Oasis
32 Dentro de mim
Notas iniciais
“O tempo não foi feito para ser uma constante. Na física ou na matemática, quem sabe se ele não seria uma parábola ou se estaria inserido em um desses gráficos tridimensionais onde o plano cartesiano abriga um x, um y e um z. Ninguém saberia o resultado. Mas, como em todo gráfico aonde uma das incógnitas é o tempo, o movimento não se desloca até um ponto e resolve voltar à posição de origem pela mesma linha. A conclusão é que o tempo não volta. A vida não para, assim como um gráfico sem final. O infinito está aí. O desconhecido traça retas que se encontram com essa linha contínua. Nada é paralelo e a vida perpetua.”
— Otoni
— Eu preciso fazer isso agora.
Assim que as palavras saíram da minha boca, senti meu coração quase saindo pela minha boca. Todo meu corpo estava tenso. Minhas mãos suavam.
— Você não precisa me falar nada – Ele disse com descaso, mas algo no seu tom de voz era diferente do normal.
— Eu preciso! – Falei um pouco mais alto, sentando-me na cama de repente.
— Cala a boca, droga. Você vai acordar ela – Resmungou em desgosto.
— Eu... – Engoli em seco – Todas as coisas erradas em mim são por causa de uma pessoa.
Deixei sair enquanto levava a mão direita ao coração que martelava que nem um louco no peito e olhei-o intensamente. Estava escuro, mas conseguia ver Grey me olhando de volta.
— Você...
— Eu tinha alguém – Interrompi antes que perdesse a coragem – Minha família tinha alguém e a gente se sentia completo, cara – Passei as mãos no rosto – Acontece que o meu irmão era muito diferente de mim. Era fechado e calado, mas sua personalidade era tão doce. E eu queria mostrar isso ‘pro mundo todo! O quanto ele era bom e bonito. Tentei fazer com que ele arranjasse amigos e não ficasse mais sozinho. Se eu pudesse voltar atrás, eu voltava. Juro que sim. Mas, infelizmente, o tempo não volta.
No final, minha voz quase falhava. Mas queria continuar. Tossi.
— Ele sempre me escutava. Por isso, ele arrumou alguns colegas na internet. Eu até fiquei feliz por ele. O Leonardo estava mais sorridente, mais aberto. Tanto que nem fui contra quando ele disse que ia se encontrar com alguém. Incentivei – Senti uma lágrima descendo pelo meu olho esquerdo, mas tinha certeza que o russo não podia enxergar – Daí o tempo foi passando, passando e o menino não voltava ‘pra casa. Ele sempre seguia as regras. Voltava quando tinha que voltar. E depois de duas horas que ele não tinha aparecido, entrei no perfil das redes sociais dele, já que ele sempre me dava a senha, e achei o lugar onde ele tinha dito que ia estar. Saí correndo. A pé mesmo. Eu estava sentindo que tinha algo errado. Sabe, se eu... Se eu tivesse corrido mais rápido, eu alcançaria ele! Eu podia ter evitado tanta coisa.
Suspirei. Passei a mão por meus fios ruivos e apertei os mesmos com toda minha força.
— Caralho! Eu nem sei o que eu fiz, mas, quando eu percebi, tinha encontrado ele. O meu irmão, tão pequeno por ter puxado a mamãe, simplesmente estava jogado no chão. Tinha tanto sangue e coisas que eu nem quero me lembrar – Agora eu soluçava. E me sentia horrível e ao mesmo tempo aliviado. Nunca tinha contado isso para ninguém. Não assim.
Era mais do que péssimo mostrar esse meu lado para ele. Justo para o Grey. Mas eu sentia que se não fosse ele, não seria mais ninguém.
Eu precisava deixar tudo isso sair de dentro de mim.
— Eu realmente não me lembro o que aconteceu depois. Só lembro de estar com o sangue do cara que tinha feito isso com ele por toda minha roupa. O corpo dele no chão. Quando percebi tudo isso, acho que entrei em choque. Todo o meu problema de personalidade está nessa parte da minha vida. Nem sei como liguei pra minha mãe. Lembro de ver ela e meu pai chorando, chorando tanto. Eu só assumi que fosse minha culpa. Ainda acredito nisso. Tudo isso foi dado como legítima defesa, eu acho. Não entendi o que aconteceu. Tive que fazer terapia por um bom tempo, mas parei. Parei quando comecei a achar que eles me faziam esquecer coisas que eu não queria. Pintei algumas mexas do meu cabelo de vermelho ‘pra me lembrar do sangue que eu carrego comigo.
Olhava para as minhas mãos fixamente, relembrando todo aquele episódio.
— Meus pais ficaram destruídos, especialmente quando eu tinha pesadelos. Acordava gritando, me machucando. E gostava da dor. Ainda gosto. Usei o sexo como um jeito de escapar de tudo. Acho que funcionou por um tempo – Suspirei e limpei grosseiramente algumas lágrimas.
Odiava me sentir tão vulnerável.
Odiava o sentimento de alívio que me percorria depois de ter contado tanta coisa pra ele. Justo para o Ivanovich.
— Mas, depois de tudo com a Alice, – Continuei – Parece que tudo voltou. Até os pesadelos voltaram. É sempre a mesma coisa. Eu corro o quanto for preciso, mas nunca consigo chegar até ele – Terminei suspirando e ri amargo da minha própria desgraça.
Era fato. Era um fato que a culpa era minha. Eu sabia que era. Todos negavam, mas eu sabia. Lá no fundo. Se eu não tivesse feito o que fiz ou se eu tivesse me dado conta mais cedo... Nada disso tinha acontecido.
Me joguei na cama novamente, de bruços e enfiando meu rosto no travesseiro. Fiquei remoendo tudo que tinha dito, até que me assustei com a voz do russo cortando o silêncio de repente.
— Não é sua culpa. Ele era seu irmão. Não acredito nessa porra toda de pós-vida, mas eu sei que ele não te culparia. O coitado deve estar lá, se remexendo no caixão e querendo sair de lá só para te dar um soco. Não continue sendo alguém que ele odiaria, cuzão.
Meus olhos estavam arregalados depois disso. Eu estava em choque. Meu coração batia rápido e descompassado no peito. Não sabia como agir. Era como se eu estivesse esperando para escutar aquilo a vida inteira.
De alguma forma, aquilo era exatamente o que eu precisava ouvir.
Sorri tristemente pra mim mesmo, sentindo uma lágrima apenas descendo pelas minhas bochechas. Soquei o travesseiro algumas vezes, tentando dissipar aquele sentimento sinistro.
Não funcionou.
Grey apenas continuava calado ao meu lado.
A dor que eu sentia no meu peito tinha se transformado em outro tipo de dor que eu não entendia. Era um aperto esquisito.
Antes que pudesse pensar direito, estava saindo da cama e me deitando no colchão onde Mia dormia e Grey estava fazendo carinhos em seus cachinhos de princesa. Ele parecia ter se assustado.
Me aconcheguei ao seu lado, tentado a puxar seu corpo contra o meu. Estendi minha mão para tocar os fios escuros da criança que deitava com a cabeça apoiada contra o estômago do russo.
— Você é um filho da puta – E comecei a rir sem nenhum motivo aparente.
Apenas me sentia leve demais.
— Eu já disse ‘pra tu calar a porra da boca, seu desgraçado – Sussurrou – Ainda não percebeu que ela está dormindo? Droga – Resmungou.
Por algum motivo, sua voz estava diferente. Como se estivesse mais manso.
Esse pensamento me deixou sorrindo fracamente.
Ficamos em silêncio por um grande tempo. Apenas escutando os barulhinhos que Mia fazia enquanto dormia e o barulho da respiração um do outro. Era algo meio desconfortável.
— Tu bem que podia me dar um chamego de consolo – Tentei descontrair.
— Esse tal de chamego é a última coisa que vai ter – Fechou os olhos – Vai dormir.
— Aposto que se fosse o Marcelo... Tu dava – Falei emburrado.
Ele abriu os olhos e me encarou do melhor jeito que podia.
— Porque está falando no nome dele? – Cerrou os olhos.
— Não sei – Fui irônico – Devia ser que era eu que estava lá, todo atracado naquele cara.
— Ah, caralho, cala a boca. Sério.
— Tu não pode beber um copo que todo mundo faz o que quiser contigo – Me ajeitei de costas para o colchão, cruzando os braços.
— Espero que não esteja insinuando o que eu acho que está insinuando.
— Claro que não – Fui incrivelmente irônico.
— Você é um idiota.
— Eu sei, mas ‘tô achando que, mesmo assim, tu não consegue se livrar de mim – Ri com isso e deitei de lado para encarar seu rosto.
— Infelizmente – Disse pensativo.
Eu dei uma risadinha e comecei a sentir o cansaço pesar.
— Isso é o que você diz— Cheguei meu rosto mais perto dele e dei um beijo molhado na sua bochecha – Agora ‘tô morto. Vou desmaiar.
E, naquele espaço pequeno, acabei dormindo enquanto, quase inconsciente, sussurrava que ainda esperaria ele me contar algo sobre si e sentia, ao meu lado, o roçar dos dedos de Grey contra os cachinhos da Mia.
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