Oasis

25 Extra: In-Re:volução


Notas iniciais
NÃO MORRI NEM DESISTI DA FIC!!!!! Oi, galerinha, haha! Tudo bem com vocês? Eu sei que tenho que pedir desculpas pra cada um de vocês! Eu sumi, né? Mas é que esse tempo foi péssimo, tipo, catastrófico. Fiquei doente duas vezes, tive provas, trabalhos enormes pra fazer, simulados do Enem e todas essas porcarias aí. Ainda teve um tempo que não consegui parar em casa, então foi super difícil de trazer um capítulo pra vocês. Alguns aqui vão ficar com raiva porque depois de TANTO tempo eu volto com um extra que não tem porra nenhuma a ver com a história, mas tenho que pedir desculpas de novo, haha. Eu comecei esse extra quando estava estudando Revolução Industrial e achei que, como eu tô devendo vocês, era bom postá-lo por aqui no lugar de vocês terem que ficar esperando mais uma vida por um capítulo novo. NA VERDADE, SE ALGUÉM CURTIR ISSO DAQUI, EU POSSO ESCREVER MAIS SOBRE ELA. Já que o final é inconclusivo!! Espero que gostem. ATENÇÃO: Se alguém não quiser ler, tudo bem. Não irá interferia na história original. Mas peço que POR FAVOR leiam!! Isso vai me deixar MUITO FELIZ e, mesmo que esteja fodendo de enorme, eu curti muito o que eu escrevi. E isso é SUPER raro! LEIAM GALERINHA! ATENÇÃO 2: Eu estou indo responder todo mundo que comentou, ok? Eu adoro vocês que continuam comigo por aqui. Muito obrigado a todo mundo, viu?

O fim do século XVIII fedia. O céu ali era impregnado pela sujeira fabril. A marginalização era evidente. Naquelas ruelas enviesadas, mesmo em pleno dia, os prostíbulos funcionavam como funcionaria um empório de família no interior. A paisagem era cinza e tudo era em prol do progresso, da urbanização. Os camponeses desterrados estavam nas fábricas. Não trabalhar não era uma opção. Algum tempo atrás, o governo inglês havia lançado nas mãos da população as leis contra a vadiagem. Ninguém poderia ser pego mendigando ou estar desempregado. Não havia uma pessoa que queria ter metade da orelha cortada ou ser enforcado em praça pública.

Porém a remuneração era irrisória. Nem ao menos dava para colocar um prato cheio e farto na mesa. A solução era a família inteira estar trabalhando. Crianças e mulheres não estavam excluídas. Na realidade, eram os preferidos dos burgueses. O salário pago a eles era diminuto. Os homens valiam mais. E ainda tinham que se preocupar, em todo momento, em não serem trocados pela maquinaria.

O impacto ambiental causado só seria tomado em conta no início do século XX. O ar era poluído e os dias ridiculamente cinzas. As condições de vida e de trabalho eram abusivas. A jornada trabalhista variava de dezesseis a dezoito horas por dia. Não havia nenhuma espécie de proteção ao operário. Porém estar desempregado ainda não era uma opção. Pra ninguém.

Só mais tarde as crianças teriam direito a irem pra escola. E isso apenas duas horas por dia. Mas, enquanto isso, o trabalho que elas faziam não era mais leve em comparação a população adulta. Pais vendiam os filhos para os donos dos meios de produção. Muitas vezes anúncios de aluguel infantil saíam nos jornais. A concepção do trabalho tinha mudado. Agora era uma mercadoria.

George tinha, na época, 10 filhos. A esposa havia falecido depois de dar a luz ao último devido à “febre do parto”, Thomas, que tinha oito anos quando foi vendido para um burguês sofisticado da maior cidade do mundo daqueles tempos. Londres ganhava de todos os outros países em questão de população. Um milhão de habitantes. A demografia populacional da Inglaterra tinha dobrado nos últimos anos.

Tudo devido às novas tecnologias que surgiam, principalmente na área da agricultura. Elas proporcionavam melhores condições para o nascimento e uma alimentação mais adequada. A taxa de mortalidade caía lentamente, apesar da iminente questão do lixo a céu aberto e outros fatores que traziam a proliferação de doenças à população. Já muitos morriam por diversas atrocidades.

E apesar do parentesco, George vendeu o filho sem remorsos. Precisava daquele dinheiro e nunca nutriu sentimento algum pelo mais novo. Era a cara da mãe. Isso trazia a si lembranças de um tempo remoto que não voltaria mais. O menino chorou e implorou pelos sentimentos do pai. Nada mudou. Amaldiçoou aquele dia em seu íntimo e jurou, pelo seu Deus na doutrina puritana, que trabalharia mais do que todos e, um dia, sairia daquela vida.

Thomas, franzino, branco leite, cabelos castanhos e intensos olhos azuis, foi pego pela mão por uma mulher que estava na mesma situação que si e, juntos, foram para a casa de produção têxtil mais famosa daquela região. E após passarem por ruas sujas e estreitas, chegou ao local que trabalharia por um bom tempo. Estranhou bastante quando entrou ali. Era fechado, abafado e todos ali pareciam estar definhando a cada segundo. Suas mãos mexiam incansavelmente na spinning jenny e cada um era passivo de machucarem-se seriamente. Ninguém se importava. Precisavam daquilo para o seu sustento.

A criança não sabia como as coisas funcionavam, mas, depois de muito esforço e punições, conseguiu entender o funcionamento daquela invenção. Comia pouco, dormia na fábrica, feria-se sempre e nunca ao menos tinha visto aquele que lhe comprara. Sua vida resumia-se a isso. Nem ao menos sabia o que era divertir-se como “os nobres narizes em pé”, como costumava dizer em pensamento, sabiam. Quando ele era enviado à rua em alguma tarefa, via as mulheres vestidas em vestidos pomposos, cheios de renda, babados e afins, os homens em seus fraques elegantes ou até mesmo o chá das cinco em xícaras e pires que valiam mais que sua vida.

Sempre se pegava avaliando suas vestimentas esfarrapadas e menores que seu próprio corpo. E sentia inveja. Mas também se sentia revigorado em seu objetivo. Um dia, um dia sim, poderia ter sua liberdade. Quem sabe não fosse logo. Mas não foi. Aos dezessete anos, já não sabia como tinha durado tanto. Era um de poucos. A estimativa de vida dentro das fábricas não era muito satisfatória. O trabalho era exaustivo e sentia que não duraria muito mais. Lembrava-se dos irmãos e lembrava-se que nunca mais os veria.

Sempre indagava a si mesmo se eles sentiam sua falta. Muito provavelmente que não. Talvez estivessem na mesma situação ou talvez não tivessem nem tempo para pensar em si. Não sabia como ele mesmo tinha esse tempo. Eram nove anos de fábrica e já havia visto tantos morrerem. Thomas nem ao menos sabia seus nomes. Era difícil terem uma conversa naquele lugar. A coisa que mais ouvia, mesmo em seus sonhos, era o barulho da máquina de tear. O constante barulho de fios caros sendo tecidos para serem vendidos para pessoas com capital avantajado. Capital esse que apenas fazia enriquecer o dono daquele lugar. Os operários não viam esse dinheiro nem no seu mais íntimo.

Aquele dia em especial, foi quando ele percebeu. Thomas, dezessete anos, pequeno, mal cuidado, pele e mãos maltratadas pelos anos de esforço, cabelos empoeirados e ressecados, não tinha um futuro. O seu presente acabaria ali. Naquele espaço imundo. E não teria ao menos alguém para enterra-lo. Na verdade, não poderia se importar menos. Há muito havia deixado de acreditar em Deus e em vida pós-morte. E, se acreditasse, saberia que não teria salvação. Na religião puritana, trabalhar e enriquecer eram as chaves para ser salvo. Esse não era seu caso.

E talvez nunca fosse o seu caso. Talvez nunca mais se lembrasse em como era dormir em uma cama e em como era ter alguém cuidando de si. Talvez tudo o que conheceria era a vida dentro de uma fábrica velha e empoeirada. Só mais uma que contribuiria para o desenvolvimento de uma revolução.

Revolução. Quando será que havia se tornado uma involução?

Enquanto uma parte da cidade era carregada por pessoas lutando para poder conseguir passar mais um dia sem ter que passar fome, a outra parte lutava pelo status, lutava por estar cada dia mais abastado. Era nesse meio social que Nathan tinha nascido. Nascido, criado e moldado. Desde criança, aprendera a tocar piano e violino, a vestir-se adequadamente, a portar-se como um cavalheiro. Desde sempre, era obrigado a conviver com a ideia de que teria que suceder o pai nos negócios.

Aos 19 anos, achava-se pronto pra conhecer aquilo que herdaria. Porém não era do gosto do pai a ideia absurda do filho de querer visitar a fábrica que mais rendia no orçamento da família. Primeiramente, não havia necessidade da proposta. Nem ele mesmo, o dono, costumava ir naquele local. E, de acordo consigo, Nathan ainda era muito ingênuo. Tinha medo do que se passaria na cabeça daquele jovem se visualizasse os negócios como eles realmente eram. Ainda não tinha maldade, ou qualquer tipo de sentimento que vem junto com a sociedade, dentro da mente do garoto. Isso para Richard era uma fraqueza. Fraqueza essa que ele pretendia arruinar.

E, devido sua personalidade forte e autoritária, provavelmente conseguiria. Não era um homem tolerante. Gostava das coisas do seu jeito e sempre as conseguia. Com sua mulher não fora diferente. Estava sempre a mercê das vontades do marido, mas, mais do que as outras, tinha seu instinto de mãe intacto.

No dia em que Thomas descobriu seu futuro, Nate, como era chamado por sua irmã menor, tocava “Minueto” em G maior no piano da sala de estar da sua casa. Ali era amplo e havia a indispensável lareira queimando a lenha incessantemente. Fazia frio naquele horário e o jovem mexia os dedos com graciosidade. Seu pai estava sentado no sofá enquanto escutava e procurava um erro se quer nas notas tocadas. A música do alemão J.S. Bach ia passando e todas as notas estavam em seu lugar. O sorriso orgulhoso era estampado na face dos dois junto com os olhos fechados para apreciarem com maior precisão.

Após a finalização, palmas foram ecoando por todo o ambiente. Nathan sorriu e coçou as covinhas que se formavam quando fazia tal ato. Virou-se para encarar o pai e passou as mãos pelo cabelo loiro fino. Sua decisão estava tomada. Era ali que teria a chance de, finalmente, conseguir o que queria. Seu responsável estava emocionado e feliz. Era agora ou nunca. Sabia que nunca teria a chance de trabalhar com o que realmente gostaria, mas, pelo menos, queria ter o gosto de conhecer o que, logo, seria seu.

— Se o senhor, meu pai, me permitisse... – Começou a falar, mas parou quando o outro colocou o dedo indicador em seus próprios lábios. Queria silêncio e, pelos anos de convívio, seria respeitado.

— Maravilhoso, Nathan. Nada menos do que o esperado de um filho meu – Sorriu – Pretendes acompanhar tua irmã? Ela e teu violino no concerto de hoje.

— Se for o que desejares.

— E eu o faço.

— Então irei – Levantou-se de onde estava sentado e começou a mexer com as mãos em nervosismo – Se o senhor permitir, eu gostaria de visitar a fábrica à tarde.

— Já discutimos esse assunto.

— Poderíamos voltar a colocá-lo em discussão. Como administrarei algo sem ao menos conhecê-lo?

— Não é absolutamente necessário.

— É pra mim – Encheu-se de coragem – Vives dizendo que preciso conhecer como é o mundo. A hora é essa.

O homem olhou para suas mãos e pensou. Essa poderia ser a oportunidade de ensinar ao filho uma lição. Não queria um jovem, mas sim um adulto decidido e que soubesse obedecer a ordens. Por mais que tivesse que se afastar do trabalho quando o tempo chegasse, ainda queria ter tudo em suas mãos. O poder que tanto pisara em cima de outros para ter. Queria ver seu filho mudado. Alguém sem emoções como si mesmo. Alguém que não hesitasse em fazer o que deveria, mesmo que isso implicasse em prejudicar outras pessoas. O mundo dos negócios era assim ao final de tudo.

— Então está decidido. Quero vê-lo de volta a tempo do concerto.

— Te agradeço, meu pai – Ajoelhou-se e beijou a mão dele, com um sorriso enorme.

— Nathan, espero que não tente fazer nada que não estejas ao teu alcance.

E ele entendeu. Sabia que o pai não queria mudanças, principalmente se viesse de si. Sabia que Richard achava-o um fraco. Um fraco por ter compaixão. Por ter um coração que se sensibilizasse pela causa das outras pessoas. Porém sabia que a vida era gentil. Sempre havia sido consigo e porque não retribuir essa gentileza quando alguém precisasse?

Sua visão de mundo era uma utopia. Tudo que vivia até ali era uma mentira. Uma mentira que estava tão descascada, que a verdade estava próxima da superfície. Mal sabia o mais velho que o filho mudaria. Só não sairia como o previsto.

O loiro suspirou e levantou-se do chão. Arrumou as vestes e foi ao seu quarto estudar a partitura que continha as músicas que tocaria naquela noite. Ficou deitado ali até perceber que já seria a hora de ir. Não saber que horas eram constantemente era um problema. Rezava para que o governo inglês construísse algo que facilitasse a contagem. Porém a solução só apareceria no século seguinte. O perceber de que havia ficado muito tempo trancado levou-o a colocar-se em seus pés e ir chamar uma carruagem para si. Quando a mesma chegou, falou aonde queria ir e sentou-se confortavelmente nos bancos enquanto olhava a paisagem pela janela.

Nada fora do comum fora visto. Tudo estava no mesmo tom de cinza, retirando os vestidos espalhafatosos das moças. Algo que ele nunca gostou muito, particularmente. Algo simples era de aceito de bom grado por si. Sempre achou que sua personalidade não combinava com seu status social. E tinha medo de tornar-se igual a qualquer outro que andava pelos estabelecimentos mais importantes de Londres. Também tinha medo de que essa mudança não fosse uma escolha sua, mas uma escolha de terceiros. Como todo o resto das coisas que aconteciam em sua vida.

Ao chegar à frente do seu destino, tossiu. O ar ali parecia mais denso, mais poluído. Rastros esfumaçados de um tom negro saíam das diversas chaminés no topo das fábricas. Respirou fundo e ouviu o barulho do seu sapato ecoando pelo chão enquanto dirigia-se a porta do local. Nem podia imaginar como era lá dentro, mas estava curioso demais para hesitar. Colocou a mão enluvada na porta e empurrou-a. Quando prestou atenção no que estava a sua frente, chegou à conclusão de que, definitivamente, não poderia ter imaginado.

Era abafado. Tentava distinguir se era abafado por causa do lugar fechado ou se era assim porque sentia seu mundo desabar. Nunca iria imaginar que os operários de seu pai trabalhavam naquelas condições. Todos eles pareciam exaustos e tinha até crianças lá dentro, que era imundo. Faziam tudo em um ritmo frenético e tinha alguns que recebiam punições. Ali fora a primeira vez na vida que sentira o cheiro de sangue.

Seus pés adiantaram o movimento antes mesmo que pensasse se deveria ou não entrar. Quando percebeu, já estava na metade do caminho e queria sair dali desesperadamente. Era um ambiente tão depressivo que o sufocava. Porém olhava cada detalhe, cada pedacinho. Em uma das máquinas, tinha uma mulher. Já devia ter seus trinta anos, mas continuava a mexer seus dedos vermelhos e feridos, mesmo desviando seu olhar para algum outro lugar constantemente.

Seguiu o movimento e franziu as sobrancelhas. Ela olhava para um menino que não estava muito longe dele. Era pequeno, mas não parecia jovem. Seu rosto parecia mais velho do que realmente deveria ser e estava cansado. Parecia tão doente que surpreendia os olhos de quem era de fora. Continuava trabalhando, mas seus olhos azuis estavam desfocados. O primeiro pensamento que cruzou sua mente foi o porquê dele não ter ficado em casa, se estava tão mal. Porém apenas sorriu amargamente e percebeu que, realmente, sua personalidade era ingênua demais.

Sabia agora. Sabia que a partir dali nunca mais seria aquele Nathan de minutos atrás. A sua vida na nobreza era apenas um conto de fadas em um universo paralelo a realidade.

E, realmente, Helen olhava para Thomas, o qual ela tinha tomado para si como seu próprio filho, freneticamente. Conhecia-o há exatamente nove anos e sabia que tinha algo errado com o garoto. Era incrível que ambos tivessem sobrevivido tanto tempo naquela rotina e, vendo como o menino estava destruído, julgava estar no mesmo estado. Lutava com seu interior, pensando se deveria ou não ir até o garoto e ajudá-lo. E fá-lo-ia, se não tivesse visto aquele senhor entrando com roupas caras e uma pose de burguês. Não precisava ser muito inteligente para deduzir sua importância.

O modo como aquele loiro olhava-a perdidamente e seguia seu olhar em direção ao moreno doente não a deixava menos apreensiva. Viu claramente quando seu menino pareceu ficar tonto e deixou sua mão deslizar para dentro da máquina que trabalhava. O próximo som a ser ouvido foi um grito agudo e estridente que tinha som de morte.

Quando Thomas havia acordado aquele dia, percebeu que tinha algo de errado. Levara um esforço incomum para levantar-se e sentia-se mais cansado do que normalmente sentiria. A tontura estava presente em todo momento, mas teria que fazer o que lhe era estipulado. Pensara se seu momento de falecer já tinha chegado e, por isso, entendeu que não teria um futuro. Por mais que lutasse, continuaria sendo um escravo. Alguém vendido pela família. Isso nunca poderia ser apagado.

O tempo passava e a fraqueza que sentia por todo o corpo apenas aumentava com os movimentos repetitivos que fazia. A entrada de Nate ali apenas fez com que ele sorrisse amargamente. Provavelmente aquele “riquinho metido” não aguentaria um dia no seu lugar. Era humano e era egoísta. Preferia que o outro estivesse em seu lugar. Todo o sentimento de compaixão e toda aquela “porcaria que o tornava humano” havia ido embora junto com os anos perdidos naquele maldito lugar. Thomas não era o mocinho. Não era aquele personagem de romances britânicos que vendiam junto com os jornais. Não era nobre. Ele era real. Vivia na realidade e a realidade não dava espaço pra ser um protagonista do romantismo.

Correspondeu o olhar daquele homem dos fios dourados, mas o mesmo não havia percebido. Parecia tão absorto em pensamentos quanto Thom estava em sua própria dor. Estava sentindo-se tão mal naquele dia. E foi a distração associada a uma súbita tontura, aonde achou que iria “apagar de vez”, que fez com que deixasse seu dedo mindinho ser esmagado por aquele maquinário que o jovem tanto odiava. Viu o sangue escorrendo e gritou.

Não sentia dor. O choque era grande demais. Apenas via o líquido carmesim jorrando exacerbadamente e manchando sua pele branca. Pela primeira vez em anos, sentiu lágrimas quentes descendo pelo seu rosto. Tudo começava a girar. Ouvia os gritos de sua querida Helen, sua mãe, ao longe. Não conseguia mexer, até que tudo ganhou uma coloração negra e nada mais era sentido.

Nate acordou de sua ingenuidade quando ouviu aquele som. Ficou boquiaberto e sem reação. Não sabia o que fazer. Lembrou-se do aviso do seu pai, mas recordou da sua humanidade. Aquele senso de certo e errado que adquiriu sozinho ao longo dos anos e esperava poder passá-lo para sua irmã e para seus futuros filhos. O sangue deixara-o enjoado, mas avançou em direção ao menor.

Sentiu duas mãos puxarem seu fraque, feito a medida por um dos melhores alfaiates de Londres, e reconheceu a mulher que havia observado anteriormente. Sua expressão era de súplica. O menino ferido estava no chão e a moça agarrava-o com tanta força que cogitara que o pano fino fosse rasgar. Olhou-a com reprovação, mas logo suspirou. Esperava para ver o que ela iria dizer.

— O que o senhor irás fazer? – Disse desesperadamente enquanto tentava conter os soluços.

— Pretendo prestar a ajuda que acho correta – Respondeu uma frase que soara com um tom de dúvida.

— Por favor, meu senhor – Sorriu entre as lágrimas – Salve meu menino!

Quis sorrir. Era a cena materna mais bonita que já havia presenciado. Sua mãe nunca se levantaria contra seu pai por si. A submissão parecia estar enraizada em suas veias. Era, sim, uma mãe muito boa, mas não protetora. Teve mais certeza de que aquilo que faria, mesmo que trouxesse problemas com Richard, era o certo a ser feito. Tirou as luvas que usava para colocá-las no bolso, agachou-se no chão e colocou o outro no seu colo desajeitadamente. Nunca havia feito aquilo e esperava que nunca tivesse que fazer. A vida ensinava-lhe que nem tudo saía como queria. Era injusta para muitos e, com certeza, não era perfeita. O que aprenderia naquele dia seria levado consigo para sempre.

Não queria pensar na reação do seu patriarca quando notasse sua roupa suja e manchada de sangue. Era algo pelo qual teria que aguentar. Richard poderia tirar sua inocência daquele jeito tão brutal, mas nunca mais deixaria que ele tentasse tirar de si a única coisa boa que restara de seu convívio com a mais doce empregada que tivera. Que o criara melhor que sua genitora. Seu lado mais humano e bondoso. Aquilo ele não perderia. Não agora que percebera que era algo a ser valorizado. Era óbvio que ficara assustado quando viu seu conto de fadas ruindo, mas tinha tomado sua decisão. Se a vida era um show de horrores pra alguns, Nathan seria aquele amigo sensato que te faz entender que tudo é apenas um show.

Porque negar ajuda se podia ajudar?

Não viraria um monstro como seu pai queria que fosse. Uma parte de si havia morrido, mas o resto estaria a salvo. Bem longe da amargura da sua família individualista.

Com o menor no colo, podia sentir que o mesmo estava fervendo. Saiu daquele lugar em direção à carruagem que ainda o esperava do lado de fora. Quando apareceu naquele estado na frente do condutor, a fim de dizer-lhe que desejava voltar para casa, percebeu o olhar assustado, mas logo repreensivo do mesmo. Não se apegou àquilo. Entrou dentro do veículo e, enquanto rezava pelo bem-estar de ambos, notava com curiosidade todos os detalhes daquele garoto. Algo que pareceu divertir-lhe, levando em conta que sequer percebeu quando parou em frente à mansão que morava. Suspirou e sorriu. Richard não estaria em casa naquele horário, assim teria uma preocupação a menos. Desceu e, divagando mentalmente, chegou ao seu quarto. Não costumava prestar atenção em segundos planos quando estava concentrado.

Sem importar-se, colocou quem segurava na sua própria cama e foi procurar pela irmã. Ela, com certeza, deveria tomar nota do assunto. Poderia ajudar-lhe a encontrar um médico que não fosse o da família. Não queria que o mesmo retratasse o caso para seu genitor. Sabia que iria encontrar-lhe no jardim, ao julgar pelas preferências da irmã. Provavelmente treinava a música que tocariam, assim como si mesmo fizera mais cedo. Viu a menina, dois anos mais nova que si, sentada em um banco enquanto afinava seu instrumento. O longo cabelo loiro liso descia pelas costas e balançava a cada lufada de vento. O vestido rosa claro era bordado em babados brancos.

— Jasmine – Chamou por ela, ganhando sua atenção de imediato.

— Nathan – Sorriu – Já pensava que tivesses fugido dos cuidados do nosso pai.

— E porque fez tal suposição? – Devolveu o sorriso enquanto sentava-se do lado da irmã. Quase se esquecia do motivo pelo qual fora procurá-la.

— Não te vi desde cedo, irmão.

Com isso, recordou-se que estava com pressa.

— Realizei meu sonho hoje.

— O qu...

— Não fale nada. Preciso da tua ajuda. Vá buscar um médico de confiança – Disse no tom mais sério que conseguia. Olhou no fundo dos olhos verdes e percebeu que ela havia entendido seu pedido.

— Tu és insano, meu irmão – Riu – É por esse fato que te amo mais – Deu-lhe um beijo nas maçãs do rosto, segurou as pontas do vestido e saiu a correr em direção a casa.

Suspirou e seguiu o mesmo caminho que a moça. Foi até a cozinha, buscou um pano molhado e subiu as escadas que o levava ao seu quarto. Talvez o frio que estava aquele artefato diminuísse a temperatura elevada daquele que repousava em sua cama. Quando entrou no cômodo, sentou-se na poltrona ao lado do seu dossel e arrumou o que tinha trazido na testa do outro. Olhou para o dedo esmagado manchando sua cama de sangue e não tinha alguma pista do que fazer. A porta sendo aberta trouxe a si a lembrança de que não estava sozinho em casa.

Jasmine mal havia entrado e arregalava os olhos pela visão. Um menino moreno estava deitado e ensanguentado na cama de seu irmão mais velho. Como o conhecia tão bem, sabia que ele estava fazendo algo que não deveria. Ajudando alguém que não teria condições. Seu pai ficaria furioso. Porém isso só deixava-a mais animada com a situação. Ao crescer as sombras do irmão, aderiu uma personalidade forte que ninguém conseguia dominar. Os dois eram uma combinação explosiva, como pensava Richard.

— Nate, estou adepta a explicações – Sentou-se na beira da cama para analisar o desacordado.

— O pai concordou em me liberar para ir à fábrica.

— Essa é uma novidade – Riu.

— Pois sim. Encontrei esse rapaz lá dentro. Parecia muito doente e acabou decepando seu dedo em uma das máquinas.

A menina olhou para o machucado e sentiu o cheiro carregado do ar, mas todos os fatores não pareciam afetar-lhe a felicidade de desafiar o pai. Havia chamado um médico que era seu amigo de anos, vizinho da casa onde moravam. Sempre tivera uma paixão platônica por ele, mas o mesmo não parecia perceber. Isaac era um homem bom e gentil, apaixonado pela profissão. Era três anos mais velho que Nathan e foram bons colegas de infância. O patriarca da família desgostava do médico e havia proibido o filho de tê-lo como parte do seu círculo de amizades. Assim, havia algum tempo desde a última vez que conversaram.

— Abordando esse assunto, como foi lá dentro?

— Muito pior do que poderia imaginar. Quem chamou para nos prestar serviço?

— Isaac – Enrolou uma mecha do cabelo nos dedos.

— E ele é doutor?

— Claro, meu irmão. Onde viveu todo esse tempo?

— O pai impede que notícias dele cheguem a mim.

— Pois o homem deve estar quase aqui – Disse após fazer uma cara de desgosto pela afirmação soltada pelo irmão. Assim que terminou de falar, ouviu um bater advindo da porta.

— Boca santa, minha irmã – Nathan sorriu.

— Posso entrar? – Era a voz do médico.

— Que entre! – Falou Jasmine com animação.

O acastanhado abriu a porta, adentrando o aposento. Era alto e tinha uma pinta amarronzada perto do nariz, na maçã do rosto. A menina achava aquele detalhe um charme sem igual. Qualquer um poderia perceber a preocupação dele quando visualizou seu novo paciente. Nate levantou e cumprimentou o amigo. Estava feliz pela presença do mesmo e sabia que o outro se encontrava no mesmo estado.

— Como foi acontecer? – Perguntou com a voz grave enquanto analisava o ferimento mais preocupante.

— Umas das máquinas da fábrica.

— E o estado dele? Anteriormente?

— Não possuo informação. Apenas me compadeci pela situação.

— Como sempre – Sorriu com o vislumbre de que seu amigo continuava o mesmo, mas logo fechou a expressão – Peço a licença dos senhores, mas não acho que seria dos teus gostos ver o tratamento.

— Como assim, Isa? – Indagaram os dois irmãos ao mesmo tempo.

— Vou ter que remover o dedo dele. É o único jeito – Coçou a cabeça. Não era algo bom de falar.

Nathan fechou a cara o máximo que pôde. Sentia-se compadecido pela situação do doente. Não quis ficar ali e ver a cena. Puxou a irmã pela mão e saiu do cômodo, indo repousar e relaxar a cabeça na sala. Sentou-se no sofá e, enquanto esperava nervosamente, pegou as luvas no bolso. Suas mãos estavam congelando. Levantou-se, ligou a lareira, voltou para o móvel acolchoado e nada de Isaac dizer que dera tudo certo. Estava nervoso pelo fato de que se sentia preocupado e responsável. Querendo ou não, o seu pai era o dono daquele lugar.

Jasmine olhava-o com curiosidade. Nunca tivera a oportunidade de ver o irmão tão nervoso quanto agora. Porém ambos nunca tinham passado por uma situação semelhante a que se encontravam. Quanto mais o tempo passava, mais via o outro quase se descabelar enquanto andava em elipses pela sala. Isaac demorou um longo tempo para ser visto descendo as escadas que levavam ao piso inferior da casa. Nate respirou fundo e sentou-se novamente para receber as notícias.

— Como foi? – A moça foi a primeira a perguntar. Também não conseguia manter-se calma. Era muito preocupada com o bem-estar dos outros e, por algum motivo, já havia se afeiçoado por aquele homem em especifico.

— Consegui fazer o necessário no que se relaciona ao dedo, mas desconheço o que ele possui – Fez uma expressão derrotada – Tem febre, está macérrimo, entre outros fatores preocupantes. Acho que a única solução é aguardar seu despertar.

— Tudo bem – O herdeiro sorriu amargo – Tenho pura certeza de que tu fizeste o possível, meu caro amigo. Estou muito agraciado pela sua ajuda.

Apesar de tudo, sabia que o velho compadre tinha dado o seu melhor naquilo. Sempre amara cuidar dos outros e ficava contente em saber que aquilo a sociedade não havia corrompido.

— Sinto-me abençoado pela confiança – Retribuiu o sorriso – Mas sinto em dizer que tenho que me retirar.

— Ah! Mas levo-te até a porta – A mulher levantou-se e estendeu o braço para que o cavalheiro pudesse pegá-lo. Piscou para o irmão e saiu pela porta.

O homem não pôde deixar de sentir-se animado pelas travessuras da outra. Passou a mão pelos fios claros e subiu as escadas pela vigésima vez naquele curto espaço de tempo. Pensava quando o inusitado hóspede iria acordar e via-se desejando que fosse logo. Tinha algumas perguntas e queria respostas imediatas para as mesmas. Sua dúvida principal foi esclarecida no momento em que abriu calmamente a porta do quarto e visualizou pequenos olhos azuis analisando o local.

Dor. Foi isso que Thomas sentiu quando se remexeu e sentiu seu corpo acordar. Antes mesmo de abrir os olhos, percebeu que não estava no lugar de costume. Sabia disso, pois estava deitado em algo deveras confortável. Não entendia o que havia acontecido. Em um momento estava na fábrica após acordar em um dia muito ruim, em outro estava abrindo suas pálpebras e dando visão a um local totalmente sofisticado. Nunca havia visto uma cama que tivesse um teto. Muito menos repousado seu corpo em um acolchoado tão macio como aquele.

Foi passar as mãos no rosto, mas, quando abaixou seu olhar para as mesmas, assustou-se. Identificou de onde vinha tanta dor. Uma expressão apavorada escureceu suas feições e, pela segunda vez naquele dia, sentiu uma incontestável vontade de chorar. Sua mão esquerda estava enfaixada com um pano bem apertado e uma mancha vermelha tomava conta de onde deveria estar seu dedo mindinho. Conseguiu mexer brevemente todos os dedos, mas não o último. Sabia. Além de escravo, era aleijado. O valor que era agregado a si era menos que nada agora. Seria melhor se tivesse morrido.

Sentiu uma lágrima caindo em sua face dura e inexpressiva, porém ouviu passos fora do quarto que o impedia de ter o luto que deveria pela sua própria vida perdida. Era orgulhoso demais. Não daria aquele gosto, de ver uma cena tão humilhante, para ninguém. Ainda mais para um nobre. Duvidava que as intenções de quem o ajudara fossem boas. A porta enorme de madeira maciça foi aberta e por ela passou o mesmo senhor que havia visto na fábrica antes de tudo escurecer pra si. O mesmo, vestido em um fraque que lembrava muito bem ter tecido especialmente a pedido do dono daquele inferno, olhava-o com uma expressão que não sabia interpretar.

Nathan viu o olhar duro do menino que parecia mais doentio do que anteriormente. Pensara que não era aquilo que tinha imaginado. Aquela expressão não combinava com aquele rosto. Estranhou e pôde deixar transparecer sua confusão. Decidiu chegar mais perto, sentando-se na poltrona que tinha usufruído momentos antes. Visualizou a mão do garoto e sentiu dor por ele. Recordou-se da mãe do mesmo, aquela que, mesmo correndo o risco de sofrer alguma punição, viera pedir socorro a si. Ela ficaria derrotada. Era assim que julgava. Ainda existiam pessoas que se importavam naquele mundo.

Thomas não soube o que pensar quando viu o outro chegando mais perto. Sentiu no seu íntimo um instinto para afastar-se. Queria sumir da vista daquele “riquinho” que vestia o seu trabalho e esnobava sua falta de infância. Além disso, já havia levado muita dor na vida. Sentia-se cheio de marcas, dolorido e acabado, enquanto aquele outro era forte, tinha boa pele, cabelos loiros sedosos e era tão bonito que as moças deviam jogar-se aos seus pés. Porém apenas continuou sem esboçar nenhuma reação. Sua curiosidade levava-o a quase iniciar um diálogo, mas, mais uma vez, seu firme orgulho impedia-o.

— Se permite a minha pessoa perguntar – Nate tentou iniciar uma conversa. Estava nervoso – Qual será teu nome?

— Estou agradecido pela tua ajuda, senhor, mas, se me permite, vou-me embora. O senhor não necessita do meu nome – E tentou levantar-se. Não sabia o que faria a partir dali. Talvez acabasse morto de fome ou algo relacionado à exaustão de seu corpo em algum beco sujo de Londres, mas queria estar longe dali. Também se odiava mortalmente pela cortesia com o outro, mas era o procedimento.

Não teve forças para colocar-se sentado. Não teria jeito. Seu fim era aquele mesmo.

— Tens razão – Sorriu, arrancando uma feição ainda pior do moreno – Mas é do meu desejo saber.

— Perdão pela grosseria, mas não é de meu interesse os seus desejos.

— Qual teu nome? – Foi firme na indagação, mas sorriu novamente. Não entendia porque gostava daquela situação. Porém não daria brechas para aquele pedacinho de areia escoar por entre seus dedos.

— Thomas, senhor.

— E trabalhas há muito tempo na fábrica de meu pai?

O acastanhado logo pensou que o odiava mais por ter ligação com aquele tártaro. Porém, sendo nessas circunstâncias, calculou que seria mais benéfico para si responder as perguntas. Se o pai dele era o dono e deixava as coisas continuarem naquele estado, aquele homem poderia ser igual ou pior.

— Desde os oito anos – Não deixou de transparecer a dor que sentia. Estava difícil controlar.

O loiro assustou-se. Nunca havia trabalhado em sua vida. Sempre tivera terceiros que faziam isso por si. Já aquele menino estava fazendo aquilo desde criança. Apostava que ele nem ao menos reconhecia como deveria ser uma infância digna, a julgar pelo local onde o encontrara. Percebeu que a postura do outro mudara quando dissera que o estabelecimento era de seu pai. Começava a ter uma pontada de malícia. Tinha medo de que seu pai houvesse feito algo com ele.

— E tens quanto agora?

— Dezessete.

— Pois sim – Agora entendia o estado derrotado e doentio que o mesmo estava – Sou Nathan.

— Nate, ele já acor... – Jasmine entrou de supetão dentro do quarto e parou de falar quando viu o paciente de sua paixão acordado e conversando. Porém só aparentava estar pior.

— Veja por si mesma, minha irmã – Sorriu – Quiçá não esteja sonhando apenas.

— Deixe-lhe aura de bobo – Deu uma risada nasalada. Sua irmã era uma graça.

— Chegue aqui – E ela o fez – Esse é Thomas. Trabalha para nós desde muito tempo.

— Encantada – E estava realmente. Apesar de que o outro não acreditava. Eles estavam sendo bons demais. Algo estava errado naquele cenário. A loira deu-lhe um beijo na bochecha suja e sorriu mais.

— Agora lhe providencie uma sopa bem farta, Jas – Pediu-lhe com carinho excessivo.

— Conte com meus dotes, irmão – Pegou na mão boa de Thom, sorriu e, novamente, pegou nas pontas do vestido para correr em direção ao andar inferior.

O acastanhado ao menos falou algo. Apenas sentiu-se intimidado pela presença feminina. Nunca tivera tanta atenção dirigida a si e a outra sorria verdadeiramente. Nunca havia visto uma moça da corte como aquela. Muito menos alguma havia lhe tratado tão bem.

— Não pretendo arruinar teu dia. Posso me ir. Não desejo nessa vida tuas provisões – Disse quando sentiu a ausência da mulher.

— Perdão pela minha grosseria, mas não é de meu interesse os teus desejos – E Nate sorriu por ter tido a chance de usar a frase contra quem a tinha criado.

O sorriso daquele homem incomodava a alma do escravo. Era, depois do carinho de Helen, a coisa mais sincera que já havia presenciado naquela passagem pela Terra. Odiava como ele podia fazer isso tão facilmente. Odiava saber como a vida daquele Nathan havia sido tão fácil e a sua tão ridiculamente dura. Sentia uma pontada de inveja por ele ter crescido e convivido com a irmã. Sentia falta dos seus. Em especial do segundo mais novo da família, Dilan, pois esse sempre o protegera e era como se a diferença de apenas um ano não existisse.

Nate sabia que o moreno não contava com outra opção a não ser aquela. Logo si mesmo teria que se resolver com seu patriarca, mas, por enquanto, queria fazer o possível para apaziguar a dor que sabia que o outro sentia. Não era tão cego a ponto de não ver a tentativa de esconder as caretas de dor. Tentava, mas nem ao menos conseguia imaginar o quanto seria horrível o que ele estava passando. Percebeu, então, que o dia havia esfriado. De acordo com isso, foi até um dos seus baús e retirou de lá uma manta felpuda, sua preferida, e jogou por cima do corpo do garoto para que pudesse esquentar-se melhor. Viu a expressão confusa que ele não conseguiu esconder e sorriu internamente. Sabia que estava fazendo algo de bom por alguém. Pela primeira vez.

Logo depois, saiu do cômodo e foi ter com sua irmã para saber como estava o andamento do alimento que havia pedido. Porém, quando descia as escadas, escutou a voz alterada de Richard. Pensara que alguém tivesse contado, mas viu a mancha de sangue no tapete assim que entrara na sala. Com certeza, seu pai havia deduzido o que estava acontecendo ali. O homem era velho, mas não havia perdido a sagacidade. Escolheu bem as palavras que usaria contra seu pai e sentou-se no sofá, enxergando claramente a face enfurecida do homem a sua frente.

— O que fez dessa vez?! – Perguntou exaltado.

— Salvei uma parte do capital que o senhor teria perdido – Teria que inventar e jogar com o que ele mais prezava: Dinheiro.

— Como assim? Nathan... – Indagou um pouco mais calmo, usando o nome do filho com tom de ameaça.

— Sente-se aqui, meu pai – Levantou-se, deixou o espaço para o pai ocupar o seu lugar e pediu a uma empregada que trouxesse uma taça de vinho tinto. Prostrou-se em frente ao homem e respirou fundo, assim que a bebida chegou.

— Não me teste, meu filho. Não me teste.

— Hoje recebi tua imprescindível permissão para visitar a fábrica, sim? Pois bem, meu pai. Lá encontrei um menino a deriva da morte. Salvei-o. Sei que meu dever se restringia a pouco, mas pensei que o meu senhor não iria querer perder uma mão de obra nova e importante. Pensei no capital que gastaria para realocar um novo operário e a parte da produção que perderia enquanto isso – Enquanto dizia, percebeu o quanto havia mudado só naquele fatídico dia. Percebeu também a expressão surpresa de seu pai por tudo que havia falado. Mal sabia ele que tudo não passava de uma mentira.

Richard queria gritar de emoção. Sabia que o filho viraria outro com aquela visita, mas não achou que a diferença seria tão notável. Viu como seu menino tinha a mente perfeita para os negócios. Havia subestimado o seu potencial demais. Se ele tivesse pensado tão longe e feito algo bom com esses propósitos, era exatamente o herdeiro que tinha pedido aos céus. E por isso, somente por esse motivo, não repreenderia a atitude do filho. Não ligava para a morte de um dos seus trabalhadores, não queria que fossem salvos, mas estava satisfeito.

— Vejo que calculou tudo muito acertadamente – Sorriu – É assim que um filho meu tem que ser.

— Muito agraciado pelo elogio, meu pai.

— E esse menino? Qual título ele recebe?

— Thomas. É nosso operário desde novo.

— Recordo-me bem, Nathan – Sorriu mais ainda.

— E porque fez questão de reter tão lembrança? – Estranhou. Richard não era o tipo de pessoa que se lembrava dos nomes de quem empregava.

— Foi um dos poucos que comprei – Tomou um gole do vinho, após cheirá-lo – Era bem noviço, mas serviu-me bem.

Nate conteve seus olhos de arregalarem. Seu pai nem ao menos sentia nada ao dizer essas palavras. Achara que o menino trabalhava para algum fim, como sustentar a família, a mãe que também parecia doente. Porém agora percebia que a realidade era bem mais podre. Um responsável que vendera um filho e um empresário que o comprara. Era difícil saber quem era pior. Como poderia ajudar alguém tão marcado pela vida como Thomas?

— Então salvei uma renda importante – Sorriu falsamente, mas seu genitor não parecia perceber. Tinha que jogar de acordo com as regras de seu pai. Caso contrário, perderia. Perderia a chance de fazer a diferença na vida daquele garoto.

Porque coisas ruins assim aconteciam? Não bastava nada disso, ainda tinha que ver o moreno sofrer com a perda do dedo. Pensara o que Deus queria com esses caminhos tortuosos.

— Sim. Agora ele já deve estar em condições. Mande-o de volta – Mandou com a voz grave. Queria mais essa prova, para ter certeza de que seu menino não se estava apegando a ninguém.

Desesperou-se. Pensou e pensou. Tinha que responder rapidamente. Seu pai perceberia e tudo acabaria ali. Pensou mais um pouco e viu uma empregada passando pela sala, tentando limpar a mancha do tapete. Teve uma ideia. Seu pai não poderia negá-la.

— Minha mente traça outros planos – Fez uma pausa.

— Meus ouvidos estão aqui, meu filho – Arqueou as sobrancelhas – Fale-me sobre isso rapidamente, antes que a paciência me perca.

— O menino não trará tantos benefícios nesse ramo de trabalho. Perdeu um dedo e está debilitado. Seria apenas prejuízo. Tenho aqui comigo outra função a qual gostaria de encarregá-lo.

— Não aprovo. Mande-o de volta.

— Meu pai, um dedo a menos irá fazer com que o mesmo perca a eficiência na máquina... – Começou a dizer, mas foi interrompido.

— Então, jogue-o na rua – Bebeu o último gole e disse com simplicidade. Estava testando o seu prodígio – Não me faltará nada com sua morte.

— E todo o capital que investiu no garoto? Perdê-lo assim seria inviável.

— Pois bem – Sorriu. Era isso que queria ouvir – O que fará dele?

— Auxiliará nos meus negócios pessoais. Será de suma importância quando eu tomar minha posição. O senhor bem sabe e faz bom uso do Samuel – Queria sorrir pela sua inteligência contra o seu patriarca. Não só tinha ganhado a sua confiança, como tinha o enganado perfeitamente.

— Se reconheces, meu trabalho é esperar que faça o mesmo bom uso com esse escravo.

— Certamente – Sorriu.

— Agora vá e prepare-se para o concerto.

— Essa noite minha pessoa tocará para o senhor, meu pai, as melhores músicas das melhores.

— Assim minha alma espera.

Quando se virou para ir ao encontro do andar de cima, sorriu abertamente. Sorriso esse que só pôde aumentar ao avistar sua querida irmã espiando-o feliz da entrada da sala. Seu patriarca não a via, uma vez que a posição estratégica do sofá não o favorecia. Passou pela menina, deu-lhe um beijo na mão e quis correr até o moreno adoentado que repousava sobre seu leito. Porém viu sua postura recompondo-se e usou de passos calmos e ritmados para trilhar seu caminho. Continuava sendo um cavalheiro.

Já no corredor, pôde escutar o tilintar dos talheres de prata provenientes dos seus aposentos. Agradeceu mentalmente a uma das únicas mulheres que realmente valia algum tostão em toda a área daquela mansão. Abriu a porta e viu o corpo menor retesando-se e colocando uma postura que nada tinha a ver com a expressão de indiferença que fazia. Sabia que ele se portava bem apenas pelo tipo de situação em que era encontrado.

— Suponho que tenha algo a me dizer – Constatou Thomas ao perceber a expressão de afobamento que o outro não se dava ao trabalho de esconder.

Onde estavam os refinos da corte naquele homem?

— Ah, mas tenho – Sentou-se na beirada do colchão.

— Que comece então – Estava impaciente.

— Seu uso na fábrica não será mais requisitado.

Thom sabia. Era isso. Era um inválido e, provavelmente, seria jogado na rua. Aquela afirmação apenas constatava o fato. Talvez pudesse tentar um lugar junto das “damas de companhia”, mas duvidava que alguma pessoa fosse gastar algum dinheiro em alguém como ele. Teve vontade de suspirar e lamentar novamente pelo destino que lhe era reservado. Porém não era como se não acontecesse o previsto, apenas achara que doeria menos. Não doeu.

Já Nate tinha um difícil momento ao tentar decifrar os pensamentos e emoções daquele garoto. Se ele fosse uma palavra, talvez ainda não tivesse sido inventada. Talvez nem o neologismo pudesse entendê-lo e classificá-lo.

— Queres que eu saia já? – Tentou levantar-se, mas Nathan, confuso, forçou suas mãos contra o peitoral esquelético do outro.

— Não consegues me compreender? Não trabalharás mais na fábrica. Trabalharás pra mim.

Escutou aquela frase e demorou a entender o que ela significava. Demorou a entender que não pisaria mais naquele inferno. Demorou a poder agradecer, mesmo que mentalmente, pela primeira vez desde muito tempo. Sentiu-se como se uma nova chance estivesse ali, brilhando pra ele. Porém não podia ter esperanças. Sabia como esse sentimento era perigoso. Entre todos, era um dos mais devastadores e nem sempre era o último a morrer. Pois sentia ira, raiva e tudo que era negativo, mesmo depois de perdê-la.

— Para o senhor? – Perguntou como se estivesse desinteressado.

— Sim – Sorriu – Mandarei trazer a você um fraque. Hoje teremos um concerto muito importante. Tudo terá que correr nos malditos trilhos. Sei que é cedo, mas gostaria da sua assessoria.

Mais uma vez, via-se sem escolha. Thomas sabia que era isso ou nada. Assentiu com a cabeça e voltou a saborear a comida mais saborosa que já havia passado pela sua boca. O loiro ainda olhou-o comendo por alguns segundos, perguntando-se pela milésima vez como o mundo poderia ser cruel. A seu ver, como uma comida simples daquela poderia ser tão valorizada? Agora percebia como tinha tanto enquanto outros não tinham nada.

Saiu dali para aprontar-se para o que estava chegando. Chamou as empregadas e pediu-lhes que dessem banho, o tal fraque e tudo que poderia pensar naquele momento para o moreno. Treinou o tanto quando pôde, sendo que, dessa vez, o fez juntamente com Jasmine. Essa parecia não caber dentro de si. A felicidade inundava as feições e fazia o homem indagar no seu íntimo se seria apenas devido à chegada de alguém novo na casa.

A noite caía enquanto arrumava a cartola que adornava sua cabeça infestada de fios dourados. Ajeitou a cauda do paletó e pôs-se a relembrar com perfeição todas as notas musicais e todos os ritmos com todas as pausas. Encontrava-se no quarto ao lado do que lhe pertencia, uma vez que gostaria de dar espaço suficiente ao menor para que a confiança pudesse crescer. Sem um espaço adequado, uma planta não cresce. O mesmo acontece com a confiança.

Desceu as escadas, como era de costume em uma noite como aquela. Esperou pela descida dos outros. Richard estava ao seu lado e sorria como nunca. Ainda divagava sobre notas musicais e o que fosse relacionado até visualizar sua bela Jasmine descendo acompanhada do moreno. Thomas até parecia diferente com meias três quartos brancas, uma espécie de calça curta em tom caqui e um paletó negro. Podia constatar agora como ele era um menino bonito, de traços finos e olhos tão intensos. Os cabelos agora pareciam tão macios. Temeu ter ficado tempo demais o fitando.

Olhou ao redor, mas seu pai estava compenetrado na visão de sua irmã. A loira vestia um vestido dourado em um tom sutil, com babados na área do colo. Era cheio e rendado. Os fios claros estavam presos em uma espécie de trança e com um coque. Não sabia definir, mas achava que a outra estava tão bela como nunca. Beijou a mão da irmã quando esta fez um gesto cortês a si e logo a seu pai. Thom fez uma reverência a seu “novo mestre” e limitou-se ao silêncio enquanto prostrava-se atrás do loiro.

Logo a genitora daquela família também desceu ao piso inferior. Vestia-se com um vestido completamente preto e morto. Parecia que denunciava sua ida a um velório. Richard beijou-lhe a mão e deu-lhe o braço para acompanhá-la assim como Nathan o fez com Jas. A menina irradiava felicidade mais uma vez. Antes de vestir-se, passou no quarto do irmão para ver o novo inquilino daquela casa. Não achava errado o mesmo estar usando aquele aposento, mas seu pai poderia achar. Tinha que alertá-lo e sondá-lo. Queria saber de tudo o que devia e o que não devia. Era uma garota que não conseguia abandonar a curiosidade.

— Precisas de algo? – Lembrava-se de perguntar.

— A graciosidade da senhora é deveras. Não se preocupe com minha pessoa – Ela era simpática. O acastanhado pensava isso desde o primeiro momento.

— Não lhe entendo. Porque não hei de me preocupar com o senhor? – Sorriu e sentou-se na beirada da cama.

Senhor. Thomas queria rir daquilo. Nunca havia sido chamado com tanta cortesia. Nem mesmo as pessoas costumavam lembrar seu nome. Porém não se recordava de como seria rir verdadeiramente. Não se lembrava da maravilhosa sensação de sentir o ar voltando aos pulmões depois de uma longe sessão de risadas. Era uma das melhores coisas que aquela vida poderia proporcionar-lhe e aquilo ele também não tinha.

— Sou um escravo, senhora – Olhou para a mão aonde faltava um dedo e reprimiu a careta de dor.

— E isso te diminui?

— De acordo com nossa sociedade.

— Não concordo – Disse convicta. Thom fitou-a com as sobrancelhas franzidas, perguntando-se como aquela menina rica poderia ser daquele jeito se tinha nascido e crescido em berço de ouro – Penso aqui comigo que a dificuldade te deixa mais forte. Não chego a imaginar como é, mas imagino que, para que passes por isso, o senhor precisas ser alguém forte.

E com isso, aquela loira havia acabado de ganhar um amigo. O acastanhado piscou algumas vezes e ficou com vergonha da moça. Virou o rosto que a encarava para o outro lado e mordeu o lábio inferior.

— Agraciado, senhora – Sussurrou, porém ela lhe escutou.

— Essa formalidade toda guarde para o senhor meu pai – Riu – Me chama de Jas, Thom.

O menino ficou sem jeito por ter sido chamado daquela forma. Apenas Dilan chamara-o assim em toda sua vida. Passou a mão pelos cabelos embaraçados e sujos e mordeu a boca novamente. Tudo o que Jasmine conseguia fazer era sorrir daquela peça rara.

— Não estou em privilégio para chamá-la assim, senhorita Jasmine. Seria desrespeito de minha parte – Olhou-a por um segundo.

— Desrespeito só é real se minha pessoa sentires – Sorriu – Meu irmão contou-te as novas?

— Creio eu que sim.

— Não te preocupes – Pegou na mão do outro – Nate é um ótimo homem. Gentil. Sua vida não se comparará mais ao que era antes.

Ela sabia. Sabia como era a vida naqueles infernos. Sabia também que, sendo seu irmão, ele nunca desconfiaria da podridão do mundo. O loiro que era muito bom para conseguir ver o que todos viam, mas ignoravam. Temia que o mundo continuasse assim. Temia que ele piorasse. Temia, mas sabia. Sabia que iria piorar em muitas coisas. Porém tinha fé que melhoraria em outras.

Sorriu ternamente quando se lembrou daquela conversa que continuou a durar depois daquele breve discurso. A moça fitava o assessor de seu irmão discretamente e pensava que, olhando-o agora, o mesmo parecia estar muito melhor. Acreditava fielmente que tinha conseguido a si um novo confidente. Quem sabe não faria tão bem ao seu irmão, quanto o seu irmão fez a ele. Nathan, por outro lado, apenas conseguia pensar em como aquele Thomas estava tão deslumbrante. E isso o incomodava.

Incomodou mais ainda quando chegou ao concerto e nenhuma das mulheres burguesas e lindas que estavam ali chamavam mais a sua atenção do que um simples escravo vestido com roupas de terceira mão. Era insano. Não era normal. Nunca havia visto em lugar algum. Não queria imaginar seu pai sabendo de seu súbito interesse em um escravo. Um homem. Porém não deixava de sentir o seu olhar percorrer a plateia atrás do menino. Concentrou-se no piano e ouviu o violino assim que o condutor começou a mover-se.

A música fluía e entrava suavemente pelos seus ouvidos, mas parecia romântica demais. Abriu os olhos, que nem havia notado ter fechado, e procurou novamente pela face do acastanhado. Viu-o olhando pra si diretamente nos olhos. Sentiu-se inflamado. Sentiu a necessidade de ser melhor. Passou a dedilhar seus dedos com uma suavidade surpreendente. Todo o nervoso havia sumido. Captou o olhar de Jas e sorriu-lhe. A moça parecia surpresa pelo jeito de tocar do irmão ter ficado tão diferente, para melhor, tão subitamente.

O homem sorriu tímido. Um sorriso que demonstrava genuína felicidade.

Thomas não sabia o que estava fazendo ali. Sentia-se deslocado de primeira instância. Nunca havia participado de coisas naquele porte. Nem ao menos havia escutado música em um ambiente apropriado. Apenas havia ouvido notas saindo dos instrumentos de músicos de rua. Porém quando tudo começou, sentiu, pela primeira vez na vida, seu coração disparar e uma sensação boa de leveza preenchê-lo. Quis fechar os olhos e apreciar, mas não o fez. Procurou o loiro que tocava o piano com destreza. Percebeu que ele também lhe olhava e aquilo causava em si alguns sentimentos estranhos que nunca havia sentido. Dava medo.

De repente, o piano começou a soar com tal maestria que até o moreno conseguia distinguir. E aquela tensão nos olhares não se quebrava por nada. Um sorriso tímido nasceu no rosto de Nate e o coração de Thom havia pulado uma batida. Era tão puro. Gracioso. Verdadeiro. Não poderia enumerar as qualidades.

Os últimos acordes finalizaram e todos que assistiam levantaram-se para aplaudir. Nate viu-se cercado de pessoas querendo paparicá-lo, porém apenas queria a atenção de alguém naquele momento. Estendia o pescoço para procura-lo, mas não o achava em um lugar sequer. Sentiu uma moça que conhecia muito bem pegar-lhe a mão e puxá-lo para um lugar mais calmo e secreto daquele teatro. Ouvira o chamado de seu patriarca ao longe, mas a mulher não o deixou mover-se quando jogou seu peso em cima do loiro e abraçou-o.

— Nate, querido – Sorriu.

— Elizabeth – Disse desanimado. Queria encontrar seu assessor. Queria ouvi-lo dar uma resposta mal criada quando perguntasse sobre sua música.

Queria muitas coisas, mas não entendia nenhuma. O que tinha de errado com aquele dia?

— Assim como a rainha – Não tirava o sorriso do rosto.

— O que queres?

— Um pouquinho da tua atenção, senhor – Respondeu charmosa.

— Isto já conseguiu.

— Agraciada – Tentou beijar-lhe, mas passos bem perto dos dois interromperam a cena. Nathan sorriu internamente e agradeceu a Deus. Não sabia como dispensá-la e seu pai não concordaria. Adoraria incorporar com o casamento do filho os dotes daquela moça.

— Perdão – Pediu Thom quando Nate e Elizabeth direcionaram seus olhares a ele.

— E quem és tu?

— Thomas, senhorita.

— Presta-me serviços – Disse o loiro.

— E só? – Olhou-o desconfiada.

— Ciúmes não tem lugar na nossa amizade, Elizabeth – Fez uma careta. Ah! Mas seu pai que não o obrigasse a ter um matrimônio com aquele abismo de vulgaridade. Gostava de coisas simples. Essa era uma qualidade que a moça não possuía.

— Teu pai não concorda que esse seja o termo apropriado para nos definir.

— O que meu pai concorda não se estende a mim – Sorriu-lhe amargo e voltou-se a Thomas com um tom manso – Veio procurar-me?

— Sim, senhor Nathan – Odiava ter que usar da cordialidade com aquele homem, aparentemente, volúvel – A senhorita Jasmine mandou-me avisar-te que teu pai procura-lhe.

— Muito bem – Sorriu para o menor e dirigiu seus olhos de volta a moça – Creio eu ter que me retirar.

— Que fique! – Pegou-lhe na mão e Thomas segurou-se para não revirar seus olhos de maneira mal-educada diante daquela cena – Teu pai não há de se importar.

Com aquele pedido desesperado, o loiro percebeu que algo em si havia mudado. Antes, mesmo não concordando com a insanidade de seu pai, cederia à moça e acabaria novamente com ela em seu colarinho. Porém, agora, seu real e mais íntimo desejo era voltar para teu quarto e trancar-se lá pelo resto da semana juntamente com o moreno. Pensava se assim conseguiria arrancar do mesmo algum sorriso, alguma confissão. Não sabia. Seu desejo era descobrir. Lembrava-se que estava cometendo algum pecado, de acordo com tua igreja, mas, ao olhar para o olhar indiferente de Thomas, não sentia como se o inferno fosse um castigo.

Assustava-se com as milhares de coisas que se passavam por sua mente naquele instante. Coisas que não podia refrear. Coisas que nunca havia pensado antes. Era tudo tão novo. Não se entendia. Não entendia aquelas coisas, mas se via, mais uma vez, querendo todas elas. Colocou uma mão sobre a mão pequena da mulher e apertou-a enquanto forçava um sorriso.

— Terá que me perdoar, Eliza – Soltou-se dela – Todavia, não poderei atender teus desejos hoje.

— Por quê? – Franziu os lábios.

— Muitas coisas esperam a mim para que eu as resolva.

Não quis mais escutar. Sabia como aquela mulher era insistente quando assim desejava. Deu-lhe um beijo na mão como despedida e quase pegou no braço de Thom para acompanha-lo. Lembrou-se que, mesmo pequeno e franzino, o mesmo não era uma moça. Suspirou. Precisava colocar sua mente no lugar correto antes que acontecesse uma tragédia. Só tentava pensar em um modo de livrar-se de Elizabeth sem que despertasse a fúria de seu pai.

Longe da mulher, fitou o seu companheiro com curiosidade. O mesmo fingia que não havia percebido o olhar e continuava a caminhar atrás de Nate enquanto reforçava a liga que prendia seu cabelo. Seus fios castanhos estavam em um comprimento demasiado e precisavam de um corte. Porém o loiro nada gostaria que algo mudasse no outro. Quando avistaram Richard, Nathan disfarçou com o máximo de êxito que podia o descaramento com que analisava o escravo.

— Onde estivestes? – Logo o homem mais velho pôs-se a falar.

— Elizabeth quis roubar-me um pouco a atenção – Passou o braço direito pelos ombros da irmã que, disfarçadamente, encarava Isaac do outro lado do teatro.

— E deu-lhe o necessário?

— Dei o que achei apropriado – Falou sem pensar.

— Não me desafie – Olhou o filho com repreensão – Só falta arranjarmos a data do casório.

— Sabes que não é do meu gosto – Tentou novamente.

— Mas será.

Jasmine sentia o corpo alheio ao seu enrijecer. Sabia muito bem que o irmão preferia morrer sozinho e sem aproveitar das dádivas do matrimônio ao ter que se juntar àquela nobre metida. Nem si mesma conseguia gostar das investidas descaradas que a mesma lançava a seu protetor. Se pudesse, ela mesma escolheria com quem Nathan casar-se-ia. Com certeza acertaria em cheio seus gostos. Quem sabe alguém como o próprio Thomas? Alguém simples e educado.

Todos voltaram para a carruagem depois de prestar os devidos cumprimentos a todos. Cada um trancara-se em seus problemas e a viagem de volta foi a mais silenciosa o possível. Richard comentara o como esplêndido havia sido a orquestra, mas não havia passado disso. Claro que seu filho mais velho ficara emocionado por ter sido reconhecido, porém sentia o mal humor tomar-lhe conta por causa do assunto “casamento” ter surgido nas conversas que tivera durante o dia. Dentre todas as coisas, essa era a que mais detestava.

Assim que chegaram ao seu destino, Nathan logo tratou de pedir para a governanta que lhe providenciasse algo para alimentar-se juntamente com Thomas. O pai havia dito que se iria recolher aos seus aposentos com sua mãe, que nada havia comentado em todo aquele tempo. Assim que Richard sumiu da sua vista, pegou a mão boa do acastanhado em um gesto automático, deu um beijo na testa alva da irmã e subiu para o seu quarto. Sentia-se como quando pequeno e havia ganhado seu primeiro piano. Não conseguia aguentar a euforia em desvendá-lo. O mesmo acontecia em relação ao escravo. Sentou-se na cama e apressou-se a retirar os sapatos.

— É de tua preferência que eu me retire para os aposentos dos servos, senhor? – Perguntou o mais jovem.

— Nem por um momento – Retirou as meias – Tu já se encontras em teus aposentos, Thomas.

Thom sentiu-se estranho pelo modo como aquele homem chamava teu nome. Sua voz saía grave e mais rouca do que era o usual. Convencia-se de que odiava aquele loiro com todas as suas forças. Não entendia que tipo de senhor determinava que seu escravo tivesse que dormir em seu próprio quarto. Não fazia sentido. Não fazia sentido nenhum dentro dos padrões daquela sociedade. Ignorava a dor que sentia na mão, a bondade do outro e confinava-se em si mesmo. Por isso, a primeira reação que tivera fora fechar mais ainda o semblante.

— Isso não é o correto – Respondeu.

— Isso será o nosso pequeno segredo então – Sorriu enquanto desamarrava lentamente a gravata que o incomodava tanto.

— Não estou apto a aderir ideias que vão contra a vontade de teu pai – Estava constrangido com a situação.

— A posse que ele mantinha sobre você foi passada a mim – Deitou seu torso na cama antes de tirar o resto das roupas – A decisão cabe a mim.

— Se assim o senhor queres – Suspirou no tom mais baixo que pôde.

— Pode começar a despir-se – Pediu Nate enquanto fitava-o com os olhos inocentes.

O menor sentiu-se apavorado. O que ele queria dizer com aquilo? Na sua criação, aquela frase pronunciada em uma situação como aquela só poderia significar uma coisa: Sexo. Porém não entendia. Homens não praticavam esse ato com outros homens. Era inconcebível. Seu rosto torceu-se em uma careta de dúvida e indignação. Era possível que houvesse esse tipo de relação entre o mesmo gênero? Já ouvira falar de pessoas que tinham esse tipo de conduta e o quanto isso era errado e o quanto isso era um pecado. Mesmo deixando a religião, ainda temia o inferno. Será que aquele senhor não temia?

— Não compreendo – Disse após conseguir organizar seus pensamentos.

Nate apenas conseguiu entender como aquela frase poderia ser ambígua quando já a havia falado. Sentia-se tão inocente. Viu a expressão do outro transfigurar-se e teve uma súbita vontade de gargalhar, mas manteve-se quieto. O moreno tinha uma mente deveras impura e despudorada. Limitou-se a apenas morder o lábio, a fim de impedir o sorriso de aparecer por entre sua boca.

— Vejo que não és nada inocente – Não aguentou e soltou uma breve risada. Acontecimento que não agradou em nada o mais jovem, que se sentiu ofendido pelas atitudes de seu senhor.

— É o que se espera quando uma pessoa pede-lhe esse tipo de coisa nesse tipo de situação – Exaltou-se e sentiu seu rosto esquentar de raiva. Estava corando. Sabia.

— Então vê esse pedido, vindo de um homem, como algo trivial? – Ficou sério. Imaginou que ele deveria ver tudo aquilo como algo normal, já que aquela ideia passara-lhe pela cabeça. Ninguém pensaria que um homem iria querer algo sexual com outro naqueles tempos. E era algo que realmente desejava saber. Thom ficou constrangido e tirou os olhos do outro que começava a despir-se totalmente.

— Dizem que é um pecado dos piores – Não queria falar nada sobre o que pensava. Aquele homem não precisava saber nada de si.

— Mas e o que diz respeito a você? – Levantou-se após tirar a camisa e aproximou-se do outro.

— Isso não importa, senhor – Sentiu-se nervoso pela proximidade de Nathan.

— Que sejas – Deixou de querer saber o que ele pensava quando teve uma ideia – Tua roupa de dormir está pronta.

— Por isso fez-me aquele pedido? – Arqueou as sobrancelhas.

— Sim – Riu – Ajudar-lhe-ei com os botões – Disse antes de levar os dedos longos para a blusa fina de botões que Thomas usava. O acastanhado arregalou os olhos. Em que mundo havia descido?

— O senhor não deve fazer isso – Segurou as mãos do outro, que tentava desabotoar sua camisa, com a mão boa. Era ele que deveria prestar serviços àquele loiro, não o contrário. Tinha seu imbatível orgulho. Não deixaria que alguém fizesse caprichos seus.

— As minhas mãos são de minha propriedade – Livrou-se da tentativa do outro de parar-lhe – Enquanto as suas estiverem em recuperação, eu farei o serviço delas.

— Por obséquio então, meu senhor – Teve que aceitar. Não venceria o outro. Abaixou a cabeça e começou a ser despido.

Nathan começou com calmos movimentos, quase sempre roçando levemente as pontas dos dedos na pele branca e marcada por algumas cicatrizes. Abaixou-se para alcançar o botão da calça que o mais jovem usava. Thom tentava não olhar para a cena que se passava. Sentia-se constrangido demais, até um pouco humilhado por não poder tirar a própria roupa que vestia. O loiro havia deixado de pensar na situação. Apenas fazia o que tinha vontade e a sua vontade mandava-o abaixar-se na frente daquele escravo e tirar-lhe a roupa.

O acastanhado vestia um calção por baixo e, em um relance, olhou para o outro que finalizava de abaixar-lhe as calças. O maior olhava diretamente em seus olhos. Não conseguia disfarçar a sensação estranha que teve quando abriu a boca em surpresa. Sentiu seu rosto esquentar novamente naquele dia e fechou as pálpebras, como se aquilo que acontecia proporcionava-lhe um momento ruim.

O que, na realidade, era o contrário.

Nate levantou cuidadosamente os pés dele e tirou-lhe, definitivamente, a vestimenta inferior. Dobrou os panos e colocou-os em cima de um móvel que havia ao lado do seu dossel. Pegou uma espécie de camisola com mangas fofas e que ia até o seu joelho e estendeu-a ao moreno. Era a sua peça de dormir. Porém havia muitas outras que poderia usar, inclusive, mais novas do que aquela.

— Tome. É tua.

— Vós tendes certeza? – Tentava não ser mal-educado – És deveras nova.

— Use – Pediu – Ou preferes que eu te vista também? – Sorriu amavelmente.

Agora a vermelhidão no rosto de Thom era devido à raiva. Aquele loiro obrigava-o a odiá-lo ainda mais do que o tentava fazer. Ou apenas tentava convencer-se de que o odiava infinitamente. No fundo, o moreno reconhecia que o homem diante de si era diferente de todos os outros que havia chegado a conhecer. Diferente de todos, menos do seu mais querido irmão. Tentava ignorar que reconhecia que os dois passavam o mesmo tipo de sensação a ele. Bondade.

— Dispenso com todo o respeito – Respondeu em um tom quase irônico. Pegou o tecido da mão do maior e vestiu-o rapidamente.

Nathan olhou satisfeito para Thomas enquanto sorria. Tirou o resto da roupa que vestia e podia ver que o moreno tentava não o olhar durante essa ação. Pegou para si uma roupa também e, quando se sentou em sua cama, pôde ouvir um som de batidas na porta do quarto. Provavelmente, era a comida que havia pedido para ser entregue.

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— Entre.

Jasmine apareceu por entre a fresta com um olhar que ultrapassava a curiosidade. Trazia em mão uma bandeja com bastante comida, o que fez com que o acastanhado não conseguisse esconder o desejo que sentia pelo que compunha os pratos. A moça avaliou a situação do quarto, percebendo que o inquilino usava as roupas de seu irmão e permanecia na coloração vermelha por algum motivo. Sentou ao lado de seu mais velho e sorriu-lhe com a costumeira ternura.

— Trouxe-lhe o que pediu.

— Agradeço, minha irmã – Beijou-lhe os cabelos.

— Não me agradeça tanto, irmão – Sorriu – Vim mais por mim do que por tu. Queria saber como andavam as coisas pelo seu aposento.

— Nada de anormal – Fitou o escravo descaradamente.

— Então porque Thom encontra-se nessa vermelhidão? – Perguntou numa tentativa provocante.

— Sinto-me um pouco febril, senhorita – Respondeu de prontidão antes que Nathan resolvesse envergonhá-lo ainda mais.

— Sim, sim – Deu uma risada nasalada o loiro – Desses casos eu cuido à parte.

— Vejo bem. Até me parece que sua bondade em cuidar-lhe fará com que ele durma aqui essa noite – Tentou para ver se o que dizia era verdade. Sabia muito bem como enganar o irmão para que ele lhe fizesse os desejos.

Nathan começou a responder a moça, mas foi interrompido pelo moreno.

— Um escravo que se preze há de estar a todo o momento ao lado de seu senhor – Thomas tentou contornar a situação.

— Concordo – Sorriu.

Apesar do que ele lhe dizia, ela sabia que era tudo obra de Nate. Provavelmente, queria manter o assessor por perto e, principalmente, longe do pai. Até mesmo para que se acostumasse com a nova vida. E tudo isso havia sido calculado pelo loiro. Porém, acima dessas intenções, sentia-se curioso demais para deixá-lo longe. Sua vontade era mantê-lo por perto. Pelo menos, teria mais alguém real na sua vida feita por aparências.

Jasmine despediu-se com carinho do membro mais querido de sua família e cedeu um beijo na testa de Thomas, que era centímetros mais baixo do que ela, antes de sair do cômodo. O escravo sentiu-se incomodado com toda aquela atenção. Havia recebido mais carinho em um dia do que o havia feito em toda sua vida. Assim que Nathan aprovou sua aproximação, sentou-se acanhadamente na beira da cama.

— Qual tua mão predominante? – Perguntou o loiro.

— A direita, senhor.

— Então não precisarei dar-lhe comida na boca – Sorriu em deboche genuíno enquanto levava uma colherada do alimento à boca.

— Dispensaria sua bondade, em todo caso – Tentou não se incomodar com as provocações do outro e pegou uma segunda colher para alimentar-se.

Apesar da dor constante, pôde aproveitar cada instante daquela comida que estava preparada divinamente. Pensava nunca ter comido algo tão saboroso. Olhava Nate com os cantos dos olhos e via que o mesmo sorria de satisfação. Quando se sentiu suficientemente cheio, agradeceu pela refeição e deitou-se no tapete ao lado do dossel, convencido de que ali era o lugar destinado para o seu descanso.

— Presume que sou assim tão sem coração? – Indagou o mais velho enquanto fitava o outro quase adormecido em uma posição deveras desconfortável.

— Apenas reconheço minha posição – Fechou as pálpebras, tentando suportar suas feridas.

— Então eu lhe peço que esqueça as formalidades – Inclinou-se no colchão até que seus dedos pudessem tocar os fios negros do outro em uma carícia sutil. Sentia-se culpado pelo estado miserável que o outro se encontrava. Como recompensar?

— Vejo que o senhor não – Respirou fundo. O sono abatia seu corpo e o maior não ajudava com aquele contato tão bom – Se importa com assuntos banais como hierarquias.

— Se as pessoas dessa sociedade corrompida tivessem mais com o que se preocupar, também não se importariam com essas trivialidades.

— Ideias interessantes essas que o senhor tem aí – Disse em um sussurro. Não tinha forças nem para a grosseria habitual.

— Vem – Sorriu para a face sonolenta e prazerosa que o outro, sem intenção, exibia.

— Nathan deveria ser sinônimo para insistência – Deixou-se ser conduzido pela mão e sentir-se satisfeito com aquele local macio e cheiroso ao qual era determinado que deveria dormir.

— E Thomas para teimosia – Levantou-se para apagar a chama da lamparina.

Deitou-se ao lado esquerdo enquanto o menor ocupava o lado direito. O moreno começou a remexer o braço com a mão machucada incessantemente. Percebia que agora que havia dado a devida atenção ao problema, esse se mostrava muito mais sério e dolorido. Suspirou audivelmente e resmungou algumas palavras no seu péssimo alemão, que, assim como seus olhos, havia sido herdado de sua mãe. Nathan não entendia nenhuma palavra que era pronunciada copiosamente por seu companheiro de quarto.

— Maldição – Exclamou.

— Há de haver algo que eu possa fazer – Disse o inglês.

Não obteve resposta. Deitou-se sobre um lado de seu corpo para poder fitar o rosto alheio iluminado apenas pela luz da lua que advinha das janelas. Queria poder ser útil de alguma forma. Levou a mão aos cabelos escuros e continuou com a carícia de anteriormente. Fitou os olhos claros do menino intensamente enquanto ele o encarava de volta em confusão. Thomas não entendia aquele homem. Por que incomodar-se com o seu bem-estar daquela forma tão pura?

— O senhor é uma anomalia – Deixou escapar. Um sorriso de dentes brancos surgiu no rosto do mais velho.

— A força que vós possuístes também – Tirou-lhe os fios grandes que insistiam em cair em seus olhos.

— Se essa força, que tu tens orgulho, possuísse-me, eu não seria um mero cativo de teu pai – Abriu o olho direito enquanto apertava o esquerdo. Os cabelos que estavam crescidos abaixo do ombro incomodavam e provocavam-lhe uma sensação de calor.

— Por ser cativo e continuar vivo que reclamo tua persistência na vida – Afastou os fios que pregavam no pescoço devido ao suor.

— Eu passo a estar convicto na ideia de odiar-lhe, senhor – Sentiu-se bem ao ouvir tais palavras vindas de alguém como ele.

— Não creio – Sorriu.

— Insistente e prepotente – Passou a mão boa no rosto para coçar os olhos que começavam a pesar – São todos os loiros dessa maneira?

— Só os mais formosos – Brincou enquanto chegava mais perto para ceder-lhe um beijo na testa branca e suada – Desejo-lhe uma boa noite de sono.

— Acrescento um convencido – Falou no tom mais baixo que conseguia. Aquelas carícias proporcionavam-lhe um extremo relaxamento de corpo e alma. Sentia-se com mais sono que antes.

— Agraciado por retribuir minha cordialidade – Soltou uma pequena risada nasalada.

— O senhor faz recordações de alguém surgirem para mim – Resmungou, inconscientemente virando-se para deitar sobre seu braço e aproximando-se ainda mais do corpo alheio.

O rosto de Nathan encontrava-se a um palmo do rosto de Thomas. O loiro podia sentir claramente a sua respiração contra a sua pele. Era quente e cheirava a comida. Não pôde deixar de sorrir minimamente. Sentiu-se curioso com o que o moreno havia dito. Queria saber quem era essa pessoa e o quanto ela significava na vida sofrida de Thom. Levou a mão às bochechas do mesmo e acariciou-as com os nós dos dedos antes de apertá-las entre o polegar e o indicador.

— E esse alguém também era bonito? – Provocou.

— Deveras – Quase sorriu ao lembrar-se de seu irmão. O sono impedia-o de raciocinar e fazia-o abrir-se mais. Nathan sentiu-se incomodado com aquela expressão nova que o outro exibia.

— Teria o prazer de saber quem é – Parou as carícias, estacionando a mão no pescoço fino e alvo do mestiço alemão e inglês.

— Meu irmão mais velho.

Nate queria receber um soco por ter sentido aquele incômodo ridicularizante apenas devido a um irmão mais velho. Seria inconcebível se alguém sentisse o mesmo em relação a si com sua querida irmã. Voltou com as singelas e puras carícias, dessa vez fazendo movimento circulares e leves na nuca alheia. Thom sentia-se menos dolorido e mais arrepiado a partir daquele momento. Sabia que estava entregando-se demais ao momento, mas não tinha forças para resistir. Fazer isso não lhe parecia tão agradável agora.

— Tens conhecimento de onde ele está agora? – Sabia que, provavelmente, eles haviam sido separados quando o mestiço havia sido vendido.

— Seria um homem menos infeliz se o fizesse – Sussurrou, escondendo o rosto com ambas as mãos. O simples gesto causou todos os sentimentos mais indescritíveis que se podem descrever em Nathan.

Sabia como era ficar longe da irmã por alguns dias, quem sabe semanas. Não anos. Não praticamente uma vida inteira. Não sabia como era aquela situação. Não desejava saber. Não desejava que ele soubesse tão bem, tão bem e tão profundamente. E quando Nate abriu os braços como se fosse abraçar a coisa mais preciosa do mundo, Thom apenas fazia de tudo para não ser um fraco. Para não chorar na frente daquele burguês com alma de anjo.

O loiro encostou seus lábios na testa do outro lentamente, tentando não afastá-lo do contato. Passou um braço pela cintura dele e apertou-o mais forte do que lembrava ter feito um dia enquanto o outro braço cuidava de continuar as carícias nos cabelos, agora, macios e na nuca descoberta. O moreno apenas arregalou os olhos, levando sua mão direita ao peito do outro para apertar o tecido com toda a força que lhe restava. Aquele maldito homem. Não acreditava que poderia sentir-se tão seguro daquela forma. Fechou os orbes azuis e acabou rendendo-se totalmente.

Nate sentia-se quente. Tão quente. Um calor desconhecido para si, mas tão aconchegante. Era algo que não era capaz de sentir com mais ninguém além da pessoa mais importante pra si: Jasmine. Era um sentimento de paz, mesmo que misturado com tristeza e impotência. Porém, nada importava. Naquele momento, ele era mesmo impotente e sabia. Sabia também que faria tudo que pudesse para que não fosse mais aquele mesmo menino rico que não era capaz de fazer nada por si só. Ele queria ser um homem. Um homem digno do amor da sua irmã, do carinho dos seus amigos. Um homem que era capaz de fazer a diferença.

— É me imposto muitas limitações aqui nessa casa – Começou enquanto aspirava o cheiro que Thom possuía – Não vos prometo nada – Separou-se dele para olhá-lo em seus olhos enquanto segurava seu rosto com ambas às mãos – Contudo, tentarei achá-lo.

As íris claras brilharam. O mestiço quis abrir a boca em surpresa, mas limitou-se a fechar os olhos calmamente. Deixou-se ser abraçado novamente e acabou permitindo que Nathan fizesse aquele carinho tão gostoso em si. Logo estava quase dormindo. Em sua mente, pensava que tinha sido exposto demais para um só dia. Talvez para uma eternidade. Porém agradeceu a Deus. Pela primeira vez em muito tempo, tudo o que podia pensar era:

“Ah! Mas obrigado, meu Deus!”

Infelizmente, ele sabia! Aquele homem iria mudar a sua vida.

Notas finais
Por favor, deixem comentários se quiserem mais desse extra!! Muito obrigado galerinha!!