Oblivion

7 Imersão.


Notas iniciais
Oi, oi, galera!! Como vocês estão? Tô muito feliz de ter achado um fluxo legal de escrita, e tô ansiosa pelo rumo da história ♥ Estamos chegando em um ponto que muitas coisas acontecerão ao mesmo tempo, por isso os capítulos estão maiores. Espero que gostem! Dica: leiam as novels de Bleach, vai ajudar muito com o entendimento da Fic!

The world was on fire and no one could save me but you

Strange what desire will make foolish people do

I never dreamed that I'd love somebody like you

And I never dreamed that I'd lose somebody like you

Chris Isaac — Wicked Game

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Aizen's POV

É isso que você merece.

Sentado em minha mesa, o sol, cuja intensidade era diminuída pelo linho fino das cortinas da janela, atingia minhas costas com um calor prazeroso e suave. Em minha frente, assinava alguns relatórios de aparições Hollow nas cidades do Mundo dos Vivos sob jurisdição do 5º Esquadrão, os quais haviam sido previamente preenchidos por Haiako.

Observando sua caligrafia e organização impecável, com alto nível de detalhe em suas descrições, senti como se estivesse ouvindo sua voz calma pessoalmente descrevendo os eventos para mim, e me vi um pouco mais próximo daquela mulher, que a todo custo tentava se afastar. Contudo, eu não poderia culpá-la.

Nas últimas semanas, a percebi distante e evasiva, olhando para os lados como se estivesse escondendo algo. Além disso, sua energia espiritual era inconstante, e possuía pequenos momentos nos quais ela falhava, como uma chama atingida por uma brisa leve. Eram detalhes que passariam como imperceptíveis para outras pessoas, mas eu a conhecia mais profundamente que os outros. Infelizmente, por mais que eu estivesse extremamente intrigado e, confesso, preocupado, existiam coisas mais urgentes que requeriam o meu foco total.

Ainda assim, me certificava de que os assuntos de meu esquadrão estivessem em perfeito estado. Sempre tive aversão a incompetência e desordem, portanto, mesmo com meus objetivos em mente, nunca poderiam dizer que não fui um capitão exemplar, e transformei por completo a Divisão 5.

Neste dia, no entanto, um novo mundo me aguardava: com uma breve visita ao local que daria início ao meu reinado, eu asseguraria meu título de governante. As areias do Hueco Mundo, resultado do poder de um Deus falho e ausente, seriam a fundação para construir o castelo de meus ideais. Por isso, mesmo sabendo que aquela mulher precisava de mim, e com a mente dividida entre meu dever e meu coração, eu precisava seguir em frente.

Um pouco à frente dos papeis que estudava, aquela solitária flor me encarava, julgando-me por minhas decisões. O crisântemo vermelho repousando na água era um símbolo constante do olhar e melancolia de Haiako sobre mim mas, também, uma importante recordação daquilo que me foi roubado muito antes de nos conhecermos. A dicotomia era algo recorrente em minha vida, então, que eu a abraçasse.

Aquele pecado me roubou muitas coisas e, dentre elas, a esperança de uma vida comum. Estava na hora de tomar de volta o que era meu.

Ainda naquele início de manhã, fui vê-la uma última vez, antes de partir para concretizar a subjugação do Hueco Mundo, acompanhado de Ichimaru Gin e Kaname Tousen. Enquanto equilibrava uma vida dupla e gerenciava milimetricamente todos os usos da minha Kyōka Suigetsu, senti que a presença dela seria o respiro e impulso final que precisava.

Não demorou para que eu a encontrasse com um dos jovens Shinigamis recrutados, ensinando-o as mesmas técnicas de comunicação e controle espiritual que eu a havia ensinado, com uma leveza e habilidade reconfortantes. Apesar de breve, nossa interação me mostrou que ainda havia um pouco de mim que ela carregava consigo e, como parte do que eu planejava para ela, revelei alguns detalhes de nosso passado juntos na presença de Hinamori Momo.

Chegaria o momento em que eu daria uma verdadeira escolha a ela, e revelaria tudo que ela precisasse saber. Mas, por enquanto, ela teria de esperar. E eu também.

Como medida de contenção para minha ausência, deixei uma perfeita réplica transitando pela área do esquadrão. Um dos grandes trunfos de minha Zanpakutō não era apenas a habilidade de hipnose completa dos 5 sentidos mas, também, a capacidade de criar inúmeras ilusões diferentes, perfeitamente moldadas à minha vontade. Minha intuição me dizia, entretanto, que, apesar de Haiako não estar sob o efeito da Kyōka Suigetsu, ela não revelaria a ninguém qualquer situação fora do normal. Posteriormente, eu ainda precisaria descobrir o que ela também escondia.

Quando retornei a Soul Society, estava psicológica e emocionalmente exausto e carregava sobre meus ombros a carga do caminho que escolhi para mim. A madrugada, por sua vez, já mostrava seus primeiros sinais, e me vi sozinho sob uma imensa lua cheia. Ao olhar para ela, recordei-me do dia em que deixei Haiako, da sua estranha reação e dos caminhos que sua vida tomaria desde então.

Sabia que deveria ser cuidadoso com minha aproximação, portanto, decidi não surpreendê-la, e deixar que descansasse, apesar de cada centímetro do meu corpo me pedir para vê-la novamente.

Na manhã seguinte, algo… enfurecedor… aconteceu.

Ao passar em frente à sua sala, não a encontrei. Haiako, apesar de seu recente comportamento evasivo, não possuía o costume de se atrasar. Nunca. Em vez disso, ao adentrar a sala vazia, um vistoso buquê de aves-do-paraíso, carinhosa e meticulosamente colocado em um vaso de vidro transparente com um pouco de água, e um bilhete escondido dentre as flores, a esperavam. Cada flor havia sido tratada com cuidado individual para formar uma obra de arte, emergindo das folhas verdes caindo pelas laterais do vaso.

Não pude me conter, e abri aquele pequeno pedaço de papel dobrado para ler as palavras que continha. "Não é uma brincadeira quando se trata de você. Seu, …".

—Água Nascente?... Shunsui. — Deixei escapar de meus lábios, como um sussurro, e senti o sangue em minhas veias ferver ao imaginar a razão para aquela… demonstração. Apesar disso, não senti surpresa. Senti apenas o imensurável peso de minhas escolhas, e a secura de minha garganta traduziu um sentimento proibido para alguém como eu.

Não apenas ciúmes mas, sim… uma inveja tóxica. Apenas a visão dele tocando na pele bronzeada daquela mulher… Naquele momento, senti um estalo causado pela força com a qual serrei minha mandíbula.

Respirei fundo, e me retirei. Desde muito jovem, quando meus pensamentos se tornavam excessivamente sufocantes, eu buscava consolo em minhas palavras. A caligrafia era uma válvula de escape para as coisas que não podiam sair de meus lábios, e era uma das poucas características de minha verdadeira personalidade que eu me permitia revelar, uma vez que corroborava com a imagem de um homem calmo que, por tanto tempo, eu construí. Eu precisava me lembrar de que esse homem, ainda que apenas um ideal criado por mim, era quem eu deveria ser.

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Haiako sentiu seu coração palpitar de uma forma que há muitos anos não fazia. Aquele bilhete retirou um sorriso saudosista de seus lábios, rapidamente interrompido pela solicitação de seu capitão.

—Eu quero todos vocês de volta a seus postos neste instante. Espero não encontrar ninguém bisbilhotando minha sala novamente. — Todos os membros em frente a sua sala ficaram em silêncio e sem reação, uma vez que, apesar de rígida e profissional, Haiako raramente precisava elevar o tom de voz de forma ameaçadora para se comunicar com seus subordinados. Ao se direcionar à porta, os jovens se afastaram para permitir sua saída e, com palavras que ecoaram por todos os corredores da ala dos oficiais superiores, ela disse: — Eu fui clara?!

—Sim, 3º Posto Kikuchi! Pedimos desculpa! — Em uníssono (e correndo), todos os jovens se direcionaram aos seus postos devidos, deixando a mulher sozinha no corredor, encarando a sala de Aizen com hesitação.

Com dois toques no batente da porta aberta, ela se aproximou da mesa de seu capitão e, curvando-se ao homem sentado atrás de sua mesa, com os olhos baixos e uma caneta-tinteiro sendo movimentada rapidamente sobre o papel, o cumprimentou.

—Capitão Aizen, você solicitou minha presença?

Sem olhar para ela, ele a respondeu.

—Onde você estava nesta manhã?

—Onde você estava na noite passada?

Perdão? — Finalmente, ele a olhou por cima dos óculos, e um brilho amarelado preencheu as íris de seus olhos entreabertos, movimento esse que arrepiou os pelos da nuca de Haiako. A mensagem contida nessa única palavra, dita com uma voz amedrontadora e extremamente ríspida, era clara: eu não lhe devo quaisquer satisfações.

—Nada, Capitão Aizen. Peço desculpas pelas minhas palavras. — Olhando mais atentamente para a mulher, notou seu olhar, que evitava se encontrar com o dele; e seus cabelos presos em um coque alto possuíam mechas mais encaracoladas e frizzadas que o normal (característica essa que ele conhecia bem, causada pelo suor e umidade). Descendo levemente o olhar, notou também o canto de seus lábios, com pequenos pontos de sangue acumulado, o que causou a mulher a cobri-los com o polegar e sentir uma leve fisgada ao fazê-lo. Droga, Kyōraku. Você é alguma criança, por acaso?, ela pensou. As vestes da mulher também eram diferentes, e não apresentava nenhuma de suas características individuais com as quais ela personalizava seu uniforme.

O silêncio entre ambos era ensurdecedor e desconfortável. Com uma respiração pesada, Aizen apoiou os lábios sobre o dedo indicador de sua mão esquerda, enquanto sua mão dominante segurava e pressionava com força sua caneta sobre o papel, como se estivesse se impedindo de proferir as palavras que ele verdadeiramente queria dizer. Haiako, por sua vez, sentiu como se estivesse engolindo o próprio coração, razão para o qual nem ela entendia por completo. Apenas se lembrou de quando a voz daquele homem invadiu seus pensamentos durante… uma hora inoportuna. Após um suspiro, Aizen quebrou o próprio silêncio.

—Recebi sua lista de distribuição de postos no Mundo dos Vivos. Gostaria que você os acompanhasse pelo Senkaimon e passasse as diretrizes finais em campo durante a primeira semana.

Atordoada com a solicitação, Haiako aproximou-se de sua mesa.

—Capitão Aizen, não existe outra pessoa que possa fazê-lo? Digo… há mais alguém que deseje ir ao Mundo dos Vivos? — A resposta da mulher o intrigou profundamente. Havia algum motivo para ela não querer visitar o Mundo Físico?

—Todos os que chegaram no horário hoje já receberam suas funções, Kikuchi-san.

—Você está me punindo por algo? — Aizen fechou os olhos como um mecanismo de autorregulação, ao sentir que a caneta em suas mãos havia atingido o ponto de tensão, prestes a se partir ao meio com a força esmagadora de seus dedos.

—Estou meramente lhe passando suas ordens do dia como seu capitão. Existe algum motivo pelo qual você deva ser punida? — Com um sorriso suave, ele apoiou o queixo sobre as mãos entrelaçadas, surpreendendo Haiako com a repentina mudança em seus maneirismos, passando de um olhar frio para uma postura doce. Desde que o conhecera, ela sentia algo estranho ao presenciar a gentileza e educação excessiva do homem. Seu subconsciente tentava a alertar, mas não sabia do quê, exatamente. Apenas um calafrio a guiava, dizendo que algo estava errado. Sim, Aizen era um capitão amado e respeitado por todos, contudo, Haiako nunca deixou de sentir que existia muito mais sob a superfície.

—Você não entende. — Agora, Haiako ultrapassara a mesa que os separava, e olhava para o homem que, mesmo enquanto sentado, parecia tão maior que ela, não apenas pela altura. — Eu não posso. Por favor, Aizen... Por favor. Tem que haver outra pessoa. — Suas mãos estavam trêmulas e o coração acelerado, sobrecarregado por memórias que a mulher havia decidido enterrar. Com uma expressão confusa e as sobrancelhas franzidas sob seus óculos, o homem a respondeu:

—Já está decidido, Haiako. Sinto muito.

Contrariada, a mulher virou as costas sem ao menos se curvar ou pedir permissão. De fato, existia um motivo para Haiako não desejar realizar quaisquer missões em equipe no Mundo Físico e, agora, Aizen estava motivado a descobrir. Talvez essa seja a peça final do quebra-cabeça, ele pensou. Antes de sair pela porta, ainda de costas para o homem, ela disse:

—Você não tem direito de me punir pelas consequências das suas próprias escolhas.

—Eu sei. — Aizen reiterou seu óculos e massageou os olhos com os dedos, demonstrando que sua mente estava exausta, e a respondeu baixo. Qual o motivo para ela estar agindo assim?, ele se perguntou. Poderia estar relacionado com… Ele se interrompeu, surpreso, e se lembrou do pequeno e quase imperceptível detalhe que havia notado no dia anterior, enquanto Haiako instruía Katsuo Einosuke e evitava tocar a própria Zanpakutō, apesar da natureza do ensinamento. Não foi, no entanto, o fato de ela não tocar sua espada mas, sim, a falha nas ondas emitidas por sua energia espiritual que havia chamado sua atenção. Era como se, no segundo em que decidira ignorar sua lâmina, seu próprio espírito houvesse falhado. Lembrou ainda, de algo que havia ignorado por muitos anos, julgando ser irrelevante.

Durante o tempo de Haiako servindo ao 1º Esquadrão, alguns Shinigamis com habilidades notáveis, em diversos esquadrões, foram selecionados para fazer parte de um Curso de Operações Especiais em Kidō. A pedido pessoal do Capitão Geral, Shigekuni Yamamoto, Haiako foi uma das poucas selecionadas, por concluir com êxito sua formatura na Academia Shinō e passar precocemente na prova para se juntar ao Gotei 13 com grande proficiência no Zankensoki.

No entanto, após uma missão no Mundo dos Vivos, junto a uma equipe composta por outras 3 pessoas, Haiako deixou o programa abruptamente. As únicas informações pública disponível sobre o caso foram a morte de dois dos integrantes da equipe, causada por uma aparição Hollow inesperada; e a súbita desistência de Haiako, que era visada pela recém-assumida Capitã do 2º Esquadrão Soi Fong para se tornar sua Tenente.

Claro… como eu não percebi isso antes?

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Haiako precisava ficar sozinha com os próprios sentimentos, que a sobrecarregavam. Há muito tempo ela não havia sido confrontada com a missão de ir ao Mundo dos Vivos com uma equipe, decisão essa respeitada pelo próprio Capitão Geral e, ainda que muitos anos houvessem passado, ela não estava pronta para encarar os próprios segredos. Houve ocasiões em que ela precisou realizar patrulhas e investigações, mas sempre possuía uma única exigência: ela deveria ir sozinha.

Sentindo suas mãos trêmulas, a mulher se viu andando sem sequer saber a direção a qual seguia, ainda que já não estivesse mais na Seireitei. Enquanto caminhava, sua mente abrigava um turbilhão de pensamentos conflitantes. Ele sabe? É por isso que está insistindo para eu atravessar o Senkaimon? Não, ninguém sabe além… dela.

Após um tempo, Haiako chegou nas proximidades de sua casa e, ao subir as escadas e se encontrar sozinha em frente a porta, seu próprio coração impediu as mãos de abrirem a maçaneta. Na realidade, todo o seu corpo estava paralisado ao encarar a ideia de se ver sozinha em uma casa vazia, sendo julgada pelo próprio passado. Pela própria Zanpakutō. Em vez disso, fechou os olhos, suspirou, e deu meia volta, descendo novamente as escadas, e seguindo a oeste de sua habitação, em direção a um lugar de paz.

Próximo a casa, um pequeno riacho cristalino escondia-se por entre a mata densa. As árvores com copas cheias impediam boa parte do sol, mas os poucos raios que penetravam por entre as folhas eram o suficiente para aquele local se tornar uma paisagem mágica — e intocada. Estes mesmos raios chocavam-se contra as pequenas ondulações da água e criavam reflexos cintilantes no rio, cujo som causado pelo contato com as pedras soava como uma música perfeitamente ritmada com o vento que dançava sobre as árvores.

A visão daquela cena pura e intocada a acalmou, enfim. Se seu dever era guiar seus subordinados, então que ela o fizesse com coragem, na esperança de impedir que eles passassem pelo que ela passou. "A história não irá se repetir. Eu sou uma mulher completamente difetente". Haiako retirou sua tabi dos pés, juntamente com as sandálias, e colocou-as ao lado de sua Zanpakutō, ainda embainhada, sobre uma das pedras fora da água. Ainda que tivesse seus motivos para não se comunicar com a alma de sua lâmina, ela não deixava de demonstrar seu zelo e respeito.

Com os pés descalços, caminhou sobre as pedras do rio, buscando um local em que pudesse se sentar. Ao olhar para baixo, as pequenas e geladas gotas de água molhando-lhe os pés a hipnotizaram. Sendo assim, decidiu adentrar aquela leve corrente, quase como se tentasse lavar sua alma.

O nível da água era baixo, mesmo no ponto mais profundo, chegando apenas em seus joelhos. Seguindo a direção da corrente, encontrou uma pedra maior, com pequenas manchas de lodo e musgo nas laterais, e uma parte superior ampla e reta — perfeita para sua solitude. Ao se deitar, utilizando os braços elevados e cruzados sob a cabeça como apoio, permitiu-se fechar os olhos, enquanto uma pequena parcela do sol atingia seu rosto com suavidade. "Mesmo se ele soubesse da verdade, não teria quaisquer motivos para me expor."

Com os olhos fechados, Haiako imergiu em um sonho calmo.

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Ela pairava sobre as nuvens, em meio a um imenso céu, onde nem mesmo a Seireitei podia ser vista. No entanto, apesar de sentir o ar fresco, Haiako se sentia dentro da água, como se estivesse respirando e movimentando o corpo nas profundezas de um lago, com toda a pressão sobre si.

Ainda assim, seu corpo se movia como pena flutuando, e ela não sentia os passos sob seus pés descalços. Ao tocar sua cintura, viu que sua Zanpakutō não estava presente e, quando olhou para baixo, também pôde notar que estava nua. Apesar disso, sua mente estava vazia e seu coração, em paz.

Paz essa que foi rapidamente interrompida. Ao longe, uma orbe de luz amarelada a atraía enquanto seu corpo lutava para se afastar. A imensa gravidade daquela energia era forte demais para fugir, e não teve escolha a não ser se aproximar.

Dentro daquela imensa orbe de cristal amarelo, um homem nu a olhava, com seus cabelos pretos e curtos, e um sorriso acolhedor em seus lábios finos. Seus olhos possuíam quatro íris negras, deixando o espaço branco de suas córneas pequeno, tal qual como uma estrela de quatro pontas. Ela se sentiu vista, como nunca antes. Nua, como nunca antes. Aquele homem alto e esbelto a olhava com tanto carinho, que não conseguia ter outra reação a não ser sorrir também.

Ele a estendeu a mão. Contudo, o sorriso do homem foi arrancado de seus lábios, trazendo uma expressão melancólica. Haiako observou o homem perder membro a membro de seu corpo. Os braços e as pernas, primeiro e, depois, o coração. Ele não parecia sentir dor, apenas tristeza por ela. A mulher, por sua vez, gritou, sentindo toda a dor de ter os braços, pernas e coração arrancados violentamente de si.

O belo homem, agora desmembrado e com uma expressão vazia, sentiu pena da mulher.

Em prantos, ela caiu dos céus, com uma força esmagadora. Sem conseguir se reerguer, ela nada mais pôde fazer, senão aceitar seu fim.

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Atordoada, ela abriu os olhos, sendo forçada de seu estado meditativo como se atingida por um choque elétrico, mas não se lembrou exatamente do que havia sonhado. Apenas sentiu dor e tristeza. Uma voz suave a tirou de seu transe, assustando-a.

—Haiako, você está bem? — Aquele inconfundível kimono rosa preencheu sua visão, agindo como um salva-vidas em meio a tempestade.

—Shunsui! — A respiração da mulher era pesada, como se estivesse submersa e só agora pudesse respirar.

—Espero não ter assustado você. — O homem subiu junto a Haiako na pedra, sem se molhar e, agachando para vê-la melhor, segurou suas bochechas com as duas mãos, com uma expressão preocupada.

—Não… — Ela sorriu e fechou os olhos, segurando as mãos do homem sobre o próprio rosto. Contudo, se lembrou do que ocorreu em sua manhã, e o encarou com um olhar crítico. — Você não deveria estar trabalhando, conquistador?

Confuso, ele a respondeu.

—Haiako… já é quase noite. — Ela olhou para os lados, e notou que seu sonho misterioso a custara toda a sua tarde. Em uma tentativa de esconder a própria confusão, ela respondeu.

—S-sim… E como você me encontrou?

—Fui até sua casa, mas vi que você não estava. Iria voltar, mas senti energia espiritual muito estranha nesse… — Ele olhou em volta, impressionado com o cenário que refletia sobre o riacho as cores vibrantes do pôr do sol, com um laranja, roxo e rosa dançando no espelho d'água. — Que lugar é esse, exatamente?

—Essa… é a maior razão para eu morar aqui. Há muitos anos, quando o Velho Yama me recrutou, houve uma aparição de um Hollow de baixa classe exatamente aqui. Aquela casa já existia, mas estava em ruínas. Com a autorização do Capitão Geral, eu a revitalizei, e tomei como minha. Foi como se o próprio destino me trouxesse.

Kyōraku a ouviu atentamente, sentado sobre a pedra com as pernas cruzadas e um sorriso nos lábios. Ainda assim, não pôde deixar de se indagar sobre a energia liberada pela mulher momentos antes. Quando a encontrou, ela estava em um sono profundo, e uma aura escura e fluida era liberada de seus pulsos como se seu próprio sangue estivesse escorrendo de si. Ele sabia, entretanto, que deveria ser cauteloso ao fazer tais perguntas para Haiako, pois ela se fechava rapidamente ao se sentir ameaçada por interrogatórios. Aos poucos, ele mataria a curiosidade sobre quem realmente era aquela mulher.

—O Velho Yama realmente tem seus preferidos, não é mesmo?

—E você é um deles, velhote.

—Velhote?! Assim você me machuca. Meu coração é muito jovem!

Em meio a risos, Haiako se levantou, estendendo a mão para o homem.

—Ok, ok, novinho. Venha, vou fazer algo para comermos.

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No meio da noite, Haiako estava nos braços do homem, o qual dormia profundamente, em um abraço quente. As roupas de ambos estavam espalhadas pela casa e, sobre a mesa da cozinha, estavam copos vazios de saquê e restantes da louça de um jantar preparado pela mulher.

Apesar da calma do homem ao seu lado, ela permanecia acordada, se esforçando para se lembrar do que havia sonhado, e o porquê de seu coração estar com tamanha angústia. Contudo, se lembrou vividamente de algo.

Quando jovens, Aizen sempre carregava consigo um pequeno bloco de notas com capa de couro, o qual nunca deixou Haiako sequer tocar. Sempre sob seus braços, em todos os momentos, ele se agarrava às suas anotações como se fossem o seu mais importante bem.

Um dia, no final de seus dias juntos, enquanto o homem dormia, sua curiosidade de jovem mulher a fez bisbilhotar, ainda que por poucos segundos, algumas páginas. Além de poesias escritas por ele, haviam algumas anotações com tão pouco sentido, que Haiako nem se lembrava delas. Um pequeno desenho, no entanto, surgiu no canto da última folha.

Um olho com 4 íris negras.

O sonho não era claro, a não ser pelo sentimento. Mas aqueles olhos… ela os via claramente.

"O que significa isso, Aizen?"

Ela não soube o porquê, mas quando pensou em Aizen, e no desenho que ele havia feito há muitos anos, seu peito foi tomado por uma solidão avassaladora. Será que ele sentia o mesmo? Ela se preocupou com ele, pela primeira vez em anos, e sentiu, também, culpa. O homem a seu lado não merecia seu coração dividido.

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Notas finais
E aí, o que acharam? Como sempre, vou lembrar vocês de deixar um comentário, porque me ajuda muito a entender se o ritmo e o entendimento da história tá bacana pra vocês. Uma galeraça tá lendo, mas não tá comentando )o) To de olho kkkk Até a próxima, pessoal! Obs.: quem é "ela"? hehehehehehe