O Último Reino da Terra

18 Capítulo 17: Recomeço


Todos estavam reunidos na casa de June, como de costume, mas o clima estava carregado. Ninguém estava satisfeito com o rumo que as coisas haviam tomado.

"Fomos feitos de idiotas por aquele filósofo fajuto..." Lisa pensava, enquanto sua mente fervilhava de ressentimento. June captou algo a mais—Lisa também guardava rancor em relação à entrada de Ethan no grupo.

"June e Ethan..." Lisa mudou de pensamento rapidamente, mas não rápido o suficiente. June percebeu: ela os culpava pela manipulação que sofreram, mesmo sabendo que foram os responsáveis por desmascarar Andreas.

"Será que fiz o certo chamando o Ethan para isso?" Os pensamentos de Alex eram como sempre: confusos, acelerados, autodestrutivos. Ele carregava culpas que não eram suas. "June parece estranha perto do Ethan..." Mais um pensamento interrompido antes que ele se aprofundasse.

June já havia aprendido a ouvir as vozes sem reagir. Olhava para o teto, imóvel, enquanto saltava de mente em mente em busca das verdades que todos tentavam esconder.

"Algo está diferente, June! Ethan parece diferente. JUNE! JUNE!"

Era Maddox. June olhou rapidamente em sua direção e assentiu. Se concentrou ao máximo na mente de Ethan. Ele sabia que ela tentaria entrar e, para afastá-la, sobrecarregava os próprios pensamentos, jogando imagens aleatórias e sem sentido.

"Eu já não sei onde tudo isso vai dar... Andreas foi a pior ideia que tive... Será que ela está me ouvindo agora?"

June manteve a expressão neutra. "Acho que não... Odeio eles..."

Ela quase virou para encará-lo, mas percebeu a armadilha. Era um pensamento plantado, uma isca para testar se estava sendo vigiado.

"É mentira o que ele pensou agora, filha, seja lá o que for."

A voz do pai veio da cozinha. Eles já estavam acostumados a se comunicar assim.

June continuou olhando para o teto, ignorando a provocação.

Maddox, percebendo a dinâmica, decidiu agir.

“Está vigiando alguém, né, Ethan?”

Então, virou-se para June.

“Vou jogar um travesseiro em você. Finja surpresa, porque tá parecendo que foi pra outro plano astral.”

A cena foi perfeita. O choque tiraria Ethan da defensiva, obrigando-o a relaxar a mente.

— Maddox! — gritou June, fingindo indignação.

— Você parecia que estava desencarnando, eu tinha que fazer alguma coisa.

— Só estava meditando. Consegui manter minha mente calada por três minutos e você estragou tudo.

“Acha que ele vai acreditar nisso?”

June deu de ombros, sem responder. Seu foco ainda estava em Ethan.

"Filha, Ethan não se vê fazendo parte da resistência por muito mais tempo. Ele vai estar sozinho de novo em algumas semanas."

— Meninos, trouxe cupcakes! — A mãe de June surgiu com uma bandeja, como se não tivesse acabado de soltar aquela bomba mentalmente.

June pegou um cupcake e olhou diretamente nos olhos da mãe. Ela entendeu.

Ethan voltou a se perder em pensamentos, jogando imagens na própria mente para testar June. Células. O Casulo. Figuras abstratas. Tudo rápido demais. Ele sabia que isso lhe causava dor de cabeça. O que ele não sabia era que Maddox estava ajudando a lidar com o excesso de informações.

Lisa foi a primeira a romper o silêncio:

— Alguém tem alguma ideia de como recomeçar?

June suspirou.

— Por enquanto, podemos aproveitar que a empresa está fazendo nosso papel e tirar um tempo para pensar.

Lisa arregalou os olhos.

“Tempo para pensar??? Você só pode estar de sacanagem! JUNE, NÃO TEMOS TEMPO!”

— Por que não temos tempo, Ethan? — June rebateu, firme. — Você acabou de berrar isso na sua cabeça. Quer dividir com o restante ou só me deixar maluca?

Ele hesitou. Não esperava que ela respondesse desse jeito.

— Temos que aproveitar o momento — respondeu, evasivo.

— Que momento? — June cruzou os braços. — Quase deixamos um lunático assumir a revolução, alguém soltou monstros na cidade e acabamos de descobrir que o Cesto criou uma comunidade. Tá tudo um caos. E você quer fazer o quê? Soltar o resto dos documentos e pronto? A gente tá agindo sem pensar, e isso é perigoso. O idiota do Andreas, ou quem quer que tenha soltado aquelas criaturas, foi responsável por 58 mortes. Não podemos agir igual a ele.

O silêncio pesou.

Ethan se levantou.

— Vou para casa. Quando decidirem alguma coisa, me avisem. Se ainda me quiserem no grupo.

Maddox o observou sair e pensou alto:

"Ele vestiu um casaco. Está ensolarado lá fora. Você percebeu?"

June assentiu. Algo estava errado.

Na cozinha, ela se aproximou da mãe.

— Vim ver se precisa de ajuda.

— Leve o refresco para a mesa, filha. — A voz da mãe permaneceu serena. Mas na mente, a mensagem veio: "June, tem algo errado com ele. Eu não vejo nada além de quatro semanas para ele... Os futuros de vocês ainda estão incertos, mas o dele... Não vejo nada."

June engoliu em seco.

— E isso quer dizer...? — sussurrou.

“Não sei. Nunca tive esse problema com ninguém.”

— Maddox acha que ele está resfriado...

A mãe negou com um leve movimento de cabeça.

“Eu não o vejo em um hospital. Não vejo remédios. Não vejo nada. Normalmente, consigo ver como uma pessoa vai morrer. Mas com ele... é como se não houvesse futuro.”

June sentiu um arrepio subir pela espinha.

Respirou fundo, pegou o refresco e voltou para a sala.

— Gente, estou levando o refresco. Deixem alguns cupcakes para mim! — anunciou, tentando manter a normalidade na voz.

Mas, por dentro, sentia o peso de uma verdade que ainda não sabia como lidar.

Lisa mexia no próprio cupcake sem vontade. Ainda estava irritada, mas agora havia algo além do ressentimento—uma inquietação incômoda.

— Ethan está estranho — ela disse de repente.

— Ele sempre foi estranho — Maddox rebateu.

— Não desse jeito. Ele parecia... eu não sei. Como se estivesse escondendo alguma coisa.

June se manteve em silêncio. A conversa já estava tomando o rumo que ela temia.

— Não foi só impressão — Lisa insistiu, agora olhando diretamente para June. — Você percebeu também, não percebeu?

June encontrou os olhos de Lisa. Uma parte dela queria mentir, mas não faria isso.

— Sim.

Lisa se inclinou para frente.

— Então o que foi?

Maddy, que até então parecia desligada da conversa, sussurrou algo quase inaudível:

— Ethan já morreu antes...

O silêncio que se seguiu foi tão pesado que quase podia ser sentido.

Lisa piscou, confusa.

— Como é?

Maddy ergueu o olhar devagar, como se só agora percebesse que falou em voz alta.

— O quê?

— Você acabou de dizer que Ethan já morreu antes — Maddox repetiu, franzindo a testa.

— Eu disse isso? — Maddy piscou algumas vezes. — Ah... Eu só... pensei. Desculpe, as vezes faço isso... E tem se tornado mais comum ultimamente... Não sei se é o estresse ou alguma outra coisa.

Lisa se virou para June, esperando uma explicação.

— Maddy, como você sabe disso? — June perguntou com cuidado.

Maddy deu de ombros.

— Eu não sei. Eu só... sei. Desculpe, as vezes faço isso... E tem se tornado mais comum ultimamente... Não sei se é o estresse ou alguma outra coisa.

Os olhos de Lisa se estreitaram.

— Isso é alguma coisa do Casulo? Você consegue ver coisas?

Maddy pareceu ponderar a pergunta, mas acabou negando.

— Não é bem "ver". Eu só sinto, às vezes. Quando eu fico tempo demais sem pensar, algumas coisas aparecem. Como se já estivessem na minha cabeça e só esperassem um momento de silêncio para sair.

— E por que diabos você nunca contou isso para ninguém? — Lisa cruzou os braços.

— Porque normalmente não faz sentido... mas às vezes faz — Maddy murmurou. – É como seu ele já tivesse vivido várias vidas, não sei explicar direito... as vezes meu cérebro consegue enxergar mais do que eu consigo processar e do nada, ele me entrega essas informações.

June se forçou a manter a calma.

— Você sente isso sobre outras pessoas?

Maddy olhou para cada um ali.

— Não. Só sobre ele.

Lisa soltou um suspiro pesado.

— Eu sabia que tinha alguma coisa errada com ele...

Maddox estalou a língua.

— Está, então vamos organizar isso. Você sente que Ethan já morreu, a mãe da June não consegue ver um futuro para ele, e ele estava paranoico a ponto de jogar imagens na própria mente para se proteger. Alguma coisa grande está acontecendo.

June olhou para o refresco na mesa, sua mente trabalhando rápido.

— E a gente precisa descobrir o quê.

— Maddox o que fez você achar que havia algo errado com ele? – June perguntou, afinal Maddox foi a primeira a sinalizar que tinha algo esquisito.

— Ele está se sentindo envelhecido, não cansado, não exausto, apenas envelhecido... é uma sensação esquisita.

— Como sabe diferenciar, Maddox? – Lisa perguntou

— Sabe quando o vovô ficava olhando a gente brincar no chão e ele tentava agachar, ele se sentia assim, envelhecido. Mas o nosso avó viveu até os 80, Ethan talvez nem tenha 20.

— Isso está muito confuso, será Dalila consegue ajudar com algo? – June questiona ao grupo como um todo... — Lisa, consegue se teletransportar para dentro do centro de dados?

— Nunca tentei, mas para que seria?

— Porque eu acho que a resposta está lá, mas antes tem algo que podemos tentar para não te pôr em tanto risco. Alex, quem mais conhece o Ethan?

— Ele não é muito sociável, vive trancado em casa...

— Mas no seu bairro, quem mais interage com ele? Tem idosos morando lá?

—Nunca vi ele conversando com ninguém. Mas o que os idosos tem a ver com isso?

— Eles conheceriam a família do Ethan – respondeu June como se fosse algo óbvio. — Pode tentar descobrir?

Ele confirma que sim e logo sai da sala acelerando porta a fora.

A sala estava silenciosa, exceto pelo som suave da respiração e o leve tilintar de copos sendo arrumados. O calor da noite ainda pairava no ar, mas ninguém parecia disposto a conversar sobre o que quer que fosse. Todos os olhares estavam fixos em June, que respirava fundo, reunindo as palavras.

Dalila entrou na casa de June à noite, como prometido, com passos firmes e expressão de quem estava pronta para enfrentar o que quer que fosse. Sua presença já exalava uma sensação de autoridade, mas também de cansaço. Havia algo mais nela, algo que a tornava mais humana, menos distante do que os outros poderiam imaginar.

— Você está bem? — foi a primeira coisa que June perguntou, com um tom de preocupação que Dalila raramente demonstrava.

Dalila apenas assentiu, desviando os olhos para o grupo. Não havia tempo para pequenos protocolos. Lisa se sentou à mesa, os dedos entrelaçados, enquanto Maddox permaneceu de pé ao lado de June. Todos estavam preparados para revelar a verdade, e, ao mesmo tempo, temiam o que Dalila poderia achar.

Maddox quebrou o silêncio primeiro, sua voz calma, mas carregada de um pressentimento.

— Ethan não está bem. Algo está acontecendo com ele, Dalila. Não sabemos exatamente o que, mas ele... está morrendo, ou pelo menos parece que está. E não é normal.

Dalila o observou por um momento, sem mover um músculo, antes de virar a cabeça para June. Ela já havia ouvido algo sobre o comportamento estranho de Ethan, mas nunca a versão completa. Ela olhou para a expressão de June, procurando algo que explicasse esse caos que estava se formando.

— Como assim, ele está "morrrendo"? — Dalila perguntou, a surpresa em sua voz disfarçada de cautela.

Lisa foi quem respondeu, com uma força que não costumava ter.

— Não é apenas uma questão de estar "doente". É mais profundo do que isso. Ele tem comportamentos estranhos, e... Maddy acha que ele já morreu antes, como se ele tivesse outras vidas antes. Ele tem uma sensação estranha, como se estivesse envelhecendo muito rapidamente. E, pior, a mãe de June não vê nada no futuro dele. É como se ele estivesse... ausente de todo o resto.

Maddox complementou, com um olhar sério.

— Ele tem se sentido mais velho, como se estivesse perdendo a própria vitalidade. Não é cansaço, é uma sensação... mais pesada. Como se estivesse carregando algo. Algo grande, e isso está começando a afetar o resto do grupo.

Dalila franziu a testa, a mente dela já processando tudo que acabara de ouvir. Ela sabia que o Casulo fazia coisas horríveis com os corpos e mentes das crianças, mas nunca imaginara que isso poderia se estender a algo tão... inusitado. Dalila lembrava de pessoas que haviam sido internada em hospitais por acreditarem terem vivido em outras vidas, mas não era algo que soltaria agora para o grupo sem ter a prova de que pudesse ser verdade

— Você tem alguma ideia do que está acontecendo com ele? — June perguntou, com a voz suave, mas uma pontada de medo no fundo.

Dalila hesitou por um momento. Ela não queria ser alarmista, mas sabia que algo grande estava em jogo.

— Posso tentar verificar, mas... não vou prometer que será fácil. O que vocês descrevem não é algo comum. Talvez seja algo que envolva mais do que apenas o físico dele. Algo além do que ele pode controlar. Talvez seja algo na cabeça dele, superdotação, telepatia e telecinese costumam cobrar muito do cérebro e em alguns casos, a pessoa pode desenvolver algum transtorno mental. Talvez ele acredite que está envelhecendo ou que tenha vivido outras vidas, mas não necessariamente seja verdade. Já ouvi casos de um telepata que acordou um dia falando russo e dizendo que a casa dele não era o lar dele e nem reconhecia os próprios pais. Vou procurar um médico que confio e que sei que pode me dar a informação que preciso.

Maddox e Lisa trocaram olhares rápidos. Eles sabiam que Dalila tinha uma certa habilidade com o controle dos elementos, mas essa situação era algo diferente. O medo do desconhecido parecia tomar conta deles, mas havia uma coisa em comum: a sensação de que se não fizessem algo logo, Ethan se perderia de vez.

— E o que podemos fazer? — Lisa questionou, sua voz agora mais urgente.

Dalila olhou para ela com intensidade.

— O que ele sente não é apenas físico. Pode ser uma distorção da mente, ou até um efeito do Casulo. Mas, para saber com certeza, vou precisar de mais tempo, mais informações. Eu posso ajudá-los, mas preciso que todos fiquem atentos, que ninguém se deixe levar por... distrações. Não sabemos onde isso pode nos levar.

June sentiu uma onda de alívio misturada com apreensão. Eles precisavam de respostas, e Dalila era sua única chance. Mas sabia que as perguntas que surgiriam a seguir poderiam ser ainda mais aterradoras do que qualquer coisa que já haviam enfrentado até ali.

Maddox se aproximou de June e sussurrou.

— Ele está se afastando da gente, June. O que acontece se ele se perder de vez?

June apenas o olhou, sem saber o que dizer. Ela sabia que o tempo estava se esgotando, e que as escolhas que fizessem agora definiriam não só o futuro de Ethan, mas o futuro de todos eles.

Dalila os observou em silêncio por um momento, como se pesando todas as possibilidades, antes de falar novamente.

— Vamos agir com cuidado, mas rápido. É a única forma de salvarmos ele, e talvez, a nós mesmos.