Oasis

38 'Tá tudo bem, sabe por quê?


Notas iniciais
Choquem!!!! Eu juro que vou responder os comentários, ok? Me perdoem por tudo!!!!

"- Eu nunca vou te perdoar! Você, com essa sua opção sexual, é nojento. E eu vou repetir aquela parada do início do ano quantas vezes for preciso para me vingar de você e te fazer sofrer.

Fiquei estático. Que história era essa?"

Meu coração batia acelerado. Muitas coisas passavam pela minha cabeça ao mesmo tempo e me deixava sem reação. Comecei a respirar pesadamente e me esforçar para escutar melhor o que aqueles dois estavam falando.

— Tu nunca vai cansar disso? Sério. Seu irmão já está na puta que pariu. Já somos adultos e você continua com essa vingancinha sem sentido, porra – Escutei Grey falar com o tom mais furioso que já tinha saído daqueles lábios.

— Não fala do meu irmão! – Rosnou enquanto chegava mais perto do moreno.

— Não falar o que? – Provocou com um sorrisinho irônico – Que ele beijou essa boca...

Antes que ele pudesse terminar a frase, vi Dênis chegar mais perto furiosamente e tascar um soco bem no nariz do prego. Grey ficou surpreso por um momento e não conseguiu se esquivar do próximo golpe.

Eu via tudo aquilo embasbacado. Tentava organizar as informações na minha mente e agir do jeito que eu deveria. Enquanto isso, o russo se defendia do melhor jeito que podia, acertando o filho do governador com os punhos em qualquer lugar que conseguisse.

— Você! A culpa é toda sua! – Esbravejou Dênis.

O Ivanovich riu escandalosa e forçadamente.

— Fala sério! Depois de anos, você realmente ainda acredita que eu obriguei o Julio a me beijar?

— Cala a boca, sua bicha – Falou e descarregou toda a sua raiva em uma chave de braço que conseguiu dar no russo pelo descuido deste.

Grey tentava a todo custo se soltar, mas Dênis parecia perdido em sua própria raiva. A cada segundo, o prego de olhos coloridos ia ficando mais vermelho. Quando percebi que aquele maluco estava quase matando o menino, resolvi me meter.

— Olha aqui, seu filho de uma puta! – Gritei enquanto corria para perto dos dois.

Ele nem pareceu me ouvir. Estava completamente descontrolado.

Com muito esforço, consegui tirar um moreno meio molenga dos braços daquele desgraçado. Acertei a cara daquele merda com um gancho de esquerda e ajeitei o braço de Grey ao redor do meu pescoço para apoia-lo.

— Que porra... – Ele falou meio enrolado enquanto limpava um filete de sangue que havia escorrido do seu nariz.

— Olha aqui, seu maluco. Da próxima vez que eu ver algo assim, eu não vou nem te dar as porradas que você merece. Já vou chamando a polícia, ‘tá beleza? – Avisei, apontando um dedo na cara dele.

O moreno de cicatriz na sobrancelha estava meio desorientado. Aproveitei seu estado de confusão para sair dali rapidinho. Andei até encontrar alguns banquinhos e coloquei o prego ali. Ele fazia questão de evitar olhar para a minha cara.

Sentei ao lado dele e comecei a tentar enxergar algum sentido naquele mar de informações. Grey havia se envolvido com o outro filho do governador. Isso meio que me deixou possesso, mas tinha mais coisas que eu ainda não sabia.

Fui me espreguiçando todo, me esticando em cima do corpo do outro. Fiz questão de arrumar um jeitinho de enfiar minha cabeça nas coxas grossas e confortáveis daquele garoto, obrigando-o a me olhar.

— Pode ir abrindo essa boquinha, russo.

Ele fixou seus olhos nos meus de uma maneira intensa. Usava uma expressão cansada e passou a mão pela franja com aqueles fios brancos. Suspirou assim que terminou de brincar com aquele piercing na língua que tanto me provocava.

— Não enche – Resmungou antes de fazer uma faceta pensativa – Como sabia onde eu estava? – Disse grosseiramente, como se me acusasse.

— Estava te procurando? – Usei um tom de pergunta e ri – Como você ousa deixar seu marido sozinho?

Ele olhou para mim com uma expressão perigosa e tentou me empurrar do seu colo.

— Você é ridículo.

— Ah, para, vai – Me virei de lado e abracei sua cintura – Temos até uma filhinha e um bichinho de estimação juntos.

Grey deu um puxão na minha orelha e resmungou.

— Para de viajar, porra.

— Pelo visto, está melhor já – Ri e me deitei direito novamente – Agora, desembucha.

— Não sei do que está falando.

Fiquei irritadinho.

— Isso é sério, porra – Acabei levantando daquela posição confortável – Você vai acabar se machucando!

— Que diferença faz se eu te contar?

— Eu posso ajudar! – Me exaltei enquanto gesticulava com as mãos – O que vai ser da sua irmã se alguma parada sinistra acontecer contigo? Tu quase morreu daquela vez!

O russo ficou quieto, olhando para o gramado como se não estivesse presente em espírito. Depois de um tempo, escutei alguns suspiros vindos dele e o prego se virou de costas pra mim, impedindo-me de ver seu rosto.

— Se tu abrir a boca pra comentar qualquer coisa, eu não vou falar nada.

— Já é.

— Desde sempre as crianças não gostavam muito de ficar perto de mim. Nasci com essa aparência estranha e meio surdo. Por isso, não fui de ter muitos relacionamentos. Mas, quando eu estava no ensino fundamental, tinha esse garoto mais velho, o Julio, irmão do Dênis. Estudávamos na mesma escola, nós três. O Julio cismou em querer ser meu amigo, apesar de ser alguém que se importava demais com a opinião dos outros.

Já não gostava desse menino. Grey falava dele de uma forma que me incomodava.

— Um dia qualquer, por algum motivo, nos beijamos. Tipo, percebi aí que gostava de meninos mesmo, mas o problema foi que alguém viu e saiu fofocando pela escola. Faltei alguns dias porque estava acontecendo algumas coisas em casa e, quando consegui ir pra aula, descobri que todo mundo tinha ficado sabendo e que o Julio tinha falado que tinha sido obrigado a me beijar. A culpa foi toda pra cima de mim.

Fiquei puto, com muita raiva mesmo. Queria matar o tal do Julio. Apesar de imaginar como deveria ser para uma criança admitir esse tipo de coisa, o merdinha deixou o prego sozinho em um momento desses e ainda colocou o peso todo em cima dele.

— Espera, como o Dênis entra nisso? – Acabei dando com a língua nos dentes.

Grey me olhou com uma expressão medonha e revirou os olhos.

— Disse pra ficar calado – Resmungou – Vou pra sala.

— Não, não, não – Agarrei seu pulso quando ele tentou levantar – Vou ficar caladinho.

O moreno voltou a se sentar do jeito que estava antes e respirou fundo antes de continuar.

— O Dênis sempre foi preconceituoso. Quando ele ficou sabendo que eu tentei agarrar, como estavam dizendo, o irmão dele, não me deixou em paz. Acabou que eu tive que sair da escola, a mensalidade era muito cara e meu pai tinha que gastar tudo com drogas, bebidas e prostitutas – Riu sem graça enquanto aquelas palavras faziam um buraco no meu peito – Enfim, estudei e consegui entrar aqui. Acabei encontrando o Dênis de novo e foi muito pior. Ele continuou me odiando e me importunando. Aliás, acho que ele passou a me odiar mais ainda depois que fiz aquela cicatriz na cara dele – Riu completamente sem graça e sem humor antes de continuar a falar – Parece que o irmão dele se sentiu muito culpado por tudo que aconteceu e se mudou pra outro país sem ao menos falar nada com ele. Dênis não tem notícia dele até hoje.

Só quando ele parou de falar que consegui respirar normalmente. Meu coração batia rápido com uma mistura de sentimentos. Raiva, ódio, tristeza, carinho por aquele prego. Tudo me assustava um pouco.

Não conseguia assimilar toda aquela informação que ele havia jogado em cima de mim. O que eu pensava no momento era que eu estava conseguindo abrir meu caminho na vida dele e, apesar de tudo, isso me deixava satisfeito.

Ficamos quietos por alguns segundos. Comecei a analisar cada pedacinho de palavras que ele havia dito para mim. Até que algo sinistro começou a pipocar na minha cabeça. Virei forçosamente o corpo dele para que pudesse olha-lo nos olhos.

— Grey... – Chamei cautelosamente – Aquele dia no parque...

Ele arregalou os olhos e desviou-os de mim, sem muita vontade de falar. Ele havia entendido minha insinuação. No dia que ele havia hiperventilado ao sairmos para ir ao parque, Dênis estava lá.

— Não esperava ver ele lá... – Comentou meio frágil.

Isso me assustou.

— Ele fez alguma coisa? – Quase gritei, insinuei algumas coisas no tom.

— Não do jeito que está pensando.

— Tu ‘tá parecendo assustado! – Exclamei indignado.

— Cala a boca! – Se afastou mais de mim – Só estou cansado disso tudo, ‘tá bom? Não me enche!

Encarei sua figura. Alto, moreno, forte. Não tinha nada que aquelas novelas escrotas mostravam nos personagens homossexuais em sua ingênua generalização. Parecia perdido em pensamentos.

Assim como eu, até que outra coisa pipocou na minha mente. Já que ele estava falando bastante naquele nosso momento, decidi explorar um pouquinho.

— Grey...

— Que é? – Disse impaciente.

— Sabe... – Comecei, mas tinha medo da resposta.

Peguei seus pulsos e fiquei encarando aquelas cicatrizes. Não era possível que eles as tivesse feito. Senti meu coração falhar algumas batidas. Ele era tão forte e determinado. Tinha Mia na sua vida. Tinha seus sonhos para perseguir.

— Fala logo – Disse meio que em um sussurro.

— Foi ele, não foi? – Perguntei com medo.

Não sabia qual a resposta eu queria ouvir. Se fosse ele que tivesse feito aquelas cicatrizes, doeria bastante em mim. Eu sabia como era tentar se matar. Era uma sensação horrível. Entretanto, se fosse Dênis, eu não responderia por mim.

Se fosse Dênis, isso era tentativa de homicídio.

— Isso não importa. Tu chegou a tempo. E olha que eu já tinha desistido.

Abracei seu corpo e, mais uma vez, não senti falta dos peitos.

— Eu vou matar aquele maluco. Pode escrever o que eu ‘tô dizendo.

Ele passou os braços pela minha cintura e segurou minha blusa de uniforme com força.

— Não, você não vai. Porra, eu deveria ter ficado calado. Não consigo entender como posso falar tanto sobre coisas que quero guardar pra mim quando estou com você.

Eu ouvia. Parte de mim gostava de escutar aquilo tudo. A outra parte queimava com raiva. Queimava com ódio. Queimava com tudo de ruim do mundo. Nessa parte, Mia aparecia chorando porque tinha perdido o pai e achava que ele tinha desistido dela, da vida.

Essa imaginação ficava repassando na minha mente, inflando tudo o que eu sentia, potencializando toda aquela maluquice que ocorria dentro da minha cabeça perturbada e problemática.

Nunca antes eu havia sentido tanta coisa ruim por uma única pessoa. Eu queria trucidar, espancar, torturar aquele desgraçado. Graças à terapia e a minha força de vontade que consegui manter a razão e não ficar piradinho.

Suspirei várias vezes, contando até carneirinhos na minha mente.

— Tu faz isso comigo também – Falei depois de um tempo, enfiando meu rosto em seu pescoço e sentindo o cheiro do meu shampoo e sabonete nele – E ‘tá tudo bem. Sabe por quê?

Ele se remexeu, querendo sair daquela posição. Parecia que fazia força para permanecer sempre tão arredio e não quebrar o personagem.

— Não estou interessado – Disse como se soubesse o que eu ia falar e não quisesse ouvir.

Eu não me importava. Queria falar mesmo assim.

— Eu sei que tu sabe o que vou dizer agora – Empurrei seu corpo para que ficasse com as costas contra o banco em que estava.

Ainda estávamos abraçados naquela posição estranha. Levantei um pouco e apoiei minhas mãos no banco para que pudesse olhar direito dentro dos seus olhos. Queria que ele pudesse ver o quanto eu estava sério por mais que pudesse parecer uma loucura masoquista.

— Não fala nada – Ele quase suplicou enquanto me olhava meio assustado.

— ‘Tá tudo bem, sabe por quê? – Repeti enquanto sorria de leve e sentia muita coisa explodindo dentro do meu peito – Porque eu estou realmente me apaixonando por tu, prego.

Notas finais
Muito obrigado, galerinha, por terem chegado até aqui. Fico muito feliz mesmo!!!