O Último Reino da Terra

5 Capítulo 4: Um País Sitiado


A fumaça dos protestos ainda pairava no ar, misturada ao cheiro de borracha queimada e vidro estilhaçado. Durante a madrugada, as forças de segurança tentaram conter as multidões, mas tudo o que conseguiram foi instigar ainda mais fúria.

Agora, com o dia clareando, o governo finalmente mostrava seu trunfo: soldados.

A cidade estava sob ocupação.

Blindados percorreram as avenidas principais, atravessando a neblina de destruição deixada pela revolta. Homens e mulheres de uniformes escuros tomaram as praças, as estações de trem, os acessos aos edifícios públicos. As Forças de Segurança Nacional receberam ordens diretas: conter, prender, intimidar.

— Ninguém deve sair às ruas sem autorização oficial. Qualquer aglomeração será dispersada à força.

A voz metálica ecoou por alto-falantes espalhados pelo centro. Mas ninguém obedeceu.

As pessoas haviam passado a vida sendo ensinadas que a monarquia era sinônimo de ordem. Agora, viam claramente que essa ordem só existia enquanto o povo permanecia em silêncio.

E eles não ficariam em silêncio.

A cidade pertencia àqueles que ousavam resistir, mas a mídia pertencia àqueles que ousavam expor a verdade.

O governo tentava dominar as ruas, mas perdeu completamente o controle da informação.

Na noite anterior, as redes de notícias independentes haviam transmitido as listas vazadas. Agora, as telas brilhavam com os rostos daqueles que sobreviveram ao Casulo.

Eram jovens, alguns ainda adolescentes, outros já adultos, mas todos com olhos marcados por algo irreversível: a consciência de que suas vidas haviam sido moldadas sem que tivessem escolha.

— Quando entrei no Casulo, tinha seis anos. Me prometeram que eu me tornaria uma versão melhor de mim mesma. Hoje, preciso de quatro tipos de medicação para conseguir dormir sem crises nervosas. Isso é evolução? — disse uma garota de cabelos escuros, o olhar vazio.

— Fui arrancado dos braços dos meus pais e passei anos sendo tratado como um experimento. Agora, meu corpo se move rápido demais para qualquer interação normal. Estou preso dentro de mim. — Alex Grayson olhou diretamente para a câmera.

— Vocês dizem que somos o futuro. Eu diria que somos apenas os restos de um projeto malfeito.

O depoimento mais devastador veio de um garoto franzino, que puxou a gola da blusa e revelou um tubo fino de silicone inserido diretamente em sua pele.

— Esse é meu pulmão artificial. Meu corpo não reconhece mais o oxigênio da forma que deveria. Eu só respiro porque a tecnologia me mantém vivo. Não sou um avanço. Sou um erro. E se esse sistema tivesse qualquer decência, teriam me permitido morrer, como venho pedindo há anos. Eles controlam o nosso DNA, controlam nossa vida e até controlam como e quando devemos morrer. Tudo em nome de um sistema que, mesmo tendo a elite atingida, continua sendo aplaudido. Todos somos Bobos da Corte, para uma Monarquia que não livra nem os seus do Casulo.

Nos corredores do Parlamento, a tensão era palpável. O nome de Elias Wilson ecoava como um trovão, mas, entre os gritos por censura total, algo inédito aconteceu: o silêncio de alguns parlamentares.

A senhora Thompson, sempre ferrenha defensora do sistema, fitava a tela com os lábios apertados. Ao seu lado, David Oliver, que nunca concordara com o Casulo, parecia ainda mais inquieto. Mas o olhar mais notável veio de Samuel Grint. Ele observava o depoimento do garoto com o pulmão artificial com uma expressão difícil de decifrar. Quando a transmissão foi cortada, ele pigarreou e limpou as mãos suadas na calça.

— Precisamos discutir isso com calma — sua voz soou hesitante, um contraste absoluto com a segurança habitual dos discursos parlamentares.

Wilson lançou-lhe um olhar fulminante.

— Não há nada a discutir! Ou está conosco ou contra nós!

Mas, pela primeira vez, a resposta não foi imediata. Outros parlamentares desviaram os olhos. Ninguém queria ser o primeiro a falar.

Os relatos atingiram a população como um soco. Mas o golpe final veio da ciência.

Enquanto os jornais oficiais tentavam desmentir as acusações, especialistas começaram a se pronunciar. Pela primeira vez, biólogos e cientistas se uniram contra a monarquia.

— Nem toda evolução é benéfica.

A frase foi dita por uma das geneticistas mais respeitadas do Domo, durante uma transmissão ao vivo.

— No reino animal, já observamos casos em que uma adaptação específica trouxe grandes benefícios, mas também consequências desastrosas. Um exemplo clássico eram as hienas.

Imagens holográficas mostraram os esqueletos fossilizados de animais extintos.

— As hienas desenvolveram níveis altíssimos de testosterona, o que as tornava caçadoras ferozes. Mas isso teve um custo: os filhotes frequentemente morriam, devido a complicações nos partos e competição entre irmãos. Em outras palavras, a força delas as estava extinguindo.

Ela fez uma pausa antes de continuar.

— Se isso aconteceu na natureza, o que dizer de uma interferência artificial no DNA humano?

As imagens mudaram, mostrando corpos em macas, máquinas monitorando funções vitais, arquivos confidenciais repletos de resultados instáveis.

— Criamos crianças com poderes extraordinários. Mas também criamos seres humanos incapazes de viver sem dor, sem remédios, sem sofrimento. Será que isso realmente nos tornou superiores? Ou apenas condenamos nossas próximas gerações à ruína?

Ela olhou diretamente para a câmera.

— Aos biólogos e geneticistas que fecham os olhos para isso, eu só tenho algo a dizer a vocês: “Vocês representam a mistura entre a soberba de acreditarem que são deuses e a burrice de se negar a olhar para trás e ver o que a busca por essa raça aprimorada fez com a humanidade. Aos homens que se negam a estudar o passado, digo apenas uma coisa: estão fadados a repeti-lo.”

A transmissão da bióloga foi encerrada abruptamente, mas já era tarde. O vídeo viralizou em todas as redes subterrâneas. Mesmo com a internet altamente monitorada pelo governo, a verdade se espalhou.

No Parlamento, os membros conservadores gritavam por censura total.

— Isso precisa parar agora! — rugiu Elias Wilson.

Mas outros parlamentares, pela primeira vez, pareciam hesitantes. Algumas das famílias que sempre apoiaram o sistema agora tinham dúvidas.

Nos corredores do Palácio, a rainha Allison Stewart assistiu às telas com expressão sombria.

— Eles estão destruindo nossa ordem.

Dalila Stewart, sua filha prodígio, apertou os punhos.

— Então precisamos revidar.

Naquela noite, um novo anúncio tomou as ruas.

— A partir de agora, qualquer cidadão encontrado espalhando informações falsas sobre o Casulo será considerado traidor do Domo. A punição será severa.

Os manifestantes entenderam o recado.

A guerra havia começado.

No dia seguinte a manchete que mais chamava atenção nas bancas era intitulada:

Evoluímos nossas capacidades e Involuímos como seres humanos

Na eterna busca pelo aprimoramento da espécie, os homens esqueceram que a verdadeira evolução não se encontra na manipulação genética, mas na aceitação do que nos torna humanos. O desejo de transcendência, que começou com a crença de que poderiam moldar o futuro, rapidamente se transformou em uma obsessão que os empurrou para um abismo sem fim. Cada tentativa de aperfeiçoar a natureza humana trouxe consigo uma nova camada de complexidade, onde a ética se perdeu e o controle se tornou uma prisão invisível. O que parecia ser o avanço de uma nova era, revelava-se, na verdade, o princípio do fim. Quando, finalmente, alcançaram a perfeição que tanto desejavam, descobriram que ela era uma ilusão, e que haviam sido consumidos por ela desde o início. O aprimoramento, que deveria ter elevado a humanidade, se tornou o veneno que a destruiria.

A Rainha Allison Stewart surge no vídeo de pronunciamento sentada em um trono imponente em resposta as manchetes e manifestações que se espalham pelo país, mas sem os adornos exagerados que costumava usar em aparições públicas. A luz ao seu redor é fria, projetando sombras discretas que realçam sua expressão séria. O ambiente é austero, um salão amplo, de tons escuros, onde o eco de sua voz reforça o peso de suas palavras.

Ela veste um traje formal, mas sem excessos, demonstrando controle e autoridade. Seu cabelo está perfeitamente arrumado, e seu olhar é afiado, firme, carregado de um misto de desdém e cálculo estratégico. Seu tom de voz é baixo, pausado, carregado de um controle absoluto sobre suas emoções — um tom que sugere não apenas luto, mas também indignação e superioridade velada.

Atrás das câmeras, poucos estavam autorizados a assistir. Dalila Stewart mantinha-se rígida, os olhos fixos na mãe, a expressão impenetrável. Mas seus punhos estavam cerrados ao lado do corpo, as unhas cravadas na palma da mão.

Enquanto fala sobre o “veneno” do aprimoramento, sua postura permanece ereta, calculadamente imobilizada, como se cada movimento tivesse sido ensaiado. Ela mantém as mãos apoiadas no braço do trono, os dedos levemente curvados, como se estivesse segurando algo invisível.

“O progresso sempre exigiu sacrifícios. Desde o início dos tempos, aqueles que temem a mudança tentam deter a marcha inevitável da evolução. Hoje, nossos inimigos tentam distorcer a verdade, lançando dúvidas sobre aquilo que nos fez grandiosos. Espalham mentiras e números frios, tentando transformar nossa busca pela excelência em um conto de horror. Mas não se enganem: os fracos caíram para que os fortes pudessem se erguer.” — Sua expressão se torna quase irônica, como se estivesse falando não apenas aos cidadãos do Domo, mas a todos que um dia duvidaram de sua visão. Seus olhos percorrem diretamente a câmera, como se estivesse desafiando qualquer um a questioná-la.

“Cada vida perdida no Casulo foi uma oferta ao futuro. Cada erro nos ensinou, cada falha nos tornou mais próximos da perfeição. Aqueles que partiram não foram vítimas, mas mártires da grandeza. E agora, enquanto os fracos choram e se revoltam contra o destino, nós, os verdadeiros herdeiros do Domo, devemos permanecer firmes.

Aqueles que espalharam essa propaganda covarde serão encontrados. A ordem será restaurada. E a promessa do Domo seguirá de pé: apenas os dignos terão o direito de herdar este mundo.”

Seus olhos percorrem a câmera, cortantes como lâminas.

“Os fracos clamam por justiça. Mas justiça é um conceito dos medíocres. E não há espaço para medíocres no Domo.” – Ela inclina levemente o rosto, um gesto calculado de ameaça para encerrar o pronunciamento e deixar bem claro que não toleraria quaisquer ameaças ao seu “sistema perfeito”

“Todo traidor será esmagado. E todo aquele que ousar desafiar a evolução terá o mesmo destino dos que ficaram para trás na história: a extinção.”

Ao ouvir o ultimato Dalila piscou lentamente, e por um instante, o canto de sua boca se contraiu — uma reação ínfima, imperceptível para a maioria, mas carregada de algo que não deveria estar ali.

Dúvida.