Notas iniciais
Olá, pessoal! Muito obrigada aos novos leitores que estão chegando por aqui, e persistindo nessa trama tão querida por mim :3 Para hoje, temos um capítulo mais longo, e prestem bem atenção em tudo! Várias coisas importantes estão começando a se desenrolar.

Blurring and stirring the truth and the lies

So I don't know what's real and what's not

Always confusing the thoughts in my head

So I can't trust myself anymore

Going Under — Evanescence

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Nos últimos dias, Kyōraku e Haiako se aproximavam com maior intensidade, e o homem passava todas as suas noites na residência da mulher, algo que a fazia se sentir mais segura com os próprios pensamentos, uma vez que ela evitava se ver sozinha, acompanhada apenas de seu passado e da ansiedade de estar encarregada de guiar seus subordinados no Mundo dos Vivos.

Não suficiente, seus pesadelos não cessavam. Todas as noites, Haiako acordava em meio ao seu suor e corpo dolorido, ainda que não se lembrasse dos detalhes do sonho, a não ser os olhos de íris quádruplas, que não saíam de sua mente. Kyōraku, por sua vez, a segurava com doçura, respeitando o desejo da mulher de não conversar sobre o que a assombrava. Seu coração, no entanto, sentia pena daquele homem que a tratava com tanto carinho, pois não se via digna diante de tanta compreensão.

No meio da madrugada, após evitar adormecer, Haiako se levantou da cama com cuidado, retirando o braço do mais velho de si, que a envolvia em um abraço, enquanto dormia. De pé, e com os braços cruzados, se recostou no batente da porta do banheiro de seu quarto, e o observou. Os cabelos castanhos e longos soltos sobre o travesseiro, e os braços fortes e corpo nu que agora abraçava o travesseiro, eram detalhes cuja visão parecia como um prêmio. Haiako deixou um sorriso sair de seus lábios, antes de se virar de costas e entrar no banheiro.

Destoando do restante da casa, o banheiro espaçoso não fazia parte da estética japonesa. Em vez disso, era revestido de um mármore negro dos pisos a banheira, com as paredes cinzas como um cimento, e um grande espelho sobre a bancada de madeira maciça, a qual segurava uma cuba suspensa igualmente escura.

Prendeu os cabelos e lavou seu rosto com a água fria, e apertou os olhos com a toalha em uma tentativa de permanecer acordada. Então, encarou seu rosto no espelho, e quase não reconheceu o próprio reflexo. Olhando fixamente para si mesma, ouviu uma frequência aguda que penetrou seu ouvido como uma longa agulha, e fechou os olhos para tentar dispersar aquele som.

Ao abrir, ela os viu.

Um rapaz e uma garota, jovens, atrás de si. Com os olhos fundos, eles a encaravam, melancólicos, e feridas abertas e ensanguentadas percorriam pela cabeça e pelo corpo de ambos. Instintivamente, ela desviou o olhar do espelho e, atordoada pelo som e pela visão, afastou-se rapidamente, batendo a cabeça na parede atrás de si, retirando-a de seu transe.

"Por favor, me perdoem."

Agora, Haiako sentava na poltrona de sua sala com as pernas cruzadas sobre ela, encarando o nada à sua frente, vestida apenas de um fundoshi branco e transparente, e com seus cabelos selvagens soltos. Como se escavasse o buraco com as próprias mãos, ela fazia o possível para enterrar todas aquelas memórias, tentando incessantemente lutar contra a necessidade de desabafar e ser acolhida.

Imersa em seus pensamentos, não percebeu quando Kyōraku se levantou e passou a observá-la em silêncio. Desde o dia em que conheceu aquela jovem mulher solitária em meio aos integrantes do 1º Esquadrão que confraternizavam em uma das festas mensais do Capitão Geral, ele se via profundamente intrigado e determinado a decifrá-la.

—Haiako? — O homem a chamou com uma voz doce.

—Sim? — Tendo suas lembranças, finalmente, interrompidas, ela o respondeu, com um sorriso nos lábios, ainda que esse contrastasse com a melancolia de seu olhar. Kyōraku, por suas vez, suspirou, e se aproximou vagarosamente de Haiako, ajoelhando-se no chão em frente à poltrona, segurando ambas as mãos da mulher.

—Você lembra do dia em que nos conhecemos?

—Impossível esquecer, Capitão Kyōraku Shunsui. — Com um riso sarcástico, a resposta deu espaço para que ele continuasse.

—Você estava em sua primeira confraternização do Velho Yama. E eu ficava olhando para aquela jovem tão séria e assustada, observando tudo no canto da sala. Acho que tinha… o que? Uma semana que você havia se formado?

—Isso, heh… Passei na prova para me tornar uma Shinigami e fui chamada pelo Capitão Geral para ocupar o 3º Posto. Tive muitas aulas com ele na Academia, acho que chamei sua atenção.

—Você chamou a atenção de todos nós. Quando alguém se forma com tanta rapidez, a notícia se espalha. Eu me lembro que você também se aplicou para a 8ª Divisão, não foi?

—Como você se lembra disso? — Ela olhou para o homem, com uma sobrancelha arqueada. — Ou melhor, por que você não me aceitou, Capitão Kyōraku? — Ambos riram, enquanto o mais velho puxou-a pelas mãos para que ela se levantasse, e trocassem de lugar. O homem, agora sentado, colocou a mulher em seu colo, segurando-a pela cintura.

—Na época eu achei que você iria me dar muito trabalho. Você estava cheia de propostas, enérgica e combativa.

—E agora?

—Agora eu tenho certeza, heh. — Em resposta, ela o atingiu na cabeça com um soco leve, apertando os lábios em desaprovação. — Ai… Mas é um trabalho que vale a pena.

—Shunsui… por que você está aqui? — Há tanto tempo Haiako precisou conviver com a ideia de não ser digna de afeto real, que agora, frente à um homem que a oferecia carinho em abundância sem pedir nada em troca, ela se sentia como uma impostora. Seus sentimentos por Kyōraku eram reais, e estar na presença do homem a trazia alegria, calmaria. Seu coração pedia por ele. Então por que ela sentia que o estava enganando?

—Ora, como assim? Achei que você soubesse, depois do que você fez comigo ali no quarto! — A mulher revirou os olhos. Após uma breve pausa, acompanhada de um suspiro profundo, ele respondeu, com seriedade. — Eu já te contei sobre meu irmão mais velho?

—Não exatamente. Mas lembro de você mencionar que ele faleceu.

—Sim… Há muitos anos, na verdade… Bem… eu e ele não tínhamos a melhor das relações, mas tudo mudou quando ele se casou. Aquela mulher* era tão doce e inteligente, e sua presença trazia paz. Tanta paz, que meu irmão e eu nos reconciliamos. — Kyōraku olhou nos olhos de Haiako, para se certificar de que prestava atenção em suas palavras. — Um dia, eu o perguntei sobre sua esposa, e sobre o que ele sentia. Estava curioso com aquela relação tão invejável. Sabe o que ele disse?

Haiako balançou a cabeça, e o homem riu, ao se lembrar do passado.

—Ele disse que ela o fazia se sentir… visto. Que ele podia ser ele mesmo, e que todos os seus erros seriam acolhidos. Que até mesmo as brigas vinham com amor e perdão.

—Parece ser um jeito lindo de se viver…

—Sim, eu também pensei nisso. Mas nunca encontrei o que ele havia achado nela. Ou melhor, nunca me interessei em procurar.

—Mas você ainda não respondeu minha pergunta. Eu sei que não tenho sido exatamente… fácil de lidar. Não entendo como você pode ser tão paciente comigo.

—Estou chegando lá. — Com a mulher em seu colo, ele a envolveu por trás, e apoiou o queixo em seu ombro, para sentir o aroma de Haiako, deixando seus longos cabelos soltos caírem e, como uma forma de carinho, roçou levemente a barba contra a pele da mais nova. — No dia em que conheci você, eu decidi matar minha curiosidade, e atravessei a sala para lhe oferecer uma xícara de chá. Você me recebeu com um sorriso que eu nunca mais esqueci, como se eu estivesse lhe oferecendo um salva-vidas.

—E estava, de certa forma. Naqueles primeiros dias, eu me sentia tão julgada por todos…

—Acontece que foi o contrário, pequena. Quando lhe entreguei seu chá, e me apresentei formalmente, nossas mãos se encostaram. — Haiako engoliu a seco. Ela sabia exatamente o que ele iria falar em seguida. — Durou apenas um segundo, mas foi o suficiente para que você se assustasse e derrubasse a xícara. Todos olharam para você, e seu rosto ficou ainda mais envergonhada. Mesmo assim, você olhou fixamente em meus olhos, e sorriu.

Em silêncio, ela acenou para que ele continuasse.

—O que você sentiu quando tocou minha mão, Haiako? — Ela demorou para respondê-lo. Por tanto tempo escondeu esse dom, e agora ele perguntava tão abertamente sobre isso. Um dos fatores que tornava Haiako tão boa em ensinar sua equipe sobre controle e comunicação espiritual era sua incomum habilidade de sentir aquilo que se passava no âmago de quem a tocasse. Era assim com todos que ela se permitia trocar energia, nos raros momentos de vulnerabilidade em que não colocava um muro entre si e todos ao seu redor. Em alguns, sentia esperança, otimismo. Em outros, sentia insegurança. Naquele homem…

Após uma longa pausa e, olhando para baixo, ela quebrou o silêncio.

—Dever. Senti o peso esmagador de alguém com uma responsabilidade sufocante. E fiquei maravilhada em ver que, mesmo assim, mesmo com esse peso, você era uma pessoa tão leve.

Ambos olhavam para a sala em sua frente, à meia luz, e se reconheciam em um abraço caloroso. Então, Kyōraku afastou os cabelos da mulher, expondo seu pescoço, e a beijou repetidamente de maneira devagar e carinhosa, enquanto ela fechava os olhos e acariciava a mão do homem com as pontas dos dedos.

—Como eu disse, eu nunca procurei o que meu irmão havia encontrado em sua esposa. Mas no dia em que te conheci, eu senti aquilo. Me senti visto.

Com uma risada leve, ela devolveu:

—Ah, então você só se tornou meu amigo porque tinha segundas intenções?

—Sim, as piores. — Mais risos calorosos na madrugada. — Não. A verdade é que quis sua amizade por curiosidade, mas quanto mais conversávamos, passávamos tempo juntos, e compartilhávamos ideias, mais sentia… afinidade. Nossa relação evoluiu naturalmente, você não acha?

Haiako se virou para o homem e envolveu sua cintura com as pernas, beijando-o nos lábios.

—Eu sei que estou pedindo muito… mas tenha paciência comigo. — Com sua boca quase tocando na do homem, ela sussurrou, segurando o rosto daquele que percorria as mãos por baixo das vestes da mulher. — Eu me sinto segura em seus braços. Estou feliz que você está aqui.

—Eu também, pequena. Estar aqui… — Ele olhou em volta de si. — conhecer o seu mundo particular… é uma honra.

Naquela noite, ela dormiria em paz.

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—Katsuo-chan! — Espaçando as sílabas com um tom jocoso, Hasegawa Mei, a 7º Posto da Divisão 5, era uma Shinigami inteligente, espirituosa e rápida com as palavras. Seus cabelos eram lisos e curtos, na altura do ombro, de cor loira-acinzentada, e utilizava um Shihakushō comum com amarração branca, exceto pela parte inferior, que consistia em uma saia curta.

Einosuke, por sua vez, estava sentado sob a maior árvore presente no esquadrão, na área de uso comum, com os olhos fechados, e sua Zanpakutō sobre seu colo. Nos últimos dias, passava longas horas treinando até a exaustão de seu corpo, e meditando da mesma maneira que Haiako havia o ensinado. Em breve, ele seria delegado à cidade de Naruki, a qual fazia fronteira com Karakura, acompanhado de Hasegawa, e seu colega, Aoyama Mitsuko.

Ao chamá-lo, Mei o retirou de sua concentração, e o rapaz, gentil demais para repreendê-la, a olhou em desaprovação.

—Ah, Katsuo-chan! Vai me dizer que você ainda está preso nesse exercício estúpido que a chata te passou?

—Hasegawa-san… Não fale assim da Kikuchi-san. Ela tem me ajudado muito... já me sinto muito perto de descobrir o nome da minha Zanpakutō. E ela é a sua superior. — A garota se sentou ao lado dele com as pernas cruzadas, fazendo um muxoxo com a língua.

—Tsc. Superior? Katsuo-chan, você me respeitava mais quando eu era a 3º Posto. O Capitão Aizen é bondoso demais para ver que aquela Haiako é uma farsa. Você sabe o que estão dizendo por aí, né?

—Não, e nem quero. — Ele fechou novamente os olhos e se concentrou na meditação, como se tentasse gentilmente encerrar o assunto com a garota.

—Vamos, não seja tão quadrado! — Hasegawa cutucou o braço do rapaz, que a olhou de canto de olho. Então, ela sussurrou, com a mão tapando a visão de sua boca. — Alguém viu a Haiako sair dos aposentos do Capitão Kyōraku, exatamente naquele dia.

Alguém viu? — Não convencido, ele respondeu. — E mesmo assim, isso não é do nosso interesse, Hasegawa-san… — Suas bochechas coraram. Einosuke sentia grande admiração por Haiako e, ainda que escondido por baixo do desejo de fazer sua superior sentir orgulho dele, estava também uma pontada de vontade de se fazer notado pela mulher, ainda que ela fosse mais velha. Por isso, tentou dissuadir Hasegawa do assunto, apesar de não poder enfrentá-la.

—Não, não! Eu não revelo minhas fontes! Mas você não entende mesmo, né? Eu já desconfiava que a mulher que estava com o Capitão era uma coitada interessada em subir de posição, mas agora tudo faz sentido. Só espero que o Capitão Aizen não caia também na armadilha dela… ele é tão gentil e bom… — A mulher suspirou.

—Hasegawa-san… por favor, deixa eu voltar para o meu treino… Preciso muito me esforçar para irmos ao Mundo dos Vivos. Não quero ser um peso morto.

—Ai, e ainda tem essa! Ela me delegou também para a Cidade e Naruki, sabia? Parece que quer se livrar de mim! Onde já se viu, uma oficial ter de trabalhar com patrulha? Mas vem cá, Katsuo-chan… Se você quer mesmo impressionar ela, eu tenho uma maneira bem mais rápida de você conseguir a liberação da sua shikai.

Agora sim, ele estava interessado. Olhando-a nos olhos, perguntou qual. A mulher, por sua vez, deu um sorriso aberto, mostrando os dentes brancos.

—Lutar, queridinho. A gente vai lutar pra valer.

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Durante todo o dia, estranhamente, Haiako se sentiu bem. Sem cansaço, sem sangramentos e, mais importante: sem visões do passado. Ainda assim, uma pequena dúvida aumentava hora após hora. Nos últimos dias, Aizen se fazia cada vez mais ausente, e eram raras as oportunidades de encontrá-lo. Com seus sonhos recorrentes, e o estranho sentimento de que aquilo estava relacionado de alguma forma com o homem, Haiako se mostrava ansiosa para vê-lo e tentar decifrar o mistério. Por isso, cada vez que andava pelos corredores, e achava que sua presença estava próxima, seu coração batia mais rápido.

Ao caminhar em direção a sua sala, duas jovens passavam por ela, sem cumprimentá-la, enquanto conversavam entre si, sem sequer notar a presença de Haiako, que se virou para trás confusa com a falta de educação de suas subordinadas.

—O Capitão Aizen é tão gentil!

—E você já reparou em como ele cheira bem?

—Não é?! Uma mistura de…

—É um cheiro floral!

—Isso! Ahhh, e ele trata a gente com tanto carinho!

A mulher levantou uma sobrancelha, enquanto observava as garotas desatentas virarem no corredor e suas vozes desaparecerem. Floral? Se existia uma certeza, era que sua memória ainda não a falhava nesse quesito: ela sabia exatamente como era o cheiro daquele homem — e o gosto… todos os sentidos, na verdade. Aizen, assim como sua verdadeira personalidade, possuía um aroma sério e sedutor de camurça branca, ládano e absinto. Era uma mistura quente, com maciez e um toque amadeirado-doce. Sim, Haiako se lembrava muito bem.

—O que foi isso…? — Com a sobrancelha franzida, óculos nos olhos e seus longos cabelos presos em um rabo de cavalo baixo, caindo pelas costas desnudas, ela estava parada no corredor, segurando em seus braços um grande bloco de folhas em branco para serem impressos os relatórios das novas rondas no Mundo dos Vivos.

Primeiro aquilo… já era estranho o suficiente ter presenciado seus subordinados conversando com Aizen Sōsuke sem mesmo que ele estivesse em sua sala. E agora… aroma doce? "Eu definitivamente estou ficando louca", ela decidiu.

Agora, em sua sala, escorada na janela, Haiako contemplava a vista da Divisão 5. O céu da tarde era um azul mais escuro e saturado, com nuvens espalhadas ao horizonte. Atrás de sua sala, um pequeno campo de lírios-do-vale perfeitamente brancos, flor-símbolo do 5º Esquadrão, chamava sua atenção de forma hipnotizante.

Ao olhar a branquidão das flores contrastando com o verde das folhas, Haiako sentiu sono, como se pudesse deitar e dormir no próprio chão de sua sala. As noites mal dormidas a alcançaram, e ela imergiu na delicadeza daquela visão, que se turvava, enquanto o mundo se silenciava lentamente.

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Haiako acordou em um mundo negro.

O chão sob seus pés, se é que ele existia, lembrava um abismo sem fim, e este se estendia por todas as direções. A atmosfera sombria era difícil de respirar, e causava arrepios pelo corpo da mulher.

Nada podia ser sentido, nem mesmo a própria energia espiritual. A mulher sentia-se como um buraco negro, sugando toda a luz e matéria para si, tornando-se uma orbe extremamente pequena, ainda que imensamente destrutiva.

Pequena.

E destrutiva.

Sem se lembrar o que estava fazendo, e onde estava, ela perguntou: "Onde eu estou?", mas sua própria voz era engolida pela escuridão.

Seguindo em frente, confusa e assustada, ela pôde enxergar, ao fundo, uma pequena serpente caída, enrolada sobre si. Reconheceu em seu coração a solitária víbora, que parecia esperar por ela, e sentiu em seu âmago a necessidade de acolhê-la.

Ao se aproximar, percebeu os detalhes da serpente: o corpo preto e cabeça triangular, com uma cintilância azul em suas escamas, e os olhos fúcsia. Sentiu tristeza e culpa em ver aquele ser à beira da morte, e a pegou do chão. A pequena e fina cobra cabia em ambas as mãos da mulher, apoiadas em concha.

—Me desculpe… — Ela tentou dizer mas, novamente, de seus lábios saía apenas o silêncio.

—Você me abandonou. — Uma voz masculina e melancólica, vinda da serpente que mostrava sua língua preta, ecoou por aquele mundo, causando ondas no chão negro que, agora ela podia perceber, era líquido. Sabendo que seus esforços para falar eram inúteis, Haiako apenas pensou "eu sei…". — Este agora é seu coração, seu mundo interno. Aqui, você ficará sem voz, assim como você me deixou. Aqui, você ficará sem luz, assim como você me deixou. Aqui, você ficará sem poder, assim como você me deixou.

"Eu nunca quis que isso acontecesse… mas eu não posso machucar mais ninguém. Me perdoe… ■." Respondendo a serpente em seus pensamentos, Haiako estava prestes a chamá-la pelo nome, quando o nome em si desapareceu, dando lugar ao sufoco e secura em sua garganta. Sua mente sabia, de fato, aquele nome, mas sempre que tentava dizê-lo, um borrão ocupava o lugar das palavras.

—Não, minha bela e amada Haiako. Você deverá aprender novamente quem sou. Quem somos. Quem seremos. Pelo que lutamos. Seu coração deve me aceitar. Até lá, seus lábios estarão proibidos de dizer meu nome.

Com lágrimas nos olhos, a mulher olhava para sua serpente em súplica, e a trouxe para o peito, absorvendo-a em forma de reishi. Então, ela se sentou, e cedeu ao seu choro, há tanto tempo guardado em seu interior.

"Eu não sei se consigo, meu amigo…"

Ali, ela ficou. Perdida e sem voz, suplicando para que a alma de sua Zanpakutō a perdoasse. Olhando para baixo, o chão negro e líquido refletia sua face como um espelho, e pôde notar uma particularidade que a menteve hipnotizada. Seus olhos possuíam as mesmas íris quádruplas de lembrava de seus sonhos, e eram tomados por um brilho azulado e vibrante.

Enquanto se perdia naquela imagem curiosa, uma voz se aproximava vagarosamente, tornando sua visão novamente turva, e todo o mundo ao seu redor tremeu com a invasão de aquela energia alheia.

—Haiako… — A voz chamava por ela, distante. — Haiako!

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—Haiako?

Aizen Sōsuke a olhava por cima de seus óculos, em confusão e curiosidade, com uma expressão preocupada em seu rosto. O céu já havia escurecido, e Haiako passou o restante de seu dia perdida em seus devaneios.

—Sōsuke? — Ainda com os pensamentos desalinhados, a visão daquele homem alto, com os cabelos ondulados e castanhos, e aroma inebriante, era como um bote em meio à enchente. A única coisa a qual ela podia se agarrar. Por isso, não notou quando o chamou pelo primeiro nome, algo que imediatamente alertou Aizen acerca do estado de confusão mental da mulher. Não somente: todo o corpo do homem entrou em estado de alerta.

—Minha Flor, você está bem? O que está fazendo aqui? — Rapidamente, Aizen se aproximou da mais nova, segurando sua bochecha com delicadeza a fim de examinar os olhos, os quais possuíam as pupilas dilatadas, e colocando as costas da mão sobre a testa da mulher, a fim de medir sua temperatura.

—Aizen! O que é isso? Eu estou bem, pare! — Se desvencilhando do toque do homem em tom imperativo, ela voltou aos seus sentidos, deixando-o com as mãos ao ar. — O que você está fazendo na minha sala?

—Flor… Você está na minha sala. Você veio até mim, e chamou meu nome.

Ela ficou em silêncio, olhando ao redor e comprovando, com os olhos arregalados, que, de fato, não estava mais em sua sala, e o céu já acusava a noite estrelada. Há quanto tempo ela alucinou? Deu três passos para trás, se afastando ainda mais do homem, e caiu sentada sobre o sofá de couro de três lugares que estava disposto na parede mais ao lado da porta.

—Você estava alucinando. — Extremamente sério, ele se aproximou da pequena mulher sentada, com os olhos incapazes de focar atrás de seus óculos de armação transparente. Então, Aizen os retirou com cuidado do rosto de Haiako, e sentou-se ao lado dela. — Haiako, está acontecendo de novo?

—Sim… — Ele se aproximou a ponto de ambos tocarem as coxas, o que fez com que o coração de Haiako se acelerasse, e ela olhasse para baixo, evitando demonstrar suas expressões para o homem. Ele, por sua vez, com a sobrancelha franzida, abaixou seu tronco e virou a cabeça para vê-la melhor.

Há tantos anos, lembranças assolavam os dois, ainda que eles estivessem impotentes. Neste momento, sentados lado-a-lado, enquanto a mulher fugia do olhar de Aizen, essas mesmas lembranças tomavam conta do lugar.

Está acontecendo de novo? Ele perguntou, já sabendo a resposta. Muitos anos atrás, quando ambos ainda compartilhavam uma vida, Haiako havia sido assombrada por momentos semelhantes de confusão e perda de memória, e momentos nos quais ela perdia a noção de tempo e espaço, mesmo no meio de conversas ativas.

O cheiro do homem parecia ser feito especificamente para atraí-la. Desde que havia sido transferida para o 5º Esquadrão, Haiako não havia permitido tal proximidade entre ambos. Mas hoje, era diferente. Algo estava diferente: talvez pelos seus sonhos constantes, talvez pelo passado que a assombrava e a fazia resgatar algo que havia se perdido. Talvez por saber, com toda a certeza, mesmo que infundada, que o que estava acontecendo consigo estava, de um jeito ou de outro, conectado com Aizen.

Finalmente, a mulher virou seu rosto para ele, e seu olhar melancólico o atingiu com uma facada no peito. Aquele olhar que sempre conseguia tudo dele, qualquer doação, qualquer palavra doce, qualquer pedido indecente. Aizen lambeu os lábios apertados em tentativa de autocontrole.

Ela, por sua vez, pensava naquela sensação de solidão que a atingia sempre que lembrava do homem. Sem controlar as próprias ações, ela se lembrou de um pequeno detalhe. Detalhe esse que a fez inspirar profundamente, absorvendo o cheiro que emanava do pescoço a mostra do homem por baixo de seu haori de capitão. O aroma que sentia era exatamente como se lembrava. Contra sua própria intenção, e se convencendo de que era algo de sua cabeça — a qual já não estava sã, para começar; ela decidiu não confrontar o homem sobre as discrepâncias que estava vivenciando acerca do que era real ou não. Em vez disso, ela perguntou:

—Por que eu sempre volto aqui?

—O que quer dizer?

—Você deveria ficar no meu passado. Ainda assim, eu sempre volto, de um jeito ou de outro, para o mesmo lugar que me machucou tanto. — O homem sentiu o próprio coração pular uma batida, algo que há incontáveis anos não acontecia. Após dizer tais palavras, Haiako pensou: "Se você soubesse o que eu escondi de você… ou o que foi tirado de nós… as coisas teriam sido diferentes?". Mas, mentalmente, ela respondeu: "Não. Eu nunca poderia prender você com esse segredo."

—Ninguém vive o que vivemos e sai intacto, Minha Flor. Nem você… nem mesmo eu. — Ele devolveu.

De fato, ninguém sai intacto de uma vida juntos, mesmo que Haiako tentasse com todas as forças enterrar as memórias deste tempo. Partes de Aizen sempre estariam com ela, e vice-versa.

Mas a hora de você escolher está chegando.”, ele pensou.

Minha Flor. Ela fechou os olhos, e deixou as palavras passearem em seus ouvidos. E então, ainda com os olhos fechados, Haiako colocou sua mão sobre a de Aizen, que se surpreendeu com o primeiro toque que finalmente partira dela em anos. No entanto, ele sabia que esse toque não era necessariamente de carinho. Ele sabia. Mesmo assim, se sentiu fisicamente incapaz de separar suas mãos, e decidiu colocar tudo a perder por apenas aquele breve toque da mulher.

Em contato com a mão grande e quente de Aizen, ela se permitiu abrir o coração. Sentiu a forte energia espiritual do mais velho fluir pelos seus dedos, subir as mãos, os braços, e descer para seu peito.

Foi quando ela confirmou, e sentiu.

Solidão. E culpa, também, pela solidão que o homem sentia. Haiako, ainda que estivesse magoada pela rejeição e frieza com a qual homem a tratara, nunca sentiu profundo rancor ou ódio. A culpa era o maior sentimento que tinha quando encarava o mais velho.

"Eu tirei muito mais de você.", ela pensou.

—E então? — Aizen perguntou, ajeitando com a mão livre os óculos em seu rosto, e mantendo o olhar fixo na mulher, segurando sua mão com firmeza, curioso com o silêncio misterioso que sua antiga parceira mantinha.

—Você me perguntou, naquela noite em minha casa, se o dano havia sido permanente…

—Sim?

Sōsuke e Haiako, lado a lado, finalmente com suas guardas abaixadas. As mãos entrelaçadas, os olhos fixos um ao outro.

—Não. Não foi. — Ela sorriu com os lábios unidos, sem mostrar os dentes. — Éramos jovens. Não precisamos dar ao nosso passado mais importância do que realmente teve. Certo? — Ela não acreditou nas palavras que disse, mas era necessário.

E a faca no peito do homem girou. Surpreso com a resposta, e curioso com o que Haiako havia sentido ao tocar em sua mão, ele sorriu, mordendo os lábios inferiores e franzindo a glabela.

—E isso nos torna o que, amigos?

—Ha! Aí é a parte complicada… Tudo bem. Amigos.

"Existe tanto ainda que quero te dizer". Como uma sincronia sobrenatural, os dois compartilharam o mesmo pensamento.

E daquela forma eles permaneceram: se olhando profundamente, sem tirarem os olhos um do outro, enquanto o resto do mundo desaparecia. As mãos unidas, e o coração de ambos acelerado. Amigos? Talvez nunca. Não havia como negar a absoluta energia e conexão entre eles.

E de repente…

—Ei, sumida! — Interrompendo o olhar penetrante de ambos, uma voz doce, quase estridente, feminina preencheu a sala, fazendo com que Haiako afastasse sua mão bruscamente. Quando ela olhou para a porta, sentiu como se seu coração fosse sair pela boca.

Atrás da mulher, os mesmos dois jovens ensanguentados de suas visões na madrugada.

—Tsuki…?

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*Spoiler Canon: Em Thousand Year Blood War, Kyōraku lembra de seu irmão mais velho, o qual se casou com a mãe de Nanao, do clã Ise, e mostra que possui um grande segredo envolvendo uma promessa feita a ela. Neste capítulo, Haiako faz alusão ao sentimento de carregar esse segredo, ainda que ela não saiba qual é.



Notas finais
E aí, gostaram? Eu tenho visto que temos vários leitores recorrentes por aqui, mas estou sentindo falta de comentários e feedbacks! Quero muito muito saber a opinião de vocês! Até a próxima, queridossss!