OTHALA, A RUNA DA SEPARAÇÃO

6 Capítulo 5 - O DESPERTAR


Notas iniciais
❤ Mais um capítulo para iniciar a semana, escrito no caos devido a uma forte tempestade ocorrida onde moro. Postar foi difícil, principalmente porque a internet está péssima e nem pude responder aos comentários anteriores (mas prometo fazê-lo em breve). Agradecimentos a quem sempre deixa seu comentário, seu carinho e sua presença. Obrigada de ♥!!!

“A adversidade tem o efeito de despertar talentos que em circunstâncias prósperas teriam continuado adormecidos.”

Horácio

— Por Odin, Hubba! Mantenha os olhos em seu oponente e domine sua montaria. Assim, veja! – Ordenou Pandora, a voz feminina quase rugindo, enquanto demonstrava atacar com a espada e permanecia firme sobre o cavalo.

O jovem piscou e olhou para Radamanthys que se aproximava com o cenho franzido. Os outros também olharam para o guerreiro que pisava duro e vinha na direção em que estavam.

— Pandora! Mas o que está fazendo? – gritou o guerreiro ao vê-la desmontar com agilidade.

— Estou preparando-os, caso aconteça algo. – disse ela olhando para os guerreiros jovens. — Não disse que Jamian está acampado próximo daqui? Não confio naquele homem!

— Eu sei, mas você não pode fazer esforço, ainda mais montar e desmontar desse jeito.

— Eu já estou bem, Guthrum me examinou e disse que o perigo passou. E, além do mais, estou cansada de agir como uma medrosa. Não sou um rato para ficar confinada no quarto, enquanto existem coisas para fazer. Essa não sou eu. – disse ela olhando-o com seriedade.

Radamanthys estava sério, mas não pode evitar sorrir. Sim, aquela era a sua Valquíria. E por todos os deuses, era assim que preferia vê-la.

— Tudo bem, mas não exagere. Não esqueça o que Hades lhe disse – disse ele tocando-a no ventre que ainda não crescera tanto.

A menção do nome do irmão, Pandora sentiu a tristeza invadir-lhe, embora procurasse manter a postura firme. Radamanthys arrependeu-se de tê-lo mencionado, mas somente assim ela ouviria seus argumentos.

— Eu sei, tenho plena consciência que, acima da guerreira, está o meu papel como mãe. Mas, não quero que meu filho ou filha tenham uma mãe fraca e incapaz de defendê-los, antes mesmo que nasçam. Guthrum me assegurou que o perigo de perder a criança passou, então preciso me fortalecer.

Radamanthys passou o braço pelos ombros dela, agasalhando-a com um manto de lã, já que uma chuva fria e fina caía, novamente. Ela descansou a cabeça no ombro dele e ficou em silêncio até elevar os olhos e encará-lo. Ele a beijou com ternura, sentindo o gosto da chuva e da força dela.

— Eu te amo... – murmurou o guerreiro.

Pandora sorriu.

— Também te amo, mas agora preciso voltar ao treino. – disse ela desfazendo o contato.

Ele assentiu e foi até os outros guerreiros que lutavam entre si. Estavam todos preparados, mesmo os mais jovens e, entre eles, Alone. O menino exibia sua habilidade com as adagas e estava lutando com um dos meninos.

Aslak tinha a mesma idade que Alone, porém tinha um temperamento colérico e impulsivo. Neste momento, ele tentava esfaqueá-lo na luta de treinamento e o filho de Hades equilibrava o peso do corpo tentando determinar onde a adaga o atingiria a seguir. Apesar de muito jovens, ambos já tinham adquirido permissão para treinar como adultos usando armas de verdade e Aslak tinha uma habilidade inata para lutar com adagas.

Ele ajustou a posição, tentando encontrar a fraqueza de Alone que, somente, esquivava como tinha aprendido. Porém, quando não encontrou a brecha que desejava, Aslak começou a atacá-lo com mais empenho e começou a zombar dele:

— Você só sabe fugir? Ainda bem que seu pai não está aqui pra ver o covarde que você se tornou!

O insulto provocou uma raiva intensa em Alone que, mesmo lembrando-se dos conselhos de seu pai, resolveu revidar a provocação, se lançando sobre Aslak.

A adaga do outro raspou de leve em seu pescoço, mas num movimento impiedoso, Alone torceu o punho do oponente até desarmá-lo, então ergueu a adaga até encostá-la no pescoço do garoto.

— Eu não sou covarde! — disse ele com os dentes cerrados.

Os adultos riram e Alone manteve a posição tempo bastante para não deixar dúvidas sobre quem vencera o combate e, então guardou a adaga na bainha. Aslak franziu o cenho e murmurou algo parecido com um pedido de desculpas.

— Tudo bem. – falou Alone e estendeu a mão para ajudar Aslak a levantar.

Os dois deram lugar a outros lutadores e Alone resolveu deixar o campo de treinamento. Ele continuou a andar sem nem mesmo prestar atenção onde estava indo até sentir uma caneca de água pressionada em sua palma. Então, parou de repente e viu Minos diante de si. Seus olhares se encontraram e havia um brilho de cumplicidade nos olhos do mais velho.

— Está mais forte, a cada dia que passa. Isso é bom.

— Você notou? Perdi um pouco o controle, mas... Eu estou tentando. É que tem momentos em que eu não consigo ignorar certas coisas. Cansa os outros acharem que você é covarde ou idiota, porque fica no seu canto e não se engrandece o tempo todo. – falou Alone suspirando.

— Eu compreendo, já me senti assim muitas e muitas vezes. Venha, vamos caminhar um pouco.

Alone obedeceu e os dois andaram sob a chuva fina. O vento que soprava do leste trazia um forte cheiro do mar que se misturava ao da terra molhada. Maçaricos e fuselos davam voos rasantes e, em seguida, subiam alto criando uma coreografia graciosa sob o fundo de um céu cinzento.

— Você disse que papai está vivo, mas onde ele está? O que aconteceu com ele e os outros? – perguntou o menino, assim que chegaram à pequena clareira.

— Vou responder a essa pergunta, após compartilhar um segredo com você. Minhas visões estão cada vez mais claras e eu pretendo usar isso ao nosso favor. Também descobri um poder novo e você vai me ajudar a compreendê-lo melhor.

— Poder novo? Você é mesmo mais poderoso que Guthrum?

— Ela diz que sim, mas... veremos. – respondeu Minos.

— O que você pretende fazer?

Um sorriso distendeu os lábios desenhados de Minos.

— Você verá. Vamos até a pequena clareira perto dos rochedos.

A clareira era cercada de pinheiros e pequenos arbustos. Com a chuva fina que vinha caindo a algum tempo, o verde parecia mais vivo, criando um contraste interessante com o solo pedregoso.

Alone abrigou-se abaixo de uma árvore alta e Minos colocou-se no centro, fechando os olhos. Seu corpo estava relaxado, porém seus sentidos estavam alertas... Podia perceber o bater de asas de um fuselo que se desgarrara de seu bando, o rastejar de um pequeno lagarto, até mesmo o brotar de uma semente irrompendo o solo...

— Eu quero que se esconda em algum lugar. – falou Minos.

— Me esconder? Eu brincava disso quando era pequeno. – respondeu o garoto rindo.

— Isso não é uma brincadeira. Quero que se esconda em um lugar difícil.

O menino franziu o cenho, depois pensou. Em seguida, sorriu mordendo o lábio inferior e deixou a clareira. Estavam perto da praia e lá havia muitas rochas e pequenas cavernas que eram perfeitas para um esconderijo.

Mesmo que trouxesse lembranças desagradáveis, Alone foi até o local onde ficava o esconderijo usado pelas crianças na primeira invasão sofrida pelo clã. Entretanto, resolveu ir mais adiante onde ficavam os barcos. Escolheria um e se esconderia dentro dele!

Ainda com os olhos fechados, Minos respirou fundo. Cada vez mais, ele sentia uma espécie de energia dentro de si que circulava e o deixava num estado de extrema consciência de tudo e de todos. A experiência de sair do corpo tinha sido estranha, mas percebia que, se relaxasse, poderia tornar a fazê-lo e ter melhores resultados. O tempo estava passando rápido, tinha que dominar este poder para ir até Hades antes que fosse tarde demais!

Sentiu a distração que a chuva provocava, molhando delicadamente, o seu rosto, mas, ao mesmo tempo, o elemento parecia energizá-lo, torná-lo parte do lugar e, consequentemente, ciente de tudo ao seu redor. Ficou um tempo, apenas usufruindo daquela sensação poderosa, até abrir os olhos e projetar-se para fora do corpo. Podia ver a si mesmo saindo e, ao mesmo tempo, sentir-se consciente do lugar onde se encontrava. Seu outro eu se deslocava com muita rapidez e podia passar através dos objetos. Via a si mesmo como se fosse um fantasma, um espírito zanzando por entre as rochas e árvores com uma visão extremamente eficiente que devassava tudo.

Achei!— disse ele para si mesmo quando chegou até um pequeno barco ancorado, cuja lona, apesar de imóvel, continha um certo menino.

Alone não acreditou quando ouviu a voz de Minos chamando-o.

— Sei que está aí embaixo, pode sair.

— Ah, como me achou? – perguntou o menino achando que Minos estava ali.

Quando percebeu que não havia ninguém, Alone franziu o cenho.

— Onde você está?

— Volte para a clareira. – a voz grave parecia ressoar dentro da sua cabeça.

— Minos?

— Estou na clareira. Volte.

O garoto correu e, quando chegou, viu Minos no mesmo lugar.

— Ah, você correu e chegou antes. Tem algum caminho secreto que eu desconheça? – falou o menino.

— Eu não saí daqui. Quer dizer, meu corpo de carne e osso não saiu. O outro corpo, sim.

— Não entendo. Como você fez isso?

— Usando uma habilidade que nem mesmo eu compreendo direito, mas eu a possuo e vou usá-la para trazer seu pai de volta. Mas, ainda tem mais...

— Tem um poder além desse? – falou Alone com os olhos arregalados.

Minos elevou a mão direita e mexeu os dedos, lentamente. Em seguida, fez um gesto como se estivesse puxando uma corda invisível. Uma folha solitária veio até a sua mão, exatamente como na primeira vez que vivenciara o poder de desdobramento da sua visão.

— Uau! – deixou escapar Alone. – Você... Você também pode mover as coisas!

— Descobri isso agora. Mas, não vamos falar sobre isso e sim algo mais importante. Venha cá. – disse Minos chamando Alone e convidando-o para sentar-se sobre uma pedra.

A chuva tinha parado, mas as nuvens cinzentas continuavam densas até que, como por encanto, o tempo melhorou e o céu se abriu.

— Agora vou responder a pergunta que me fez antes. Seu pai, Aiacos, Rorik, Lune e Aldebaran foram feitos prisioneiros. Eu sei que eles estão vivos e pretendo resgatá-los.

— Você vai liderar um grupo de guerreiros para isso?

— Não, vou levar apenas um e pedir uma pequena ajuda de alguém de fora.

— Um? – falou Alone com uma expressão atônita. Mas... Quem você vai levar? Tem muitos que são fortes, mas... um só é meio louco.

— Você. Pretendo levar, somente você. – disse Minos com um olhar penetrante.

— Eu? – os olhos do menino se arregalaram.

— Um grupo chamará muito a atenção. – disse Minos, calmamente. — Preciso, apenas, de um guerreiro de valor. Você usa bem a adaga, é pequeno e pode escapar com mais facilidade, caso precisemos. Mas, como precisamos navegar, vamos precisar de uma ajuda de fora, vou pedir a Shina que nos encontre e nos deixe próximos do nosso destino. Não quero deixar nosso clã desassistido.

Alone não cabia em si de contentamento. Minos o considerava um guerreiro superior! Isso era o máximo!

— E quando nós vamos?

— Assim que nos livrarmos dos idiotas do clã do corvo. – respondeu Minos olhando para além da clareira e enxergando o grupo de homens liderados por Jamian.

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Aldebaran, Aiacos, Lune e Rorik olharam para as correntes de ferro que lhes circulava o tornozelo. O estalar do chicote anunciava mais uma jornada nas sombras da escravidão que lhes fora imposta, assim que puderam fazer esforço físico. Por um momento, o grupo imaginou que seria executado, porém, haviam sido levados para aquele lugar ainda mais fétido que as celas da prisão. Estava claro que ser escravo era uma grande humilhação e que os quatro preferiam morrer a viverem como tal. No entanto, pensavam na missão e em seu líder. Assim sendo, precisavam suportar todo e qualquer suplício para um bem maior.

Soldados patrulhavam a muralha de pedra sendo construída frente ao fosso do castelo. A obra, além de uma demonstração de poder, era mais um mostruário do rei para exibir prisioneiros, antes de executá-los. Aproveitava-se da mão de obra e, quando ela se esgotava, enviava-os para o pátio de execução.

Dia após dia, as pedras eram colocadas umas sobre as outras em silêncio pelos prisioneiros das mais diversas nacionalidades e motivos. Havia os que pararam ali devido à derrota em uma guerra, outros por serem desafetos do soberano. Em condições sub-humanas, eles podiam dormir duas ou três horas, no máximo em celas subterrâneas sem altura suficiente para um homem ficar em pé.

Os quatro guerreiros haviam passado pelo chicote, algumas vezes, dormiam pouco, mas sua estrutura física e emocional não fora abalada como os que estavam ali há mais tempo. Eram vikings cuja força não estava, apenas, na habilidade de lutar e matar. Possuíam um espírito inquebrantável e uma vontade férrea.

— Será que Hades está vivo? – murmurou Lune.

— Ele foi ferido gravemente, mas eu espero que sim. – falou Aiacos passando a mão pela coleira de ferro em volta do pescoço.

Aldebaran e Rorik estavam com os olhos fixos no grupo de guardas que fiscalizava a obra. Pensavam em um jeito de escapar, mas tudo ali era aberto demais, teriam que chegar a um lugar onde pudessem se esconder e ainda não tinham noção do que havia nos arredores.

— Temos que elaborar um plano. Eu já memorizei a rotina dos guardas. – falou Aldebaran.

— E eu sei qual deles é o mais fraco... – completou Rorik.

O som de uma pedra caindo interrompeu a fala do viking. Um grito de dor, seguido de vozes num idioma que nenhum deles entendeu, rompeu o ar. Um dos escravos estava com a perna presa sob um grande bloco que rolara de uma pilha.

Os guardas gritavam com os outros para que tirassem a pedra, mas os esforços se mostravam em vão. Aldebaran não queria chamar a atenção para o fato que estava totalmente recuperado dos ferimentos, mas ao ver a expressão do homem ferido, não pode ignorá-lo. Ele se aproximou e fez sinal para outros dois. Em seguida, ergueu o bloco com facilidade, enquanto os outros retiravam o ferido.

Os soldados se olharam entre si, antes de se aproximar de Aldebaran. O mais alto deles encarou-o tentando manter a expressão superior, mas gotículas de suor se insinuavam na testa, grudando os cabelos escuros à pele. Em seus olhos, a imagem do grandalhão pareceu aumentar ainda mais com aquela façanha e um medo primitivo ganhou espaço dentro de si. Entretanto, ele era o guarda e Aldebaran um escravo do rei, teria que manter a ordem.

— Muito vem, voltem ao trabalho! – falou alto tentando demonstrar valentia.

Aldebaran controlou-se para não rir. Podia quebrar a cabeça daqueles guardas com a mesma facilidade que erguera aquela pedra, mesmo sem o seu machado de guerra. No entanto, tinha de ser paciente e usar a cabeça. Obedeceu ao guarda fingindo ser um grandalhão imbecil. Sabia ser esse o pensamento deles para com quem não pertencesse a sua cultura.

— Não devia ter feito isso... – sussurrou Rorik. – Agora eles ficarão de olho em nós.

— Eu não podia deixar o sujeito ali, daquele jeito. – rebateu Aldebaran.

Lune olhou para o grandalhão com uma expressão de reprovação.

— Você tem um coração mole. Esses cães vão querer nos manter subjugados! Eu juro que se me tocaram de novo com aquele bastão imundo eu vou matá-los. – murmurou Lune.

— Paciência, não vamos acelerar as coisas. Eles têm medo do Aldebaran e vão focar nele. Enquanto isso, nós vamos memorizando as rotinas e os rostos. Quando chegar a hora, a gente acaba com a raça destes malditos. – respondeu Aiacos.

O homem ferido, agradeceu a Aldebaran, embora soubesse que perderia a perna. O viking apenas assentiu com a cabeça e tornou a olhar para os amigos. Não poderiam se demorar por ali, senão ficariam cada vez mais fracos e sujeitos à perversidade do rei...

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Hades manteve a cabeça erguida e as mãos imóveis ao lado do corpo, enquanto era conduzido pelos guardas, através dos corredores, até ser levado ao rei. Uma coleira de ferro circundava seu pescoço e os pés estavam ligados por correntes. Ele mancava por conta do ferimento na coxa, mas mesmo assim, não demonstrava um comportamento submisso, o que fazia um dos guardas empurrá-lo, de vez em quando.

Os olhares de pelo menos umas vinte pessoas, entre nobres e servos estavam pousados sobre ele, neste trajeto. O jarl não olhou diretamente para nenhuma delas e sim para frente. Podia ouvir os cochichos avaliando-o, mas não se importou. As mulheres olhavam-no com curiosidade, algumas murmuravam jamais ter visto um macho tão perigoso e atraente, outras achavam que ele era um estuprador selvagem. Os homens percebiam o olhar destemido, alguns sentiam inveja, outros, medo.

Por fim, um mensageiro anunciou alto, a chegada do prisioneiro e as portas duplas do outro lado do salão se abriram, revelando o trono do rei e mais pessoas, agora dispostas de ambos os lados. As paredes de pedra exibiam ricas tapeçarias e as janelas amplas em forma de arco se encontravam fechadas.

Offa estava vestido com pompa e circunstância, os olhos exibindo um brilho de poder e comando, permaneciam fixos em Hades. Ao seu lado estava Sorento, vestido de maneira elegante e monocromática. A expressão de seu rosto continuava a mesma, parecia entediado em ter que estar ali.

— O criminoso Hades! – anunciou uma voz. – Líder de um clã bárbaro e agora prisioneiro de Vossa Majestade!

— Tragam-no para mais perto. – disse Offa com um tom de comando.

O guarda tentou empurrar Hades que já sabia o que ele iria fazer, mas a única coisa que conseguiu foi constatar que o físico do viking, mesmo em desvantagem pelos ferimentos, era mais forte que o seu e tinha se preparado para a ação, ou seja, não teve forças para fazê-lo sequer, dar um passo em falso.

— Então você é o famoso Kriger hjerteløs... Não me parece tão feroz, como alardeiam!

Da mesma forma com que fora olhado, Hades olhou em volta e, em seguida, para o rei a sua frente. Seus olhos acinzentados não mostravam surpresa, medo ou curiosidade e sim, desdém. Fitou também o rosto de Sorento que, imediatamente, mudou de expressão. Do tédio à curiosidade, os olhos do mago encararam os do jarl.

O rei estalou os dedos e dois guardas se aproximaram um de cada lado de Hades. Em seguida, um deles chutou a perna boa do prisioneiro, fazendo-o cair de joelhos e esforçar-se para não deixar escapar um grito de dor.

— Assim está melhor. Vejo que não conhece a etiqueta, bárbaro. Diante de um rei, deve se ajoelhar. – falou Offa com visível prazer.

A atmosfera mudou ao redor de Hades, os murmúrios somaram-se aos risinhos, mas ele permaneceu firme e altivo.

— Como bem disse, sou um bárbaro e não reconheço homens que ditam ordens e se escondem, atrás de um trono, como rei.

Os olhos de Offa brilharam de um jeito raivoso e ele quase se levantou do trono. Não o fez, porque Sorento tocou-lhe a mão, fazendo-o recuperar o porte.

— Não é prudente desafiar aquele que detém o seu destino em mãos, bárbaro. Sugiro que tenha mais educação e humildade. – falou o mago.

Hades olhou Sorento de cima a baixo, depois tornou a encarar o rei.

— Meu destino pertence aos deuses e, quanto à educação e humildade, o que dizer de um rei que manda matar e decapitar um homem e aprisiona a sua filha, quando a ação dos dois visa, apenas, uma negociação? Nem mesmo os bárbaros agem com tanta deslealdade!

Sorento engoliu em seco e Offa enrijeceu o maxilar. O ar pareceu ser retirado do ambiente. Todos emudeceram, esperando uma atitude do seu soberano. Até mesmo o bardo que costumava criar canções nestas ocasiões, ficara mudo e temeroso.

— Levem-no para o pátio de execução! – disse o rei apertando os dentes.

Sorento aproximou-se do rei e cochichou-lhe algo próximo do ouvido. Offa franziu o cenho, mas logo suavizou a expressão e sorriu satisfeito.

— Amarrem este bárbaro e lhe deem vinte chicotadas! Vou ensinar-lhe a se portar, diante de um rei.

Hades olhou bem dentro dos olhos de Offa e cuspiu. O guarda chutou-lhe as costas, mas ele, mais uma vez, absorveu o golpe sem deixar escapar um som. Foi quase arrastado para fora do salão, enquanto ouvia xingamentos dos presentes.

Sorento se levantou e Offa ordenou que esperasse.

— O que me disse, faz sentido, matá-lo só o tornaria um herói. Mas, eu quero que este bárbaro se submeta a mim de qualquer forma. Quero que todos saibam que ele foi quebrado. Faça com que isso aconteça, ouviu bem? Nem que tenha que enfeitiçá-lo!

— Não se preocupe, você conseguirá dobrá-lo. – disse o mago.

Offa sorriu e já olhava para o canto esquerdo do salão vendo Misty surgir com o vinho. O escravo sempre tornava as coisas mais suportáveis. Fez sinal para que o jovem se aproximasse.

— Mandei chamá-lo ontem à noite e disseram que estava doente. – falou o rei levando a mão ao queixo do escravo.

— Perdão, meu rei. Estava indisposto. Temi que fosse alguma doença e não vim até a sua presença. Mas, o médico disse que já estou bem. – respondeu Misty.

— Eu mandei o médico ir vê-lo.

— Eu agradeço a honra e gentileza, meu senhor. Fiquei comovido com o gesto, já que sou, apenas, um escravo. – disse Misty baixando os olhos e mordendo os lábios rosados e carnudos.

O rei ficou excitado com o ato simples. Desde que chegara ali, Misty lhe causava uma rápida e urgente luxúria.

— Já que não está doente, pode me agradecer do modo apropriado.

Misty sorriu malicioso e Sorento aproveitou para deixar a cena. Havia algo naquele escravo que o intrigava, mas ainda não se dera o trabalho de investigar. No momento, seu interesse era outro. Tratou de seguir para o local onde sugerira que o bárbaro fosse levado. Mesmo reconhecendo para si mesmo, a loucura dos seus atos, ainda assim, preparava-se para agir.

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Os homens voltaram suas cabeças quando o novo prisioneiro chegou. Hades fora levado até a muralha. Aiacos, Rorik, Aldebaran e Lune abriram espaço entre os escravos maltrapilhos para ver o jarl.

Havia um tronco enorme em frente à pilha de pedras usadas para a tal construção. Ali eram castigados os rebeldes e fujões. Os guardas arrastaram Hades, prendendo-o pelos dois pulsos de modo que ele ficasse suspenso. Em seguida, um deles deu passagem à Nairna que fora chamada para executar o castigo.

A carrasca andou altiva e lentamente, o prazer visível nas feições maduras e maquiavélicas. Trazia Hilda presa por uma coleira e a fazia andar atrás de si como faria com um animal de estimação.

— Então, meu querido bárbaro... creio que vou ter o prazer de ensiná-lo sobre bons modos, em nome do rei. – disse ela soltando a corda e sinalizando para que Hilda se afastasse e se colocasse de joelhos.

A jovem obedeceu, seus olhos tentando ocultar o ódio que sentia.

Nairna recebeu o chicote das mãos do guarda e sorriu. Aproximou-se de Hades, tocando as costas largas e musculosas.

— Você é diferente dos outros vikings, seus cabelos são negros como a noite e seus olhos não são de um azul vivo, como a maioria possui. Talvez, por isso, seja tão teimoso... Vamos ver até onde vai a sua rebeldia.

Hades voltou o rosto para Nairna e repetiu o gesto feito no salão. Olhou-a com desprezo e cuspiu. Então a ignorou.

— Ela vai chicoteá-lo... – murmurou Lune.

— Sim, ela vai. – falou Aiacos.

Rorik e Aldebaran se olharam em silêncio, sabendo que Hades resistiria e isso só aumentaria o castigo.

Nairna parou de sorrir e desferiu a primeira chicotada. Hades retesou o corpo com a dor, mas não gemeu, nem praguejou. Ele virou a cabeça e olhou para a carrasca, os olhos cinzentos ainda mais desafiadores.

— Aproveite, enquanto pode bruxa e dê o seu melhor. – disse ele e, de novo, cuspiu, demonstrando desprezo.

O ato desencadeou uma fúria em Nairna, ela o golpeou com força, novamente. E outra vez, e mais outra até completar quinze chibatadas. Ofegante, ela viu Hades continuar sem dizer um ai ou até mesmo gemer. As costas dele começavam a sangrar e ainda faltavam cinco para que o castigo acabasse.

Quando ela ergueu, novamente o chicote, Sorento que se posicionara em um lugar, próximo da muralha, pegou sua flauta e começou a tocar. O som suave se espalhou no ar, como um encantamento. A música chegou até Hades que elevou os olhos e, de repente, começou a ter visões... Ele não sentiu mais dor, foi abraçado por elas. Em determinado momento, a imagem de Minos se sobrepôs a todas, levando-o para outro mundo, outro tempo. Minos... Sussurrou ele, a alegria de rever aquele que amava na expressão do rosto que passara da dor ao prazer.

Sorento visualizou o que a mente de Hades buscara. Então ele tem um amante. Disse o mago para si mesmo, enquanto continuava a tocar. Esse era um dos poderes que possuía, evocar, através da música, lembranças prazerosas ou não nas pessoas que escolhia tocar ou, como seu irmão preferia dizer, enfeitiçar. E o bárbaro amava outro homem, detalhe que o deixou incomodado e fascinado, ao mesmo tempo.

Quando chegou à vigésima chicotada, Nairna parou, totalmente surpresa, ao notar que Hades não deixara escapar um som sequer. Achou que ele tinha desmaiado, mas ao fitar-lhe o rosto, observou que ele ainda estava consciente, mas parecia em transe.

— Hilda! Traga-me o meu chicote! – gritou ela.

A música parou e Sorento juntou-se aos dois.

— Chega! O rei ordenou vinte chibatadas e a mim, para fiscalizá-las. Guardas tirem-no daí e o levem para a torre. – disse o mago olhando severamente para Nairna.

A carrasca franziu o cenho, sentindo-se humilhada e estranhando a ordem de Sorento.

— Perdão, sei que é irmão do rei, mas os assuntos relacionados aos prisioneiros são liderados por mim e eu...

— Você vai obedecer, ou prefere que eu interrompa os prazeres do rei e leve esta discussão até ele? – falou o mago com uma entonação fria na voz melodiosa.

Nairna conhecia Offa e sabia que ele detestava parar o que lhe dava prazer para falar sobre outros assuntos. Principalmente, enquanto estivesse fascinado pelo novo escravo. Ela elevou os olhos, encontrando o olhar penetrante do mago.

— Muito bem, milorde, acatarei a vossa decisão. – disse ela fazendo um esforço para não parecer insolente.

— Ótimo. Guardas mantenham o prisioneiro bem amarrado e sigam-me. – falou o mago dando as costas à Nairna.

Lune, Aldebaran, Rorik e Aiacos viram Hades ser levado sem que tivessem a chance de falar com ele. No entanto, saber que ele estava vivo lhes dera novo ânimo e era, somente, uma questão de tempo, até terem um plano para escapar e acabar com aquela corja maldita...

Notas finais
❤ ♥Então... às vezes não é possível escrever e postar na frequência que gostaríamos, então, fica o meu super agradecimento a quem lê, espera, cobra, enfim, comentam, favoritam, enchem a gente de carinho!!! MUITO OBRIGADA!!