Oasis
33 Do papai
Notas iniciais
Nem havia acordado direito e, inconscientemente, já estava tateando o colchão à procura de certo russo mal humorado. Me assustei quando percebi que ele não estava ali e que o único corpo que dormia no colchão era o da Mia.
Tentei achar meu celular e, quando o encontrei, percebi que ainda estava cedo. Me espreguicei e fui até o banheiro. Nem assustei assim que vi meu reflexo no espelho. Os cabelos bagunçados e os olhos vermelhos e inchados de choro.
Suspirei, tentando ajeitar aqueles fios rebeldes. No final, acabei desistindo e enfiando a cara debaixo da água vinda da torneira da pia.
Lembrei do que havia falado na noite anterior e me senti constrangido pela primeira vez em muito tempo. Porém, estranhamente, me sentia mais leve e aliviado. As palavras que Grey havia dito continuavam a ecoar na minha mente.
Assim que sequei meu rosto, voltei pro quarto e me debrucei no colchão para acordar a princesinha. Mia tinha suas duas mãos juntas uma na outra e enfiadas debaixo da cabeça. Parecia até um anjinho.
Mexi com ela calmamente até que acordasse. Ajudei-a ir ao banheiro e lavar as mãozinhas antes que eu a pegasse no colo e descesse as escadas. Enquanto seu rosto se escondia de sono no meu pescoço, um cheiro gostoso de café da manhã podia ser sentido do corredor.
Cheguei ao andar inferior e vi minha mãe fazendo alguma comida no fogão que fez meu estômago roncar. Tentei achar o moreno pela casa, mas não encontrei nem um sinal. Suspirei de frustração.
Onde que aquele diabo poderia ter se metido a uma hora dessas, porra?
Insatisfeito, decidi me sentar no sofá ao sentir Mia se mexer inquieta. Fiz um esforcinho para não acordar os dorminhocos que estavam desmaiados no estofado de casal espalhado pela sala.
Entretanto, não pude nem encostar a cabeça direito e a criança já me encarava esperando uma resposta para uma pergunta que nem não fazia ideia de qual poderia ser.
— Cadê o papai?
— Não sei, princesa.
— Ele não vai deixar a gente, né mãe?
Fiquei encarando aquela carinha pidona por um bom tempo antes de respirar fundo e conseguir pensar numa resposta.
— Claro que não.
Apesar de que eu não estava muito certo sobre isso quando se tratava de mim. O quão fácil seria para ele simplesmente sumir da minha vista barra vida pra sempre?
— É, eu sei! Ele não ia deixar a gente.
Dei uma risadinha com a mudança de comportamento tão de repente. Quis abraçar seu corpinho de criança, mas a menina foi mais rápida. Pulou com tudo em cima do colchão, acordando Iris que se assustou de um jeito que me fez gargalhar.
— Caraca, ‘mermão! – Gritou ela – Quase que eu boto meu coraçãozinho ‘pra fora nesse instante!
— Exagerada nem um pouco – Fui irônico enquanto observava Caio dormindo e agarrado a Eric como se ele fosse o último pedaço de carne do cosmos.
Mia também olhava aquilo fixamente com uma expressão confusa. Não demorou para que ela viesse toda manhosinha para o meu colo e colocasse um dedo no queixo, demonstrando que analisava o que tinha visto.
— Mãe, pode perguntar uma coisa? – Disse cheia de dengo.
— Pode – Respondi, fazendo um “ok” com o polegar e sorrindo.
— Quem são eles? – Indagou ao apontar para os meus amigos.
Fiquei olhando para a feição adormecida e feliz do meu amigo por um tempo e decidi responder.
— Amigos meus e do papai. Por quê?
Comecei a fazer uns chamegos nos fios curtos e escuros da menina.
— Eles são namorados? – Perguntou incrivelmente curiosa.
Travei e fiquei espantado com aquela pergunta. Não sabia o que responder. Olhei para Iris que estava quase dormindo novamente, mas ela apenas me deu uma piscadinha marota com um sorriso nada casto.
— São.
— Mas... Mas isso pode, mãe? Lá na escolinha, todos os pais são um homem e uma mulher. E a professora falou que o papai do céu fez a mamãe ‘pra ficar com o papai e que, se não fosse assim, a gente ia ficar pra sempre com o maldoso – Fez uma carinha angustiada enquanto olhava para os meninos.
Foi aí sim que me assustei. Como que ainda existiam pessoas que enfiavam essas coisas nas cabeças das crianças? Estávamos no século XXI, pelo amor de Deus. Era por ensinar essas coisas para as crianças, que não sabem filtrar o que é certo e errado, que ainda existia tanta intolerância.
Pensei no Grey, que era um desses que era julgado como pecador. Suspirei fundo, tentando encontrar uma resposta que fosse mais certa.
— Não é verdade, princesa. O papai do céu ama todo mundo do mesmo jeitinho e ele quer que a gente seja feliz. Não importa se seja com dois papais ou uma mãe e um papai. Ou duas mamães também. Ele tem amor ‘pra todo mundo – E sorri.
Porque era o que eu acreditava.
Mia levantou o mindinho na altura dos meus olhos e me olhou com uma cara determinada.
— Jura, mãe? De dedinho?
Gargalhei. Ficava feliz que aquele tipo de promessa ainda valia tanto. Era algo precioso que eu e o Leonardo fazíamos e nunca quebramos uma delas sequer. Levantei o meu mindinho e agarrei ao dela.
— De dedinho, jurado e juradinho!
E ela riu, saindo correndo pela casa com o dedo menor levantado. Isso só pra logo depois voltar e me olhar com uma cara de dúvida pior ainda.
Suspirei, extasiado.
— Eu ia gostar se o papai ficasse com você, mamãe!
E se virou para engatar numa correria até o quintal. Meus olhos ficaram lá, esbugalhados. Minha respiração até tinha falhado enquanto eu ouvia minha melhor amiga rir e acordar os dois palhaços folgados.
— Eu mereço – Sussurrei incrédulo ao mesmo tempo em que levava a mão para o coração disparado pelo desejo singelo daquela miniatura de gente.
— Eu pagaria pra ver essa tua cara de paspalho todos os dias – Disse Iris.
E a desgraça ainda ria.
— Cala a boca – Resmunguei, jogando meu corpo no meio dos dois que acabavam de acordar.
Caio e Eric fizeram um sanduíche de Logan, me colocando no meio daquela agarração louca daqueles dois. Juro que senti uma mãozinha boba na minha bunda preciosa.
Porém, antes que eu pudesse reclamar ou aproveitar, Iris interrompeu o momento com seu escândalo típico de todos os dias.
— ‘Pera, ela te chamou de mãe. Caraca, que história é essa? – E morreu-se de rir novamente.
Ela não tinha fim, essa menina.
— Parece que eu ‘tô assumindo essa responsabilidade aí – Ri com gosto enquanto os dois pervertidos tentavam me irritar ao beijar meu pescoço ao mesmo tempo.
O que deixou Mia, que entrava na sala com meu gato a tiracolo, possessa. Ela pulou em cima da gente e me agarrou forte.
— Larga a minha mãe! Ela é só do papai, seu feio – E mostrou a língua.
E eu ri, de novo. Sentindo que aquele dia estava muito bom para ser verdade.
Caio levantou as mãos em sinal de paz e Eric se desatava a rir, parecendo que entendia quem era o tal do “pai” a quem ela se referia.
— Não está mais aqui quem agarrou – E estendeu a mão para fazer um chamego nos fios escuros da menina.
— Opa, opa. Estou me sentindo excluída dessa interação! Como deixar euzinha, a atriz principal, de fora dessa agarração?
E lá vinha mais uma para se jogar em cima de nós. Nos apertamos em um abraço estranho e grupal. Mia levantou as mãozinhas para cima, depois de o seu estômago roncar, e gritou:
— Comer, comer, comer, comer... Comer, comer para poder crescer!
Nos afastamos, rindo. Coloquei Mia nos meus ombros e saí correndo até a cozinha enquanto ela gritava por mais rápido. Minha mãe nos recebeu no cômodo com um sorriso de ponta a ponta.
— Já ia chamar vocês, bando de morto de fome.
— Que isso, mãe. Isso é jeito de falar com sua filha linda, perfeita e maravilhosa?!
E foi Iris que disse. Que abusada.
— Sem gracinha, senhorita. Quero vocês rapando o prato que hoje eu caprichei.
Sentamos à mesa e devoramos o café da manhã. No meio da comilança, enquanto eu limpava a boca suja de nutella da princesinha, resolvi perguntar:
— E o Grey?
Minha mãe fez uma careta de inconformada.
— Saiu bem cedinho. Queria até levar a Mia, mas eu não permiti. O menino disse que tinha uma coisa importante pra fazer e eu o convenci a voltar mais tarde para buscar a irmã.
Fiquei curiosasso, mas já sabia que era perda de tempo.
Depois de comer, fomos todos tomar um banho e tirar aquele fedor que se espalhava pelo corpo todo. Mamãe deu banho na princesinha e vestiu-a com uma blusa sua de moletom, que ficou enorme e uma gracinha.
Depois que estávamos limpos, deitamos todos na sala, com Mia no meu colo, para vermos um filme de desenho que gostávamos. Logo, “Grelindo, o gato” pulou em cima de todos e se enroscou no colo de Eric.
Passamos a tarde assim, comendo pipoca e vendo muitos filmes. A cada instante, eu percebia que, mesmo perdendo uma parte de mim, eu havia ganhado uma nova família que fazia tudo valer a pena.
Eu já não precisava de sexo para me sentir bem.
Teria dias difíceis. Muitos. Eu sabia.
Teria dias em que eu choraria de saudade e aqueles dias em que eu não estaria em mim mesmo. E eu sabia que ainda não estava bem. Nem chegava perto.
Mas por eles, por ele, por todos os que eu amava, que me traziam a oportunidade de sentir “família” novamente... Eu tentaria. Tentaria por Mia e até pelo Grey. Alguém que me entendia mesmo no mudo, mesmo no desconhecimento das circunstâncias.
Alguém que precisava apenas ser para ocupar um espaço tão grande dentro de mim.
E, caraca, isso me assustava pra caralho.
Alguém que me deu a oportunidade de sentir um pouco o que seria ser pai, com Mia. Alguém que me deu a oportunidade de sentir ódio, de sentir tesão, de sentir raiva e de, ao mesmo tempo, sentir tantas outras coisas que era uma loucura total.
E, foi pensando nisso, que ouvi a campainha tocar. Deixei Mia encolhida e adormecida no braço livre de Caio, sendo que o outro era ocupado por Eri e a barriga por Iris, e fui atender.
Quando abri a porta, me assustei.
Era Grey.
Sim, era ele, mas com uma cara nada boa.
Será que as coisas nunca poderiam ficar tranquilas?
Caraca, senhor!
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