Oasis
14 Vida Cigana
Notas iniciais
"Eu sinto o mundo se despedaçando
Sempre foi uma bagunça
Desde que nasci
Não é fácil viver
Nem fácil é morrer
Mas, de algum jeito,
Eu pude superar
E, no final,
Você estava lá
Eu não me senti mais inquieto
Não mais
Mas não pude passar esse sentimento à você
Era como se fosse
Trair tudo que já aprendi
E tudo que acredito
Não sei porque
Mas, ao pensar,
Na possibilidade de ver você sorrir
Não importa mais
Nada disso"
A primeira coisa que pensei quando acordei foi: "Caralho, eu deveria parar de tomar esses remédios!". Não era a toa que eu havia dormido o dia inteiro naquela barraca desconfortável.
Porra, estava de noite! E meu estômago roncava.
Era uma pena que esses medicamentos eram a única coisa com a qual eu podia contar para que pudesse me controlar corretamente nesses dias conturbados.
Tudo por causa de uma fucking Alice e um fucking Grey.
Esses dois só sabem bagunçar minha vida cigana.
Suspirei, um hábito comum dos últimos tempos, e reclamei mentalmente pela terrível dor de cabeça. Isso só podia ser invenção do cara mal encarado lá de baixo.
Cocei a nuca e estiquei minha mão até a mochila que havia trazido para o lado de dentro.
De alguma forma, arrumei algo satisfatório para comer e fiquei a divagar sobre o porque daquele filho da puta não estar por ali.
Já deviam ter mais de cinco horas que eu o vi. E ele não havia voltado por que estava tudo do mesmo jeito de quando tinha adormecido.
Caralho do céu, estávamos numa floresta! O que poderia ter de tão interessante assim pra fazer?
Nada. Simplesmente.
Então, eu não entendia porque ele sumia. Minha companhia era tão ruim assim?
Ah, qual é! Só porque eu tenho uma aura de estuprador?
Eu não faço esse tipo de coisa, deixo bem claro, okay?
Não era isso que eu queria mostrar pra ele quando cheguei com aquela cara maliciosa mais cedo no rio, mesmo estando pelado também... Não era isso. Não tenho culpa se mal-entendidos acontecem.
Mas não vou dizer que minha intenção não era fazer algo pervertido.
Sempre foi.
Já disse que não sou de ferro, poxa.
Saí da barraca com um pano que havia trazido comigo de casa e estendi no chão de terra gramado, deitando-me ali logo depois para ver as estrelas.
O céu negro azulado nem parecia o mesmo de quando o fitava na capital do Rio de Janeiro. Não havia nenhuma luz artificial para ofuscar o brilho dos astros.
Tudo era pontilhado e a lua estava lindamente cheia. Fazer isso era algo que me acalmava, mesmo que eu tivesse que viajar tanto tempo em um ônibus igual tinha feito com o resto dos alunos para chegar até aqui.
Ao lembrar disso, recordei-me também de uma certa loira. Preferia furar meus tímpanos do que ter que ouvir suas perguntas e reclamações quando a visse.
Perguntas que não iria querer responder.
Como falaria pra mãe do meu filho que acabei me agarrando com um homem?
E que eu não sabia porque havia feito isso? E, melhor ainda, sentia uma pontadinha ridícula de culpa por forçar meus desejos à ele, sem querer nada sério!
Porque não tinha como eu querer. Não sou de relacionamentos. Tudo isso porque não consigo acreditar em um sentimento muito idealista chamado amor.
Volto a falar, nada disso é por causa que tenho preconceitos. Não ligaria de ficar com outro homem. Ficar!
Essas limitações e ideias que segregam a sociedade não é comigo. Mas, infelizmente, coisas assim ainda são mal vistas. Não é algo que eu possa mudar.
Porém é algo que eu posso passar adiante. Passo por passo, as coisas vão melhorando.
E por eu ser assim, tenho dó da minha criança, sabe? Não queria que nascesse em um ambiente tão perturbado.
Com uma mãe daquelas, com crenças, etc., tão diferente de mim, tenho medo dela crescer meio traumatizada.
Enfim, fiquei ali um tempo, apenas pensando e quase cochilando com a brisa fria que me atingia. Pensei em esperar o idiota, mas ele não aparecia.
O que me deixava um pouco ansioso, admito.
Vai que alguma coisa acontecia? A culpa seria minha aos olhos dos professores, uma vez que eu não era muito bem visto na escola pela maioria das autoridades.
Fazer o que?! Já disse que minha personalidade não era muito bem vista por algumas pessoas.
Quando olhei no relógio de pulso, que estava bem guardado dentro da sua caixinha na parte da frente da mochila, vi que já havia passado uma hora e nada da presença do russo.
'Tá legal. Isso já está muito estranho.
Só não me diz que o carinha do pânico apareceu. Não...
Isso não é possível, ha ha ha... Certo?
Comecei a, inutilmente, morder minhas unhas. Outra mania que tinha quando ficava nervoso, ansioso, etc. Até o momento chegou. Achei que iria morrer mais uma vez naqueles dois dias.
Dei um grito feminino demais e sentei-me em um pulo. Não deixem que isso saia daqui, pelo amor de Deus.
Mas era apenas aquele gato de hoje cedo (a sorte dele é que eu não tinha nada afiado por perto pra jogar nele, devido aos meus instintos, e amava gatos) saindo calmamente dos arbustos.
Veio direto até mim para esfregar sua cabeça pequena na minha coxa direita. Porque, merda, tem um gato aqui mesmo? Não entendi. E, ainda por cima, não é arisco.
Acho que um tal de Grey Ivanovich devia aprender algumas coisas com esse animal.
Falando nele, já estava ficando puto. Então resolvi, com muito receio, fazer alguma coisa que prestasse. Peguei uma lanterna e fui adentrando mais na floresta enquanto o felino ainda me seguia.
Os sons, a escuridão... Tudo isso estava me dando nos nervos.
Já não tinha unhas para roer.
Por algum motivo, estava mais ansioso do que deveria nessa situação. Vão se foder se pensaram que me importo com ele.
Porque me importaria? É certo que eu me importo com meus amigos, mas eu podia chama-lo assim? Não sabia muito bem o que a gente tinha.
Isso pra não falar que não tínhamos nada, além de eventuais contatos inoportunos em momentos de fraqueza.
Quando ouvi um farfalhar no mato perto de mim, peguei o gato no colo, apertei-o e saí correndo sem destino. Estava sem ar e longe da barraca. Porra, tudo aqui parece igual!
I'm fucking lost, man.
Como voltaria agora? Não fazia a mínima ideia, só sabia que tinha pena do bicho que eu carregava. Agarrava-o com tanta força que deveria ser horrível. Não podia fazer nada se estava cagando de medo.
Queria ver se fossem vocês, putos. Não riam.
Continuei caminhando mais um tempo. A minha sorte era que não estávamos em uma floresta latifoliada como a Amazônia. Isso significaria uma chuva torrencial a qualquer instante.
Não gostaria nada disso.
Mas estávamos em uma área mais seca, o que dava as árvores uma característica mais amarronzada e com folhas aciculifoliadas.
O verdadeiro problema ali, tirando tudo que compunha aquele lugar e me matava de susto, era que eu não achava aquele desgraçado.
Estava ficando puto.
Era melhor ter deixa-lo na puta que pariu do que passar por isso!
Quando ia desistir daquilo, vi um lugar que parecia uma cratera. Tudo isso porque a mata tinha sido arrancada e a solo havia cedido. Era algo parecido com um barranco.
Decidi dar uma olhada. Eu sabia como aquele idiota estava sempre machucado, então resolvi descer o mais cuidadosamente possível, sempre me apoiando nos galhos que ainda estavam inteiros.
Quase escorrei e caí naquele lugar umas três vezes, mas sempre achava alguns lugares para me apoiar. Sem jeito nenhum com aquilo, demorei uns bons sete ou dez minutos pra chegar até o fundo.
Ainda tinha um certo receio porque não podia ver nada ao meu redor, além do que era alcançado pela luz da lanterna.
Tinha pedaços de tronco, amontoados de terra, rochas, folhas e galhos espalhados pela terra.
Assustei-me mais uma vez ao sentir algo passando entre minhas pernas. Como aquele maldito gato desceu até ali? Suspirei, tentando acalmar meu coração, e fui andando mais um pouco até que achei o que procurava.
Meu primeiro pensamento ao vê-lo foi: "Porra, esse garoto é 'mó azarado!"
Com certeza, só podia ser macumba, maldição ou praga. Não tinha como.
Acho que não era a toa que o maldito era tão cismado. Até parecia que o universo conspirava secretamente contra sua pessoa.
O que eu vi ali era o cadáver do Grey, ou o que restou dele.
Mentira.
Fiquei aflito porque, como tudo que envolvia ele, era minha primeira vez naquela situação. Sério, parecia que ele tiraria todas as minhas primeiras vezes.
Não falo com conotação sexual. Depois eu que sou o pervertido.
Eu nunca daria pra ele. Pra ninguém.
Enfim, o russo estava caído em um canto, aparentemente desacordado. Quando cheguei mais perto, vi um arranhão fino sangrando na testa branquinha e alguns esfolados nos braços.
Estava respirando. Nada de muito alarmante.
Sua perna esquerda parecia presa debaixo de uma amontoado de terra e troncos. Fiquei com medo de estar quebrada. Isso seria realmente péssimo.
Seria uma comoção do inferno. Não, muito obrigado, mas dispenso.
Agachei no chão, colocando o pedaço de madeira no meu ombro e fazendo força para levanta-lo e tira-lo de cima dele.
Assim feito, examinei a perna no garoto e parecia estar tudo bem. Nada quebrado, trincado ou torsido.
Pelo menos isso, ele tinha de sorte.
Peguei o moreno nas costas e segurei bem nas coxas gostosas dele. Tinha um caminho menos destruído para subir e foi ele que usei.
Escorreguei algumas vezes naquelas pedrinhas de cascalho, mas não aconteceu nenhum acidente. O que era ótimo, considerando a má sorte daquele indivíduo inconsciente no meu colo.
Fui tentando me recordar pelos pontos que havia passado e fui fazendo o caminho inverso ao que tinha feito na hora de vir.
Com um pouco de luta, consegui, depois de virar algumas vezes em lugares errados, chegar ao lugar onde a barraca estava.
Coloquei-o em cima dos cobertores, assim que me aproximei. Acendi a fogueira do lado de fora para que pudesse ver melhor o estrago e voltei ao seu lado, sentando-me ali.
Não havia muito para se fazer, apenas limpei os arranhões com as coisas que o russo tinha trazido. Sim, mexi na mochila dele, mas o maldito que não descubra.
Era engraçado o fato de tudo que pertencia a ele ter o cheiro inconfundível de morango e bebês.
Levantei a regata que usava para checar se tinha algo ali. É claro que iria me aproveitar um pouquinho. Volto a falar que não sou de ferro.
Passei os dedos no abdómen definido e durinho. Os pêlos morenos desciam em um caminho tentador até chegar na virilha.
Era uma visão bem deliciosa.
Balancei a cabeça, tentando espairecer os pensamentos pervertidos. Tentava não ser um molestador e acabar atacando-o enquanto adormecido.
Mordi os lábios. Que tentação.
Saí dos meus pensamentos no exato momento que aquele animal maldito entrou mais uma vez na minha frente, miando e aconchegando-se no meu travesseiro, ao lado da cabeça do moreno.
Bicho folgado.
Abaixei o pedaço de pano que havia levantado e fitei o menor. Sua expressão estava meio tensa, como se estivesse tendo um sonho ruim.
Tirando isso, parecia tão frágil que dava gastura.
Não era muito fácil de ver esses momentos, então sempre pareciam irreais demais.
Estendi a mão para alcançar sua testa e checar a tempetatura. 'Tava tudo normal, apenas um pouco frio demais. Despi-me da minha camisa e deitei-me ao seu lado.
Não é como se houvesse outro lugar para que eu fizesse isso também.
Fiquei de lado, observando aquele ser estranho dormir ou sei lá o que. Perguntava-me se estava tudo bem. Vai que o desgraçado tinha tido uma concussão e por isso não acordava.
Nossa proximidade era mínima. Era engraçado estar assim e não ter nenhuma rejeição ou palavras atravessadas. Mas ainda preferia quando era desse jeito.
Ficava muito mais interessante, assim como o primeiro dia em que o vi.
Puxei o cobertor pra cima dele ao perceber que a sua temperatura não subia. Passou um tempo. Nada. Resolvi fazer algo bem ridículo e clichê naquela situação.
— Ah, foda-se – Resmunguei e puxei-o para um abraço quente.
Não pude impedir um sorriso malicioso de aparecer. Aquela posição era bem sugestiva.
Logo o gatinho, que era apenas um filhote, pulou em cima de mim, aninhando-se no meio de nós dois. Afaguei sua cabeça e sorri.
— Tira esse sorriso da cara. É esquisito – Reclamou aquela voz rouca que eu tanto conhecia.
— Até que enfim a bela adormecida acordou – Provoquei, sorrindo em deboche.
— Porque está agarrado em mim, porra?! – Falou embolado.
Pra minha felicidade, não parecia completamente consciente das coisas.
— Você quem pediu – Pisquei, olhando intensamente pra ele, que estava com a cabeça no meu peito.
— Mentiroso. Sai daqui, caralho – Deu um soquinho fraco no meu abdómen.
— 'Tô te esquentando. Se te soltar, tu vai morrer – Ri interamente da sua cara de espanto.
— Mentira – Coçou os olhos.
— Verdade.
— Mentira.
— Verdade, porra – Dei um peteleco na sua testa.
— Não acredito – Resmungou.
Ele estava duvidando de uma coisa tão idiota? Com certeza ainda não estava acordado.
— Não minto – Fiz uma careta de superioridade.
— Porque você 'tá me esquentando, seu puto, chato, idiota?!
Não contive uma risadinha.
— Você caiu, desmaiou e 'tava frio. Aí ia morrer e eu vim te salvar – Comecei com um discurso para crianças.
— Não ia morrer nada, idiota.
— Ia sim! – Pisquei pra ele mais uma vez.
Era engraçado vê-lo conversando sendo que ainda estava fora do ar. Será que tinha batido a cabeça muito forte?
— Dá pra me soltar?
— Mas você vai congelar.
— Mas eu não ia morrer, cacete?! – Fez uma expressão confusa.
— Vai morrer congelado.
— Não 'tá frio.
— Ah é? Então porque está arrepiado aqui? – Passei a mão na sua nuca. Os fios pretos estavam todos levantados.
— Porque sim, porra – Deu-me mais um soco.
— Porque fica me batendo? – Fechei a cara.
— Porque você merece por ser um idiota.
— 'Tá com dor? – Desviei do assunto.
— Não.
— 'Tá sentido dor? – Perguntei de novo.
Sua posição e o fato de ficar se remexendo nos meus braços denunciavam que estava incomodado com algo, além de mim.
— 'Tô, carai. Eu caí de uma altura bem considerável – Resmungou.
— Quer remédio?
— Você não vai mexer nas minhas coisas.
— É... Não vou – Dei uma risadinha culpada.
— Você não mexeu?
— Que isso, lindo. Claro que não – Mexi com as mãos como se estivesse descartando a possibilidade.
— Só fica calado – Fechou os olhos, mas logo tomou um susto quando sentiu o gatinho se mexer.
— Vou dar o nome dele de Grelindo.
— Ahn? Que caralho é esse?
— Grey mais lindo.
— Você é ridículo – Começou a fazer carinho no animal que começou a ronronar.
Fiquei fitando sua expressão calma e meio alheia. Senti uma vontade imensa de provoca-lo e era o que iria fazer.
— Posso te beijar?
— Não.
— Deixa, vai – Fiz uma voz manhosa enquanto apertava meus braços em sua cintura.
— O puto aí só pensa nessa porrada – Fez uma cara de desgosto.
— Mas você não quer saber como é?
— O que? – Levantou seu olhar pra mim, já que estava fitando o nada.
— Sexo – Levei minhas mãos para sua bunda e apertei generosamente.
Aquele era o pedaço de carne e pele mais incrível e gostoso que eu já tinha visto.
— Faz isso de novo e quero ver tu ter pau pra enfiar nas vadias – Rosnou.
Entendi o recado. Nada de apertões se eu quiser evitar ser castrado.
Ótimo aviso.
— Posso te mexer no teu cabelo?
— Não, caralho – Suspirou – Mas sugiro que faça enquanto não acordei.
— Sabia – Dei uma risadinha e alcancei seus fios, acariciando e enrolando nos meus dedos.
Era bem macio e gostoso. E, pra variar, tinha o cheiro dele.
Morangos e bebês.
Volto a falar, que cacete de cheiro era esse? Duvido que exista outra pessoa que cheire assim.
— Quero dormir. Desgarra aí.
— Nem...
— Anda!
— 'Tô deitado.
— Engraçado.
— Eu sei – Sorri superior.
— Idiota.
— Seu cabelo é bom.
— Foda-se. 'Tô com sono.
— Dorme.
— Então cala a porra da boca ou vai dar esse cú virgem na esquina, seu filho de uma puta.
Comecei a rir sem parar. Ele, com certeza, tinha muitos (MUITOS) problemas de personalidade.
— Preferia comer o teu cú russo e virgem.
O moreno olhou-me mortalmente. Mas apenas deu de ombros e fechou os olhos. Não ouvi mais nada vindo dele depois disso.
Apenas seu ressonar baixinho e calmo.
Tudo bem, não 'tava nem aí pra nada. Nenhuma confusão interna. Nem Alice. Nem responsabilidade. Ou qualquer porra que fosse.
Esse era seu efeito em mim.
Dava medo, não?
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