OTHALA, A RUNA DA SEPARAÇÃO
5 Capítulo 4 - RESISTÊNCIA
Notas iniciais

A luz amarelada das tochas e velas no salão nobre do castelo sombreava as tapeçarias com estampas de caçadas e batalhas, penduradas nas paredes de pedra. A lareira estava acesa, aquecendo o ambiente onde cavaleiros e damas sentavam-se às mesas perto do tablado onde o rei e convidados mais importantes compartilhavam a refeição da noite.
Um menestrel com postura orgulhosa, vestido de azul e dourado entoava canções maliciosas que versava sobre um cavaleiro que gostava de seduzir damas casadas até o momento em que foi pego por um dos maridos.
O rei sorria, embora não estivesse interessado na refeição, nem na canção ou nos outros convidados. Não era um homem bonito, mas sua aparência denotava poder e acabava se tornando atraente para os ambiciosos e desavisados. Como de costume, ele vestia roupas luxuosas, uma túnica longa de lã fina marrom, com um cinto de ouro permeado de relevos. Vários anéis adornavam-lhe os dedos finos e pesadas gargantilhas, também de ouro pendiam do pescoço ostentando a riqueza que se esperava de um rei. Era um nobre de nascimento e, portanto, um soberano legítimo.
Ele sabia que o bárbaro viking estava sendo cuidado na pedra e estava ansioso para conhecê-lo. Sentia sede de diversões mais excitantes que bebidas, danças e música. Seus gostos e necessidades desde cedo se revelaram peculiares, como a atração pelo mesmo sexo, embora tivesse uma esposa, e o prazer conseguido através da dor e dominação. Seu temperamento oscilava da fleuma necessária a um soberano e a paixão que o levava a desafiar inimigos e regras com uma arrogante ousadia.
Um homem belo e bem vestido surgiu de um dos cantos do salão, como por encanto. Vestia uma túnica de veludo verde e usava uma capa cinza escura que ia até os pés. Sua imponência quase rivalizava com a do rei, mas diferenciava-se, principalmente, na juventude e beleza.
Sorento de Sirene era meio-irmão de Offa e também o mago da corte. Suas previsões eram bastante solicitadas e seus poderes cantados por menestréis e imortalizados pelo séquito de nobres que o procurava para consultas.
O rei indicou-lhe o lugar de honra ao seu lado e sorriu, desta vez, verdadeiramente.
— Pensei que não me daria a honra da sua presença, hoje. – disse ele.
— Sabe que tenho meus afazeres. – respondeu Sorento.
Offa riu e Sorento continuou sério, as feições delicadas expressando tédio.
— Ah, não me diga que está cansado. Você é mais jovem que eu e, no entanto, pouco experimenta dos prazeres da vida.
— Sabe que este ambiente pouco me estimula. Prefiro ficar sozinho. – respondeu o mago.
Sorento estava sendo insolente, porém Offa era condescendente com seu meio-irmão. Ele já o tinha salvado de muitas armadilhas com suas previsões e já demonstrara a extensão de seu poder. O mago possuía mesmo uma energia sobrenatural, uma arma que desejava ter sempre, a seu favor.
— Seu problema é que vive mais para os anseios da alma que os da carne. Podia muito bem equilibrar ambas as necessidades. – falou o rei.
Neste ínterim, Misty aproximou-se dos dois. Serviu-os, colocando vinho nas taças de prata e olhou, disfarçadamente para o rei. Offa não disfarçou a luxúria ao perceber que o jovem usava uma túnica justa, revelando as formas do corpo que tanto lhe agradava e que era talentoso na arte de satisfazer um homem.
Sorento percebeu e encarou o escravo. Sim, Misty era belo e perigoso. Embora fingisse submissão, tinha em si um potencial dominador que poderia ser a queda de qualquer um que se apaixonasse por ele. E, pelo visto, Offa já caíra em sua rede.
— Deseja mais alguma coisa, meu senhor? – falou Misty.
— Agora, não. Talvez mais tarde.— respondeu o rei.
— Cuidado, milorde, a luxúria pode arrastá-lo para o abismo. – disse Sorento bebendo um gole de vinho.
O rei provava um pernil de carneiro e franziu a testa.
— Não me lembro de tê-lo consultado sobre minhas necessidades particulares e nem de ter pedido a sua opinião sobre o assunto.
— Perdoe-me. Assim como me aconselhou, achei pertinente devolver-lhe o favor. Se me der licença, devo me retirar. Estou muito cansado para ser uma boa companhia.
— Espere.
Sorento olhou para Offa com um brilho estranho nos olhos de coloração exótica. O rei nunca sabia se eles eram violáceos ou róseos como um diamante raro. Tinha a impressão que seu irmão poderia matar somente com aquele olhar.
— Diga o que deseja, sei que quer pedir-me algo. – falou o mago.
— O homem que veio aqui para me matar está preso. Ele foi ferido gravemente, mas eu o quero curado, para então submetê-lo a mim. O médico da corte foi vê-lo, mas eu gostaria que você o fizesse.
Foi a vez de Sorento elevar uma sobrancelha.
— Quer que eu diga se ele vai morrer ou viver? Que importância tem esse homem?
— Ele é um jarl como dizem os bárbaros, um líder de clã e possui fama até mesmo por aqui. Quero a sua opinião sobre ele.
— Bem, então eu o farei agora. – disse o mago fazendo uma reverência e levantando da cadeira.
— Nairna vai acompanhá-lo até lá. – falou Offa gesticulando para a carrasca que conversava, animadamente com um jovem nobre, conhecido por sua crueldade no trato com seus servos.
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Hades acordou da longa noite de trevas em que se encontrava. Sonhos, sensações, tudo se misturava à dor que sentia no corpo, principalmente no ombro e na coxa. Estava vivo. Este foi o primeiro pensamento que lhe veio à mente, depois o rosto de Minos, seu sorriso, seu olhar... Então, voltou ao aqui e agora. Pela escuridão e mau cheiro era óbvio que estava em uma prisão. Tinha consciência de que se encontrava numa situação desfavorável, fora feito prisioneiro e pela fraqueza que sentia, seus ferimentos eram profundos e limitantes.
Ouviu uma voz e fechou os olhos. Era uma voz de mulher, mas não daquela que cuidara dele. Era outra, mais rouca e grave. Ela falava com alguém e ele apurou a audição.
— Faz dois dias que ele só dorme. Já devia ter acordado. Minha escrava conseguiu dar a ele um caldo com carne e mingau de aveia. O rei o quer de pé, logo.
Sorento se aproximou de Hades e, ao fitar-lhe o rosto, experimentou um leve arrepio. Chegou mais perto e o jarl sentiu a respiração dele em seu rosto, a mão delicada demais para ser de um homem tocando sua testa. Pensou em abrir os olhos, mas mudou de ideia. Seria mais prudente esperar.
— Ele não tem febre e este lugar... fede!
Nairna sorriu.
— Ótimo, o rei Offa terá ainda mais prazer em sua vingança. Quanto ao lugar, creio ser apropriado a um prisioneiro. A pedra não ficou conhecida por ser confortável, meu caro mago.
Com um olhar de desprezo, Sorento encarou a mulher. Pela primeira vez, ela sentiu-se vulnerável e tremeu, internamente. Os olhos do mago possuíam uma expressão diabólica e ardente, como se fosse queimá-la com um piscar de olhos, apesar de não pronunciar uma só palavra enquanto a fitava.
— Pode sair. – disse ele, simplesmente.
Aborrecida, Nairna achou por bem obedecer, afinal não desejava complicações com aquele homem. Decidiu ir até uma cela mais ao fundo daquele corredor úmido e sombrio. Nela, sabia que encontraria Hilda, esperando como tinha sido treinada.
Enquanto isso, Sorento ajoelhou-se ao lado de Hades.
— Pode abrir os olhos, sei que já acordou.
Hades não se mexeu e o mago não pode evitar sorrir.
— Não tenha receio, a serpente voltou para o seu covil. Abra os olhos, quero vê-los enquanto falo com você.
Assim que Sorento terminou de falar, Hades abriu os olhos e o mago surpreendeu-se com a força daquele olhar. Não era a expressão de um homem ferido e derrotado. Havia nele uma selvageria, mas acima de tudo uma força silenciosa e resiliente, algo raro de ser encontrado naquele lugar.
— Deve estar se perguntando quem sou eu. Sou Sorento, meio-irmão do rei. – respondeu, admirando os olhos azuis acinzentados que expressavam destemor.
— E o que o meio-irmão do rei faz aqui? Analisando os prisioneiros antes da tortura ou da morte?
O mago admirou-se da forma com que Hades se expressou. Ele não parecia um bárbaro ignorante, como esperava. Levantou-se do lado dele e disse apenas:
— É melhor que descanse. Feche os olhos e durma, enquanto ainda pode.
Com as pálpebras semicerradas, Hades sentiu um sono repentino e adormeceu profundamente. Pouco depois acordou e o mago estava, novamente, ao seu lado, agora com uma tigela com um caldo espesso e fumegante.
— Coma.
Hades estava estranhando aquilo, mas sabia que precisava de forças. Talvez estivessem alimentando-o para que o rei tivesse o seu divertimento. Aceitou o ato do mago, abrindo a boca quando ele estendeu-lhe a colher.
Sorento alimentou-o em silêncio e Hades sentiu-se reanimado quando o caldo caiu em estômago. Quando terminou, o jarl perguntou:
— Por acaso, quer me manter vivo para que o rei tenha mais prazer ao me torturar?
— Talvez. – respondeu Sorento.
Hades tentou mover o corpo, mas sentiu tanta dor no ombro que cerrou os dentes e ficou imóvel por um instante.
— Você ainda não está em condições de fazer esforço. – disse Sorento tomando nas mãos uma vasilha de cerâmica. Ele colocou uma medida de um pó amarelado na vasilha, acrescentou água e mexeu. Em seguida estendeu-o ao viking.
— Isso irá ajudar com a dor e evitará a febre.
— Pelo visto, além de meio-irmão do rei, você é curandeiro. O que é isso? Um veneno de ação lenta? Está fazendo um jogo comigo, primeiro me alimenta, depois cuida para que eu não fique, totalmente, reestabelecido? – disse Hades olhando para a vasilha.
— Não sou curandeiro, bárbaro e isso é remédio. Agora, beba ou não. A escolha é sua. – falou Sorento visivelmente irritado colocando a vasilha ao lado de Hades e deixando o local.
Hades hesitou, mas ao cheirar notou que já conhecia aquela poção. Guthrum a usava para baixar a febre. Bebeu alguns goles e colocou a vasilha ao lado do corpo. Assim que aquele homem estranho deixara a cela, a escuridão se tornou quase completa, não fosse os archotes ao longe no corredor.
Continuou deitado, em silêncio, irritado com a limitação causado pelos ferimentos, mas sentindo menos dor e desconforto. A palha lhe dava coceiras, mas decidiu não pensar nisso. Tinha que retomar o controle sobre si mesmo e sobre o seu corpo. Não compreendia as ações daquele homem que dizia ser irmão do rei, mas poderia usá-lo para sair dali. Tinha de enganá-lo, deixá-lo acreditar que continuava debilitado.
A dúvida que martelava em sua mente era onde se encontravam os seus homens. Estariam vivos? Também se perguntava sobre a mulher que cuidara dele antes. Onde ela estaria agora? A última lembrança que tinha antes de ter sido feito prisioneiro era ter visto o rosto de Hilda, a filha de Wulfgar. Se fora, realmente, ela, teria que descobrir onde ela estava e o que havia acontecido.
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Sorento pisava duro pelos corredores mal iluminados. Onde estava com a cabeça quando decidiu cuidar daquele bárbaro estúpido que o chamou de “curandeiro”?
Deixou o lugar e rumou para a torre, onde vivia. Esperou um pouco e bateu. Quando o guarda ergueu a barra de ferro que mantinha fechada a grande e pesada porta dupla de carvalho, inspirou e atravessou o pátio que dava acesso à entrada da torre.
Respirou fundo, mais uma vez, quando entrou na sala de paredes arredondadas e bem iluminadas. A janela ampla permitia uma visão da área de segurança do castelo e deixava que a luz prateada da lua fosse projetada no chão de mármore.
A mobília era austera e elegante, uma poltrona de carvalho, uma mesa com entalhes muito bem elaborados e várias estantes, algumas contendo livros e pergaminhos, outras exibindo vidros com pós e ervas.
Separada por um biombo contendo símbolos e inscrições, estava a cama de dossel coberta por finos lençóis de linho e travesseiros de penas, assim como um baú de madeira ricamente trabalhado com detalhes em ouro.
Deixou-se cair sobre a poltrona de carvalho com a mente fervilhando de perguntas. Ainda não compreendia porque tinha agido daquela forma. Nunca tinha se deixado perturbar por um homem, mas aquele despertara algo dentro de si que desconhecia. Não era uma simples atração, era uma espécie de pressentimento, como se houvesse uma ligação de alma e sangue entre eles.
— E então... o que achou dele?
Sorento assustou-se ao virar para o lado e deparar-se com Offa saindo detrás do biombo.
— Por que estava escondido? – falou o mago.
— Gosto de seus aposentos... Eles podem ocultar muitas coisas. – disse o rei rindo.
— Não tenho nada a esconder. E, além do mais, se eu quisesse encobrir algo, tenho métodos e lugares muito mais seguros.
— Eu sei. Então, o que achou dele? É forte como dizem?
— Sim, ele é. Não apenas forte, como inteligente. Confesso que ele me surpreendeu com sua fala e atitude.
— Tenho que pensar em algo especial, então...
Sorento fitou o irmão. Gostava dele, mas na maioria das vezes o considerava mimado e egocêntrico.
— O que pretende fazer com ele?
Offa suspirou.
— Amanhã vou mandar que levem o bárbaro até mim. Espero que você esteja descansado, pois o quero ao meu lado quando eu der a sentença.
Sorento ignorou o comentário e serviu-se de vinho. Após beber um gole, virou-se para Offa e seus olhos viram além do irmão. Havia névoa e escuridão. E também um rosto belo e jovem...
— O que foi? – perguntou o rei, vendo que o mago parecia olhar através de si.
— Nada. Como já disse, estou cansado. – respondeu Sorento perdendo o contato com a visão.
Mais tarde vou investigar isso. Pensou o mago, enquanto Offa se despedia.
O rei deixou a torre e rumou para os seus aposentos. Ao entrar, viu a lareira acesa e parte de uma perna estendida de forma provocante. Sorriu, passando a língua nos lábios. Sabia a quem pertencia àquela perna e sabia também que o dono dela era capaz de oferecer-lhe as delícias eróticas do seu paraíso devasso...
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Anoiteceu. Apenas os raios pálidos da lua se infiltravam por entre os ramos dos pinheiros e abetos que cercavam a pequena clareira onde Minos se encontrava. Grilos, lagartos e corujas podiam ser ouvidos na noite calma e uma pequena fogueira brilhava em meio a tudo.
Em silêncio, Minos fitava as chamas em uma rotina que criara para si mesmo. Para desenvolver a visão precisava penetrar na quietude, aprender a serenar a mente e então ver além do tempo. Guthrum o havia instruído nas ervas e nos rituais, agora precisava buscar por si mesmo, compreender a extensão de seus poderes.
Concentrou-se na forma e na cor das chamas, chamou pelos espíritos que nela viviam, mas a visão não veio e ele se impacientou. Estava angustiado, queria saber de Hades e dos demais. À noite, sempre tinha sonhos, os via em lugares escuros, mas nunca se aproximava o bastante para saber se estavam bem.
Inspirou fundo, novamente, e olhou para o fogo. Então sentiu a veia em seu pulso latejar e as palavras de Guthrum lhe vieram à mente: “Alguns videntes veem na água ou no fogo. Outros despertam pelo sangue...”
A pulsação aumentou e Minos tomou a adaga que carregava consigo, encostando-a na pele. O fio da lâmina fez um pequeno corte e o sangue escorreu, caindo em pequenas gotas sobre o solo. Os olhos violáceos se fixaram na cor e na densidade do líquido viscosos e o tempo parou.
Minos viu-se separado do corpo, como se tivesse se desdobrado em dois. Por um tempo, pareceu-lhe estar sonhando, exatamente como acontecera na sua iniciação. Mas depois, ele compreendeu e parte de si rompeu a barreira do tempo e do espaço fazendo-o enxergar...
Os corredores eram escuros, dois homens parecendo guardas murmuravam sons abafados e gemiam, enquanto outras vozes, mescladas com gemidos irrompiam o ar. Hades estaria ali, naquele lugar horrendo? Continuou procurando até chegar a uma cela bem ao fundo. Ali! Havia um homem deitado sobre um monte de palha, ele estava dormindo, podia ouvir a respiração ritmada, podia ver... Hades! Era ele! Seu coração disparou, podia ouvi-lo bater tão alto e tão forte que...
— Minos!
A voz retirou-o da visão e ele gritou.
— Não!
— Minos, me ouça. – disse Guthrum amparando-o nos braços.
O jovem sangrava pelo nariz e estava tão pálido que seu rosto rivalizava com a cor de seus cabelos platinados. Ele olhou para a vidente e tentou levantar, porém seu corpo não obedeceu.
— E-Eu... o vi. Eu cheguei... bem perto. Ele está vivo e preso.
Guthrum traçou um sinal sobre a fronte de Minos, depois fez com que ele deitasse.
— Fique deitado. – disse ela.
Ofegante, Minos obedeceu. Sua cabeça doía e seu nariz ainda sangrava. Guthrum se aproximou dele e fitou-o bem dentro dos olhos.
— Eu já disse a você que seu poder é grande demais. Tem que aprender aos poucos. A viagem que fez, muitos levam muitas luas para controlar e você a fez na primeira tentativa. Seu corpo precisa ser preparado para acompanhar.
— Eu usei meu sangue...
— Eu sei. Agora fique quieto.
Minos fechou os olhos e, num piscar de olhos, a imagem de um homem surgiu em sua mente. Ele o fitou de um jeito estranho e então sumiu.
— Eu vi um homem e ele pareceu me ver também. – murmurou o jovem.
Guthrum franziu o cenho.
— Ele olhou nos seus olhos?
— Sim. O que isso significa?
— Que a sua viagem o levou de encontro a outro mago, igualmente poderoso. – disse ela com um suspiro.
Antes que Minos continuasse com suas perguntas, Radamanthys se aproximou dos dois. Estava sozinho e esperou que Guthrum demonstrasse que ele poderia falar.
— O que foi? – perguntou Minos.
— Fiz a patrulha da noite, como sempre, e vi uma luz ao longe. Estimo que estejam a um dia daqui. – respondeu Radamanthys.
— Alguém acampado?
— Foi o que me pareceu.
Sem pensar, Minos fechou e abriu os olhos. Imagens, desta vez, bastante claras, insinuaram-se em sua mente. Homens de aparência grotesca riam e comiam ao redor de uma fogueira. O animal suspenso sobre o fogo pingava gordura, podia ouvir o chiado e quase sentir o aroma. As armas estavam empilhadas perto dos cavalos e nos escudos podia-se ver a imagem de um corvo.
— São os homens de Jamian. Eles estão acampados no limite das nossas terras. – disse ele.
Radamanthys franziu o cenho e olhou para Guthrum que jogava terra sobre a fogueira.
— Jamian nos visitando na ausência de Hades? O que ele pretende? – questionou Radamanthys.
— Esse homem anda de mãos dadas com as sombras. Precisamos, apenas, mostrar a ele o seu devido lugar. – respondeu a vidente.
Radamanthys ficou pensativo, enquanto Minos se levantava e tocava no nariz. O sangramento havia parado, mas sua cabeça doía e ele cambaleou.
— O que foi? — falou Radamanthys se aproximando, preocupado.
— Nada, irmão. Apenas pagando um pequeno preço por ser estranho, como você gosta de dizer. – disse Minos.
— Leve-o até a casa de banhos. – disse Guthrum. – Ele precisa de um bom banho de vapor.
Apoiando-se no irmão mais velho, Minos dirigiu-se para o local indicado pela avó. A casa de banhos havia sido terminada logo após a partida de Hades. Cada vez que a usava, pensava no jarl e como seria ficar com ele ali, ambos nus, sentindo o vapor acariciar seus corpos...
Minutos depois, deitado no banco de carvalho, suando bastante, Minos relaxou e sentiu-se renovado.
Mais tarde, quando entrou no grande salão viu que Radamanthys conversava com Pandora e os dois pareciam discutir. Ele queria que ela continuasse a fazer as refeições no quarto, enquanto ela dizia estar bem e liberada para voltar à rotina normal. Depois de muita conversa, viu o irmão coçar a cabeça e ir falar com os homens, enquanto Pandora se servia com vontade da comida colocada sobre a mesa.
No outro extremo da mesa, Alone estava quieto, acompanhado de Dag. Fazia dias que não falava direito com ele, então resolveu consertar as coisas.
— Posso me sentar aqui? – perguntou ele.
O menino olhou-o com uma expressão indagativa.
— Vai ficar um pouco comigo?
— Claro. Esses dias todos eu estive ocupado, mas senti a sua falta. – respondeu Minos.
Alone sorriu.
— Eu também senti a sua. Guthrum me explicou que você estava treinando.
Minos inclinou-se para frente e segredou:
— Sim, eu estava treinando, mas fiz umas peças para o nosso jogo de tabuleiro. Gostaria de jogar comigo depois do jantar?
— Mas claro! – disse o menino com os olhos brilhando.
Após o jantar, como prometido, Minos trouxe o jogo que consistia em um tabuleiro com duas fileiras opostas de triângulos pretos. As peças feitas de osso eram para ser disputadas e usadas para remover as do adversário. Os dados, entalhados de chifres indicavam a vez do jogador.
Minos tomou um gole de hidromel, observando Alone dispor suas peças. Era tão bom vê-lo feliz.
Os dois jogaram por uma hora, até Minos bocejar, sentindo que seu corpo pedia uma cama. Alone estava ganhando o jogo e deu um sorriso triunfante. O fogo lançava reflexos dourados no rosto do menino, nos olhos brilhantes e no cabelo loiro. Ele removeu as últimas duas peças do tabuleiro, encerrando a jogada.
— Ganhei! – gritou o menino.
— Verdade. Agora, hora de dormir.
— Antes, quero o meu prêmio. Você disse que eu podia pedir o que quisesse.
— Eu disse isso? – perguntou Minos franzindo o cenho.
— Sim, você disse.
— E o que você quer?
— Quero dormir aqui hoje. Ingrid ronca muito alto.
Minos sorriu.
— Pois bem, vou pedir que coloquem uma cama menor aqui. Pode ficar por um tempo, se quiser.
— Eu quero!
Logo, outra cama foi colocada no quarto e Alone acomodou-se nela, dormindo quase de imediato. Minos sentou-se na cama, ao lado dele e ficou olhando para o rosto do menino. Estava cansado, mas também excitado com todas as vivências da noite. Tinha que aprimorar sua visão e então fazer o possível e o impossível para trazer Hades de volta.
— Minos... – murmurou Alone abrindo os olhos.
— Sim, o que foi?
— Eu não pergunto, porque sei que você sofre. Mas, eu queria saber se você viu alguma coisa sobre o meu pai?
— Sim, eu vi.
— Ele está vivo?
— Está.
— Obrigado.
O garoto sorriu e voltou a dormir, enquanto Minos acariciava-lhe os cabelos revoltos e pedia aos deuses para corresponder àquela confiança que via nos olhos inocentes.
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Acampados nos limites das terras de Hades, Jamian e seus homens formavam um grande círculo ao redor da fogueira para passar a noite. Um javali jazia espetado sobre o fogo e exalava um forte aroma de carne assada.
— Acha que vão nos receber bem? – perguntou Gunlek, braço direito de Jamian.
— Veremos... Garanto que eles querem saber sobre o chefe deles, não é? – respondeu Jamian.
— Sim, mas acho que não irão gostar da notícia que trazemos.
— Eles não precisam gostar, apenas aceitar a nossa... benevolência. – disse Jamian com um sorriso malévolo. — Afinal, um clã sem chefe está a descoberto.
— Não sei não... – falou Gunlek coçando a cabeça.
— Meus olheiros não mentem, Hades foi preso junto com os outros e dizem que ele está muito ferido. Esse rei vai fazê-lo de exemplo e ele será executado como Wulfgar foi. Acho que minha proposta é bem justa.
— Continuo achando que eles não vão aceitar.
—É direito deles... Mas, se não aceitarem por bem, terão que aceitar por mal. – falou Jamian cortando um naco bem grande de carne e colocando-o na boca.
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