O Último Reino da Terra

6 Capítulo 5: Os erros do sistema


Dalila Stewart desceu da nave de inspeção com a postura ereta e o olhar afiado. Sua mãe a enviara pessoalmente para supervisionar as vilas afastadas do centro parlamentar. A monarquia alegava que a ordem havia sido restaurada, mas pequenos focos de insatisfação ainda queimavam pelas bordas do Domo.

O chão de terra batida contrastava com as ruas impecáveis da capital. O cheiro de madeira úmida e dejetos pairava no ar, e, por um instante, Dalila reprimiu a vontade de cobrir o nariz. Mantendo o semblante inalterado, seguiu os soldados e assessores, observando as construções simples ao redor.

As pessoas saíam de suas casas para vê-la passar, algumas reverenciando-a com medo, outras mantendo o olhar baixo. Mas foi ao virar a esquina de um dos prédios menores que Dalila parou abruptamente.

Uma criança a observava de longe, agarrada à perna da mãe. Os olhos da menina tinham um brilho vítreo, e sua pele parecia fina demais, esticada sobre ossos frágeis. Quando ela saiu da sombra, Dalila notou algo que a fez prender a respiração: os braços da criança se estendiam até quase tocar o chão, as juntas eram finas demais, como se nunca tivessem se desenvolvido corretamente.

“Não pode ser...”

A mãe puxou a menina para trás, afastando-se depressa, como se tentasse esconder a visão. Mas não houve tempo. Do outro lado da rua, um menino andava com um auxílio de um exoesqueleto rudimentar, sustentando um corpo atrofiado. Um pouco mais adiante, uma jovem tentava falar, mas a boca não se movia de forma natural, como se os músculos faciais tivessem sido costurados incorretamente.

Dalila sentiu o estômago revirar.

Ela sabia que crianças morriam no Casulo. Sua mãe nunca escondeu isso. Mas não sabia que algumas sobreviveram... assim.

Desviou o olhar para um dos oficiais ao seu lado.

— O que aconteceu aqui?

O homem hesitou por um momento antes de responder:

— Essas foram... falhas. Crianças que passaram pelo Casulo e não se adaptaram como esperado. São funcionais, mas não plenamente.

Dalila franziu o cenho.

— Por que não foram reintegradas ao centro?

— Porque não têm como contribuir. Algumas sequer conseguem viver sem assistência. E, como pode imaginar, a monarquia não pode exibi-las. Elas são um lembrete de que nem todo aprimoramento foi um sucesso.

Os olhos de Dalila recaíram sobre a menina de braços desproporcionais. O olhar da criança a perfurava, carregado de algo que ela não esperava: consciência.

A realidade era pior do que qualquer teoria que ela já ouvira.

Dalila retornou à capital com uma sensação de peso no peito, a memória das crianças deformadas ainda nítida em sua mente. A nave que a trouxe de volta ao centro de poder parecia mais sufocante do que nunca. Ela sabia que o que vira nas vilas não poderia ser ignorado, mas o confronto com sua mãe, a monarca Allison Stewart, exigia cautela. Dalila, sempre impecável em suas ações e palavras, agora sentia uma pressão diferente, uma dúvida que se formava como uma mancha escura em seu entendimento do sistema.

Quando entrou nos aposentos privados da monarquia, sua mãe a aguardava sentada em sua cadeira de veludo, a postura ereta e imponente como sempre. Dalila permaneceu na porta por um momento, observando a mulher que sempre foi seu maior exemplo, e ao mesmo tempo, seu maior enigma. Seus olhos, normalmente firmes e confiantes, estavam agora indecisos.

— Mãe — Dalila começou, a voz suave, mas cheia de um peso que não conseguia esconder. — Precisamos conversar.

Allison levantou o olhar, analisando a filha com uma expressão que misturava curiosidade e leve cansaço.

— O que aconteceu? — ela perguntou, dando espaço para que Dalila se aproximasse, mas sem demonstrar qualquer sinal de preocupação.

Dalila fechou a porta atrás de si e deu um passo à frente, seu olhar se fixando nos olhos de sua mãe. Ela não queria ser agressiva, mas sabia que não podia mais esconder o que sentia. Não agora.

— Vi crianças... nas vilas. — A frase saiu baixa, mas com a intensidade de uma revelação. — Crianças deformadas. Algumas com os corpos malformados, outras com dificuldades de movimentos. Todas... sobreviventes do Casulo.

Allison permaneceu em silêncio, mas Dalila notou a tensão nos ombros da mãe. Ela havia feito o suficiente para tremer o alicerce da sua confiança.

— Você sabia disso? — Dalila continuou, a voz agora um pouco mais firme. — Sabia que o Casulo não só falha em criar os "aperfeiçoados", mas também cria... aberrações? Crianças que mal podem sobreviver sem assistência, algumas incapazes de viver sem máquinas para sustentá-las?

A monarca respirou fundo, seus olhos se suavizando por um momento, mas Dalila ainda via o controle rígido que sua mãe exercia sobre as emoções.

— É claro que sabia — disse Allison calmamente, mas com um tom distante, como se estivesse falando sobre uma peça de história que já não a afetava. — Eu sempre soube que o processo não era perfeito. Algumas falhas são inevitáveis. A ideia do Casulo é dar uma chance, mas nem todos podem ser "aprimorados".

Dalila não podia conter a dor que sentia ao ouvir aquelas palavras. Ela não estava mais diante de uma monarca que defendia a segurança e a ordem a qualquer custo. Ela estava diante de uma mulher que racionalizava a dor e o sofrimento como parte do processo.

— Isso não é uma falha — Dalila disse, e sua voz agora tinha uma intensidade que a surpreendeu. — Isso é crueldade. Essas crianças não são falhas, são... vítimas. Vítimas de um sistema que só se preocupa com resultados, e não com as pessoas que ele destrói no caminho.

Allison levantou-se lentamente, caminhando até a janela. Lá fora, as luzes da capital brilhavam como um manto de opressão sobre a cidade. Ela olhou para Dalila, sem expressar nem raiva nem tristeza, apenas uma serenidade que parecia esconder muito mais.

— Dalila — disse ela, com uma calma controlada. — Eu sabia o que estava em jogo quando assumi o trono. Sabia que precisávamos de resultados. O Casulo, as mudanças, tudo isso foi feito para preservar o Domo, para garantir a sobrevivência da humanidade. As falhas que você viu, elas... são o preço que pagamos por algo maior.

Dalila não conseguia mais olhar para sua mãe com os mesmos olhos de antes. A frieza nas palavras de Allison a dilacerava por dentro.

— O que é maior, mãe? — Dalila perguntou, agora sem contenção. — A vida dessas crianças? A dor delas? A morte silenciosa de tantas outras? Isso tudo vale a segurança do Domo? Será que nossa humanidade vale tão pouco para você?

Allison a encarou, um olhar penetrante que desafiava Dalila a entender a complexidade de sua decisão. Mas Dalila já não queria mais entender. Ela queria algo mais do que justificativas e distorções da verdade.

— Eu só queria saber — Dalila disse, sua voz agora baixa, quase quebrando. — Se você vê o que eu vejo. Se você sente o que eu sinto. Se, mesmo com tudo o que aconteceu, você ainda pode olhar para elas e acreditar que isso é certo.

A monarca ficou em silêncio por um longo momento, antes de finalmente falar, com a voz cheia de um peso doloroso.

— Eu não sei, Dalila. Eu não sei mais.

Dalila olhou para sua mãe pela última vez, sem palavras para oferecer, e se afastou. Ela sabia que aquela conversa não havia resolvido nada, mas ao menos agora ela tinha as respostas que buscava. E o que faria com elas, era algo que apenas o futuro poderia dizer.

A bióloga apareceu repentinamente diante deles, emergindo das sombras de um corredor estreito como uma figura que surgia de um pesadelo. Ela os observava com uma expressão tensa, como se já soubesse exatamente quem eram e o que estavam fazendo ali. O frio na voz dela não era só de urgência, mas de um conhecimento profundo.

— Eu sei o que vocês estão fazendo. Sei que fazem parte do movimento. — As palavras dela foram diretas, sem rodeios, como uma sentença. Ela olhou de um para o outro, como se estivesse avaliando cada um deles em busca de algo, talvez uma reação.

June parou, seus olhos se estreitaram, mas não recuou. Alex estava à frente, sempre desconfiado, pronto para reagir, mas a bióloga apenas levantou as mãos em um gesto de calma.

— Não estou aqui para entregar vocês — ela disse, sua voz mais baixa agora, como se tentasse ser mais convincente. — Estou aqui porque, mesmo que tudo isso pareça sem sentido, eu sei o que está acontecendo. Sei do que o governo está tentando esconder.

Maddy estava visivelmente inquieta, cruzando os braços com desconforto, seus olhos lançando um olhar rápido para June, esperando um sinal de que aquilo não era uma armadilha.

A bióloga deu um passo à frente, se aproximando mais, agora com uma expressão de urgência quase desesperada.

— Vocês não têm ideia do que realmente acontece dentro do Casulo. Tudo o que sabem é uma versão distorcida da verdade, uma mentira que o governo construiu para manter o controle. E vocês, que estão lutando contra isso, podem ser a única chance que ainda temos de expor tudo ao mundo.

June observou-a atentamente, tentando sentir alguma indicação de traição, mas o que ela leu nos pensamentos da cientista era claro: arrependimento, culpa, e um senso profundo de responsabilidade.

— Como você sabe disso? — Alex perguntou com desconfiança, seu olhar fixo na mulher.

A bióloga deu uma pausa, parecendo pesar suas palavras com cautela.

— Fui uma das responsáveis pelos experimentos. — Ela finalmente revelou, sua voz tingida de pesar. — Mas, antes de me julgarem, entendam: eu não sabia o que estava acontecendo. Fui parte de uma engrenagem que se movia sem perceber a gravidade do que estava sendo feito. Agora, não posso mais fechar os olhos.

O ar ao redor deles pareceu ficar mais pesado, e June sentiu o peso das palavras da bióloga. As revelações começaram a fazer sentido. Ela havia visto algo dentro do sistema, algo que agora parecia impossível de ignorar.

— Então, o que você quer? — Maddy perguntou, sua voz mais dura, mas com um tom de curiosidade.

— Quero ajudar — respondeu a bióloga, seu olhar fixo no trio. — Eu sei onde vocês podem encontrar as respostas que procuram. Mas não podemos perder mais tempo. Se ficarmos aqui, seremos encontrados. Eles estão à caça de todos que sabem da verdade.

June olhou para Alex e Maddy, sentindo a pressão de tomar uma decisão. Eles estavam em um ponto sem retorno, e tudo o que faziam a partir daquele momento iria ter consequências. O que mais poderiam fazer senão seguir?

Com um aceno de cabeça, June deu o sinal. A bióloga começou a caminhar em direção a uma porta de metal, a sombra de um futuro incerto pairando sobre todos eles. O jogo estava apenas começando, e agora, mais do que nunca, eles precisavam saber até onde a verdade os levaria.

— Se estiver mentindo, vai se arrepender. — Alex rosnou, ainda desconfiado.

A mulher apenas suspirou.

— Se quisesse entregá-los, já teria feito. Não estamos seguros aqui. Vamos.

Ela digitou um código no painel, e a porta de metal deslizou para cima. O cheiro de produtos químicos e estagnação tomou o ar.

— Não gostei disso — Maddy murmurou.

June não respondeu. Seu foco estava nos pensamentos da cientista. Esperava detectar qualquer sinal de traição, mas tudo o que sentia era um peso imenso de culpa.

Eles seguiram pelos corredores iluminados por luzes brancas e artificiais, e, conforme avançavam, uma sensação sufocante se instaurava. Então chegaram a uma sala de vidro.

Finalmente, chegaram a uma sala de vidro, e o que viram os fez parar instantaneamente.

Corpos. Corpos presos a suportes metálicos, mantidos vivos por fios e tubos. A visão era grotesca, inumana. Algumas crianças tinham quatro braços, outras tinham cabeças enormes, com veias pulsando sob a pele fina, como se a carne estivesse prestes a se rasgar a qualquer momento. Mas o pior de tudo eram os olhares vazios, carregados de algo indescritível — dor, frustração, e talvez, uma consciência amarga daquilo que haviam se tornado.

Em um canto, um menino se movia com uma agilidade impossível, arranhando as paredes como se fosse um animal, seus dedos alongados terminando em garras que não pareciam humanas.

Alex foi o primeiro a quebrar o silêncio, sua voz sussurrando, quase em choque:

— O que é isso?

A bióloga fechou os olhos por um instante.

— Essas são as crianças que tentaram consertar.

— Consertar? – Maddy deu um passo para trás.

— Algumas voltaram ao Casulo por escolha própria. Ou porque suas famílias acreditaram que havia uma segunda chance. Mas... quanto mais interferimos, pior fica. – A bióloga admitiu enquanto seus olhos marejados olhavam para aquelas crianças, como se suplicasse pelo perdão deles.

June sentiu um nó apertar em seu estômago. O ar parecia ficar ainda mais pesado. Ela engoliu em seco antes de perguntar:

— Quanto tempo eles estão aqui?

A bióloga hesitou, a angústia visível em seu rosto. Ela não queria dizer a verdade, mas sabia que não havia mais como esconder.

— Alguns... desde que o Casulo foi criado.

O silêncio se instalou, pesado e implacável. Era uma verdade tão horrível que parecia impossível acreditar nela.

Então, uma das crianças dentro da sala virou a cabeça e olhou diretamente para eles.

Seus olhos eram completamente pretos.

June sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Era como se a criança só pudesse sentir um ódio incontrolável e uma sede por uma matança generalizada.

— Se a situação política piorar, provavelmente vão tentar se desfazer deles, igual... – a bióloga parou de falar do nada, mas June conseguiu ouvir e falou em voz alta para os demais.

— Igual ao que fizeram com muitos outros. Foram quantos ao todo? – June perguntou, esperando que a bióloga não falasse diretamente, mas que seus pensamentos respondessem automaticamente, como muitos fazem ao mentir.

— Essa é a quinta leva de aberrações. – Informou aos outros dois.

— Você não tem direito de invadir minha mente e transformar isso num interrogatório...

June riu

— Direito? Você acha que você tem algum direito? Já se dê por satisfeita do Alex não te empurrar tão rápido até você se desintegrar. Você perdeu todo o direito quando viu isso 5 vezes, viu os corpos serem incinerados e ficou calado. Não me venha falar de direitos.

Maggie havia perguntado a June se o poder da bióloga era perigoso e June riu

— Ela faz as plantas crescerem mais rápido... deveria ter ficado quieta no seu ramo da biologia.

Foi quando Alex parou no centro da sala, seus olhos fixos em algo. De repente, a tensão do momento foi quebrada por um som súbito — o clique de uma câmera. Ele se virou, e seu sorriso irreverente, embora tenso, apareceu.

— Desculpa o susto, mas precisava tirar as fotos e duvidei muito que ela me deixaria fazer. — Ele falou com um tom rápido, como sempre, tentando amenizar a pressão do momento.

Os pensamentos de Alex eram rápidos demais para June, mas ela sentia o esforço dele para que todos entendessem o que estava acontecendo. A imagem daquelas crianças deformadas e a verdade que ali estavam vendo, era só o começo.

Eles precisavam sair dali.

Porque aquilo não era um laboratório.

Era um cemitério para os vivos.



Notas finais
Desculpe a todos, acabei me equivocando na ordem dos capítulo e não postei o capítulo 5