OTHALA, A RUNA DA SEPARAÇÃO
7 Capítulo 6 - NADA É O QUE PARECE...
Notas iniciais

“Ele apareceu do nada, como muitos outros já apareceram, e quando eu me dei por mim, eu queria que ficasse um pouco mais. Queria que ficasse muito mais. Queria apenas que ficasse.”
*Luis V da França
O coelho assado estava macio e tenro. As chamas da fogueira iluminavam os olhos escuros do homem com tons de dourado, enquanto ele cortava um pedaço da carne e levava-o à boca com um cerimonial próprio da nobreza.
Luis V, rei da França, tinha uma aparência suave, pouco viril. Porém, ainda assim, havia se casado com Adelaide Branca de Anjou, filha de Fulque II de Anjou, quase vinte anos mais velha e já viúva duas vezes. No dia do casamento, ambos haviam sido coroados rei e rainha da Aquitânia. Entretanto, sua missão era resgatar o poder da dinastia carolíngia, eclipsada pelos atos do rei Offa, mais poderoso e bem sucedido dos reis anglo-saxões. Para isso, contava com espiões muito bem treinados, capazes de lhe passar todas as informações sobre as ações do rei.
Um mês havia se passado, desde que enviara em uma missão secreta a paixão de sua vida, Misty, seu melhor cavaleiro. Ele se prontificara em passar por escravo e tornar-se íntimo do rei Offa e, cada vez que pensava nisso, seu coração ficava apertado e se perguntava se valeria a pena...
Havia uma garrafa de Bourbon na mesa farta e Luis a pegou. Bebeu o máximo que pode, a sensação do líquido descendo pela garganta era agradável e o acalmava. Calma era algo de que ele precisava para suportar a ausência dele.
— Majestade, alguém se aproxima da cabana. – disse o soldado ficando em prontidão.
Luis quase sorriu. Gotículas de suor brilhavam no lábio superior dele e a sombra da barba escura de um dia já se fazia visível. É ele! Pensou o rei francês. Somente aquele que detinha o seu coração sabia que estava ali e, somente para vê-lo, tinha ousado correr aquele risco.
Minutos depois, Misty surgiu, belo e impetuoso como sempre. Ele passou pelos guardas e sorriu para Luis que, assim como Offa, perdeu-se naqueles olhos azuis e nos lábios carnudos. Dois rapazes que estavam sentados perto do fogo, aquecendo as mãos e cuidando de seu soberano o saudaram.
— Deixem-nos. A ordem foi dirigida pelo belo loiro e prontamente obedecida.
O rei sorriu e, quando Misty fez-lhe uma reverência, ele não se conteve e puxou-o para perto de si.
— Quanta falta a sua beleza me faz, meu tesouro raro e imaculado... – murmurou ele.
— Suas palavras são fortes e lisonjeiras, majestade. – respondeu Misty, vaidoso e altivo.
— Eu lastimo que tenha de representar este papel. Quando penso que tens que aturar aquele homem na cama, eu... Diga-me, ele não o maltrata, não é?
Misty roçou os lábios nos dele, enquanto murmurava:
— Sou seu, sou fiel e faço qualquer coisa pela vossa segurança. Nenhum sacrifício é grande demais pela glória de Luis V da França. E não, Offa não me maltrata. Ontem mesmo, quando fingi estar doente, para testar o quanto ele aprecia a minha companhia, ele mandou o médico da corte me ver. Acredite, eu o tenho na palma da mão.
— Ainda bem, meu tesouro.
Luis tocou-lhe os lábios com os dedos e sentiu os dedos longos arranhando de leve a sua perna. Fechou os olhos... Ah, como adorava aquele toque! Suspirou feliz e beijou-o, profundamente. Em seguida, tomou a mão de Misty na sua e falou:
— Então, diga-me o que está acontecendo na corte.
— Offa prendeu um chefe viking e espera torná-lo um exemplo para os seus inimigos. Talvez nem precise atacá-lo, meu amado. Acho que ele está cavando a própria sepultura e... Bem, se ele for morto por um bárbaro, melhor para a vossa casa. Não?
Pela primeira vez em semanas, Luis sorriu largo e Misty sentiu-lhe a ereção. A mão suave tocou-o, novamente, na parte interna da coxa e ambos sorriram, antes de trocar mais um beijo profundo e apaixonado.
O rei encantou-se pelo cavaleiro, desde a primeira vez em que o vira lutar com o florete. A postura elegante e, igualmente letal, criava um contraste apaixonante na personalidade daquele homem.
Misty de Lézard era disputadíssimo na corte, sua beleza ímpar sobrepujava a de muitas mulheres. A maioria delas o invejava, principalmente aquelas, cuja atenção dos amantes, se voltava para ele. Entretanto, apesar da beleza e sensualidade, o jovem era forte, leal e um adversário que se devia temer. Era seletivo e austero nas ações, assim como vaidoso e consciente do próprio valor, e fora isso que atraíra Luis V.
A despeito do seu casamento com uma velha como diziam as suas costas, o rei se permitia dar vazão as seus desejos e paixões. E, ali estava, em uma cabana próxima ao castelo de Offa, apenas para ver o objeto de sua afeição.
— Eu o quero... — sussurrou o rei e o cavaleiro sabia o que ele desejava.
Sorrindo, Misty fitou Luis bem dentro dos olhos. Lembrou-se do estratagema para passar-se por escravo. Desde a encenação com o mercador francês que mentia tê-lo trazido direto das Highlands, até o olhar agudo e interessado de Offa ao mandar comprá-lo. Sim, ele fora vitorioso como sabia que seria. Nenhum homem deixava de olhá-lo uma segunda vez e o rei da Mércia não seria diferente.
Luis gemeu e Misty obrigou-se a deixar os devaneios para outra hora. Seu rei precisava da sua atenção e ia tê-la... sem restrições.
O rei estava completamente entregue. Aquilo era exatamente o que precisava e desejava: experiência e habilidade. Misty sabia como satisfazê-lo e o levava à loucura.
Se soubessem que, mesmo com aquela beleza feminina, era o jovem cavaleiro quem o fodia com força e paixão... Quando o conhecera e mandara chamá-lo, aos seus aposentos, temera que ele não quisesse assumir um papel ativo, mas surpreendeu-se quando ele próprio sugeriu e o possuiu como nenhum outro fora capaz. Foi o que bastou.
Meu amor... As palavras saíram ofegantes da boca do rei, ao ser erguido e abraçar os quadris de Misty com as pernas, encaixando-se no membro que o penetrava.
Diferente de Offa que jamais fora passivo, Luis se entregava, fazendo o belo jovem sentir a cavidade estreita e úmida apertar-se em volta de seu membro.
O rei mordia o lábio conforme Misty se impulsionava com mais força. Não havia hierarquias quando se enterrava no corpo sedento, nem nos gemidos altos e gritos escandalosos que Luis emitia, embriagado pelas sensações alucinantes.
— Não pare, meu amor! Não ouse parar...
Ao encontrar o ponto mais sensível do corpo do rei, Misty estocou com força, levando Luis ao orgasmo e fazendo-o cravar as unhas em suas costas.
Antes de gozar, Misty estancou os movimentos e fitou o rosto suado de Luis que sorria e estremecia. O rei tocou-lhe os lábios e só então o jovem se permitiu derramar-se quente e enlouquecido, dentro do amante.
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Sorento ordenou que Hades fosse deixado nos seus aposentos e dispensou os guardas. Assim que eles saíram, o mago serviu um cálice com água e levou aos lábios do viking.
— Beba, deve estar com sede.
Hades estava cansado e com dores. Quando Sorento encostou o cálice em sua boca, ele aceitou e bebeu. A água fresca foi como um bálsamo e ele fechou os olhos, por algum tempo.
— Como está se sentindo? – perguntou o mago, com naturalidade no tom de voz.
Com o cenho franzido, Hades encarou-o, surpreendendo-se com a pergunta.
— Consegue sentir seu corpo? – tornou a questionar, Sorento.
Mesmo ferido e estonteado, Hades compreendeu que havia algo errado pelo tom de voz e olhar do mago.
— A água... Você pôs algo na água... – ele fez menção de mover o corpo, mas os joelhos cederam sob o peso e o fato de estar amarrado fez o corpo pender para o lado.
Sorento observou-o, serenamente, enquanto o via lutar para se recompor.
— V-Você me trouxe aqui... para me envene..
O torpor tomou conta do corpo de Hades e ele sentiu a língua adormecer e inchar, a visão desfocou violentamente. Ele cambaleou, mais uma vez, e Sorento o amparou, direcionando-o até a cama.
— Acalme-se, não é veneno, é apenas valeriana. Não lute contra o efeito calmante. Venha, deite-se aqui. – falou o mago.
Após a advertência feita com tranquilidade, Hades ainda entreabriu os lábios tentando falar, mas a escuridão o engolfou e ele mergulhou no vazio. Sorento o amparou e o acomodou em sua cama, desamarrou-o e colocou um travesseiro sob a cabeça do viking, deixando-o com a barriga para baixo. Olhou para as costas machucadas e foi até uma prateleira. Pegou um pote contendo um unguento verde escuro e, depois de limpar cuidadosamente o sangue, distribuiu o remédio e cobriu-o com um tecido limpo.
Mais tarde, ainda dormindo, Hades se virou na cama e Sorento pode observar melhor as feições daquele homem. Ele parecia outra pessoa assim, adormecido. O mago fitou-o, atentamente. As feições eram belas e harmônicas, apesar do nariz exibir uma ligeira protuberância em um lado como evidência de ter sido quebrado em alguma batalha. Os lábios finos e desenhados estavam entreabertos revelando parte dos dentes perfeitos. Continuou a exploração visual detendo-se nas cicatrizes no tórax e braço. Admirou o trabalho de quem costurara a pele, em um dos ferimentos profundos, deixando, apenas, uma fina linha.
Devagar, Sorento chegou bem perto do rosto de Hades, sentindo vontade de tocá-lo. A mão chegou até os cabelos e parou. O que estava fazendo?
O viking estava com as roupas sujas e esfarrapadas que havia vestido para ser levado ao rei. A visão de um homem como aquele, num estado degradante o fez torcer o nariz. A primeira ideia foi despi-lo, depois mudou de ideia e preferiu chamar duas servas mais velhas para fazê-lo. Anne e Isobel seriam perfeitas. Pensou, enquanto se encaminhava para chamá-las.
— Lavem-no e vistam-no. Arranjem uma roupa limpa de algum dos servos – ordenou ele, quando as duas matronas se apresentaram.
— Sim, milorde.
As duas mulheres que beiravam os quarenta anos fizeram um esforço para não ficar com a boca aberta ao ver o corpo másculo do bárbaro e seu membro surgir, após a retirada da calça. Um “Oh!” silencioso às manteve em total cumplicidade, enquanto o lavavam.
De pé, olhando para as brasas da lareira que havia no centro do cômodo, Sorento se mantinha sério, analisando as suas ações e reações. Seu irmão era o rei e aquele bárbaro, o seu inimigo imediato. Tinha que fazê-lo reconhecer a autoridade de Offa, mas sabia ser quase impossível, salvo usasse seus poderes. Podia usar a música infernal como diziam aqueles que o temiam e já haviam experimentado o efeito da mesma. Porém, em seu íntimo, admirava a fibra daquele bárbaro altivo.
Horas depois, Hades acordou. Num primeiro momento, ficou confuso, mas logo reconheceu que estava deitado em uma cama e vestido com roupas limpas. Olhou para o próprio corpo, constatando que usava uma túnica de algodão com mangas longas e uma calça de lã cinza que estava um tanto justa. O ferimento no ombro latejava, do braço até a mão, causando uma dormência desconfortável. A perna também doía, sua boca estava seca e a cabeça zumbindo. Entretanto, ainda assim ele vislumbrou a chance de reagir e fugir.
Sorento estava vigilante, já que optara por deixar o bárbaro sem amarras. Apesar de não ser um homem comum, Hades podia ser lido por alguém atento e intuitivo. Assim que o viking se mexeu, o mago sacou uma adaga e encostou-a no pescoço dele.
— Cuidado, bárbaro. Não cometa o erro de subestimar-me, fazendo algo que venha a se arrepender.
— Você é estranho, meio-irmão do rei. – disse Hades sem se alterar, o olhar fixo nos olhos rosáceos que brilhavam no aposento mal iluminado.
— Eu o trouxe aqui, porque sou contra métodos brutais. Mas, não pense que vou permitir que fuja ou dar-lhe regalias. É melhor acostumar-se ao fato que é prisioneiro de Offa e enfrentar o julgamento que ele escolher.
— Mesmo no estado em que estou, eu poderia matá-lo facilmente. – replicou Hades.
Ainda fitando-o nos olhos, Sorento sorriu, pela primeira vez. Pressionou a ponta da adaga e Hades sentiu uma aguilhoada. Um pequeno filete de sangue escorreu pelo pescoço como um importante aviso...
— Tem a língua afiada como a arma que tenho em mãos, bárbaro. Mas, se tem alguma honra, sabe que me deve a sua vida.
Hades meneou a cabeça sem se importar com o fio da adaga.
— Por esta razão, ainda está vivo, mago. E saiba que eu lamento que seja parente daquele rei maldito, porque se ficar no caminho vou matá-lo assim que mandar seu irmão para o inferno.
— Tente fazer isso. – falou Sorento, com um tom inexpressivo.
Assim que terminou a sua fala, o mago afastou a adaga do pescoço de Hades, limpou-a com um lenço e, em seguida, o sangue do pescoço dele.
— É melhor me levar de volta para a cela.
Sorento olhou-o com desdém e afastou-se da cama.
— Não tenha pressa para encontrar o seu destino. Deve estar com sede, beba. É água pura, sem valeriana. – disse o mago passando-lhe uma caneca de estanho.
Hades sabia que seu estado era deplorável. Apesar de ser um homem vigoroso, os ferimentos, mais as chibatadas o haviam deixado debilitado. Praguejou mentalmente, irritado com aquela fraqueza, acompanhada de fortes dores. Aceitou a água e também um prato com caldo verde, mandado trazer pelo mago.
Uma das servas o olhava com curiosidade, enquanto ele comia.
Logo escureceu e Hades continuou deitado, economizando forças. Precisava descansar e, se aquele mago estranho estava lhe dando essa chance, aproveitaria o máximo que pudesse. Poderia ter tomado a adaga dele, mas deixara que pensasse que ainda estava muito fraco. Não estava em seus melhores dias, mas logo ele inverteria aquele jogo.
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O ambiente na aldeia estava calmo. As galinhas ciscavam e as cabras transitavam, pastando aqui e ali. Em sua cabana, Alna sorria, enquanto mexia um caldeirão com cozido de carne e ervas, empurrando Tormund que se aproximava e lhe beliscava as nádegas. Os dois também esperavam um filho e graças às adaptações que Minos fizera, Alna podia executar suas tarefas diárias como se ainda possuísse ambas as mãos.
Radamanthys deixara o campo de treinamento e refletia sobre a demora de Jamian em chegar até a aldeia. Eles estavam acampados bem perto, menos de um dia a cavalo. Então porque demoravam tanto?
Pandora atravessou o pátio veio até ele. Estava corada pelo exercício, mas parecia bem e disposta.
— Os batedores trouxeram alguma notícia? – perguntou ela.
— Ainda não os mandei. Jamian está perto e eu vou interceptá-los no caminho. Quero saber logo as intenções do homem.
— Me dê a sua mão. – disse ela e Radamanthys obedeceu.
Com um sorriso, Pandora colocou a mão dele sobre o seu ventre e o guerreiro arregalou os olhos ao sentir um movimento vigoroso dentro do corpo dela.
— Ele chutou! – falou o guerreiro.
— Ele ou ela. – emendou Pandora.
O guerreiro riu contente e, em seguida, encarou-a. Ela estava com um sorriso largo nos lábios e uma expressão maliciosa.
— Toda essa movimentação me fez lembrar que... bem, temos tipo pouco movimento entre nós dois. – disse ela.
Os olhos dourados brilharam cheios de desejo. Radamanthys puxou-a de encontro ao corpo, beijando-a com paixão. Pandora ficou ofegante, os seios, agora um pouco maiores subindo e descendo com a respiração descompassada.
— Vou resolver a questão sobre Jamian, depois resolveremos a nossa questão sobre movimento. – sussurrou o guerreiro com o membro enrijecido.
Pandora sorriu e deixou-o ir. Radamanthys chamou um grupo de jovens e rumou para a estrebaria, onde os cavalos já estavam prontos.
Apesar de sentir a falta de Hades ao ponto de sentir uma opressão no peito, Pandora havia conversado com Minos e ele partilhara com ela, as suas visões. Acreditava nele e colocava as suas esperanças na certeza que ele demonstrava em sua fala. Hades voltaria e a família estaria reunida e completa, novamente.
O som longínquo dos cascos dos cavalos indicava que o grupo já deixara a aldeia para encontrar o outro clã. O caminho era cercado por florestas de cedro e pinho e logo Radamanthys estaria frente aos homens do clã do corvo.
A clareira onde Jamian estivera, com seus homens, estava abandonada. Havia restos de brasas e ossos engordurados. Minos viu tudo em sua mente, agora com uma fluidez natural, enquanto se posicionava em uma rocha que ficava, exatamente, na metade do caminho que levava à aldeia.
Nuvens escuras se acumulavam no céu, porém o jovem mago, apenas olhou para o alto e sorriu. Percebia que eram, apenas, nuvens, e não prenúncio de tempestade. Ao seu lado, Alone caminhava ereto e confiante. O convite que Minos lhe fizera despertara nele um orgulho jamais vivenciado. Ele o considerava um guerreiro forte o suficiente para ajudar seu pai! Pensava o menino com um sorrisinho bobo nos lábios.
— Logo, logo eles surgirão. – disse Minos mordendo uma folha de capim.
— O que será que eles querem? – questionou Alone.
— Jamian é um filho da mãe ambicioso. Ele crê ter informações que desconhecemos e acha que isso nos abalará. – respondeu Minos.
O menino forçou a visão, enxergando a silhueta de homens montados a cavalo.
— Acho que são eles!
Minos levantou-se da rocha e começou a descer.
— Vamos. – disse ele para Alone.
Os dois se posicionaram no meio da pequena estrada. Jamian vinha à frente usando uma túnica verde escuro que se parecia com a cor da vegetação. Os outros pareciam estar prontos para o combate, usando túnicas acolchoadas, calças de lã e botas de couro amarradas até os joelhos. Montavam cavalos robustos, que pareciam bastante descansados.
Minos encarou Jamian e falou:
— Boa tarde, Jamian de Corvo. A que devemos a honra?
Quando o homem encarou-o e sorriu, Minos manteve a firmeza no olhar e não retribuiu a ação.
— Não trago boas notícias, mas... – falou o líder do clã do Corvo.
— Se veio informar que Hades e os outros foram presos, nós já sabemos. – interrompeu Minos.
Jamian franziu o cenho e engoliu em seco. Como assim já sabem?
— Então se já sabem, hão de concordar que precisamos nos unir e...
— Pelo que eu me lembro, retirou seu apoio quando afirmou que o nosso estilo de vida o ofende e deixou a reunião convocada por Hades. – cortou Minos, novamente.
O homem coçou a cabeça e seus homens o olharam.
— A situação mudou. Mesmo não concordando nós viemos ajudar a proteger o clã.
— Proteger? – falou Minos com um sorriso sarcástico.
Enquanto Minos e Jamian falavam, Alone permanecia atento. Por um instante, ele se sentiu observado, então, disfarçadamente, pegou uma pequena pedra. De repente, lançou-a com precisão e rapidez em meio às árvores. De imediato, alguém gemeu e saiu tropeçando de dentro da mata e esfregando a cabeça.
— Um homem não pode nem mesmo se aliviar. – reclamou o guerreiro avantajado que pertencia ao grupo do Corvo.
Minos olhou para Alone que sorria.
— Não precisamos de proteção, sabemos muito bem nos defender. O que fiz com a pedra, se torna bem mais fácil com a adaga. – disse o menino com um olhar tão firme quanto o de um adulto e colocando a mão na arma que trazia sempre junto ao corpo.
Os outros se movimentaram, nervosos, e Jamian elevou a mão. O ato de ter colocado um homem para observar, incógnito, falhara. Precisava dispor de outra alternativa.
— Vai nos negar hospitalidade por uma noite? – perguntou ele, fingindo estar sob controle.
— Não creio que se sentirá à vontade numa casa onde o responsável é o companheiro do jarl. Então, para evitar constrangimentos, sugiro que dê meia volta e retorne para o seu lar. – respondeu Minos e o tom de voz era claro e forte.
Jamian olhou para o céu nublado e tentou uma última vez.
— Parece que vai chover.
Minos murmurou palavras que Jamian não entendeu. Então olhou para o alto e fez um gesto com a mão. Raios de sol se infiltraram por entre as nuvens que foram se abrindo, como por encanto.
— Vejam só, até a natureza está contribuindo para que não tenham de permanecer onde os costumes vão contra o que tomam como correto para si. – falou o jovem com ironia no tom de voz.
Jamian não sabia se tudo era uma coincidência ou não, apenas que aquele bøsse o estava insultando, descaradamente. Ele cerrou os dentes e olhou para Minos de um jeito, que se pudesse fulminá-lo, teria feito. No entanto, quando tencionava dizer algo, Radamanthys e seu grupo chegaram. O guerreiro olhou para o irmão e dele para Jamian.
— O que está acontecendo aqui? – perguntou Radamanthys.
O ressentimento estava explícito nos olhos esbugalhados de Jamian e ele estava tentado a enfrentar o grupo. No entanto, algo dentro de si o alertava contra aquele jovem arrogante que se tornara companheiro de Hades.
Havia algo de diferente no olhar, no tom de voz e até mesmo na postura do corpo de Minos. Ele parecia envolvido por uma aura de poder que ele não conseguia explicar... Era como se aquele homem fosse a representação do espaço de tempo que ocorria entre o raio e o trovão, quando a respiração cessa à espera do que está por vir. Era uma sensação estranha e misteriosa que se remexia em suas entranhas...
— Jamian teve a gentileza de vir nos avisar de algo que já temos conhecimento. – disse Minos. – E agora, ele está retornando, já que o tempo melhorou e permitirá seu retorno em segurança, não é mesmo? – completou encarando o líder do clã do Corvo.
Radamanthys encarou Jamian e os demais. Podia sentir a coceira da selvageria em cada um, a agressividade latente que pairava entre aqueles que não tinham a mesma visão e opinião. Porém, estava preparado. Se Jamian iniciasse uma luta, seria uma disputa mortal e ele acabaria com todos sem um pingo de piedade.
A tensão era palpável, porém a covardia ou o bom senso venceu. Jamian tinha visto a expressão de Minos e precisava pensar. Havia perigo e uma ameaça contida, não só nos olhos dele, como dos outros. Radamanthys também era um guerreiro conhecido e temido. Ele estar ali não era bom agouro e lutar com ele não era a melhor opção.
— Muito bem. Então está esclarecido. Posso acompanhá-los até os limites fora da aldeia. – falou Radamanthys.
— Não é preciso. – cortou Jamian, rápido e seco.
O grupo deu meia-volta e deixou o local. Radamanthys olhou para o irmão com satisfação e orgulho.
— Nem vou perguntar como fez isso.
Minos sorriu.
— Precisamos conversar, tenho algo importante para partilhar com você e os outros. – disse o jovem.
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Shina acordou com a cabeça doendo. Bebeu a cerveja da caneca de estanho e cuspiu. Estava com sabor ruim. Ao seu lado uma mulher com a pele cor de ébano suspirava e se enrolava nos lençóis amarfanhados. A guerreira olhou para o corpo nu e voluptuoso da companheira de cama e sorriu, apesar da ressaca. Exagerara com a cerveja escura e agora pagava o preço, mas tinha valido a pena.
Levantou-se da cama e olhou pela janela. Acabara de atracar em um dos portos pequenos, perto de York onde fazia negócios com um velho árabe. Havia um cheiro de peixe e dejetos no ar que a fez torcer o nariz, porém aquele lugar sempre implicava em boas transações "comerciais".
Tomou a bolsa de couro onde carregava as joias e retirou um camafeu em ouro com uma rosa entalhada em marfim. Nesse meio tempo, a bela negra acordou e sorriu.
— Você já vai? – perguntou ela com um tom enrouquecido.
— Sim, tenho negócios a fazer. – respondeu Shina. – Tome, isto é para você. – disse a guerreira estendendo o camafeu na direção da mulher.
A mulher arregalou os olhos amendoados.
— Para mim? Está mesmo me dando esta joia?
A guerreira sorriu.
— Sim, ficará muito bem em você. É um pequeno agrado pelo prazer que me proporcionou.
Comovida, a mulher tomou o presente nas mãos e fitou Shina.
— Falam que vocês são bárbaros, mas nunca nenhum dos nobres que partilharam a cama comigo foi tão gentil ou me deu tanto prazer como você. Penso se... o tal jarl preso no castelo do rei é igualmente generoso como as mulheres de seu clã.
Shina sentiu o sangue gelar.
— O que você disse? Que jarl é esse?
— O tal Hades que todos temem por aqui. O rei conseguiu prendê-lo quando ele veio tentar matá-lo. Dizem que Offa enviou-lhe a cabeça de um tal Wulvar, Wultar, não sei pronunciar direito.
— Wulfgar... – murmurou Shina.
Rapidamente, Shina vestiu sua roupa e juntou suas coisas. Wulfgar estava morto e Hades havia sido preso. E Hilda, o que teria acontecido com ela?
— Conte-me, mais. – pediu a guerreira.
— Eu já contei tudo o que sabia. – respondeu a mulher.
— Diga-me uma coisa, o castelo do rei fica muito longe?
— Há dois dias daqui.
— Adeus, Isobel – disse Shina.
— Adeus. Se um dia você voltar, me procure. – falou a mulher, ainda mais comovida por ser chamada pelo nome.
A guerreira já não estava ouvindo. Sua mente trabalhava rápido, enquanto pegava sua espada e colocava-a atrás das costas. Lembrou-se que sonhara com Minos e que ele lhe pedia um favor. Tinha que saber mais sobre o que tinha acontecido e então, tomar uma atitude.
Após reunir os homens que estavam consigo, Shina deixou a estalagem e rumou pelas ruas estreitas e sujas. Primeiro, tinha de vender as peças que trouxera. Com as moedas adquiridas, poderia comprar informações.
Aguente firme, meu cunhado. Eu estou chegando! Pensou ela, enquanto junto com seu grupo de guerreiros, abria caminho por entre mendigos maltrapilhos e pequenos ladrões.
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