Oasis
16 Tu gosta de piroca?
Notas iniciais
"Não estava certo
Não era pra ser
Mas eu queria
Eu desejava fazê-lo
Era aquele sentimento
De necessidade
Que nunca tinha experimentado antes
Eu ainda era humano depois de tudo
E humanos são egoístas"
Eu estava totalmente bem.
Sim, era isso. Eu não podia simplesmente aceitar qualquer tipo de terapia. Isso não funciona. Essa dor é minha e eu tenho que senti-la.
Ela faz parte de quem eu sou. E a culpa é minha, toda minha. Quem, a não ser eu mesmo, poderia senti-la?
Não era justo. Não era justo com ele e com todos os outros.
Suspirei de novo enquanto ficava encarando o rosto adormecido do russo ao meu lado. Nem cinco minutos haviam passado e ele tinha praticamente desmaiado no banco.
Sempre parecia cansado, como se não parasse para relaxar nem por um segundo. Suas defesas estavam sempre erguidas. Deveria ser desgastante.
Sua cabeça era apoiada no vidro e os cabelos, totalmente desalinhados, me permitiam ver aquele aparelho que o mesmo usava. Algo que me deixava desconfortável.
Sempre me esquecia desse detalhe. Ele era extremamente normal, a julgar pela alusão que a sociedade faz ao que se refere aos surdos.
Já havia passado um tempo e eu não conseguia deixar de pensar no pesadelo. Tudo isso que vem acontecendo ultimamente está me desestruturando.
E olha que levei um bom tempo pra poder voltar a ativa. Fiz de tudo para ser quem sou hoje e superar. Mas tem certas coisas que você não pode deixar para trás.
Continuava brincando com o gatinho dentro da mochila enquanto tentava cochilar novamente. Me doía admitir que chegava a ter medo de dormir.
Era sempre os mesmos sonhos. A mesma impotência.
Olhei pela janela e percebi que estávamos chegando ao nosso local de destino. A escola continuava lá, enorme e luxuosa.
O professor foi conduzindo os alunos para fora do ônibus e eu fui tentar acordar aquele idiota. Chamei uma, duas, três e nada.
Balancei-o, dei um tapa na sua nuca, mas ainda sim não acordava. Agora eu teria que dar uma de babá?
— Vai ficar aí pra bater um papo com o motorista? – Iris apareceu do meu lado.
— Ah, claro – Sorri irônico – Esse idiota não acorda.
— Hm, quanta preocupação, ruivo – Sorriu maliciosa.
Tentei pega-lo no colo, mas, dessa vez, não consegui. Malditos remédios! Só por já ter um tempo que havia voltado a toma-los, começava a perder um pouco da minha força muscular.
— Ah, será que dá pra chamar o Art? – Perguntei meio desconcertado.
Odiava me sentir assim.
— Pra q... – Começou a falar, mas acabou percebendo – Tudo bem.
Encostei-me na poltrona, já ficando de mal-humor. Ótimo dia. Começo vomitando e não consigo carregar nem um magricelo que nem ele. Como que isso vai terminar?
Com a minha morte?
O loiro, que já tinha saído, entrou apressado no ônibus e olhou-me com uma expressão estranha. Caralho, eu não precisava da dó de ninguém.
— O que foi? 'Tamo atrasado já, cara – Indagou confuso.
— Só me ajuda aqui a levantar ele.
— Tranquilo.
Art chegou mais perto do menor e pegou-o meio desajeitadamente no colo. Virei-me e abaixei um pouco, para que o loiro pudesse colocá-lo nas minhas costas.
Ainda sim era pesado, mas eu dava conta.
Peguei nas coxas grossas do moreno e pensamentos maliciosos me vieram a mente, fazendo-me sorrir psicoticamente.
— Se vocês não descerem agora, vou deixar irem embora junto com o ônibus – O professor avisou mal-humorado.
Saímos do veículo e fiquei desanimado. A primeira coisa que vi foi a expressão fechada e assustadora de Alice, vindo até mim pisando forte.
Desde quando eu tinha qualquer compromisso com ela?
— Posso saber o que é isso? – Perguntou com aquela voz estridente, deixando-me irritado.
— Não 'tá vendo?
— Sim, estou! – Gritou – É por isso mesmo que eu quero que pare agora!
— Olha, Alice, eu não te odeio, então vou falar só uma vez. 'Tá me escutando? – Minha paciência estava no limite.
— Fala – Deu chilique.
— Se liga! Não fica se humilhando na frente dos outros fazendo cena.
— Fazendo cena?! – Queria tampar meus ouvidos – Eu 'tô com um filho teu na barriga e tu quer comer um homem?
— Não fala assim – Falei mais baixo.
Não precisava de ninguém me crucificando no momento e todos já estavam prestando atenção na gente, pra variar.
Bando de velhinhas que adoram uma novela mexicana. Só não entendo porque eu tenho que ser o protagonista.
A obssessividade dela era assustadora. E eu sabia. Sabia muito bem que ela não gostava de mim, mas não era equilibrada emocionalmente.
Quando a menina ia dizer mais alguma coisa, Dênis apareceu por entre a multidão e passou seu braço por sobre seus ombros.
— Vamos embora, Alice. Deixa que desse coiote aí eu cuido depois – Sorriu em deboche.
Minha vontade era de enchê-lo de porrada por me chamar de gay enrustido. Mas, antes que pudesse fazer algo, vi a menina limpar os olhos fingidamente e sair correndo dali.
O moreno continuou ali, me olhando cinicamente com aquela cara nada atraente. Apenas arqueei as sobrancelhas e sorri em deboche.
— Gosta do que vê?
Vi quando fechou a cara e me fuzilou com o olhar.
— Não sou da sua laia, seu lixo.
— Ah, mas parece que adorou ficar me encarando! Eu sou 'mó gostoso, né? Pode falar – Aquele era o ponto certinho para provocá-lo.
— É melhor ficar de olho no que é teu – Ameaçou e saiu dali.
Fechei a cara e fiquei com uma puta raiva. Só porque ele é bombado acha que intimida alguém? Eu também não era nada fraco.
Arrumei um jeito de ligar para o meu pai, que estava de folga naquele dia, para que pudesse me buscar, assim não teria que carregar o russo até minha casa.
Como era relativamente perto, não demorou muito para que chegasse. Eu estava com uma cara derrotada e ele já me olhou com curiosidade.
Entrei no veículo e coloquei o moreno meio deitado com a cabeça no meu colo. Vai que ele deita de qualquer jeito e quebra o aparelho de surdez?
Não, muito obrigado, mas não quero ir para o inferno por fazer mal a um surdo.
Se bem que se dependesse do ponto de vista atrasado da sociedade, eu já iria pra lá por beijar um cara. E um com uma bunda bem gostosa, pra ressaltar.
Acho que iria queimar sorrindo se pudesse comer aquela bundinha.
— Que cara é essa? – Deu uma risadinha.
— Nem vem, pai.
— Ah, qual é, Logan. Pode me falar sobre o sexo selvagem na floresta.
— Pai, não sei sobre o que tu tá falando.
— Sei... – Continuou com aquele sorriso irritante enquanto dirigia, mas logo seu olhar mais malicioso tomou conta – Quem é esse aí?
— Um colega da escola – Sério, Logan? É isso que você tem pra falar?
— E um bem... – Começou a falar, mas se interrompeu mordendo o lábio.
Que diabos estava acontecendo, pai?!
— Um bem...?
— Gostoso, ehm? É teu namorado? – Perguntou sorrindo.
Meu queixo foi lá no chão. Que caralho de pai é esse que eu tenho?
— Pai... Qual o seu problema? – Quase gritei – Era pra tu chorar e me expulsar de casa!
— Então é verdade?
— NÃO! Nem a pau.
— Aham — Balançou a cabeça negativamente, sorrindo divertido – Vai me contar tudo?
Suspirei, mas logo dei de ombros. Era melhor do que muitos tinham.
— Não tem nada rolando. Apenas uma pegação de vez em quando.
— Tu é gay, filho? Achei que ia trazer uma gostosa pra casa com esse seu jeitinho de garoto malvado.
— É a minha intenção ainda.
— Mas você trouxe um gostoso. Nada mal, filhote.
— Pai, que porra. Como assim tu acha um cara gostoso?
— Eu também tive minhas fases, mas sua mãe sempre foi o amor da minha vida.
— Tu gosta de piroca, pai?! – Essa conversa estava cada vez mais estranha.
Eu só podia estar em uma porra de um sonho. Tem algo errado aqui!
Aquele ser que se chamava de meu familiar apenas sorriu sacana e ficou calado. Mas que porra?! Eu podia morrer agora.
— Pra sua informação, não sou gay.
Olha o exemplo que eu tinha em casa.
Assim que chegamos, o ruivo maior ajudou-me com Grey e eu peguei as malas. Não estava mais me aguentando em pé.
Nem pude pisar dentro de casa antes de ser beijado e agarrado pelo minha mãe. Parecia que eu havia ficado fora três anos, não três dias.
Peguei uma maçã na cozinha e subi para o meu quarto, onde um moreno folgado estava de bruços, agarrado ao meu travesseiro.
Fui tirando a roupa ali mesmo, depois de ter fechado a porta, e joguei tudo num canto do quarto. Precisava de água quente urgentemente.
Pude relaxar mais de cinquenta por cento só com aquilo apesar de ter ficado apenas alguns minutos ali.
Ah, qual é. A água potável do mundo tá escassa, gente boa.
Vesti uma cueca vermelha e coloquei a toalha em meus ombros enquanto saía do banheiro. Pude ver um russo confuso, tentando assimilar o lugar aonde se escontrava.
— Porra! – Exclamou baixinho e meio rouco – O que tô fazendo aqui?
— Te sequestrei e vou te estuprar agora – Disse enquanto passava a língua nos lábios provocativamente.
Essas coisas me distraíam do verdadeiro problema.
Eu.
— Ninguém merece – Levantou-se, indo pegar sua mochila no canto do quarto.
Onde por coincidência estava minha cueca que havia tirado mais cedo. Vi seu olhar colorido ser digirido à ela.
— Tem meu cheiro. Pode levar se quiser – Sorri sacana e sem pudor algum.
— Babaca – Chutou o pedaço de pano com nojo e colocou seus pertences nas costas.
Cheguei mais perto dele, jogando sua mochila no chão, colando meu peitoral meio molhado á suas costas e colocando as mãos na sua cintura enquanto cheirava seu pescoço.
— Tu gosta – Fiz minha voz mais sedutora enquanto dava um beijo no seu pescoço.
Era hoje que eu queria traçar esse russo.
— Vaza daqui – Rosnou.
— O quarto é meu.
— Então eu saio – Tentou sair, mas puxei seu braço e joguei-o com violência contra a porta, ouvindo seu gemidinho de dor.
Não que ele parecesse desgostar desse tipo de dor.
Coloquei minhas mãos em cada lado do seu corpo, colando meu corpo ao seu e buscando pelos seu lábios finos que estava distorcidos pela raiva.
Eu precisava de uma distração. E ele fazia isso com excelência.
— Cara, a sua bunda é um tesão – Sussurrei antes de conseguir alcançar sua boca, beijando-o.
No começo ficamos em um selinho demorado, já que ele não dava nenhum espaço. Porém a tensão sexual era muita por ali, então logo cedeu.
Era um beijo característico nosso. Bruto. O menor puxava meu cabelo com força, mais do que deveria. Era bom.
Era putamente excitante.
Sua língua brincava com a minha com tanta rapidez e fome que muitas vezes nossas bocas se desencontravam. Minhas mãos em sua nuca foram descendo pela cintura.
Sentia estar quase sem cabelos de tanta força exercida ali. Quando vimos, estávamos andando pelo quarto até cairmos no chão, com ele por cima de mim.
Sentou-se no meu colo em uma posição bastante estratégica, me fazendo gemer baixinho por causa do contato entre nossos membros. Sorri safado e apertei generosamente sua bunda.
Ah, queria dar mais perdidos desses com ele.
Senti um tapa na minha cara e seu olhar sobre mim, exalando tesão e raiva. Logo sua boca estava sobre a minha de novo.
E minhas mãos não largavam aquela área que eu tanto cobiçava, friccionando-a contra meu pênis. Grey fazia um bom trabalho em não gemer.
Aquela putinha má.
Cadê teus gemidos, porra?
Passei a mordiscar teu pescoço, fazendo-o sangrar novamente. Ouvi um gemido arrastado de dor misturado com um prazer muito aparente.
Hm, ele gostava de ser maltratado.
— Logan! Desce aqui – Ouvi a voz da minha mãe me gritando do andar debaixo.
Grey parou imediatamente o que fazia e olhou-me com raiva e meio perdido. Levantou-se, pegou suas coisas, mas, antes que saísse, segurei seu pulso.
— Vai se foder.
— Toma – Entreguei a touca que ele tinha deixado aqui.
Olhou-me confuso, como se não entendesse minha mudança de assunto. Arrancou brutalmente o pedaço de pano da minha mão, mas não o larguei.
Virou-se para mim com uma raiva que nunca tinha visto antes e, no segundo seguinte, eu tinha caído sentado no chão, com uma mão na bochecha.
Levantei rapidamente e passei-lhe uma rasteira, socando-o no nariz. Estava cansado de não retornar. Levei um chute no meio das pernas.
Antes que eu pudesse para-lo, o idiota já havia sumido dali. Fiquei um tempo deitado no chão frio, apenas de roupa íntima, com o antebraço escorado na testa.
Que porra é essa que 'tá acontecendo na minha vida?
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