OTHALA, A RUNA DA SEPARAÇÃO
4 Capítulo 3 - INICIAÇÃO
Notas iniciais

“Então as Nornes
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens valores, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.
Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, a morte beija teus lábios,
Mas vês que estás mais vivo que antes e que desejas mais.”
– O que aconteceu? – perguntou Radamanthys assim que chegou e viu as mulheres saindo do quarto de Hades.
– A senhora Pandora teve um sangramento. – respondeu Ingrid, a mais velha.
O guerreiro franziu o cenho com visível preocupação. Abriu a porta com mais força que devia, deparando-se com a imagem de Pandora, pálida e chorosa.
– Eu sinto muito... – ela disse soluçando, a voz tomada pela emoção ao ver o marido entrar no quarto.
Radamanthys atravessou o aposento com três grandes passadas e parou junto à cama.
– Meu amor, eu estou aqui. Vai ficar tudo bem. – ele murmurou segurando a mão fria de Pandora.
– E se perdermos o bebê? – disse ela, os olhos violáceos revelando todo o seu desespero.
– Não vamos perdê-lo. Você e o bebê ficarão bem. Guthrum esteve aqui e lhe deu uma poção, não foi?
– Sim, mas eu ainda sinto cólica e dores.
– Vai passar. – disse ele sentando-se na cama e tomando Pandora nos braços. – Agora feche os olhos e descanse. Ficarei ao seu lado o tempo todo.
Como se fizesse parte da poção que Pandora havia bebido, a presença de Radamanthys a deixou mais calma, ela se aninhou nos braços fortes e o sangramento foi diminuindo. Os dois ficaram abraçados um longo tempo e o guerreiro permaneceu firme, afastando de si o medo que escondera de sua mulher. Quando a viu ali, pálida e fragilizada, sentiu-se tomado pelo terror, pois nunca a vira assim. Temia perdê-la, como jamais temera perder algo, nem mesmo a própria vida.
Quando a sentiu relaxar e respirar baixinho e compassado, Radamanthys a soltou e acomodou-a nos travesseiros. Pandora dormia, profundamente e ele ficou observando-a, sentindo aquele amor intenso que o fazia sentir-se poderoso e vulnerável, tudo ao mesmo tempo. Afastou alguns fios de cabelo que teimavam em cair sobre o rosto delicado e sorriu ao vê-la mexer os lábios. Durma meu amor! Murmurou ele, enquanto ficava vigilante e pensativo sobre os últimos acontecimentos.
Minos entrou devagarinho no quarto e viu seu irmão com os olhos fechados. Ia sair, quando Radamanthys abriu os olhos e sinalizou, em silêncio, para que ele se aproximasse.
– Pensei que estava dormindo. – disse Minos.
– Só vou dormir quando ela estiver, totalmente, fora de perigo. – falou Radamanthys.
– Nossa vó deu uma infusão a ela e mandou fazer repouso. Vai ficar tudo bem.
Radamanthys fitou Minos com gratidão.
– Você e ela estão mais próximos, não é?
– Ela disse que eu também tenho poderes.
– E?
Minos encarou os olhos dourados sobre si. Seu irmão não parecia surpreso com aquela revelação.
– Você acredita nisso?
– Quer saber, você sempre foi estranho desde criança.
– Como assim? Eu não me lembro de ter feito nada de estranho.
– Nossa mãe morreu quando você nasceu. Mas, quando você tinha uns dois anos, você a descreveu e disse que ela havia beijado o seu machucado no joelho. Eu e Aiacos não deixamos você contar ao pai, porque senão, ele o teria castigado. Você disse, exatamente, como ela era. Lembro-me de ter ficado surpreso com a riqueza dos detalhes. Nem mesmo eu e Aiacos nos lembrávamos deles.
Suspirando, Minos olhou para a janela. Uma chuva fina caía e podia ser percebida, porque archotes haviam sido colocados no pátio central.
– Vou deixá-los descansar. – disse o jovem.
Radamanthys colocou sua mão no ombro do irmão.
– Você também deve descansar. Sei o que deve estar passando, sem saber de Hades.
Minos teve vontade de compartilhar sua visão, mas se deteve. Seu irmão já tinha com o quê se preocupar e acrescentar mais um problema não seria justo.
– Boa noite, irmão. – disse ele, deixando o quarto.
No corredor, Minos encontrou Alone. O menino estava acompanhado do seu cão e parecia chateado.
– Porque ainda não está dormindo? – perguntou Minos.
– Pensei que meu pai já deve ter chegado lá. – falou Alone, ignorando a pergunta.
O cão começou a farejar os pés de Minos que focou no animal para não opinar sobre a fala do menino.
– Vá dormir Alone. Amanhã preciso que instrua as crianças por mim. Pode fazê-lo? –falou, enquanto acariciava a cabeça do cão.
– Está bem. – respondeu o menino. Vamos, Dag!
O cão obedeceu e Minos deixou a casa, aliviado por Alone não estender-se no assunto sobre Hades.
Em meio à chuva, Minos andou até a cabana de sua avó. Como sempre, parecia que ela já o esperava. A cabana rescendia a cozido de carneiro e o ar estava quente. Guthrum mexia no caldeirão de forma metódica, como se ali estivesse alguma poção. Ela levou a colher de pau aos lábios e olhou-o, séria. As linhas que vincavam a sua testa parecendo mais profundas.
– E então...?
– Eu quero aprender.
Guthrum sorriu e sorveu mais um pouco do ensopado, fazendo barulho com a língua.
– Então se sente aí, enquanto eu como e você jejua. – disse ela.
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O cheiro de sangue, unido ao suor, urina e umidade transformava o ambiente em um covil de dor, mau cheiro, gemidos e morte. Assim era a pedra, lugar especial para onde eram levados os inimigos do rei. Ali, eram desenvolvidos requintados métodos de tortura, um deles era curar o inimigo, somente para que sofresse durante mais tempo ou para ser executado com requintes de sadismo.
Hilda fora torturada por Nairna ali. Em um primeiro momento, a guerreira fora chicoteada, humilhada e deixada sozinha na escuridão por um período bastante longo. Privada de comer e beber sofreu abusos em seu corpo e era impedida de dormir, o que a deixava à beira da loucura. Já não sabia se era dia ou noite, nem se havia passado um dia ou um mês.
Depois, vieram as negociações, cada vez que concordava com sua torturadora, evitava o castigo de algum outro preso. “Sei que não deseja que outro receba o castigo que lhe pertence... Então, se fizer o que eu mando, evitará o sofrimento de outrem. Se recusar, terá que passar a noite ouvindo os gritos e gemidos..”
A voz de Nairna lhe causava um ódio extremo, mas ela precisava sobreviver, então resolveu fingir ceder e tornar-se o animal de estimação que obedecia tudo em silêncio.
Hades estava inconsciente e suspenso por uma corrente grossa. Nairna se aproximou dele, apoiou uma das mãos no tórax forte e, com um movimento preciso, puxou o punhal cravado em seu ombro. O sangue grosso e vermelho jorrou do ferimento. Era abundante e escorreu pelo braço e sobre o tórax. Em seguida, ela quebrou a parte posterior da flecha cravada na coxa e usou o mesmo punhal para abrir o ferimento, a fim de retirar a ponta. O sangue verteu abundante dali, também, misturando-se à lama no corpo do guerreiro.
Calmamente, ela ordenou que os guardas o despissem e jogassem baldes de água fria sobre o corpo dele. O sangue e a lama foram escorrendo, criando uma poça que se espalhou pelo piso de pedra.
Um dos guardas encarou-a como se perguntasse qual a finalidade de fazer tudo aquilo. Por que manter aquele homem vivo?
– Sei o que está pensando Robb. É nosso dever permitir o divertimento do rei. Esse homem ousou atacá-lo e sofrerá as consequências. Ele é um líder de clã e servirá como exemplo. – disse ela olhando fixo e com fascínio para o sangue depositado na lâmina do punhal.
O soldado arregalou os olhos. A maioria dos homens temia Nairna, ela era mais cruel que muitos carrascos que eles haviam conhecido. E o mais terrível era que, quem a conhecesse na corte, a veria como uma senhora de origem nobre e nunca uma torturadora que sentia um prazer doentio em infringir dor aos outros. E ela também parecia poder ler a mente de todos...
Olhando para o sangue que vertia sem parar, ela sorriu perversamente e ordenou que chamassem o médico.
– Será que ele vai resistir? – perguntou Robb.
Nairna avaliou Hades de cima a baixo. Despido, ela podia ver melhor a musculatura, antes escondida sob uma túnica escura e um cinturão de couro. As coxas eram fortes, sem exagero e os pés perfeitos, também antes ocultados por sapatos de couros amarrados com tiras cruzadas que iam até os joelhos. O conjunto todo era belo e másculo, principalmente o sexo que, mesmo em repouso, parecia bastante grande e capaz de agradar uma mulher ou um homem.
– Sim, ele vai... Este homem é como um garanhão puro sangue. É só olhar para as cicatrizes que ele carrega em seu corpo. Não é fácil matá-lo. Por isso mesmo, o rei terá muito prazer em fazê-lo curvar-se, antes de acabar com ele.
Alheio às conversas, Hades estava mergulhado em uma profunda e fria escuridão. Horas mais tarde, ele despertou achando que tinha adentrado o Valhala já que morrera lutando. Então sentiu que lhe tocavam o corpo e uma dor lancinante o fez estremecer e arder como se estivesse em meio ao fogo. Era tão excruciante que o fez cair, novamente, numa espiral escura e vertiginosa que o levava para lugar nenhum.
– Vamos ter que tirá-lo daí. Os ferimentos não fecharão se ele continuar suspenso. – disse uma voz baixa e fraca.
Nairna encarou o médico. O homem a encarou também com seus olhos negros e pequenos como os de um castor. Ele tinha uma estatura baixa para um homem e possuía pernas arqueadas como as de um anão. No entanto, parecia bastante seguro do que falava e não parecia incomodado com o olhar depreciativo de Nairna.
– Robb! Venha cá! – gritou ela.
Hades foi retirado das correntes e acomodado em uma cela sobre uma forragem feita de palha, excepcionalmente, limpa. Uma tocha de junco imprimia uma luz mortiça ao ambiente escuro e úmido.
Após costurar os ferimentos, o médico olhou satisfeito para o seu trabalho. O ombro e a coxa de Hades foram lavados e enfaixados com tecido de linho limpo e sobre a testa, outro pano embebido em água fria foi colocado.
– Ele já está fazendo uma febre alta. Vamos ver se sobrevive a esta noite. Alguém tem que vigiá-lo e trocar o pano da testa de tempos em tempos. – disse o médico.
Nairna fez sinal para Hilda que exibia uma coleira de couro e permanecia em um canto, calada. A guerreira veio ao encontro da carrasca com os olhos baixos, atitude que agradou a mulher perversa.
– Cuide dele, durante a noite. E mantenha-se alerta.
Hilda assentiu com a cabeça e Nairna a puxou pelos cabelos.
– Muito bem, minha cadelinha... Gosto da sua subserviência, mas quero ouvi-la dizer o que lhe ensinei!
– S-Sim, minha senhora. – falou Hilda, baixinho.
– Muito bem! É assim mesmo que eu gosto. – disse Nairna soltando-a com violência.
Assim que todos deixaram o ambiente, Hilda sentou-se ao lado do corpo de Hades e levou a mão à testa do jarl. Ele estava quente como se fosse uma brasa viva. De imediato, pegou a tigela com água fria, molhou o pano e colocou-o, alternadamente, no rosto e nos ombros dele. Repetiu o procedimento a noite toda, rezando para que ele sobrevivesse e ouvindo-o murmurar palavras em seu delírio febril.
O palácio de Odin era escuro e quente, nada do que havia imaginado. Pensara que um guerreiro no Valhala ouviria os cantos sobre sua bravura, seria servido do mais delicioso hidromel e sentiria prazer, não dor...
Dor...! Estava vivo?! Então, qual era a razão de tanta escuridão?
Certa que ninguém mais estava por ali, só havia um guarda na entrada da caverna, os olhos da guerreira adquiriram um brilho que ela escondia, a fim de enganar a carrasca. Fora muito difícil manter a sanidade, mas ela conseguira. Sabia que, todo o tempo, o espírito de Wulfgar cuidara dela e não permitira que ela se entregasse de verdade. Enganara Nairna e agora, se empenharia em salvar Hades para que pudessem fugir.
– Reaja, jarl. Preciso da sua força para sair deste inferno e matar aquela maldita! – sussurrou Hilda, enquanto pegava o pano molhado e continuava com os cuidados.
Hades se remexeu, como se desejasse acordar de um sonho e não conseguisse. Paciente, Hilda continuou cuidando-o e murmurando palavras de incentivo, enquanto orava aos deuses pela vida do jarl.
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Minos olhava o céu claro pontilhado de estrelas e iluminado por uma enorme lua cheia. A chuva tinha cessado e todos estavam dormindo àquela hora. O silêncio só era rompido pelos sons de insetos e o pio de corujas, ao longe.
– Vamos! – disse Guthrum tirando-o das suas observações.
– Aonde nós vamos? – perguntou ele.
– Para o lugar da sua iniciação.
– Iniciação?
A vidente não respondeu, acendeu uma tocha no braseiro e deixou a cabana, andando pelo chão molhado com rapidez. Era de madrugada e tudo estava calmo e silencioso. Os dois caminharam até perto da praia, onde Guthrum indicou a entrada de uma caverna que Minos nunca tinha notado.
Lá dentro, Minos percebeu que havia uma abertura no teto e por ela se podia ver a lua. Os raios prateados iluminavam aquele espaço, criando um efeito mágico e surpreendentemente íntimo.
– Tire as suas roupas.
Minos franziu o cenho e a vidente elevou uma sobrancelha.
– Envergonhado, meu neto? Ora, os deuses nos querem em essência. A natureza é limpa de qualquer medo ou vergonha. Fique igual a quando nasceu.
Ditas as palavras, ela acendeu uma pequena fogueira e cercou-a com as runas. Minos foi despindo as roupas, enquanto Guthrum cantava e atirava ervas ao fogo.
Uma fumaça espiralada começou a preencher o ambiente e Guthrum continuou com sua cantoria. Nu, Minos foi orientado a posicionar-se em frente à fogueira e abrir os braços como se estivesse fazendo uma oferenda.
A vidente atirou sal à fogueira, depois mais ervas e por fim, sacou uma adaga de prata e cortou a mão, derrubando gotas de sangue sobre o que lançara no fogo. Em seguida, ela tomou a mão de Minos e fez o mesmo corte.
Unindo seu sangue ao dele, ela disse:
– Da mesma forma que meu sangue e o teu estão unidos, que meus ensinamentos alcancem a tua alma e que ela aceite o seu destino.
Em seguida, ela molhou o dedo no próprio sangue e desenhou o símbolo de Ansuz, no ponto entre as sobrancelhas de Minos.
– Que teus pensamentos e conselhos sejam guiados pela luz dos deuses.
Novamente, ela molhou o dedo no sangue e desenhou Laguz em cada pálpebra do neto.
– Que teus olhos vejam, além das aparências, além das ilusões e além do tempo.
Em seguida, ela molhou o dedo novamente, agora desenhando Raido nos lábios de Minos.
– Que a tua boca expresse somente a verdade, que o poder dos deuses fale, através de ti.
E, finalmente, ela traçou Gebo no peito, na altura do coração.
– Que tenhas amor e compaixão por todos os seres e que o teu coração te leve onde fores necessário.
Ao término de tudo, ela deixou cair três gotas de sangue sobre o chão e, em seguida, soprou sobre o rosto de Minos. Depois, ordenou que ele sentasse e deu a ele duas folhas para que colocasse na boca.
– Mastigue.
Minos obedeceu. As folhas tinham gosto um gosto ardido e extremamente forte, fazendo-o sentir uma queimação na língua e no nariz. No entanto, ele aguentou, e continuou mastigando.
Guthrum encarou-o e esperou. Logo, o jovem estava sonolento e piscava, constantemente, tentando manter os olhos abertos. Quando ele os fechou, ela gentilmente o deitou no solo e recomeçou a cantar...
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As horas pareciam passar muito lentamente e Hades continuava com muita febre. Hilda continuava a colocar o pano molhado sobre a testa dele, mas não parecia adiantar. O corpo dele exalava calor e ele tremia e se agitava sobre a palha seca. Ela se perguntava se ele aguentaria, pois ele parecia muito mal.
Hades, por sua vez, sentia algo úmido e frio na testa e, de vez em quando, nos ombros e tórax. No entanto, suas veias pareciam ter fogo líquido ao invés de sangue e a dor não dava trégua.
Ele tentava abrir os olhos, mas eles estavam pesados e doloridos, assim como o restante do seu corpo. Ouvia a voz feminina, porém a escuridão puxava-o com mais força e agora, exausto, ele começava a ver uma luz estranha e agradável. A dor começava a sumir, enquanto ele se via caminhando em direção à luz.
Olhou ao redor e não havia nada, além de uma grande árvore a sua frente que ele identificou como a Yggdrasil. Ela era mais magnífica que as pinturas que tinha visto. Suas folhas eram de um verde dourado e seus frutos, magnificamente vermelhos e convidativos. Dizia-se que as folhas de Yggdrasil podiam trazer pessoas de volta a vida e apenas um de seus frutos, curaria qualquer doença e até mesmo salvaria a pessoa a beira da morte. Nenhum mortal tinha acesso a ela, pois era sempre guardada por uma centúria de Valquírias.
Então porque estava ali? A Yggdrasil jazia imponente e solitária no meio do nada! Estaria morto e a árvore seria a passagem para o Valhala?
Andou mais um pouco e, por mais que apressasse o passo, nunca chegava. Até que ele o viu:
– Minos!
A voz não saía da garganta e seus pés pareciam colados ao chão. Minos estava ali, belo como sempre. Mas o que ele estaria fazendo naquele lugar? Teria sofrido algo? Teria morrido? Não, por todos os deuses, Minos não podia estar ali! Odin tivesse piedade!
Foi então que os olhos violáceos se prenderam aos seus. Minos sorria e, ao contrário de si, ele estava aos pés da Yggdrasil. Ele tomou uma das folhas que acabara de cair em suas mãos e então soprou sobre ela e a lançou na sua direção.
Eu te amo. – disse ele.
A voz serena não conseguia esconder o tom de ousadia que o caracterizava e, de repente, a luz se transformou em dor e tudo desapareceu.
– Jarl... – murmurou Hilda tentando conter o tremor do corpo de Hades.
Hades tremeu convulso, até que por fim, serenou. Hilda achou que ele tinha morrido, então tocou na testa molhada de suor e constatou o impossível:
– Não tem mais febre! Mas, que folha é essa? – murmurou ela, vendo uma pequena e estranha folha nas mãos de Hades que sumiu, assim que ela a tocou.
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Minos sentia o corpo dormente e ouvia o canto monótono de Guthrum. Num primeiro momento, ele achou que estava caindo no sono, mas logo tudo mudou. Ele viu-se bem acordado sobre uma encruzilhada sob a forma da runa Gebo. Havia um animal em cada ponta dos caminhos, um corvo, um cavalo, um lobo e um javali. Todos os quatro o observavam, atentos e isso o deixava desconfortável.
Para passar daqui, precisa escolher! Bradou uma voz retumbando no vazio.
Escolher? Escolher o quê? Pensou ele.
O corvo grasnou, o cavalo elevou as patas dianteiras, o lobo uivou e o javali bateu com os cascos no solo.
Escolha um de nós! Disse a voz, novamente.
Indeciso, Minos olhou para cada animal. Em cada um via algo que admirava, porém lembrou-se do corvo sempre empoleirado na cabana da sua avó. Seus olhos se detiveram no corvo e lhe pareceu que a ave já esperava por isso. No entanto, enquanto tentava articular uma resposta, o corvo voou na sua direção e foi direto ao seu olho esquerdo.
Minos gritou quando o corvo arrancou seu olho. Em choque, levou a mão ao buraco ensanguentado e sentiu seu corpo ser arrebatado para uma imensa árvore, onde ficou dependurado de cabeça para baixo, seu sangue escorrendo pela face e corpo. A dor dilacerante o impedindo de pensar, de fazer qualquer coisa.
N-Não... Ouviu-se dizer em meio àquele tormento.
O corvo grasnou e devorou o seu olho com gosto. Podia ver, horrorizado, seu globo ocular descendo pela garganta do pássaro.
Depois de fazer do olho, a sua refeição, o pássaro voou, criando manobras no ar que seriam impossíveis e congelou, em pleno ar. Em volta dele, gotas de sangue também congeladas criavam uma moldura macabra de um vermelho vivo e pulsante...
A dor cessou, como por encanto, quando Minos parou de lutar e resolveu se entregar ao inusitado. Agora, podia ver com clareza com o único olho que lhe restara e o que viu fez acelerar as batidas do seu coração:
– Hades!
Ele estava ali! Hades estava ali!
Começou a se remexer, tentar se soltar da corda invisível que o amarrava à árvore. Nesse instante, o corvo descongelou e tornou a bater as asas, voando de encontro ao seu rosto.
Minos fechou o único olho que sobrara e, de repente, a ave negra se desfez em folhas num tom de verde e dourado. Elas pareciam dançar e, lentamente, uma delas veio parar em sua mão.
O laço se desfez e ele já não estava mais pendurado. Seu olho esquerdo não havia sido arrancado, podia ver claramente com os dois olhos, novamente. Tudo voltara a ser como antes.
Sorrindo, ele pegou uma das folhas e soprou-a na direção de Hades.
– Eu te amo! – disse com alegria.
A folha flutuou até Hades e então, tudo desapareceu!
– Não! – gritou Minos, ouvindo a própria voz retumbar dentro da caverna e da cabeça.
Já estava amanhecendo. Guthrum olhava as brasas, onde houvera a fogueira e cantarolava baixinho. Ofegante, Minos se sentou e olhou para a avó. Ela lhe sorriu de volta e lhe atirou um cobertor.
– Eu não lhe disse? Você tem muito mais poder que eu.
– E-Eu sonhei... sonhei que perdi um olho, fiquei pendurado numa árvore de cabeça pra baixo. O corvo comeu o meu olho esquerdo. – disse Minos tremendo.
A vidente suspirou.
– Você tem certeza que foi um sonho?
Minos tocou no rosto, verificando que seu olho esquerdo estava ali. Depois olhou para Guthrum.
– Aquela folha que me deu para mastigar, foi ela que me fez ter visões.
– E o que você viu, além de passar pelo mesmo tormento que Odin?
Ao ouvir sua avó, Minos deu-se conta do significado das palavras.
– Eu vi Hades. Ele estava vivo, mas nós estávamos separados por uma barreira invisível.
– E isso lhe pareceu um sonho, também?
– Sim e não. Foi tudo muito estranho, mas quando Hades apareceu eu soube, eu senti que ele estava vivo. Mas, ao mesmo tempo, pareceu que ele só ficou vivo, porque a árvore me deu uma folha e esta folha o trouxe de volta ao mundo dos vivos. Tudo isso é... Parece loucura!
– Hoje, você se tornou um de nós. Não tem como voltar atrás e não tem como não enxergar a verdade. O desafio é: você pode suportar a verdade?
Minos estava diferente, sentia diferente, desejava ser diferente. Ele encarou a avó, lembrando-se da sensação de perder um olho e, em seguida, enxergar melhor que antes. De repente tudo fez sentido, o corvo, a árvore, a perda e o reencontro.
Ele estivera com Hades em outra dimensão de espaço tempo, sua iniciação se dera sob os augúrios de Odin e agora não havia como hesitar ou recuar. Olhou dentro dos olhos de Guthrum e, em seguida, para o corte em sua mão. Depois sorriu e respondeu com firmeza:
– Sim, eu posso.
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