OTHALA, A RUNA DA SEPARAÇÃO

8 Capítulo 7 - DESCOBERTAS...


Notas iniciais
❤ Mais um capítulo, espero que gostem! ❤ ♥ Feliz Páscoa a todos!! ❤Agradecimentos do fundo do meu coração a quem sempre deixa seu comentário, seu carinho e sua presença. ♥!!!

“O amor não é senão o desejo;

e assim, o desejo é o princípio original de que todas as nossas paixões decorrem, como os riachos da sua origem;

Por isso, sempre que o desejo de um objeto se acende nos nossos corações, pomo-nos a persegui-lo e a procurá-lo

e somos levados a mil desordens.”

Cervantes

Minos avistou a cidade no horizonte, conforme navegavam em direção ao porto. A visão do povoado, com suas construções retangulares bem distribuídas mostravam uma arquitetura diferente da que estava acostumado. Os cheiros, a movimentação, as cores, tudo somado ao fato que havia muito trânsito de pessoas por ali. Ele nunca estivera em um centro daqueles, era a sua primeira viagem e também a de Alone que olhava para tudo com visível fascínio.

A cidade era grande, bem maior do que ele imaginara, pensou Minos.

— Por onde vamos começar? – perguntou Alone.

— Vamos andar um pouco, conhecer o lugar e então... escolher alguém para perguntar. – respondeu Minos.

Alone observou homens e mulheres com vestimentas diferentes, penteados elaborados e, embora houvesse pessoas loiras como ele, a profusão de cabelos escuros ou da cor do fogo era maioria.

Quando chegaram ao mercado, os olhos do menino se arregalaram à visão de todo o tipo de alimento, do gado e dos mercadores. As vozes se misturavam em um idioma que ele sabia um pouco, mas não com tanta fluência, mas era possível entender que tentavam mostrar e vender suas mercadorias, enquanto outros barganhavam pelo melhor preço.

— Você os entende? O que são aquelas coisas? – questionou Alone.

— Sim, eu os entendo. Que coisas? – devolveu Minos.

— Aquelas ali. – apontou o menino.

Minos olhou para os objetos feitos em marfim e madeira polida, todos dispostos, de forma discreta, em um suporte de forma ovoide, na tenda de cor avermelhada, diferente das demais. Após analisar cuidadosamente, notou que os tais objetos pareciam réplicas do membro masculino em diversos tamanhos. Pensou no que responder à Alone quando se deu por conta que ele já estava na tenda, olhando para um dos objetos com o cenho franzido.

— Você é muito jovem, mas... nunca é cedo para ter um protetor. Quanto mais cedo aprender, melhor será na vida adulta. — falou o vendedor com um tom malicioso.

O olhar inocente e a chegada de Minos o fizeram compreender que havia algo de errado e retirar o objeto da mão de Alone, colocando-o, novamente, no suporte.

— Venha, isso não é para você. – falou Minos puxando o menino.

— Mas... aquilo parecia um...

— Sim, não só parecia, como era. – disse Minos desviando o olhar.

O rosto de Alone ficou vermelho, conforme ele compreendia o que tivera nas mãos.

— Porque ele vende esse tipo de coisa? – falou o menino.

— Assunto de adultos. Agora, vamos. – disse Minos encerrando a aventura.

À medida que eles prosseguiam, Minos falou com alguns comerciantes e descobriu onde ficava o castelo do rei. Andaram por um labirinto de ruas, passando por pessoas e animais domésticos. De repente, um burburinho chamou-lhe a atenção. Parecia uma briga e Alone, também percebeu, reagindo com o instinto guerreiro que lhe era inerente. O menino buscou a adaga, mas o que viu o deixou de boca aberta...

Era Shina, sua tia, erguendo a espada pesada com facilidade e a girando num arco amplo. A lâmina brilhou sob o sol e bateu no escudo de madeira do homem de cabelos e barba escura que recuou com o impacto.

— Diabos! Essa mulher é um demônio! – gritou um homem rechonchudo que assistia à luta junto de uma pequena multidão.

Alheia aos comentários, Shina continuava a erguer a espada e bater com força contra o escudo quase destroçado de seu adversário.

— É melhor se render, homem! – gritou Shina.

Houve um instante tenso de silêncio, o suor escorreu pela testa do homem e os minutos passavam rapidamente, enquanto ele continuava a defender os golpes, até a lâmina de Shina cortar o ar e seu braço. O sangue escorreu e ele bufou, soltando a espada e elevando as mãos em sinal de rendição. Gritos excitados e risadas se somaram, enquanto ela estendia a mão na direção de um homem alto e carrancudo.

— Pague! – disse ela com um meio sorriso.

O homem fitou-a bem dentro dos olhos, antes de colocar duas moedas de prata na palma estendida.

— Se vai ficar um tempo por aqui, posso oferecer trabalho. – falou o homem.

— Que tipo de trabalho?

— O rei vai oferecer um torneio. Dizem que ele mandou prender um bárbaro e quer fazer dele um exemplo para qualquer um que tente afrontá-lo. O torneio é aberto e haverá um prêmio. Estou formando um grupo de lutadores. Está interessada?

Shina franziu o cenho e fez um muxoxo com a boca. Fingiu desinteresse e olhou para os quatro companheiros que também mostravam um semblante entediado.

— Eles podem vir junto? – perguntou num tom neutro.

— Se acha que valerão alguma coisa...

— Bem, podemos tentar, não é rapazes?

Os quatro se olharam e aceitaram como se a proposta fosse trivial. Shina fez algumas combinações com o homem e depois rumou para uma taverna próxima dali. Minos e Alone ficaram à distância, até o homem sumir em meio à multidão.

— Minha tia, ela...

— Eu tentei chegar até ela, através do sonho. Creio que consegui. – murmurou Minos.

— O que vamos fazer agora?

— Vamos nos misturar entre esta gente e esperar o momento certo para falar com ela.

— Certo. — disse Alone e os dois caminharam rumo ao povo que os ocultaria até o momento adequado.

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O salão nobre do castelo ressoava com o som estridente das vozes entretidas com assuntos sobre política, comércio, romances e o torneio. Risos estrondosos, outros abafados, escapavam de determinados círculos. Cortesãos e cortesãs disputavam a atenção dos nobres e até mesmo, do rei. Acotovelando-se, competiam entre si para ver quem seria convidado a sentar-se à mesa principal.

Copos, taças e jarros vinham em bandejas de prata com que havia de mais requintado em matéria de vinhos tintos e brancos. As travessas exibiam iguarias que podiam alimentar a população de um vilarejo inteiro.

Offa fazia questão de exibir seu poder e a organização de eventos como aquele deixava claro seu controle absoluto sobre tudo e sobre todos.

Misty entrou no salão quando os músicos começavam a tocar seus alaúdes e flautas. Vinha vestido de branco, os longos cabelos presos em uma trança embutida. Trazia o vinho especial do rei e o provava em sua presença, ato necessário para assegurar-se que não estava envenenado. A presença do escravo causou uma verdadeira sensação entre os convidados, não só pela sua beleza, mas pelo fato que ele não estava vestido como um escravo.

Um dos nobres, conhecido com Reginald Fitz fez um comentário ao vê-lo passar:

— Belíssimo...

— Cuidado, Fitz... Pelo visto, Offa resolveu deixar bem claro ter a posse desse animal raro.— falou o nobre ao seu lado.

— Falas isso pelo fato de ele estar vestido como um cortesão?

— Também, mas não é só isso. Já notou como Offa o olha? Ali existe algo mais que luxúria nos olhos do rei.

Fitz gargalhou.

— Pareces não conhecer nosso soberano. Offa não ama ninguém, com exceção do meio-irmão que parece ser seu único porto seguro de afeto.

— Pode ser... – falou o nobre. – Mas, eu teria cuidado ao manifestar interesse pelas posses do rei.

Alheio aos comentários, Offa sorriu interiormente. Misty estava magnífico naquele traje que ordenara que ele vestisse. Sabia dos comentários sobre a sua relação com o escravo e sabia, também, que alguns rondavam Misty, querendo desfrutar do corpo que era só seu. Nunca sentira a necessidade de possuir quem quer que fosse. Porém, Misty era diferente. Havia nele uma sensualidade e beleza que o enlouqueciam. O desejo que sentia não arrefecia e ele precisava deixar claro que a prerrogativa de foder o escravo era, somente, sua.

Passados alguns instantes, a conversa se elevou e, mesmo distante, Offa não pode deixar de ouvir alguns comentários que o fizeram apurar sua audição.

— Quem iria supor que o rei permitisse tal coisa? Um escravo elevado à cortesão...

— Ora, dizem que o tal Misty é um furor na cama, que Offa geme tão alto que sua esposa consegue ouvir da fortaleza onde se recolheu.

Houve risos e a conversa se perdeu em meio ao tumulto da festa, deixando Offa irritado. Com grande esforço, ele conseguiu se controlar e até cumprimentar os dois nobres indiscretos.

Conversas de salão. Lembrar-me-ei da face desses dois, quando os colocar no torneio. Pensou Offa, enquanto bebia do vinho servido por Misty. Em seguida, fitou o escravo que permanecia perto de si à espera de alguma ordem. Só então, percebeu que Misty parecia bastante à vontade e havia um “quê”de altivez que ele jamais notara. O fato o fez franzir o cenho e dizer:

— Não havia notado o quanto você parece pertencer a este ambiente.

— Como, milorde? – questionou Misty com um olhar surpreso.

— Você. Vestido assim, nem parece um escravo.

— Talvez porque eu não era, até ser capturado e vendido como um. – respondeu Misty com serenidade.

— Quem é você, Misty?

O belo escravo encarou Offa.

— Esqueci minha vida anterior quando tomou-me para si, meu senhor. Nada importa, a não ser que eu sou propriedade sua. Deseja que eu faça mais alguma coisa?

O rei sentiu um bem-estar inédito e imediato. A resposta submissa e enaltecedora para o seu ego fez seu humor melhorar, sensivelmente, ao ponto de fazê-lo marcar com o pé o ritmo de uma canção executada pelos músicos.

— Tem razão, belo... Não existe nada interessante anterior a nós.

Misty sorriu, discreto e se levantou. O rei fitou-o com desejo, mas foi interrompido por Reginald Fitz.

— Majestade, eu e Edwin comentávamos sobre o belo escravo que o senhor possui e...

— E assunto encerrado, Fitz. – cortou Offa sentindo voltar o mau humor. Percebeu que sentia ciúmes e isso o irritou e envergonhou.

— Perdão, majestade. Eu não quis ofendê-lo. – falou Fitz.

— Para o seu bem, espero que saiba o seu lugar e fique longe do que me pertence. Fui claro?

— S-Sim, majestade. Bastante claro.

— Ótimo. Agora tome o seu lugar a mesa e vá procurar com o que se entreter.

Offa voltou a olhar os vários pratos exóticos à sua frente, ignorando o nobre que ousara falar-lhe sobre Misty. Após dizer o que queria, sentiu o apetite retornar, assim como a vontade de fazer algo diferente. Aqueles nobres com suas intrigas e adulações o entediavam. Seu irmão tinha razão, pensou quando olhou em volta e não viu Sorento.

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Alheio aos pensamentos do rei, o jovem mago se encontrava no corredor da torre, às escuras, vigiando por algum tempo a porta dos seus aposentos. Era ridículo ficar ali, como um soldado qualquer, mas não podia evitar, agora que mandara trazer o líder bárbaro para a sua moradia. Por que o fizera? O que havia naquele homem que o atraía tanto, ao ponto de agir impensadamente?

Inspirando fundo, resolveu acabar com aquela loucura. Preparou-se para o caso de Hades o estar esperando e pronto para atacá-lo. Tocou a madeira espessa e murmurou algo, fazendo-a abrir sozinha. Silêncio. O aposento estava, fracamente, iluminado, então se moveu com cuidado, atento a qualquer barulho. No entanto, tudo estava silencioso, apenas o som de uma respiração ritmada preenchia o ar. Ele está dormindo! Disse para si mesmo, aliviado.

Hades dormia profundamente, o peito subindo e descendo. Sorento perdeu-se, mais uma vez, na visão daquele corpo poderoso. Dolorosamente, ele constatou que a causa de toda aquela impetuosidade era desejo. Pela primeira vez, sentia-se pulsar e ser fisgado pela paixão crua e simples. Isso é loucura! Loucura! Logo eu que sempre fui disciplinado! Nunca fui escravo da luxúria, isso deve ser uma provação dos deuses! Repetia para si mesmo, enquanto se aproximava da cama e levava a mão aos lábios, horrorizado pela necessidade de sentir aquele homem...

Imerso em sonhos turbulentos, Hades permanecia alheio ao homem que o observava. Imagens que mesclavam lutas intermináveis à rostos conhecidos o faziam gemer baixo e mexer os dedos das mãos, como se buscasse tocar em algo.

— Alone... Minos... – os nomes escaparam dos lábios desenhados.

Sorento estava com os olhos fixos na boca entreaberta, as mãos como se tivessem vida própria, se aproximando do rosto do bárbaro... Os lábios do mago se aproximaram dos de Hades e então, ele o beijou.

Em meio ao sonho, Hades sentiu sua boca ser tomada e, por um breve instante, achou que era Minos quem o beijava. A língua deslizava para dentro da sua boca, um calor úmido que agitava o seu corpo dolorido...

Uma onda de calor se espalhou pelo rosto do jovem mago ao beijar Hades, a pulsação entre as pernas fez surgir uma ereção potente e dolorosa, as batidas do coração parecendo uma presa fugindo do caçador...

Então Hades abriu os olhos, ouvindo a voz de Minos chamando-o. Com um solavanco, empurrou Sorento que caiu ao chão com a violência do ato.

— O que está fazendo? – falou Hades, um tanto zonzo, passando as costas da mão nos lábios.

A vergonha apoderou-se do jovem mago, assim como uma raiva estranha e visceral.

— Guardas! Guardas! – gritou ele.

Sem demora, dois guardas adentraram os aposentos, ambos demonstrando certa surpresa, porém sem alardeá-la.

— Levem este homem de volta para a Pedra.

Hades olhou para os guardas armados com lanças e espadas. Não estava, totalmente, recuperado, mas as horas de descanso e sono haviam elevado o seu ânimo. Os dois homens hesitaram um instante ao enfrentar o olhar do viking e foi o suficiente. Hades puxou as cobertas da cama e atirou-as sobre um dos guardas, enquanto saltava, ignorando a dor para apropriar-se de uma das lanças. Em seguida, fez um movimento circular que desarmou o outro atacante e tomou-lhe a espada, afastando-o com um forte chute nos genitais, fazendo-o cair e encolher-se de dor. Nesse momento, ele olhou para Sorento, porém o mago não estava mais ali. Franziu o cenho, procurando-o e só então percebeu seu erro, Sorento estava a sua frente e, antes que pudesse retroceder, um pó foi soprado sobre o seu rosto e a realidade se evanesceu...

— Maldito... – murmurou Hades.

Sorento não gostava de empunhar a espada, apesar de ter sido iniciado nos movimentos básicos de ataque e defesa. Sempre preferira resolver problemas na base do diálogo. Não desejava que o bárbaro fosse ferido, mesmo sabendo que era loucura esperar dele uma atitude passiva. Por que o beijara? E porque sentia raiva e dor por ele o ter recusado?

Hades sentiu o chão faltar e, ainda tentou manter-se consciente, porém não conseguiu. O pó do Lótus negro era mortal, mas Sorento o havia diluído ao ponto de ele transformar-se em uma espécie de gás incapacitante.

— Levem-no e mantenham a boca fechada sobre este incidente.

Os guardas obedeceram. Um deles com uma expressão de sofrimento devido ao forte chute que recebera. O outro mantinha os olhos baixos, evidenciando a vergonha por ter sido pego de surpresa.

— Sim, milorde.

Quando os dois saíram levando Hades, Sorento levou a mão aos cabelos e foi até a janela. Estava angustiado e confuso, logo ele que sempre tinha um conselho para aqueles que o procuravam, principalmente o seu irmão.

— Com licença, milorde! De antemão, peço desculpas pela minha ousadia.

A voz forte, porém melodiosa impediu-o de chafurdar na culpa que sentia. Ele olhou na direção da porta e viu o comandante da guarda fitando-o com uma profundidade inquietante. Fazia muito tempo que não o via, mais especificamente, desde que eram meninos e ele fora o único com coragem suficiente para aproximar-se do meio-irmão do rei, sempre mantido à distância. Após tornarem-se adultos, a diferente ocupação de ambos os afastara, quase que totalmente, e isto o entristecera bem mais do que ousava admitir. Isso ficava, dolorosamente claro, neste exato instante.

— O que deseja Julian?

— Fiquei preocupado ao tomar conhecimento do que acabou de acontecer. Cuidei para que o prisioneiro fosse levado de imediato e de forma discreta. Mas... o que ele fazia aqui?

— Ele estava muito ferido. Offa o quer em um torneio, achei por bem cuidar dele para que rendesse o espetáculo que meu irmão deseja. — respondeu Sorento, consciente que mentia para si mesmo e para Julian.

— Este bárbaro é perigoso. Ouvi muito sobre ele. Não deve arriscar-se deste modo.

— Sei cuidar de mim, Julian.

— Sim. – respondeu o comandante, junto com um suspiro. – Esqueço que não és mais o meu companheiro de infância e que já não dividimos os mesmos sentimentos.

Sorento voltou-se para Julian.

— Mesmos sentimentos?

O comandante sorriu com amargor.

— Adeus, milorde. Vou cuidar dos meus afazeres.

Assim que Julian deu-lhe as costas, Sorento percebeu o quanto aquelas palavras haviam tocado o seu coração. Lembrou-se da dor que sentira quando lhe disseram que, devia caminhar só, isolado de todos, menos de seu rei. As amizades, as vontades, nada devia afastá-lo da missão para a qual nascera. Assim era a vida de um mago e assim seria a sua.

— Julian... Espere.

O comandante estancou fechando os punhos com força. Já tinha ousado ir até Sorento, uma atitude impetuosa que se construíra em seu coração. Agora temia demonstrar a razão desta atitude, uma saudade avassaladora que não conseguia mais esconder. Sentiu quando Sorento ficou a poucos palmos das suas costas, fechou os olhos e esperou...

— Olhe para mim. – disse o mago.

Julian obedeceu, os sentimentos transbordando nos olhos profundamente azuis. Sorento se aproximou em silêncio, o olhar conectado ao do amigo. Devagar, ele elevou a mão...

— Eu... Eu nunca quis me afastar, mas era preciso.

O toque em seu rosto fez Julian estremecer. Ele colocou sua mão sobre a de Sorento com certa rudeza, sua respiração se alterou e ele lutou para não fazer o que desejava há tanto tempo, beijar aqueles lábios, sentir o gosto daquela boca.

— Tome cuidado. – disse, por fim, retirando a mão e se afastando.

Sorento insistiu, posicionando-se frente a Julian, antes que ele deixasse o aposento. Por alguns segundos sentiu uma tensão invisível, como se ambos estivessem se debatendo com um dilema interior.

— Não faça isso comigo. Não seja mais um a me rejeitar.— falou o mago.

Julian virou Sorento de costas e puxou-o para si, aconchegando-o nos braços.

— Eu jamais faria isso...

Sorento fechou os olhos, mas em vez de encontrar conforto ou alívio, sentiu uma onda de calor e seu coração disparou. Cada parte de seu corpo ansiava por contato, por algo que buscara em Hades e que agora despertara, também, com a proximidade de Julian. Ele não compreendia o que se passava consigo, era torturante ser refém de sentimentos e sensações confusas e exigentes.

— Então me mostre. – sussurrou, Sorento, ainda envolvido pelos braços fortes do comandante.

As palavras do mago foram como um presente-surpresa para Julian. Ao término delas, Sorento virou-se com o olhar ansioso, cheio de dor e desejo.

— Faça amor comigo, Julian... Eu preciso saber...

Nunca em sua vida Julian desejara tanto alguém. O olhar de Sorento, as mãos dele em seu corpo provocavam uma excitação feroz que ele não conseguia ignorar. Sempre fora apaixonado pelo amigo, desde que eram meninos... Ao ser afastados, um do outro, ele tentara, desesperadamente esquecer aquele sentimento. Mas, fora em vão. E agora, ele estava ali, pedindo que o possuísse.

— Tem certeza? – a voz de Julian saiu baixa e rouca.

— Sim. – sussurrou o mago.

Julian percebeu o nervosismo e o medo do desconhecido na voz trêmula. Mas, ele teria enfrentado o mais terrível dos inimigos para ter aquele momento. Queria Sorento, era a sua oportunidade de mostrar o quanto o amava.

— Vem... – disse ele estendendo a mão ao mago.

Sorento obedeceu e os dois se encaminharam até a cama larga.

Inclinado a cabeça em direção aos lábios entreabertos de Sorento, Julian sussurrou:

— Eu nunca senti com outra pessoa o que sinto ao tê-lo junto a mim... – e com um tom sensual na voz ele completou – Quero você mais que qualquer coisa em minha vida.

Olhando para o brilho quente dos olhos azuis, Sorento se sentiu aturdido e cerrou as pálpebras para conter o desejo misturado ao medo que começava a dominá-lo. Sentiu a garganta ressecar e o corpo estremecer ao antecipar como seria... Ainda envolto na atmosfera confusa de suas emoções, ele gemeu baixinho quando Julian suavemente mordiscou-lhe o lábio inferior para em seguida aprofundar-se num beijo enlouquecido e voraz. Ao sentir sua língua ser sugada e tocada com tanta paixão, Sorento livrou-se de qualquer amarra que ainda o prendia e levou as mãos aos cabelos azulados de Julian, atraindo-o para si.

—Eu sempre quis beijá-lo... – murmurou o comandante quando as bocas se afastaram um pouco para puxar o ar.

Sorento inspirou o ar com força ao sentir um calafrio a percorrer-lhe o baixo-ventre e seu falo enrijecer de imediato. As mãos másculas e calejadas adentravam a sua calça, acariciando seu membro intumescido e arrancando mais gemidos que agora pareciam ainda mais ansiosos.

Os cílios escuros de Julian roçavam a face enrubescida de Sorento enquanto a língua traçava os contornos dos lábios do mago que estavam semiabertos. Depois, com a ponta dos dedos, o comandante traçou uma linha na curvatura do pescoço e levou os lábios até ali, sugando a pele, enquanto começava a despi-lo devagar...

Quando o tórax de Sorento ficou exposto, Julian pressionou os lábios no abdômen perfeito e foi fazendo uma trilha de beijos até chegar aos mamilos que já estavam rijos.

— Sua pele é tão macia, tão perfumada... – murmurou ele.

Julian curvou o tronco e fechou os lábios em um mamilo, enquanto acariciava o outro. Lambeu, vagarosamente, percebendo a cada toque as reações de prazer que fazia Sorento gemer e entrelaçar os dedos em seus cabelos, puxando-o, trazendo-o cada vez mais para perto do seu corpo.

O jovem mago arqueou o corpo, os quadris indo de encontro ao corpo daquele que o despertava e seus lábios se abriram em gemidos profundos... Sentia a densidade do corpo vigoroso de Julian, assim como a ereção dele pressionando-o através das roupas. O ar quente que exalava da boca do comandante fazia ansiar por mais, queria senti-lo sem nenhuma barreira...

— Eu... quero sentir você... – disse o mago de um jeito ofegante e estrangulado.

Julian sorriu e desvencilhou-se da camisa que usava. Os músculos do abdômen de Sorento se contraíram quando ele observou o corpo másculo e definido despindo-se, devagar... As calças foram retiradas e quando o mago vislumbrou o falo ereto, passou a ponta da língua nos lábios e sentiu faltar o ar. Julian sorriu, orgulhoso, e Sorento ficou ainda mais ofegante quando ele o segurou pela cintura e puxou-o, fazendo-o ficar contra o quadril dele, agora nu.

— Você é tão lindo... – sussurrou Julian ao mesmo tempo em que passava as pontas dos dedos no tórax do mago se contraía graças à forte respiração dele.

O comandante beijou um dos ombros de Sorento, fazendo círculos com a língua e sentindo o gosto da pele do mago. – E tem um gosto bom... – murmurou, enquanto continuava a beijar-lhe a pele.

O membro rijo de Julian roçou contra o seu e Sorento deixou escapar um gemido e arfou com ansiedade. Ambas as respirações aceleraram e as bocas tornaram a se devorar, enquanto o comandante cariciava as coxas perfeitas e se introduzia entre elas, movendo o quadril como se o estivesse penetrando, arrancando ofegos desesperados do mago.

Julian continuou com os olhos fixos nos de Sorento e devagar, começou a afastar um pouco mais as coxas do mago. Lentamente, ele levou o falo à entrada do amante e começou a se introduzir, arfando ao sentir a resistência... No mesmo instante, Sorento gemeu e levou a cabeça para trás. Nunca tinha tido um amante e a dor da invasão se fez presente, fazendo-o apertar os braços vigorosos. Julian percebeu e a expressão de seu rosto mudou. Porém, apesar da dor, Sorento estava imerso na sensação de fundir-se com outra pessoa para poder pensar em outra coisa.

O comandante estancou os movimentos e tornou a olhá-lo, fazendo força para controlar-se, esforço notado por Sorento que não queria que ele parasse. Quando Julian fixou o azul profundo do olhar nos olhos cristalinos de Sorento, o mago implorou:

— Não pare agora... Não importa a dor... fique dentro de mim.

Obediente, Julian permaneceu e, quando tocou nas profundezas do corpo quente de Sorento, ofegou e gemeu, sentindo um prazer que jamais vivenciara. Lentamente, os corpos se moveram sincrônicos e sedentos um do outro. As mãos de Julian acariciavam as costas alvas e macias, movendo-as para cima e para baixo ao mesmo tempo em que aumentava o ritmo das estocadas, arrancando gemidos extasiados e ofegando pela sensação de ser engolfado e pressionado tão intensamente.

Enlouquecido, Julian podia sentir a cavidade úmida e quente ceder, aos poucos, e seu falo pulsar dentro de Sorento, enquanto o mago passava a língua em seu queixo e cravava as unhas em suas costas suadas, gemendo e mordendo o lábio inferior...

Vigoroso e quase chegando ao clímax, Julian continuava adentrando as profundezas do corpo apertado, o falo buscando o ponto prazeroso, enquanto sua boca continuava a beijar e morder, deixando Sorento cada vez mais perto do orgasmo.

Os músculos potentes de Julian ondularam e retesaram ao chocar-se com o corpo esguio de Sorento, as bocas arfaram juntas e palavras roucas escaparam em meio ao suor e gemidos, cada vez mais altos. Os quadris avançavam e recuavam, trazendo espasmos de prazer... As peles brilhavam com o suor que brotava em meio ao bailado erótico dos corpos que pareciam fundir-se em um só.

Julian sentiu os tremores abaixo de si, a força do corpo de Sorento engolindo-o, apertando-o... Em meio ao furor de todo aquele prazer, os olhares tornaram a se encontrar e o mago gritou o nome de Julian em um tom quase doloroso. Depois, gritou novamente quando o orgasmo o envolveu e seu corpo começou a estremecer violentamente a cada espasmo crescente e seu sêmen molhou seu corpo e o do amante...

Então, um grito abafado e rouco escapou da garganta de Julian ao ser sacudido pelo orgasmo violento do outro e vivenciar o seu. Seus lábios estavam próximos e Sorento engoliu o som, apertando-o junto a si, enquanto ainda arfava e sentia seu corpo estremecer com o clímax.

Os dois ficaram abraçados por um momento, com as batidas do coração aceleradas e as faces quentes. O rosto de Sorento estava afogueado e, ainda mais belo aos olhos de Julian que agora retirava alguns fios de cabelo da testa suada e acariciava-o como se quisesse memorizar aquela cena para sempre.

O mago fechou os olhos suspirando. Julian também suspirou e ficou em silêncio por alguns segundos, sem saber, exatamente o que dizer de tudo aquilo. Sorento levou as mãos ao rosto e pressionou os dedos contra as pálpebras, completamente atônito pela experiência que acabara de vivenciar. A sensação que tinha era que toda a sua vida solitária e sem acesso às emoções havia sido um embuste, um pálido reflexo do prazer profundo que havia compartilhado com aquele que fora seu amigo mais fiel.

— O que foi...? Você está arrependido? – perguntou Julian percebendo a inquietação do mago.

— De certa forma, eu estou. – disse ele.

Julian franziu o cenho, as palavras de Sorento agindo como se alguém o tivesse apunhalado direto no coração. Fez menção de levantar quando Sorento pegou uma das mãos dele e colocou-a entre as suas.

— Estou arrependido de não ter descoberto antes o quanto isso é bom. – falou o mago puxando-o, novamente, para si.

Um sorriso iluminou a bela face de Julian, mas o olhar sério de Sorento o fez ficar sério, novamente.

— Eu te amo, sempre amei... – disse o comandante.

— Julian... eu permiti que acontecesse e senti muito prazer em seus braços, mas eu não...

— Eu sei, não espero que me ame, assim, de repente. Eu só desejo que saiba como eu me sinto. – falou Julian e beijou-o, novamente.

Sorento correspondeu, deixando-se consumir pela paixão de Julian. Talvez, quando tudo terminasse, quando Offa tivesse sua vingança e o bárbaro pertencesse ao passado, ele pudesse viver uma vida nova, diferente, onde fosse permitido viver aquele sentimento estranho chamado amor.

Notas finais
❤ ♥ Aproxima-se a hora do reencontro entre Hades e Minos. Então, peço paciência, porque mostrar um pouco dos personagens secundários faz parte do conjunto todo que culminará neste reencontro. ❤ O Lótus negro é citado em jogos de RPG e também nas HQs, principalmente nas histórias de Conan, o bárbaro. ❤ ♥ Mais uma vez, um super agradecimento a quem lê, espera, cobra, enfim, comentam, favoritam, recomendam e me enchem de carinho!!! MUITO OBRIGADA!!