Max Tennyson abriu os olhos. Encarou o teto irritantemente iluminado sobre si. Respirava rápido como se houvesse acordado de um pesadelo. Um pesadelo terrível em que um monstro sanguinário explodiu seu braço direito.

— Sr. Azmuth, ele acordou!

A luminosidade excessiva em seu campo de visão foi subitamente invadida pelo rosto de uma jovem de cabelos loiros. Sua expressão era de preocupação mas ao mesmo tempo de alívio.

— Onde estou? — perguntou Vô Max.

— Em sua nave, Magistrado — respondeu Eunice, — o trouxemos para que pudéssemos cuidar de suas feridas.

“Feridas” pensou Max. A imagem da criatura voltou a sua mente. A explosão, a dor, o sangue… Ergueu o braço direito a frente do rosto. Esperava encontrar um braço de um homem idoso, com as marcas da idade e cicatrizes de missões passadas. Pelos embranquecidos e rugas se acumulando sobre as juntas.

Não foi isso que encontrou.

Seu braço estava escuro como piche, mas com um brilho que lembrava cristal líquido. Circuitos verdes luminosos caminhavam pela superfície como dotados de vida própria. Mexeu os dedos e girou o punho, observando ambos os lados da mão.

“Não foi um pesadelo…”

— Max… — disse Azmuth, fazendo Vô Max desviar o olhar de sua mão para o galvaniano que encontrava-se sobre a palma da mão esquerda de sua assistente.

O Magistrado encarou o alienígena por alguns instantes, nenhum dos dois dizendo uma só palavra. A relação desses dois sempre foi algo complicado de se definir. Nunca chegaram a se chamar de amigos, mas havia um respeito mútuo. Ambos sabiam do que eram capazes. Max possuía um passado militarista com missões que desejava nunca ter que se lembrar. Azmuth, como bem sabemos, foi criador de tecnologias revolucionárias para o universo; tanto para o bem, quanto para o mal. No entanto, independente do que suas vidas tão experientes já lhes proporcionara, ambos tentavam ao máximo lutar pelo o que era certo.

Max abaixou o braço mecânico e encarou novamente o teto.

— Obrigado — agradeceu Vô Max, deixando subentendido vários pontos de compreensão sobre a decisão de Azmuth.

O cientista apoiou as mãos atrás das costas, fechou os olhos e esboçou um discreto sorriso.

— Então… — disse Max — Eu já posso me levantar?

— Ah, claro, claro! — Eunice aproximou sua mão esquerda da mesa para que Azmuth pudesse descer e então voltou-se para a maca, apertando botões e elevando a parte superior da cama.

— Obrigado, Eunice. Bem, como podem ter notado — Max ergueu levemente o braço mecânico, — eu falhei em minha missão. Não fui capaz de retirar o superomnitrix de Albedo.

— Não seja tão rígido consigo mesmo, Magistrado, o senhor destruiu a máquina e interrompeu uma das etapas mais cruciais do plano dele.

— Exatamente, Max, por mais que ele tenha conseguido recarregar o superomnitrix, o núcleo de retroalimentação não foi efetivado. É questão de tempo até o dispositivo descarregar novamente.

— Questão de tempo? — Max indignou-se com o que ouviu — Demorou semanas para o relógio chegar pelo menos perto de descarregar da primeira vez, e isso porque nem sabemos o quanto de carga que havia nele! Quanto tempo mais continuaremos com isso?

— Eu compreendo sua preocupação, Max, mas Albedo bloqueou meu acesso ao comando de desligamento por voz. No momento temos apenas duas opções: ser capaz de derrotá-lo em um confronto ou fazê-lo usar o superomnitrix até acabar a carga.

Encantriz entrou na conversa tão de repente que Max teve um leve sobressalto ao se dar conta da presença da feiticeira no recinto:

— Não é o melhor dos planos, mas é o único que temos e por sorte ele já começou.

— Do que ela está falando, Azmuth? — Max virou-se desconfiado.

Azmuth inspirou profundamente e disse:

— Computador, exibir imagens externas.

Sim, Pensador Azmuth.

Em duas das telas do quarto, que antes exibiam análises em tempo real dos sinais vitais de Max, surgiram imagens aéreas do confronto da floresta. Albedo em sua forma vaxasauriana suprema lutava contra vários oponentes ao mesmo tempo. Uma das telas mantinha a imagem centralizada na luta como um todo, enquanto a segunda tentava mostrar imagens aproximadas de cada um dos membros do confronto.

Max via oponentes tão distintos entre si como Cavaleiros Eternos e Vreddles lutando contra o vaxasauriano.

— Como conseguiram fazer eles trabalharem juntos?

— Não sabemos — disse Eunice.

— Mas se eu fosse apostar, — Encantriz abriu a mão e seu celular apareceu num estalo, acompanhado de uma leve fumaça rósea — eu diria que o moleque metido a gótico gostosão tem culpa nisso. Tem que tomar cuidado com as companhias desse garoto.

— Kevin? — Assim que Max compreendeu a indireta da feiticeira, virou-se novamente para as telas em busca, não somente de Kevin, mas também de Gwen. — Onde eles estão? Gwen e Kevin?

— Estão lutando também, Magistrado… — Eunice pronunciava cada palavra com cuidado, como se tentasse dar uma má notícia aos poucos. — Computador, consegue focar neles?

Sim, senhorita Eunice — disse o computador já direcionando a imagem para Kevin, revestido de um minério arenoso laranja, que corria em direção à Albedo; em seguida, mudou o foco para Gwen, com o corpo cheio de máculas violetas, disparando esferas de energia.

— O que aconteceu com a Gwen? — questionou Max levantando-se da cama, e então ele o viu.

A câmera focalizou o garoto de cabelos castanhos e jaqueta verde. Ele saltou para o lado para escapar de uma explosão, protegendo o rosto com os braços.

— Ben…

Assim que a fumaça da explosão se dissipou, Max pôde ver que os braços de Ben estavam transformados no Diamante.

— Não… — Max virou-se para Azmuth incrédulo. — O que é isso que estou vendo?

— Magistrado, por favor, se acalme… — Eunice se colocou entre os dois com uma expressão corporal apaziguadora. Encantriz, por sua vez, apoiou as costas numa parede e cruzou os braços.

— Você me prometeu, Azmuth! Disse que tiraria o Omnitrix do braço do Ben assim que chegássemos na Terra!

— Eu prometi que manteria o Omnitrix seguro e foi isso que eu fiz… — Azmuth mantinha o olhar baixo e os braços apoiados nas costas.

— Como é!? Para proteger o seu maldito aparelho você decidiu continuar colocando a vida do meu neto em risco?

A fala de Max fez Azmuth reagir de uma forma nunca vista antes:

— Eu coloquei ele em risco!? — Azmuth ergueu a cabeça, seus olhos ardiam em ferocidade — Há muitas coisas nesse universo que pode apontar o dedo na minha cara e dizer que suas vidas foram afetadas por culpa de minhas ações, mas esses jovens!? — Azmuth apontou para a tela. — Não, meu caro Max, você sabe muito bem quem é o culpado por eles estarem colocando a vida em risco nesse exato momento!

Max calou-se. Azmuth não.

— Desde o primeiro dia em que o Omnitrix caiu na Terra e se ligou no braço do garoto Ben Tennyson por engano você poderia ter tomado a decisão correta e retirado o dispositivo dele. Bastava algumas ligações e você saberia que me encontraria em Xenon e tudo estaria resolvido!

Max virou o rosto fugindo do olhar de Azmuth. Em vários momentos de sua vida, principalmente à noite, antes de dormir, se pegou pensando no que o cientista estava dizendo mas, sendo incapaz de encarar a culpa, procurava sempre fugir de tais pensamentos.

— Você o treinou! Primeiro o garoto, mas assim que viu o potencial na garota anodita, você passou a treiná-la também! Até mesmo o jovem Osmosiano! Você os treinou para enfrentar perigos, para não recusar um pedido de ajuda, para numa situação de risco serem aqueles que as pessoas podem contar independente de reconhecimento por suas ações.

Max virou o corpo e encarou as telas atrás de si. Viu seus pupilos lançando lasers de seus olhos, flutuando pelo ar, deformando seus braços em lâminas de metal, disparando bolas de fogo de suas mãos alienígenas, invocando mãos mágicas gigantes e arremessando enormes rochas com elas.

— Eles não são jovens comuns e você sabe disso… — Azmuth amansou o tom de voz. — Talvez você nunca tenha notado, ou na verdade tenha notado sim e por isso decidiu instruí-los como fez, mas quando vimos Albedo segurando seu corpo desmembrado no meio daquela floresta, pude finalmente entender o que move esses jovens.

Max tirou os olhos das telas e encarou Azmuth.

— Você — disse Azmuth.

Vô Max sentiu uma sensação estranha lhe comprimir o estômago e subir pela garganta.

— Esses jovens poderiam ter recusado o seu treinamento e os seus ensinamentos. Poderiam ter utilizado seus poderes para conquistar o planeta se quisessem, mas não. Eles não fizeram isso. E não fizeram porque eles te admiram e se espelham em você. No que você representa.

— Mas eu… — Max tentou falar algo, mas Azmuth continuou.

— Eu vi nos olhos daqueles três jovens algo que já tive o prazer de ver em seus olhos nas oportunidades que tivemos de nos encontrar: Todos os três possuem a mesma fúria no olhar de fazer o que precisa ser feito para proteger as pessoas e aqueles que amam.

Uma lágrima escorreu pelo lado direito do rosto de Max e parou na base de seu queixo.

— Eles não são mais apenas jovens, Max, e você sabe disso. Suas ações nos ensina que eles são capazes de coisas muito maiores do que imaginamos e eu aprendi isso hoje também — Azmuth olhou para Eunice com uma expressão de gratidão.

Os olhos da jovem começaram a marejar e, tentando disfarçar, ela começou a secá-los com a base do polegar. Sentia dentro de si uma felicidade genuína.

— Seja intencionalmente ou não, mesmo com nossos defeitos, fomos de alguma forma capazes de passar pra frente pelo menos aquilo que a vida nos ensinou ser bom. Nem sempre conseguimos, mas saber que estamos lutando para se manter nesse caminho, e agora eles também estão, me traz um pouco de paz quanto ao futuro que nos espera…

Max encarou novamente as telas. Sentia um aperto no coração com as imagens de Gwen, Kevin e Ben enfrentando a criatura. Quando foi que eles cresceram tanto?

— Mas e o Omnitrix? — Max voltou-se para o cientista.

— Como eu havia lhe dito, o problema dele consistia na falta de anestésico e eu consegui providenciar isso temporariamente.

— Temporariamente? Mas por quanto tempo? O Ben sa-

— Acalme-se, Max, foi decisão do garoto permanecer com o Omnitrix e ele está ciente de tudo. Qualquer problema ele irá nos comunicar.

O Magistrado respirou profundamente, por fim disse:

— E então, o que faremos agora?

— Bem, uma parte do plano já está em andamento — disse Azmuth, — agora, o que faremos em seguida…