OTHALA, A RUNA DA SEPARAÇÃO
10 Capítulo 9 - A DANÇA DA MORTE
Notas iniciais

Pela Deusa da morte e da escuridão,
Em Teu trono estás, em grande solidão,
Longe do Sol, grande vastidão,
Lugar de silêncio, onde os mortos encontrarão,
Aquilo que merecem, eternamente descansarão.
—Poema viking-
Subindo alto, do teto, as chamas dançavam entre a fumaça negra. O calor era tão intenso que os homens tiveram de se afastar mais para trás. Um tanto receosos, observavam, sem fazer nada, enquanto a grande casa era consumida pelas chamas. As paredes chamejavam, produzindo labaredas cor de laranja e escarlate, tingindo o negror da noite. A madeira queimada gerava um cheiro ocre que saía pela porta em espirais grossas de nuvens escuras e assustadoras.
Ninguém disse uma só palavra, embora houvessem muitas perguntas nas mentes, ali presentes. Os únicos sons eram da madeira crepitando e o rugido do fogo.
Jamian estava imóvel, como se um encantamento o tivesse transformado em um corvo de pedra, olhando o fogo destruir o lugar que era seu lar. A luz bruxuleante das chamas foi se extinguindo, colorindo o rosto dele de vermelho e realçando seus olhos esbugalhados que lhe conferiam um aspecto ainda mais animalesco e terrível. Por dentro, ele sorria certo que seu plano seria recompensado com o sucesso. O clã de Hades contava, apenas, com aqueles que haviam adotado a postura de guardiões. Soubera que aquele jovem odioso que se considerava melhor que todos, havia partido para resgatar o amante. Os deuses lhe haviam dado a oportunidade perfeita!
Os companheiros de espada de Jamian estavam um pouco afastados, observando a vasta escuridão e a chegada de homens de outro clã que ainda não havia sido revelado .
— Salve, Jamian de corvo! – gritou uma voz anasalada.
— Salve, Asulf, filho de Bjorn!
Os olhos azuis do homem avantajado lembravam os de seu pai. O mesmo rosto vincado, a postura do corpo e a expressão assassina. Asulf era o terceiro filho de Bjorn, jarl que traíra Hades e fora morto por ele em Lindsfarne. Ele estava fora quando tudo havia acontecido. Na volta, ao saber de toda a história, fora atrás de Hades, mas o destino lhe roubara a vingança. Então, Jamian se encarregara de oferecer sua espada, fomentando o rancor para que ambos realizassem seus planos.
— E então, está pronto? – disse ele tocando o ombro do líder do clã do corvo.
— Estou mais que pronto. Já tomei providências para que saibam o que aconteceu aqui... Não creio que nos neguem sua hospitalidade.
Asulf riu, exibindo os dentes tortos e acavalados.
— Então vamos! Quanto mais cedo acabarmos com aquela corja e pusermos a mão no que nos pertence, melhor!
0000****0000****0000
O ar estava pesado com uma infinidade de aromas. Couro, fumaça, pães sendo assados e carne fresca. Pandora olhava pela janela, a brisa fria da noite encontrando-a pensativa. Já fazia tempo que Minos havia partido e levado Alone consigo. Sorriu ao lembrar a expressão séria e satisfeita do menino, mas sabia que, apesar de Minos revelar-se confiante e poderoso, ambos estavam sozinhos em um país estranho, cuja cultura, língua e estrutura diferenciavam-se bastante do que estavam acostumados.
— Senhora! Os batedores dizem que há movimentação nas terras abaixo e que parece ser dos homens do clã do corvo. – falou Alna.
Pandora virou-se com o cenho franzido.
— Radamanthys e os outros ainda não voltaram da vistoria das terras?
— Não, senhora.
Sem hesitações, Pandora foi até o armário das armas e retirou seu colete de couro. Vestiu-o, tendo o cuidado de deixá-lo firme na altura do ventre, mas sem apertá-lo. Sentiu a movimentação da criança, dentro de si e respirou fundo. Calma, bebê... tudo vai ficar bem. Em seguida, tomou seu arco nas mãos e examinou-o. A tensão da corda e as flechas, sempre preparadas, estavam a contento e ela inspirou fundo.
— Alna, mande Grymar até Radamanthys e diga aos homens que fiquem preparados.
— Sim, senhora.
Assim que a ordem foi dada, um jovem entrou correndo.
— Senhora Pandora, são mesmo homens de Jamian, o corvo. Houve um incêndio e eles enviaram um mensageiro pedindo hospitalidade por esta noite.
— Nunca. Não vamos permitir a entrada dele por nenhum motivo.
— Mas, senhora, ele não veio sozinho. Homens de outro clã estão com ele.
— Pois então, vamos lutar! Não sabemos que escória acompanha este homem.
Neste momento, Radamanthys entrou, trazendo alívio para Pandora.
— Ainda bem que chegou. – disse ela.
— Já soube de tudo. Está pronta? – perguntou ele.
— Pronta.
Ele a olhou sério, porém sem hesitação.
— O mensageiro já foi dispensado com a negativa. Desta vez, não vamos trocar nenhuma palavra. Asulf cavalga com ele.
— Asulf, filho de Bjorn?
— Sim. Não é preciso ser muito inteligente para saber que esta desculpa de hospedagem esconde outras intenções.
—Traidor como o pai, pelo que vejo. Aliar-se ao corvo? Além de traidor é um idiota!
— A estratégia já foi montada. Você ficará no círculo dos arqueiros, enquanto avançamos. Espero que ele não chegue mais perto, mas se chegar, você sabe o que fazer.
— Sim, meu marido.
Radamanthys sorriu ao ouvi-la dizer “marido”. Ainda era difícil acreditar que a mulher conhecida como Valquíria era sua companheira. A força dela o completava e, mesmo agora, grávida, ele não a deixaria em posição de fragilidade, mesmo que, no fundo, desejasse que ela ficasse fora do confronto com o corvo. Exigir isso dela seria como um insulto à guerreira que ele admirava e amava.
— Gosto quando me chama assim. – disse ele com um sorriso.
— Também gosto que me inclua em seus planos. – respondeu ela beijando-o nos lábios.
— Prometa tomar cuidado.
— Eu tomarei, sei das minhas limitações, mas também das minhas responsabilidades. Nosso filho ou filha saberá que sua mãe os protegerá acima de tudo.
Os olhos dourados do guerreiro se estreitaram e ele tocou o rosto delicado da mulher amada.
— Sou um homem afortunado e nosso filho ou filha, também.
— E eu, uma mulher feliz. – respondeu ela encostando a face na mão que a acariciava.
0000****0000****0000
O corpo da carrasca e dos guardas foram arrastados para um canto, enquanto Shina e Hilda seguiam em direção à Pedra. Era lá que ficavam os prisioneiros e onde Hades e os outros estavam. Hilda conhecia o caminho, mas, as duas precisavam ter um cuidado redobrado para não atrair mais guardas.
— Por onde podemos ir? – perguntou Shina.
— As galerias levam até os prisioneiros. Se tivermos sorte, chegaremos até eles antes que deem falta daquela maldita. – respondeu Hilda.
— Então vamos logo. – disse Shina.
Enquanto as duas avançavam, Hades e os outros esperavam. O tempo parecia se arrastar e os roncos dos outros prisioneiros evidenciavam que chegara a hora. O jarl moveu-se com cuidado para não fazer barulho e chamar a atenção. Rorik havia enfraquecido os elos das correntes, facilitando que eles conseguissem rompê-las com sua força, apesar do tratamento que recebiam.
— Sairemos assim que trocar a guarda. Você pega o da direita e Aldebaran o da esquerda. – sussurrou Hades.
Os dois homens assentiram. O homem que Aldebaran havia ajudado e cuja perna havia sido amputada abriu os olhos e os fitou com firmeza. Hades encarou-o, pronto para acabar com ele se percebesse uma atitude que os denunciasse. Entretanto, o homem nada fez, apenas fez um gesto de compreensão universal entre guerreiros: “acabem com eles!”
Aldebaran compreendeu e respondeu com um gesto de cabeça. Em seguida, Rorik retirou de dentro das vestes o estilingue improvisado, enquanto Lune e Aiacos passavam as pedras pequenas que haviam coletado. Quando a guarda se preparava para trocar de turno, as pedras voaram através das grades atingindo um guarda após o outro num ponto entre os olhos e fazendo-os desabar como sacas pesadas de trigo.
As correntes foram rompidas e cada um deles enrolou a sua nos braços. Estavam desarmados, mas isso não os tornava fracos. Eram guerreiros acostumados a usar tudo o que estava disponível para atacar ou defender.
Dois dos guardas não atingidos pelas pedras foram rendidos por Aiacos e Lune. Os dois saltaram sobre seus inimigos em meio ao cheiro de pedra úmida. Lune estrangulou um, enquanto Aiacos quebrava o pescoço do outro. Os cinco deixaram a cela e correram para uma das saídas que dava para um pátio pequeno, usado para castigos e correção dos presos. Os outros prisioneiros ficaram em silêncio, olhando os homens robustos deixarem aquele lugar.
Embora bem guardada, a Pedra possuía várias ramificações e na parte em que Hades e seus homens estavam, havia, apenas um destacamento que não demorou muito para ir verificar as coisas e sucumbirem à espada de Shina e Hilda que chegaram por trás e os silenciaram com rapidez.
Hades franziu o cenho ao ver a ex- cunhada e a filha de seu amigo morto.
— Minos e Alone também estão aqui. – disse Shina.
— Onde? – perguntou Hades sem disfarçar a preocupação.
— Dentro do castelo.
O jarl apertou a corrente em sua mão. Seus pensamentos recaíram em Minos e Alone perto de Offa.
— Apenas dois de vocês vem comigo. O restante sairá deste lugar para preparar o navio.
— Mas, jarl? Os guardas próximos ao rei serão muitos! – questionou Aldebaran.
— Façam o que eu disse. A partir daqui não podemos chamar a atenção. Lune e Aiacos, irão comigo e logo que acabarmos com Offa, voltaremos para o porto.
Shina hesitou um pouco, mas depois obedeceu. Hades tinha razão e era melhor saírem, enquanto o restante dos guardas ainda não sabia da fuga.
Lune e Aiacos correram junto de seu líder. O palácio estava há alguns metros e o tempo que possuíam era bem menor que a própria distância. Uma das galerias dava para uma saída próxima ao muro em construção onde haveria mais guardas. Havia um túnel e muitas pedras, o cenário perfeito para esconder a fuga dos três e lhes dar acesso ao interior do palácio depois que se livrassem do inimigo.
O guarda que liderava o destacamento, ao ver os três correndo empunhou a espada e gritou uma ordem para os homens atrás de si. Eram seis e todos se prepararam para atacar os fugitivos armados, somente, com as correntes que os prendiam.
Lune sorriu e golpeou o soldado na altura do ombro com a corrente grossa, deslocando o ombro do homem que largou a espada. Com agilidade, o viking apossou-se da arma e golpeou, novamente, agora lhe decepando o braço. O sangue vivo jorrou do corte e o restante da guarda entrou na luta, avançando sobre Hades e Aiacos, mas sendo interceptados na metade do movimento com um chute em movimento desferido por Hades e um escorregão dado por Aiacos que deslizou pelo chão aterrissando com as pernas nas do guarda, derrubando-o e fazendo-o cair sobre os demais atrás de si.
Rapidamente, Hades tomou o punhal de um dos soldados e investiu direto na altura do pescoço de outro guarda que não conseguiu desviar e acabou morto ao ter a jugular cortada. O jarl tomou-lhe a espada e atacou outro guarda com uma rapidez espantosa fazendo surgir faíscas azuladas que escaparam do contato violento entre as duas lâminas. A defesa, também rápida, do guarda fez Hades antever a dança mortal do combate.
Ambos desferiam golpes fortes exigindo de cada um o máximo de suas forças num revide ainda mais violento. Nenhum dos dois dava trégua um ao outro. Então o guarda gritou algo para aqueles que ainda estavam vivos e deu um passo, elevando a espada acima da cabeça e descendo-a em um movimento espiralado, fazendo Hades recuar com a força do choque e ser atacado por mais um soldado que tentava atingi-lo e bloquear-lhe a passagem.
Aldebaran usou a corrente batendo na arma do soldado que tentava impedir o avanço de Hades, lançando-a longe. Ele se aproximou com uma agilidade impressionante para alguém do seu tamanho e deu uma cabeçada no inimigo. Suas mãos gigantescas se fecharam nas laterais da cabeça do homem esmagando os ossos da face. Rorik também atacou usando o prego longo que unia os pinos das correntes como arma e desferindo um golpe fatal no flanco do outro.
Impiedosamente, Hades lançou-se na direção do guarda que o atacava e moveu sua espada com uma rapidez que surpreendeu o guarda. Quando ele se deu conta que, embora Hades estivesse ferido, isso não diminuía sua destreza, teve sua cabeça arrancada de seu corpo com uma precisão digna de um carrasco, fazendo um caminho de sangue que se projetou nas pedras.
Aiacos, e Lune também conseguiram acabar com os outros guardas e corpos sem vida desabaram como se fossem bonecos e um rio rubro escorreu pelo chão.
Um brilho gélido acentuou-se nos olhos de Hades, saber que seu filho e seu amante estavam ali o fazia ter pressa. Logo, os soldados estavam todos mortos.
— Vamos! – disse Hades e os homens o olharam com um questionamento silencioso.
O jarl girou a espada com o punho. – Vamos acabar com aquele rei maldito e sair daqui.
Um sorriso se abriu nos lábios dos guerreiros e todos assentiram com a cabeça, seguindo aquele que os liderava com total destemor.
0000****0000****0000
Minos soube que estava perto da meia-noite pela posição da lua. Havia cerca de dez homens patrulhando as muralhas e dentro dela havia uma grande torre. Andou silenciosamente, tendo Alone ao seu lado, ambos mantendo-se nas sombras. Fechou os olhos tentando ver algo e a imagem de Hades junto dos outros surgiu, rapidamente, como se fosse a luz de um relâmpago. O jovem mago sorriu e agradeceu, mentalmente, ao deus Odin. Hades conseguiu escapar e os outros estão com ele.
— Vamos logo, seu pai e os outros estão deixando a Pedra e vindo para cá. – murmurou Minos.
Alone sorriu, mas logo o sorriso morreu em seus lábios pequenos. O menino ficou um tempo paralisado. O homem atrás de Minos tinha um olhar magnético e uma postura altiva. Ele os observava de forma intensa, criando uma espécie de tensão no ar.
— M-Minos...
O jovem mago não precisou de maiores esclarecimentos. Ele sentiu um poder atrás de si e se manteve impassível para não assustar o menino.
— Afaste-se, Alone. Vá até seu pai, ele está perto daqui. Eu ficarei bem. – disse Minos.
O menino ainda hesitou, porém a firmeza na voz de Minos o fez encará-lo no fundo dos olhos.
Vá! Disse Minos e Alone ouviu a voz dentro da sua mente.
Lentamente, o jovem mago virou-se, enquanto Alone obedecia a ordem dada.
Sorento nada falou, apenas levou sua flauta aos lábios...
0000****0000****0000
— Malditos! – vociferou Jamian quando seu mensageiro voltou com uma resposta negativa.
— Você disse que eles nos receberiam. — falou Asulf.
— Estão desconfiados! Isso é sinal que estão com medo. – disse Jamian.
— Então vamos atacá-los!
O líder do clã do corvo fitou o homem a sua frente. Asulf estava confiante e tinha ao seu comando homens destemidos. Tinha de aproveitar-se disso. Depois, quem sabe, se livraria daquele idiota...
— Sim, vamos! Mas, temos que refazer nossos planos.
Asulf sorriu, sentindo nas veias a excitação da batalha próxima. Ele coçou a cabeça no exato lugar onde havia uma cicatriz, fruto de uma queda, quando mais jovem.
— Eu tenho uma ideia. – disse o viking e Jamian se aproximou para escutar melhor.
Minutos depois, todos estavam sendo instruídos sobre o que e quando fazer.
Enquanto Jamian e Asulf se juntavam aos seus homens, Radamanthys e Grymar estavam escondidos atrás das rochas, esperando qualquer movimentação que anunciasse a presença do inimigo. A brisa fria trazia uma mistura de cheiros de gado, grama seca e madeira queimando nas lareiras das casas e aquela calmaria noturna deixava todos com a respiração suspensa, aguardando os acontecimentos.
Radamanthys olhou para os homens. Havia algo de diferente no ar, como se, de repente, Jamian tivesse sumido, mas ele sabia que o corvo estava lá, esperando o momento certo para atacar...
— Será que desistiram? – murmurou Grymar.
— Posso senti-los se aproximando, mesmo com todo esse silêncio. – respondeu Radamanthys olhando por sobre o ombro.
— Alguém vem lá! – exclamou um dos homens.
Radamanthys olhou na direção que o homem gritara e viu o brilho das tochas.
— Por Loki!
As tochas se aproximaram imponentes e pulsantes. De repente, uma delas foi jogada para cima. Radamanthys seguiu a trajetória até a tocha cair e espalhar fogo pela grama seca.
— Eles pretendem incendiar tudo! – gritou Grymar.
Radamanthys levantou a espada e seus homens o acompanharam, guiando-se pelas chamas à frente. Logo, arbustos secos arderam em chamas. Havia algumas poucas cabanas abandonadas ao longo do caminho e logo, todas ardiam, criando um espetáculo na noite fria.
— Impeçam esses malditos de passar! – gritou o guerreiro.
Logo, o tilintar das espadas se chocando junto dos gritos de guerra irromperam o ar. A noite escura recebia colunas de fumaça que escondiam as estrelas e logo, também receberam a chuva de flechas que cortaram o ar, depositando-se no corpo de homens e animais.
Os homens do corvo e Asulf não tiveram tempo de perceber o erro cometido ao tentar incendiar a aldeia. Pandora liderava os poucos, mas letais arqueiros e a luminosidade do fogo deu a posição do inimigo de forma clara.
Aproveitando o apoio da Pandora, Radamanthys abriu caminho através dos inimigos. Sua espada cortou e decepou sem trégua, enquanto seus olhos dourados procuravam os líderes daquele ataque. Jamian e Asulf protegiam um ao outro.
— Traidores!
O grito de fúria lançado por Grymar irrompeu em meio à luta, enquanto Radamanthys avançava em silêncio com os dentes cerrados e uma expressão de desdém. Jamian virou primeiro, enquanto Asulf avançava como um berserker.
— Já que Hades não está aqui, serve você!
Ditas as palavras, Asulf atacou Radamanthys. As espadas formaram um “x”, presas uma na outra. Era um embate de força e habilidade, mas também de rancores e inimizade. Radamanthys deu um empurrão em seu oponente e a luta recomeçou. O calor ao redor aumentou, havia uma mistura ocre de fumaça, suor e sangue.
Asulf avançou com mais raiva que habilidade, seus olhos reluziram vermelhos por causa das chamas ao redor e as espadas se encontraram de novo e de novo até Radamanthys atacar com força, despedaçando o escudo de madeira e acertando as costelas do inimigo.
— M-Maldito...
Impulsionado pela vantagem, Radamanthys avançou sem piedade e sua espada encontrou o peito de Asulf. A lâmina adentrou a carne, até cravar-se no coração. O sangue brotou na boca do viking, enquanto ele caía e Radamanthys puxava a espada de volta.
Jamian viu a cena e gritou de forma selvagem, porém, antes mesmo que brandisse a espada, um silvo cortou o ar. O viking suspirou e congelou quando uma flecha transpassou seu corpo perfurando pulmão e coração. Sem acreditar, Jamian deixou escapar uma espécie de grunhido e arregalou ainda mais os olhos, caindo inerte.
Ofegante, Radamanthys olhou na direção de onde havia vindo a flecha e sorriu. Pandora surgia linda e mortal, com seu arco em riste e os olhos violáceos fixos nos seus. Caminhava altiva entre os outros arqueiros como Radamanthys pedira.
— Minha dívida com você será eterna, pelo visto... – disse ele.
Ela não respondeu, apenas o alcançou, rompeu o círculo que a protegia e beijou-o com avidez, o alívio pelo término da luta expresso na paixão com a qual ela agiu.
Radamanthys abraçou-a forte, correspondendo ao sentimento expresso nos lábios pequenos e úmidos. Em seguida, libertou-se dos braços da mulher que amava e foi até onde o corpo de Jamian havia caído.
— Haakon, dê-me o machado. – disse ele ao homem que se aproximava.
O viking obedeceu. Então, Radamanthys elevou a arma, descendo com precisão sobre o pescoço de Jamian. Em seguida, fez a mesma coisa com Asulf. Depois, pegou ambas as cabeças decepadas, elevando uma em cada mão. Sua voz soou alta e fez parar as poucas lutas que ainda aconteciam.
— Chega desta loucura! Jamian, o corvo, está morto! Assim como Asulf, o traidor!
Os poucos que haviam sobrado olharam para as cabeças ensanguentadas. Um murmúrio se fez ouvir, seguido de um silêncio que mais parecia uma mortalha descendo sobre todos e sobre aquele lugar.
— Ouçam!Hades foi vingar Wulfgar e resgatar Hilda. Jamian e Asulf não eram dignos e nunca serão! Que vaguem, sem destino, no reino de Hela! Quanto a vocês, rendam-se e os deixaremos viver para quem sabe, um dia, batalhar e morrer com honra! – gritou Pandora.
Aos poucos, os remanescentes foram baixando as armas. Radamanthys e Pandora deram-se as mãos e, juntos, mostraram a força do clã Ragnarsson. O conflito cessou em meio às cinzas e cheiro de queimado.
Um brado exultante ecoou e Radamanthys deixou escapar um meio sorriso, as pontas dos dentes brancos contrastando com o rosto enegrecido pela fuligem.
— Chega de conflito. Recolham os feridos! – disse o viking.
Após a ordem, Radamanthys se reuniu aos homens ao redor do poço no centro da aldeia. Ele livrou-se da cota de malha e da túnica, jogando um balde de água fria sobre o corpo coberto de suor, sangue e fuligem. Gotículas de água escorreram pelo seu rosto e tórax levando as marcas do combate. Enxugou-se com a túnica que usava por baixo e fitou os homens ao seu comando.
— Vencemos, mas a vigilância continua. Quanto mais Hades demorar, mais clãs poderão ter a mesma ideia do corvo.
Os homens concordaram, percebendo a força de Radamanthys, mas também o olhar dele para a sua mulher. Pandora se aproximou e os olhos dourados, antes implacáveis, pousaram suaves sobre os dela.
— Você está bem?
— Sim, eu estou. Mas nosso filho ou filha está inquieto. – disse ela colocando a mão sobre o ventre.
— Você precisa descansar.
— Você também.
— Eu irei. Mas, antes, devo verificar se tudo está bem.
— Faça o que deve fazer. – disse ela. – Mas, não se demore muito.
Radamanthys sorriu e, em uma fração de segundos, cobriu os lábios dela com um beijo cheio de luxúria. Os homens se olharam, alguns dando pequenas cotoveladas uns nos outros.
— Os homens estão olhando... – sussurrou ela.
— Que olhem... – respondeu o viking e Pandora não teve outra saída a não ser entregar-se ao beijo profundo que ele lhe deu.
0000****0000****0000
Aquele homem estranho portava uma flauta que era parecia exótica à Minos. O instrumento não era feito de osso como os dos vikings e agora, que o homem a tocava, constatou que a sonoridade também era muito diferente.
Sorento parou de tocar e olhou dentro dos olhos de Minos.
— Senti uma aura de poder e vejo que ela é sua. Está invadindo, mas... acho que sabe disso, não?
Minos tentou falar e só então percebeu que parecia estar surdo, sua mente entrando em um estado de confusão que o fez fincar os dedos nas palmas das mãos para retomar o autocontrole.
— Quem é você? – perguntou o viking.
— Eu?
Os olhos de Sorento se estreitaram e Minos sentiu uma pressão, ainda maior, na cabeça. Era como se aquele homem estivesse drenando a sua mente, deixando-o cada vez mais fraco. Não posso deixá-lo me controlar! Gritou o jovem mago para si mesmo, enquanto Sorento continuava a fitá-lo.
— Você é quem deve explicações aqui, bárbaro. Mas, não se preocupe, eu sei que você é amante dele. Veio ajudá-lo?
— Se já sabe, porque pergunta?
— Costume, apenas. – disse Sorento levando sua flauta aos lábios, mais uma vez. A música em tom agudo preencheu o ambiente como se fosse um buquê de lâminas finas e afiadas...
Minos sentiu a pressão na cabeça aumentar e, num estalar de dedos, viu serpentes de todos os tamanhos se arrastarem pelo chão, elas vinham na sua direção e o ar se tornava cada vez mais denso e pesado, apesar da música assemelhar-se a sussurros baixos, agora. Ele arfou e fechou os olhos. Aquilo não era real! A música... de algum jeito, aquele homem estava causando a ilusão!
Sorento percebeu a força de Minos. O jovem tinha um grande poder, diferente de tudo que havia conhecido. O mago mais velho havia sido iniciado no Grimorium dracon pelos guardiões da tradição de Merlin. Sua magia era protetora e colocada a serviço de seu rei. Seus desafios em relação a ela tinham sido mínimos, até então. Alguns encantamentos, poções e visões do futuro. Entretanto, agora a exigência era pungente e imediata.
Com um esforço intenso, Minos quebrou o encantamento, sentindo uma energia surgir ao redor do próprio corpo. Ele elevou a mão, filamentos diáfanos saíram de seus dedos, como se fossem teias de luz. Aquilo era uma novidade, porém o jovem não deixou transparecer. Teria que enfrentar aquele homem para que Hades tivesse sucesso em sua fuga. Não posso e não vou falhar!
— Você não vai me dominar. – disse Minos.
Um sorriso distendeu os lábios delicados de Sorento.
— Isso nós veremos...
Fale com o autor