Após o impacto, o veículo dos Vreedles pousou no solo desengonçadamente, deslizando as rodas na terra enquanto tentava frear. Fez uma curva para a esquerda e só parou quando o lado direito da van encostou numa árvore.

Rhomboid mantinha a mandíbula travada e o peito arquejante. Octógno, de olhos saltados, segurava no suporte do teto acima do vidro do passageiro com ambas as mãos. Argit, por sua vez, encravou suas unhas o mais profundo que conseguiu no estofado. Tentou virar a cabeça para olhar pela janela, mas o desespero de alguns segundos atrás fez seus espinhos se ouriçaram e fixaram sua cabeça e costas no encosto do banco. Restou apenas espiar com o canto dos olhos.

Fora do veículo, os adolescentes moviam o olhar da criatura para a van e da van para a criatura.

― Mas o que foi isso? ― perguntou Gwen.

― Quem são esses doidos? ― disse Ben.

― Cara, acho que esse foi o golpe mais doloroso que conseguimos dar nesse miserável ― Kevin sorria de canto de boca.

― Como assim? ― disse Gwen, levemente ofendida pois há poucos minutos havia conseguido erguer o alienígena do chão com um só soco de magia.

― Para alguém tão arrogante quanto o Albedo ― explicava Kevin tentando segurar o riso, ― isso foi um golpe enorme no ego dele.

― É mesmo! ― Emendou Ben ― e temos que garantir que ele nunca se esqueça disso!

― Eu só queria que tivesse sido efetivo o suficiente para ele destransformar ― disse Gwen.

Albedo jazia deitado de bruços com a face afundada na terra. Luzes verdes oscilavam em alguns pontos de seu corpo, como braços, tornozelos e lado direito do tronco, mas nada que chegasse a encobrir ele totalmente e desfazer a forma vaxasauriana.

Ben encarou as poucas feridas na criatura e aos feixes luminosos que emanavam de dentro delas.

― Ele está resistindo à destranformação...

― Como é!?

― Aqui, vejam ― Ben apontou para as luzes ― O Superomnitrix está tentando desativar e ele não está deixando.

Kevin levantou seu braço direito, deformando-o numa lâmina amarela vítrea, e disse:

― Então vamos logo dar um golpe final e ajudar o relógio a terminar isso!

A porta lateral de passageiros da van se abriu ruidosamente e de dentro saiu Argit, seguido de Octógono e Rhomboid. Argit trazia sobre o tórax uma faixa de couro diagonal com granadas acopladas. Em sua cintura um coldre com duas pistolas laser. Já os irmãos Vreedle estavam cada um em posse de um canhão de fótons. Argit começou a falar em voz alta:

― Mas que bizarrice é essa aí jogada no chão!? Não vão me dizer que isso aí é o Albedo... Se bem que não me admiraria que fosse. ― Fechou os olhos e continuou a gesticular de maneira arrogante ― O cara tem um fetiche em se transformar em coisas bizarras. Lembra muito um conhecido meu que tem o mesmo mau hábito. Aliás, falando nele, Ben Tennyson, meu chapa... ― Argit abriu os olhos e virou o rosto em direção à Ben. ― Pérai, garoto, o que você vai fazer!?

O que Argit viu foi Ben correndo em sua direção em alta velocidade, suas pernas eram negras e azuis como a de um kinecelerano e seus braços eram grossos, com pelagem alaranjada de um appoplexiano. Sua expressão trazia um enorme senso de urgência. Faltando poucos metros, Ben pulou e agarrou Argit e os Vreedle num abraço único e jogou-os para o lado em direção ao chão.

A van explodiu em pedaços como se tivesse sido atingida por um trem. Albedo avançara numa extrema velocidade contra o veículo e agora socava violentamente o que restava das ferragens. Cada golpe era acompanhado de um rugido feroz.

Ben destransformou-se e disse baixinho para Argit e os Vreedle:

― Vamos sair daqui!

Argit não demorou nem um segundo para obedecer às ordens de Ben e saiu rastejando em direção à floresta. Os Vreedles, por outro lado, levantaram-se e posicionaram seus canhões de fóton apontados para Albedo.

― Esse desgraçado! ― disse Octógono

― Essa van foi presente de mamãe, seu maldito! ― disse Rhomboid, havia um certo choro junto à sua voz fina.

― Cara o que vocês estão fazendo!? ― disse Ben.

Os Vreedle dispararam. Um poderoso feixe de luz foi emitido de cada uma das armas atingindo o braço esquerdo e o tronco de Albedo. A criatura desequilibrou-se levemente para a direita, mas prontamente se recompôs e os encarou.

― Essa não... ― Ben passou por entre os irmãos, ergueu sua perna direita de Diamante. Assim que fincou o pé no chão gritou para os Vreedles ― Fujam agora!

Uma parede de cristal esverdeado se ergueu do chão e se expandiu em segundos. Mas tão subitamente foi criada, subitamente também foi destruída com o avançar de ombro de Albedo.

Com um movimento semicircular de seu braço, o vaxasauriano atingiu ambos os Vreedles com o dorso de sua mão, arremessando-os contra as árvores. Ben, que passara por debaixo do braço de Albedo, tentou correr, mas foi em seguida agarrado pela criatura.

Ele foi erguido pelo alienígena até o nível de seus olhos. No instante que Ben encarou a criatura, compreendeu imediatamente que Albedo perdera de vez a sanidade. Eram os mesmos olhos de quando ele tentou arrancar o Omnitrix de seu peito. O medo lhe revestiu por completo. Começou a tremer. Sentia a mão da criatura apertar-lhe até quase quebrar seus ossos mas não conseguia fazer nada.

O vaxasauriano abriu a boca. Ben sentiu um enorme hálito quente e fétido atingir o seu rosto. Encarou os dentes da criatura e apenas um pensamento repetiu-se incansavelmente em sua mente:

Eu vou morrer...

Eu vou morrer...

Eu vou morrer...

A enorme bocarra se aproximou de sua cabeça.

Eu vou morrer...

A caverna de dentes se fechou subitamente instantes antes de atingí-lo. O corpo de Kevin revestido de um metal esverdeado socando o rosto da criatura atravessou seu campo de visão.

Uma fina película violeta recobriu o corpo de Ben por inteiro no quase inexistente espaço entre sua pele e a mão do vaxasauriano. Subitamente a película se expandiu formando uma enorme esfera e forçando a criatura a abrir a mão esquerda.

Gwen moveu os braços como se agarrasse o ar a sua frente e o puxou para si. Imediatamente a esfera flutuou vindo em sua direção.

Albedo firmou o pé direito no solo para evitar a queda por desequilíbrio e rapidamente endireitou o corpo, cerrou o punho direito e golpeou Kevin ainda no ar. O jovem cortou o céu em alta velocidade e atravessou o grosso tronco de um pinheiro, fazendo a copa tombar para frente.

O alienígena ergueu os olhos em direção à esfera violeta e partiu numa corrida sedenta. Desejava como nunca destruir a esfera e seu conteúdo. Ergueu o braço para pegá-la quando sentiu um forte impacto em seu abdome que lhe fez reverter toda distância percorrida e lhe lançou de costas contra duas árvores. Apoiou a mão no abdome e grunhindo encarou quem lhe golpeou.

Vulkanus ergueu sua enorme marreta com base de tadenita, apoiando-a sobre o ombro esquerdo, em seguida, disse:

― Você não tem ideia do quanto que eu estava esperando por isso...

Gwen apoiou Ben no chão e desfez a esfera. Com um braço apoiado em seu ombro questionava e verificava se o primo estava bem.

Albedo levou o braço para trás agarrando uma das árvores. Num só movimento a arrancou do solo e lançou-a em direção à Vulkanus. Um feixe de mana negro atingiu a árvore no ar e a estilhaçou em vários fragmentos secos e apodrecidos.

Ben e Gwen protegeram seus rostos com os braços. Com os olhos cobertos não viram o aproximar do dono de uma voz arrogante e abafada dizendo:

― Olá, Gwen! ― Disse Michael Morningstar, o Estrela Sombria, ― continua encantadora como sempre.

Os primos encararam a figura de roupa escura e a máscara de metal que escondia sua aparência grotesca.

― Você também continua ótimo, Michael ― disse Gwen frivolamente.

A alguns metros dali, Óctógono e Romboid continuavam destinados a vingar a destruição de sua van. Com gritos de fúria que, querendo ou não ficam mais cômicos do que assustadores, os irmãos disparavam seus canhões contra Albedo que se protegia com os antebraços.

Aproveitando-se da guarda baixa, um rato mutante gigante saiu por detrás das árvores e fincou seus enormes dentes frontais no pescoço do vaxasauriano. Albedo urrou de dor e elevou os braços por cima do ombro, agarrando a criatura mutante. Com dificuldade, soltou-a de si e a arremessou para seu lado direito.

O rato emitiu um guincho horrível enquanto se debatia no ar. Prestes a acertar um tronco espinhoso, dois braços fortes e acinzentados agarraram o animal em pleno ar. Polegares, com seu cabelo que lembra uma enorme unha sobre sua testa, colocou a criatura mutante no chão que fugiu floresta adentro.

Ouviu-se uma risada seguida de um:

― Na-na-ni-na-não, Albedo, você não sabe que não pode mais maltratar os animais por diversão? ― Zomboso saia de trás de Polegares acompanhado de Mortrança e Ácido.

Albedo movia a cabeça rapidamente encarando um oponente atrás do outro. Sua respiração ficava mais ofegante e raivosa a cada novo indivíduo que aparecia nas bordas da clareira.

Próximo à Ben, Robótica, com sua armadura feita de tecnologia alienígena roubada, apareceu fazendo os últimos ajustes em suas manoplas. Um grito em uníssono de “Sim, Milorde” fez as pessoas virarem em direção aos Cavaleiros Eternos que surgiam pelo lado esquerdo da floresta. Um som agudo chamou a atenção para os céus onde um pássaro mutante sobrevoava as copas das árvores acompanhado de espaçonaves encanadoras.

Ben e Gwen se entreolham com uma expressão confusa. Kevin aproximou-se deles e observando os novos visitantes, disse:

― Finalmente, galera, já estava achando que vocês tinham amarelado ― e sorriu debochadamente.

◇───────◇───────◇

Mais cedo, quando Gwen estava sem controle de seus poderes, Encantriz havia recebido uma ligação. Como ela estaria ocupada tentando parar Gwen, a feiticeira incumbiu Kevin de atender o telefonema e arremessou seu celular para ele.

Kevin não reconheceu o número, colocou o celular no ouvido e disse um “alô” desconfiado. Escutou uma voz malandra responder:

― Essa voz... Kevin, meu chapa, há quanto tempo!?

― Argit!? Mas como você está conseguindo fazer ligação?

― Eu pensei ter ligado para o telefone da feiticeira, será que eu liguei errado?

― Não, você ligou certo, esse é o celular da Encantriz.

― E o que você está fazendo com o celular dela, Kevin? Não me diga que você largou a ruivinha. Por favor, não fala isso, eu torcia tanto por vocês...

― Argit, cala a boca e me fala, como você está conseguindo fazer ligações? O pulso eletromagnético da bomba deveria ter desligado a energia da cidade inteira!

― Meu chapa, eu lhe apresento a Infranet, uma rede de conexão construída com o melhor do conhecimento do submundo, utilizada apenas em situações extremas de emergência!

― E por que eu só tô sabendo disso agora?

― É que você sabe, né, Kevin. Depois que você resolveu ir para o lado dos bonzinhos, não poderíamos correr o risco dessa informação cair nas mãos dos Encanadores.

― E mesmo assim você fez questão de contar para ele na primeira oportunidade ― disse uma terceira voz.

― Argit, quem foi esse que falou agora? ― perguntou Kevin.

― Então, estamos em uma chamada em grupo. É importante que saiba que a Infranet só foi possível a partir dos esforços de todos que estão aqui presentes. Afasta um pouco da tela e ativa a câmera.

Kevin obedeceu e assim que a ativou, os rostos de vários vilões começaram a aparecer na tela: Dr. Animal, Zomboso, Vulkanus, Estrela Sombria, Cavaleiros Eternos, Robótica, Vreedles e, claro, Argit.

― A Infranet é uma mistura de tecnologia humana, alienígena, magia e mais um monte de coisa que eu na verdade entendo muito pouco ― disse Argit. ― Por mais que todos aqui se detestem, esse canal de comunicação serve para situações em que suspeitamos que o planeta Terra ou Bellwood poderia estar num risco muito absurdo. Afinal de contas, é aqui que moramos e se houver algo que possamos fazer numa situação de destruição iminente, colocamos as desavenças de lado e nos comunicamos.

― Para impedir o perigo? ― perguntou Kevin.

― Claro que não! ― disse Argit sorrindo, acompanhado de vários outros vilões com frases semelhantes.

― Então pra quê?

― Pra podermos fugir, é claro!

― Eu não tô acreditando nisso...

― Se soubermos antes que alguma coisa pode acontecer, a gente consegue se organizar e garantir nossos negócios em outro lugar.

Kevin passa a mão sobre o rosto em descrédito, em seguida, Argit continua:

― Tem que concordar que a ideia é genial.

― Eu não vou nem te responder... Na verdade, eu vou é perguntar: por que vocês ligaram agora?

― Não sei se você ficou sabendo, mas rolaram duas explosões em Bellwood.

― Ouvi alguns rumores... ― disse Kevin, a perna latejando devido o corte feito pela neotadenita.

― Como a feiticeira perdeu no sorteio dos palitinhos ela teve que ir checar pra saber o que tinha acontecido, se era uma daquelas situação de risco. Aliás, amigão, você tem alguma ideia do que causou as explosões?

― Sim ― disse prolongando um pouco a letra “i”

― E é?

― Albedo.

No exato instante todos os vilões desviaram o olhar da tela e exibiram uma expressão de fúria contida. Kevin continuou:

― O desgraçado construiu uma espécie de bomba atômica pra recarregar a cópia do Omnitrix dele.

Todo mundo resolveu falar ao mesmo tempo. Vários xingamentos e ofensas até a quinta geração da família Albedo.

― Eu sei, eu sei, galera, ― Kevin tentavam mediar, ― ele é tudo isso mesmo que vocês falaram e muito mais. Só que assim, estamos tentando parar ele nesse exato momento então se vocês puderem nos ajudar, conseguiremos impedir que ele destrua Bellwood e vocês não precisam se mudar.

Os rostos que há alguns segundos se encheram de raiva, agora misturavam expressões de medo e preocupação. Os segundos em silêncio que se seguiram pareceram uma eternidade. Argit por fim disse:

― Foi mal, Kevin, mas acho que não vai rolar.

― E por quê!?

Novamente silêncio. O jovem então explodiu:

― Eu não estou acreditando que vocês estão com medo do Albedo!

― Cale sua boca, escória! ― Urrou o Cavaleiro Eterno. Kevin já o conhecia, era o arqueiro.

― Ah, vá para o inferno! E eu já te mandei parar de me chamar de escória, seu maldito... E se não é medo que vocês estão nesse momento é o que então?

― Já enfrentamos ele, moleque, e falhamos ― disse Vulkanus. ― Por que faríamos a estupidez de tentar novamente?

― Eu sei que a maioria de vocês levou uma surra dele. Vi com meus próprios olhos toda a humilhação que ele fez vocês passarem.

― Moleque, cuidado com suas palavras...

― Mas agora é diferente ― Kevin esboçou um sorriso maléfico. ― Ele antes enfrentou cada um de vocês sozinhos, mas se a gente se juntar e descer o cacete nele todo mundo ao mesmo tempo, não tem como ele vencer.

Nesse instante Kevin notou que cada um dos rostos começou a encarar a tela refletindo a proposta e buscando uma concordância dos pares. Movimentos leves de aceno com a cabeça se tornou a comunicação silenciosa. Para garantir seus desejos egoístas eles se juntaram para criar a Infranet, agora por um objetivo comum de vingança, talvez pudessem novamente deixar suas desavenças de lado.

― Eu sei que vocês estão loucos para quebrar a cara daquele desgraçado! ― Kevin instigava ainda mais. ― Ele é um, nós somos vários!

Quando as expressões se alinharam no desejo comum de vingança, Rhomboid, com sua voz fina ecoou:

― Vamos acabar com esse desgraçado!

Seguido de um urro uníssono de concordância.

Kevin explicou rapidamente a sua localização. Disse que poderia ser um pouco difícil de encontrar se não houvesse uma enorme nuvem de fumaça subindo aos céus nesse exato instante sinalizando o local. Tudo acertado, Kevin desligou.

Inspirou profundamente e disse para si:

― Se isso der errado a Gwen vai me matar... Se bem que... ― E encarou a luta de Encantriz e Gwen que ocorria a alguns metros dali. ― Talvez não precisasse dar errado pra isso acontecer...

Pegou o celular novamente e começou a digitar o número dos Encanadores. Ia revelar a existência da Infranet para os Encanadores? Ia. Afinal de contas, se tudo der errado, a Infranet também vai ser destruída de qualquer forma. Apoiou o telefone no ouvido e aguardou. Quando ouviu a voz atender no mesmo tom confuso que ele quando viu um celular sem sinal receber chamada, respondeu:

― Magistrado Patelliday, sou eu, Kevin Levin.