OTHALA, A RUNA DA SEPARAÇÃO
9 Capítulo 8 - NO COVIL DO LEÃO...
Notas iniciais

O lugar de honra, ao lado do rei ainda estava vazio. Offa olhou em volta, procurando Sorento, enquanto à sua esquerda uma dama nobre tentava chamar-lhe a atenção.
— Não concorda, majestade? – indagou a mulher com um sorriso insinuante.
— Perdão, minha cara condessa. Eu estava prestando atenção em certos convidados e não ouvi.
— Eu dizia que o torneio organizado por vossa majestade é assunto predominante por todo o reino. Muitos estão curiosos para ver o bárbaro em ação. – disse ela sorrindo e limpando os dedos num guardanapo de linho.
Offa recostou-se à cadeira e pegou a taça de prata a sua frente. Os anéis de ouro encimados por diamantes e rubis reluziram com o movimento.
— Teremos vários campeões para mostrar ao bárbaro onde é o seu lugar.
— Pretende matá-lo?
Offa sorriu.
— A morte me parece entediante demais, fácil demais... Antes ele vai sofrer e implorar para que a morte venha.
A condessa sorriu, enquanto outros convidados aproveitavam o bom vinho, rindo e fofocando. Um séquito de criadas servia a todos enquanto uma música festiva enchia o salão. De repente, um dos servos se aproximou do rei cochichando algo próximo ao seu ouvido. Offa franziu o cenho, mas em seguida sorriu e gesticulou. Logo, uma trupe com malabaristas, acrobatas e anões trazendo pequenos animais adentrou o salão. Um homem avantajado e maquiado falou com voz forte:
— Saudações, vossa majestade! Somos a trupe Vaudeville Cirque e agradecemos por nos permitir a honra de diverti-lo!
Offa fez um pequeno movimento permissivo com a cabeça olhando para os integrantes da trupe com bastante atenção. Havia uma mulher muito esguia que parecia não ter ossos no corpo, pois dobrava o corpo para trás, encostando a testa nos pés. Um menino bonito acompanhava o malabarista que manobrava com destreza, argolas de diversos tamanhos que descreviam um círculo perfeito no ar, um jovem interessante e belo que cuspia fogo e fazia objetos aparecer e desaparecer de forma espantosos e anões que faziam palhaçadas, tendo ao seu lado, arminhos adestrados que corriam ao redor de maneira engraçada.
O espetáculo durou quase uma hora e o rei ria, achando divertido tudo que se construía ali. Diferente de outros grupos, Offa constatara que aquele possuía gente bonita e poucas aberrações. Até os anões não eram tão deformados como a grande maioria que acabava nos circos. Ao final, gesticulou para o homem que apresentara o espetáculo, visivelmente bem-humorado.
— Conseguiste quebrar a monotonia em que me encontrava. Leve sua trupe até a cozinha, ordenarei que os alimentem com a melhor comida. Depois, podem usar as cocheiras para dormir, quero-os abrindo o torneio que acontecerá depois de amanhã.
— Eu e minha trupe estamos honrados, majestade! – o sorriso do homem se alargou, enquanto ele fazia uma mesura exagerada.
Neste momento, Julian tomou seu lugar à mesa dos homens que protegiam o rei e Sorento avançou pelo centro do salão, indo na direção de Offa. Trajava uma túnica escura e elegante encimada por uma capa de lã negra. Seu olhar recaiu sobre o grupo circense e ele franziu a testa.
— Sorento! Pensei que não viria hoje. – falou Offa e o mago voltou-se para encará-lo.
— O que significa isso? – questionou Sorento.
— Diversão, meu caro irmão. Algo que lhe faz falta. – respondeu o rei.
Com um meio sorriso, Sorento tornou a olhar na direção do grupo. Foi neste momento que seus olhos cravaram-se em um par de olhos violáceos tão exóticos quanto os seus. O jovem era esguio e bem proporcionado, os cabelos longos em tom prateado estavam presos em uma trança embutida e ele tinha em suas mãos uma bucha queimada. Engolidor de fogo! Pensou, enquanto corria os olhos pelos demais integrantes.
Minos manteve a respiração calma e profunda, enquanto era observado pelo irmão do rei. Fazia parte de o disfarce, aparentar simplicidade e subserviência. Lembrou-se do encontro com a trupe em uma das ruas, logo depois em que, finalmente, ele e Alone haviam falado com Shina e seus homens...
— Minos! Alone! Mas o que vocês dois fazem aqui?
— Viemos libertar meu pai! – respondera o menino.
— Como assim?
— Deixe-me explicar o plano, senhora. – dissera ele, enquanto Alone observava ao redor.
Shina mantivera o cenho franzido o tempo todo, mas ao término da exposição do plano, ela batera em seu ombro e concordara com tudo.
Logo, os deuses conspiraram e uma trupe de artistas surgiu em seu caminho. Uma mulher de meia-idade os acompanhava, como que destoando dos demais. O cabelo dela era tão preto quanto as asas de um corvo e seus olhos verde-claros estavam fixos em algum ponto à frente do grupo. Ela usava uma estranha roupa em tons de vermelho e dourado, mantendo uma espécie de lenço sobre os cabelos.
O grupo conversava e ria, mas ela se mantinha séria e altiva. Logo, um homem avantajado que parecia ser o líder do grupo se aproximou dela, estendendo-lhe uma espécie de torta. Ela aceitou e comeu com apetite, sem nem por um instante desviar o olhar da direção onde ele e Alone estavam. Quando terminou, ela começou a entoar um cântico e algo dentro de si vibrou.
— O que ela está fazendo? – perguntou Alone.
Embora não entendesse as palavras, sentiu a atmosfera que envolvia o grupo e a eles, assumir uma natureza transcendental.
— Ela está olhando pra você... – murmurou o menino.
— Vamos ver o que ela deseja.
O grupo se abriu para ele passar e conforme se aproximava, tinha a impressão de que a mulher conseguia enxergar através dele.
— Veio de longe, gajo... Muito longe. É guiado pelo amor, mas também pelo destino. Peça. – disse ela e Minos compreendeu as palavras, surpreso com o fato.
— Pedir?
A mulher fechou os olhos por um momento e falou:
— Um homem forte, um líder e... amante. A liberdade dele vai trazer derramamento de sangue. Peça, e talvez, somente o sangue dos ímpios manche a terra.
— A senhora também vê o futuro.
— Peça ao meu filho que o deixe vir conosco. Entre no covil do leão como um de nós e cumpra o seu destino.
Sorento ainda olhou, mais uma vez, para o grupo, porém uma fisgada em determinado lugar do seu corpo o distraiu e o fez olhar na direção da mesa onde estava Julian. Um calor espalhou-se pelo seu rosto e ele desviou, tornando a olhar para Offa.
— Perdão pelo atraso. – disse, somente.
Offa riu.
— Quem perdeu foi você. Mas, eu os contratei para abrir o torneio. Um pouco de diversão é sempre bom. Agora sente-se e coma um pouco.
O mago obedeceu sentindo desconforto, porém, não demonstrou. Experimentou o vinho e a carne de javali. Conversou um pouco e constatou que Offa estava de bom humor, o que facilitava a sua permanência ali.
Enquanto isso, um facho de luz saindo de uma porta semiaberta adjacente ao salão nobre iluminou os pedregulhos do pátio. Era a porta da cozinha, de onde vinha o som de panelas se chocando e conversa dos criados. Dali saiu um homem com uma beleza feminina carregando uma cesta grande. Minos observou, quieto, até ser interpelado pelo homem.
— O que fazem aqui? – perguntou Misty vendo-os na porta.
— Somos a trupe Vaudeville Cirque, meu bom e belo jovem. Nos apresentamos para o seu rei e ele nos agraciou com a honra de abrir o torneio e também permitiu que comêssemos. – disse Boris, o líder.
— Ah, sim, podem entrar. Podem pegar pão desta cesta, enquanto peço ao cozinheiro alguns pedaços de carne. Direi às servas que lhes sirva um pouco de vinho. – falou o belo escravo.
— Obrigado, meu jovem. Apesar de sentir certa fome, já me sinto alimentado com a vossa beleza. – falou Boris tentando pegar a mão de Misty.
— Sou escravo do rei, senhor. Agradeço os elogios, mas o rei não permite liberdades com seus subordinados. – disse Misty puxando a mão.
— Oh, mil perdões pela minha impertinência. Escravo? Eu jamais suspeitaria que alguém tão belo poderia ser um.
Minos tentou não olhar para Misty. Quanto menos chamasse a atenção, melhor. Foi até Alone que estava junto dos anões. Assim que todos comessem e se recolhessem, ele trataria de descobrir onde Hades estava preso.
Misty fez uma mesura forçada e retornou para o calor da ampla cozinha. De costas para o grupo, revirou os olhos e fez um gesto para o cozinheiro corpulento que tinha o rosto vermelho, parecendo com um dos javalis assados. O homem compreendeu o gesto e gritou para Baldur, o engarrafador de vinho que dizia às servas para serem mais rápidas ao servir vinho aos convidados.
—Ah, a vida na corte... – disse Boris bebendo uma caneca de vinho, enquanto mastigava um suculento pedaço de carne.
— A comida é farta, mas não supera a nossa. – disse Alone baixinho, somente para Minos.
— Tem razão. Vamos comer devagar e observar tudo. Assim que tudo isso terminar, eu irei olhar as coisas por aí. – falou Minos.
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A Pedra estava bem guardada. Arqueiros com cota de malha estavam nos portões e soldados patrulhavam o pátio de forma ordenada. Com a proximidade do torneio, Offa fizera questão de mostrar sua força e cuidado. Ali estavam os bárbaros que ousaram atacá-lo e fazê-los de exemplo era uma forma de reafirmar seu poder.
Hades ouvia vozes próximas a si, mas a névoa sobre a sua mente teimava em ocultar-lhe a realidade. A primeira coisa que sentiu foi a coleira de metal e então, quando conseguiu, finalmente, abrir os olhos, viu faces conhecidas olhando-o, atentamente.
— Aldebaran... Rorik...
— Sim, jarl, estamos aqui. Lune e Aiacos também. – falou Aldebaran.
— Temi que estivessem mortos.
— Somos fortes, mais fortes que as menininhas do rei. Nós também tememos pela sua vida e estivemos discutindo um modo de sair daqui. – sussurrou Rorik.
Hades estreitou os olhos.
— Fui poupado para ser parte de um plano. Mal sabe ele o quanto foi imbecil em nos deixar vivos.
— Nós sabemos as rotinas daqui, qual soldado é mais forte e qual é mais fraco. – disse Rorik.
— Ótimo. – disse Hades. – Vamos planejar com cuidado. O miserável nem desconfia que é ele quem está com as horas contadas.
Aldebaran e os outros sorriram, era um alívio ter o jarl, outra vez, no comando.
O homem que tinha sido ajudado pelo viking, fingia dormir, mas ouvia os cochichos e rezava para que aqueles bárbaros tivessem sucesso. Os guardas passavam, de tempos em tempos e observavam os presos sem muita atenção. Acreditavam que todos ali estavam alquebrados e, em sua confiança arrogante, desprezavam os bárbaros que agora permaneciam junto de seu líder como crianças em volta do pai.
— Vamos beber um vinho quente, estou congelando. – disse um dos guardas.
Assim que eles saíram, Hades olhou para Rorik.
— Espero que a sua habilidade de ferreiro continue intacta.
Rorik sorriu.
— Quando lhe dissemos que tínhamos um plano, era porque a coisa já estava em andamento.
Hades olhou para as correntes e para o próprio corpo, ainda ferido. Então tornou a encarar seus homens.
— Por ora, vamos descansar. Temos que estar preparados para não deixar pedra sobre pedra, neste lugar.
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Misty observava de canto, enquanto a trupe comia e bebia, avidamente. Um dos criados que mais parecia um gigante com barba longa, começou a limpeza das mesas da cozinha numa tentativa explícita de enxotar todos dali. Boris continuava muito à vontade, ignorando o gesto. Minos viu quando ele repassou pães recheados com carne para dois anões do grupo e lembrou que a mãe do líder não entrara com eles na fortaleza do rei. Relembrou, também, as palavras dela “Entre no covil do leão como um de nós e cumpra o seu destino.”
— Alone, quero que fique atento e preparado. – disse Minos, baixinho.
— Está bem. Aonde você vai?
— Preciso de silêncio. Volto em seguida.
O menino assentiu e foi ficar perto dos integrantes do grupo. Notou o olhar do belo escravo sobre todos e, quando os olhos dele encontraram os seus, percebeu que ele os analisava. Então sorriu da forma mais inocente que conseguiu e desviou o olhar.
O pátio estava iluminado pela lua cheia. Cães famintos, à procura dos restos da festa, circulavam por ali, assim como algumas pessoas buscando um pouco de ar fresco.
Minos andou de forma cuidadosa, não precisaria perguntar nada a ninguém, apenas ficar só e usar seus dons. Assim que um casal passou por ele, rindo baixinho, ele encostou-se à parede de pedra e esperou. Em seguida, foi até um pequeno poço. Sentou-se na beirada e viu a lua refletida nas águas escuras. Aos poucos, a ondulação da água abriu o portal diante de si e ele enxergou. Hades surgiu, tão claramente, como se estivesse a frente de seus olhos e isso o emocionou. Mantenha-se no eixo! Disse a si mesmo, mas seu coração disparou ao ver o homem que amava vivo e bem. Quanto tempo fazia que estavam longe um do outro? Três, quatro meses? Parecia uma longa e dolorosa eternidade!
— Você e o menino são muito diferentes do resto do grupo.
A voz melodiosa de Misty interrompeu a visão e Minos manteve o controle, para não por tudo a perder.
— Ah, sim, nós somos nórdicos. Boris nos acolheu e nos ensinou o ofício de divertir. – respondeu, calmamente.
Misty sentou ao seu lado.
— Sabia que temos prisioneiros nórdicos aqui?
— Verdade? – questionou Minos sem demonstrar muito interesse.
— Sim, eles estão confinados na Pedra, uma prisão segura e cruel. Fica perto daqui e é muito bem guardada. Offa é um rei forte e determinado. Os bárbaros que estão presos tentaram matá-lo.
— Você é amante do rei? – perguntou Minos.
Com um sorriso contido, Misty encarou Minos bem dentro dos olhos.
— Como disse ao líder da trupe, sou um escravo, apenas. Servir ao rei na cama ou fora dela é uma obrigação, não um prazer.
Minos continuou encarando-o no fundo dos olhos. E o que viu neles, o fez franzir o cenho.
— Creio que vou me recolher. Obrigado pela gentileza, pois mesmo que diga ser, apenas, um escravo, sei que nem sempre foi um. Boa noite, milorde. – disse Minos.
Misty surpreendeu-se com a atitude do saltimbanco, mas resolveu não ir adiante com aquela conversa. Era perigoso e desnecessário.
— As cocheiras têm espaço e feno suficiente para que se acomodem. Boa noite. – finalizou Misty.
Minos deixou o poço e foi juntar-se aos demais. Assim que todos se acomodassem, ele faria o que devia fazer.
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O salão continuava barulhento e Offa continuava a degustar o bom vinho de sua adega. Ao seu lado, nobres importantes conversavam parecendo saciados depois da farta refeição. Lorde Russelford, já em idade avançada, cochilava na cadeira. No centro, vários jovens cavaleiros circulavam, conversando com amigos e sendo apresentados a outros convidados. As mulheres mais velhas, cujas filhas estavam na idade de casar, observavam aqueles considerados bons partidos por trás dos leques trabalhados.
Sorento já estava entediado e pronto para deixar o salão, quando notou o olhar de Julian sobre si. Observou que ele conversava com seus homens, mas nunca deixava de olhar na sua direção. Por alguns instantes, se permitiu admirá-lo também.
— Então, resolveu deixar o celibato e aproveitar a vida?
A pergunta do rei, feita próximo ao seu ouvido fez Sorento quase pular da cadeira.
— O que está dizendo? – falou o mago, sentindo o rosto em fogo.
— Ora, você jamais ficou tanto tempo em um jantar. Achei que tinha um bom motivo...
— Ainda estou aqui, porque me atrasei.
Offa bebeu o restante do vinho, sorriu e olhou para Sorento.
— Você está com cara de quem fodeu.
— Acho que já chega. – falou o mago mostrando indignação.
— Sente aí. – disse Offa segurando-o pelo braço. – Foi apenas uma brincadeira.
Sorento estendeu o cálice a uma serva que, rapidamente o encheu com vinho. Com um suspiro, ele sorveu um gole e mais outro, até não sobrar mais nada. Quanto acabou, ele se levantou.
— Com licença, tenho assuntos a tratar.
O rei fez um gesto de desdém e voltou a beber. Sorento aproveitou que seu irmão estava um tanto alto e deixou a mesa. Discreto, olhou para o lugar onde Julian estava, mas não o viu. Resolveu, então, deixar o salão e voltar aos seus aposentos.
Quando atravessava o pátio para ir na direção da torre, Sorento quase se decepcionou por não encontrar Julian, novamente. Tinha sentido uma estranha vibração ao encontrar aquele grupo circense e queria compartilhar o fato com Julian.
Então, de repente, um vulto surgiu a sua frente e Sorento deu um passo para trás.
— Julian?!
— Você está bem? – perguntou o comandante com uma voz calma.
— C-Claro, porque não estaria?
— Achei-o perturbado. Você parecia pouco à vontade com seu irmão.
O brilho dos olhos do mago sumiu por um instante.
— Você me observou o tempo todo, temi que...
— Alguém descobrisse sobre nós? É isso que teme?
— Não seja infantil. Eu apenas...
Julian olhou para os lábios entreabertos de Sorento e não resistiu. Cobriu a boca delicada com força, a princípio. Em seguida, sentiu que o mago correspondia com paixão e desejo, o que elevou àquela carícia a um patamar alto e prazeroso.
Sorento sabia que não deveria beijar Julian ali, nem permitir que ele o tomasse nos braços como estava fazendo. No entanto, a razão evanescera diante do calor daqueles lábios e do aconchego proporcionado pelos braços fortes. Por um longo tempo, perdeu-se na voragem sensual, mas logo recuperou o bom-senso.
— Pare! – ordenou com voz baixa, ainda sentindo os efeitos daquele beijo em seu corpo. Por favor, pare...
— Se essa for a sua vontade... – falou Julian e seu tom de voz parecia uma carícia.
Não, ele não queria parar, mas era preciso. Havia algo de estranho com o grupo circense e ele queria partilhar com Julian.
— Sim, eu quero que pare. Há algo que preciso compartilhar com o responsável pela segurança do rei.
Julian franziu o cenho e afastou o rosto, embora mantivesse as mãos na cintura do mago.
— Diga-me, o que o aflige?
— Aquele grupo circense, eu sinto que há algo de errado com eles.
— Vou verificar e mandá-los ficar fora da fortaleza.
— Offa os convidou para pernoitar até o torneio. Ele quer que eles façam uma apresentação antes das lutas. Não pode ir contra a ordem do rei.
— Eu e meus homens os vigiaremos. Fique tranquilo.
Sorento tocou o rosto de Julian. O ato foi tão natural que quando ele se deu conta, os olhos do comandante da guarda estavam brilhantes e cheios de desejo.
— Obrigado. – disse, somente.
Julian puxou-o de encontro ao corpo, os olhos conectados ao dele.
— Conte comigo. Sempre. Agora devo deixá-lo ou não respondo por mim.
Um sorriso tímido brincou nos lábios do mago. Julian beijou-o, rapidamente, e o deixou.
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Shina passou pelo primeiro portão, junto com seus homens e mais três grupos distintos. Já era tarde, mas como se deslocavam a pé, a guerreira os convenceu de chegar um dia antes do torneio. Assim, ela poderia agir junto de Minos e Alone no resgate de Hades e os outros.
Os quatro guardas de plantão olharam o passe dos homens e os mandaram ir em frente. Porém, ao pegarem o passe de Shina, um sorrisinho de escárnio distendeu os lábios de um deles.
— Uma guerreira?Tem certeza que está no lugar certo? – disse ele.
O rosto de Shina permaneceu frio e implacável.
— Bem, cego você não é, mas não posso afirmar que é inteligente.
O outro riu e, antes que o homem respondesse, Nairna surgiu gesticulando e ordenando que somente dois permanecessem para receber os passes daqueles que lutariam no torneio.
— O resto de vocês vá vigiar a torre e os prisioneiros. O rei ordena que tudo aconteça dentro do previsto e não haja falhas.
Shina olhou para a mulher madura que trazia alguém preso a uma coleira como se fosse um animal. Ficou surpresa ao perceber que ela era uma espécie de carrasco, devido ao modo como se dirigiu aos guardas. Entretanto, quando a pessoa trazida em uma coleira se revelou, um frio gelado subiu à garganta de Shina. Por Odin, essa mulher tratada como um animal é Hilda!
— Venha, minha cadelinha... Veja, temos uma mulher guerreira, por aqui. – disse Nairna puxando Hilda pela coleira.
Se controlando ao máximo, Shina encarou Nairna e olhou, rapidamente, para Hilda. A vontade que sentiu foi sacar a espada e arrancar a cabeça daquela mulher desprezível.
A jovem pareceu não reconhecê-la, assim como também estava mudada. Havia marcas roxas em sua pele alva e seus cabelos, antes longos, agora estavam curtos, fazendo-a parecer um rapazinho.
— Alguns estão chegando à noite, senhora. – disse o guarda. – Mas o rei abrigou a trupe de circo nas cocheiras, não há lugar para todos lá.
— Podemos nos acomodar em qualquer lugar. – disse Shina.
Nairna andou em volta da guerreira com um estranho brilho nos olhos.
— É raro vermos uma guerreira por aqui. Pelo seu porte e sotaque, eu diria que você tem sangue bárbaro nestas veias... – disse ela tocando o braço de Shina.
Controlando a raiva e o asco, Shina sorriu:
— Também é raro encontrar uma mulher como você.
A carrasca passou a língua nos lábios e olhou Shina dos pés à cabeça. Havia desafio e luxúria nas íris escuras que se pareciam com as de um réptil.
— Boa sorte...
Shina a encarou também.
— Obrigada, mas eu mesma faço a minha sorte.
Uma gargalhada irrompeu da boca da carrasca e Hilda arriscou um olhar na direção de Shina. Por um breve momento, ambas se encararam e então, a guerreira percebeu com detalhes as marcas de tortura acima dos seios, no pescoço e nos braços. O olhar mortiço da jovem cedeu lugar a um brilho agressivo, porém disfarçado.
Sentindo a ira retornar com força, dentro de si, Shina piscou rápido, como se fosse um sinal e, para a sua surpresa, Hilda devolveu. Então a guerreira apertou a embocadura de sua espada e sorriu. A jovem inspirou fundo e tocou a corrente, apertando-a em suas mãos calejadas. Alheia ao movimento, Nairna só percebeu que havia algo errado quando era tarde demais...
Shina ergueu a espada com as duas mãos e a girou num arco amplo. A lâmina afiada cortou o pescoço de um dos guardas e furou o peito de outro. Ao mesmo tempo, Hilda puxou a corrente, desequilibrando Nairna que, mesmo sendo pega de surpresa, reagiu sacando um punhal com a lâmina longa.
A jovem sentiu o fio da arma em seu braço. A dor foi forte e o sangue escorreu. Ela olhou para a mancha vermelha que fluía do corte profundo e apertou os dentes. Shina pensou em ajudá-la, mas compreendeu que a jovem teria de fazê-lo sozinha ou as marcas da tortura ficariam muito além da carne.
O restante de controle que Hilda tinha sobre a sua sanidade se partiu quando a lâmina da carrasca a cortou. Ela liberou a força plena de seu ódio e, com um movimento súbito e inesperado, desviou do ataque de Nairna e esmagou com a cabeça o nariz da carrasca.
A cabeça de Nairna pendeu para trás, fazendo-a perder o punhal. A realidade ficou nublada e, de repente, Hilda percebeu que estava com a adaga da carrasca na mão.
A lâmina mergulhou na carne inimiga, rompendo músculos e atingindo o osso. E Hilda a retirou e atacou de novo e de novo, num frenesi macabro, até sentir a viscosidade e o calor do sangue em sua pele.
Parada, Shina observava a fúria de Hilda. O sangue cobria as mãos da jovem e seus olhos pareciam selvagens, quase animalescos. O corpo de Nairna estava caído no chão numa enorme poça vermelha e a jovem ofegava.
— Acabou. – disse a guerreira se aproximando da jovem ensanguentada.
Os olhos de Hilda estavam enevoados, sua respiração era áspera e ela não parecia reconhecer ninguém. A fúria se libertara e ela se tornara uma Berserker. No entanto, Shina sabia que, por baixo de todo aquele frenesi de ódio, estava uma jovem destemida e justa. Aproximou-se dela, devagar, e a abraçou.
— Está tudo bem, agora. A miserável nunca mais vai machucá-la.
Ao ouvir a voz de Shina, a consciência lhe encheu os olhos e Hilda correspondeu ao abraço.
— Eu não feri você? Eu fiquei quase louca... – murmurou ela, deixando que as lágrimas escorressem pelo rosto.
— Não. – respondeu Shina tocando-lhe o rosto. — Tudo vai ficar bem. Vamos resgatar os outros e sair daqui.
Hilda assentiu com a cabeça e limpou o rosto bonito com as costas da mão.
— Então vamos, não vejo a hora de deixar esse lugar maldito.
Shina sorriu e abraçou-a, uma vez mais.
— Você luta como uma Valquíria, seu pai deve estar orgulhoso.
— Você também. – falou Hilda junto de um sorriso de gratidão e algo mais.
Shina sentiu o coração palpitar, mas não era o lugar, nem o momento. Quem sabe quando estivessem à salvo, poderia revelar seus sentimentos...
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