la sorrir. Mas, finalmente, me impedi de sucumbir aos meus sentimentos por ela.

Ela vestia um yukata branco de tecido fino semelhante ao linho, o qual evidenciava suas curvas, mas não a protegia do frio e da neve, cujos primeiros flocos tocavam seus cabelos. Quando Haiako sentiu a minha aproximação, elevou o rosto e me escaneou vagarosamente com um olhar frio, dos pés à cabeça e, por fim, no fundo dos olhos, com um movimento que me tirou arrepios. Foi a única vez que me senti desta forma em toda uma vida: ali, ela me enxergou verdadeiramente. Pude perceber sua expressão mudar para o desgosto e seus olhos escurecerem ao avistar as minhas mangas ensanguentadas mas, como sempre, ela não se pronunciou sobre, e desviou novamente o olhar.

Estava certo de que ela sabia muito mais do que deixava transparecer, e escolhia ignorar suas suspeitas. Por isso, fiz o que precisava: era apenas uma questão de tempo para nossa proximidade revelar todos os meus segredos.

— O que você está fazendo acordada a esta hora? Está frio e você está descoberta. — Me aproximei de forma não ameaçadora, pois senti sua reiatsu se expandindo e adensando ao seu redor a cada uma de minhas palavras.

— Ah… — Aquele sorriso, que há tanto tempo me tratou com doçura e amor, agora demonstrava sarcasmo e distância. Sua postura não mudou, e os braços cruzados se portavam como uma armadura. — Então agora você se importa?

Decidi me juntar a ela, e me sentei ao seu lado, conforme a neve caía sobre nós, e o céu repleto de estrelas nos iluminava com um brilho azul. Retirei a bainha negra que guardava minha espada em minha cintura, e posicionei-a sobre o chão de madeira. Com meus óculos em minha mão esquerda, repousei meus braços sobre meus joelhos e deixei o silêncio tomar conta de nós por alguns minutos, enquanto absorvia pela última vez a presença daquela mulher, olhando para o horizonte.

Seu cheiro era inebriante, e as ondas de seus cabelos, os quais acendiam em tons dourados a luz do luar, abraçavam seus ombros e caiam sobre suas costas. Até mesmo a sua respiração servia como um lembrete de tudo aquilo que eu estava prestes a desistir.

— Sousuke… — Ouvir meu nome causou um aperto em meu peito, e eu engoli a seco meus sentimentos, permanecendo em silêncio. — Decidi me juntar à Academia.

— Você aspira ser uma Shinigami. Por qual razão?

Haiako abriu as mãos e, olhando para as palmas, balançou a cabeça, como se estivesse em negação. Ao fechar os punhos e cruzar novamente os braços, ela voltou a encarar o vazio à sua frente. Percebi que ela evitou responder minha pergunta propositalmente, guardando a resposta para si. Definitivamente, algo havia mudado dentro dela, e ela nunca me revelou o que havia ocorrido.

— Haiako. Precisamos conversar. — Respirei fundo, sentindo-a elevar a cabeça para seu olhar se direcionar a mim. As palavras que eu diria a seguir queimaram em meu peito e preencheram minha garganta como ácido. Ainda assim, as escolhi cuidadosamente. — Isso precisa acabar.

— Isso…

— Nós. — Agora, olhei em seus olhos. — Nossos caminhos devem se separar permanentemente.

— O que eu fiz para merecer a sua frieza? — Ela se levantou, colocando seu corpo a minha frente, exigindo satisfação.

— Você foi um erro, e eu não posso permitir que seja a âncora que irá me impedir de alcançar meus objetivos. — Me mantive firme.

— E então… O… o que? Após anos me enchendo de ilusões, você decide agora que isso foi um erro? Você decide me deixar no momento em que mais preciso de você? Eu confiei minha vida a você, Sousuke!

— Você mesma se iludiu. Nunca pedi sua confiança.

— Eu achei que fosse o suficiente para você! Você me disse que o destino me colocou em seu caminho… — Seu tom de voz aumentou, e pude notar o embargo em sua garganta, como uma represa prestes a estourar. Então, me levantei, e me curvei em sua direção para que ela olhasse em meus olhos.

— Você não sabe nada sobre mim, sobre o mundo, ou sobre você mesma. O que te fez pensar que seria suficiente para mim, ou mesmo digna?

Haiako, então, se afastou de mim, conforme suas pupilas se dilatavam. Um brilho anil incandescente iluminava seus olhos, e a energia espiritual que emanava era densa e escura, sendo liberada vagarosamente de seu corpo tal qual a água que desce em um riacho, penetrando o chão, assim como no dia em que a conheci. A neve, que caía com maior intensidade sobre mim, evaporava instantaneamente ao seu redor antes mesmo de tocá-la. Com passos curtos e falhos para trás, sem tirar o olhar de mim, vi que ela se afastava com medo.

Medo de si.

— Você disse que me amava. — Com a voz trêmula e os olhos marejados, sua frase soou como um sussurro distante. — Eu não entendo…

— Pois entenda: em uma disputa entre o amor e aquilo que almejo, você sempre irá perder.

Vi as lágrimas de seus olhos secar, e toda a energia liberada voltar para seu corpo. A reiatsu densa e quase tátil de Haiako, assim como uma extensão de seu corpo, era algo que nunca vi antes, e não voltaria a ver tão cedo. Como se seu corpo estivesse agora, calmo, ela suspirou, e observei sua face perder as expressões. Nada mais ouvi.

Está feito, não tem mais volta, eu pensei, enquanto me convencia de que a distância de mim era essencial para sua segurança e observava sua presença se apagar, conforme eu a deixava sozinha naquele lugar. Se ela não se afastasse, poderia terminar como todas as outras pessoas que passariam por minha vida. Ainda assim, meu coração, mais amargurado do que nunca, clamava por ela.

Mas eu sabia que aquele não era o fim. Mesmo longe, eu acompanhava suas conquistas e me permitia ficar surpreso com o quão longe ela chegaria. Vi-a se formando na Academia e seguindo os passos do Capitão Geral dos 13 Esquadrões de Guarda da Corte. Vi-a se curar de mim, e encontrar propósito em sua vida. A distância foi essencial para que eu estudasse seus poderes e sua origem sem comprometer meus objetivos.

Chegaria o dia, portanto, em que nossos caminhos se cruzariam novamente. Até lá, eu estaria preparado.

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Notas finais
Gostaram? Hehe Tentei mostrar um pouco do momento em que Aizen abandona Haiako! Muitas coisas escritas nas entrelinhas desse capítulo serão esclarecidas mais a frente. Não esqueçam de deixar um comentário, me ajuda muito a continuar escrevendo!!