O Último Dragão Rei
9 O Amigo Perdido há Muito Tempo
Notas iniciais
Aquela parecia uma boa noite para uma caminhada.
Uma garota andava sozinha pelos jardins do imponente castelo da cidade de Crocus. Ela gostava de estar ali, sobre a luz das estrelas. De certa forma, aquilo lhe trazia paz. Era raro ter um momento a sós, para poder organizar seus pensamentos.
Tudo estava acontecendo muito depressa. Era muita pressão.
A garota tocou seu rosto com a palma das mãos e forçou-se a voltar a si. Afinal, aquele não era o momento para se preocupando com aquele tipo de coisa.
Ela seguiu seu caminho, cantarolando uma canção antiga que ela achava que tinha esquecido. Não conseguia deixar de admirar silenciosamente a beleza exuberante dos jardins que cercavam os arredores do castelo. Tudo ficava ainda mais bonito sobre a luz dos vagalumes, que só apareciam algumas vezes à noite.
Quando deu por si, a garota estava diante de uma fonte, rodeada de uma piscina rasa e redonda. Entediada, ela se aproximou da água e olhou para baixo.
Seus olhos encontraram com o seu reflexo. Tudo naquela garota era verde. Da cor de seus olhos à cor de seus cabelos ondulados, longos até a altura dos ombros. A tiara em sua cabeça era enfeitada por esmeraldas cintilantes.
Claro, tudo combinando com o vestido deslumbrante que a garota estava usando.
Era uma peça bonita. Talvez um pouco curta, já expunha os ombros e a lateral da saia da jovem. O vestido tinha uma linha na horizontal com um padrão floral na altura dos seios. Luvas bem longas completavam o visual, cobrindo até um pouco acima dos cotovelos.
Naquele dia, porém, algo estava diferente. O rosto da garota estava mais abatido do que o normal.
Ela resmungou qualquer coisa e deu meia volta. Tinha que sair logo dali. Logo alguém notaria a sua falta. E então, algum guarda chato apareceria e...
“Ai está você!” – a voz de um homem ecoou, aproximando-se da fonte às pressas. – “Graças aos céus!”.
Claro que aquela paz não podia durar para sempre.
“O que foi dessa vez, Masashi-san?” – a garota tentava não soar tão irritada, recusando-se a encarar o guarda nos olhos. – “Será que não posso ter cinco minutos de paz, só para variar?”
O homem afrouxou a fivela verde de sua capa branca e fechou a cara, pigarreando.
“Hisui–sama, me perdoe...” – ele fez uma reverência forçada. – “Não quero parecer atrevido. Mas a senhorita é a princesa deste reino! Não deveria ficar andando sozinha tão tarde da noite...”
“E quem é você para me dar ordens?”—a jovem virou-se para Masashi e lhe dirigiu um olhar furioso. – “Se estivesse trabalhando direito e mantendo esse castelo seguro, não precisariamos de você e dos seus estúpidos cavaleiros rúnicos dizendo para onde eu posso ou não posso ir!”
Masashi manteve sua cabeça baixa e não se atreveu a olhar nos olhos de sua soberana. Vendo que ele não estava disposto a ir embora, a garota ordenou:
“Ande! Diga de uma vez o que você quer!”
“É o seu pai, Hisui-sama...” – os olhos da menina se arregalaram de repente. – “Ele... deseja vê-la imediatamente.”
(...)
“Wow!” – os olhos de Taiki e Sachi estavam brilhando de emoção.
Eles estavam, mais uma vez, caminhando pelas estradas de pedra da cidade de Magnólia. Os dois, por algum motivo, acharam que aquele seria um cenário de guerra. Destroços espalhados por aí. Muita neve soterrando tudo. Esse tipo de coisa.
Mas não foi nada disso que eles encontraram.
Os postes de luz ainda funcionavam. Muitas das janelas dos prédios ainda tinham as luzes acesas. Muita gente ainda caminhava pelas ruas, conversando entre si despreocupadamente. Além disso, só estava começando a fazer frio agora. E isso porque já tinha anoitecido há um bom tempo.
Era como estar entrando em um mundo novo.
“Vocês dois parecem estar se divertindo, não é?” – uma voz curiosa perguntou.
Ah, claro. Taiki quase esqueceu que Lucy estava ali com eles.
A loira observava seus dois acompanhantes com certo interesse. Para alguém como ela, que vivia cercada por aquela realidade, era difícil entender por que coisas tão comuns do seu dia a dia poderiam chamar tanta atenção.
“Vocês nunca estiveram em Magnólia antes?”— Lucy tentava não soar tão interessada.
“Só uma vez.” – Taiki respondeu sem pensar muito– “Mas vamos dizer que a gente não costumava sair muito de casa.”
“Hum...” – a loira alternou olhares entre Taiki e Sachi.
Lucy tentava não enchê-los de muitas perguntas. Sempre que chegavam em algum assunto perigoso, como “De onde vocês vieram?”, ou “Onde estão seus pais?”, Taiki rapidamente mudava de assunto.
Não tinha como não ficar desconfiado, certo? Qualquer um acharia esse tipo de pergunta normal, e não teria problema nenhum em respondê-las.
Mas aquele não era o caso de Taiki e Sachi.
Havia muita coisa em jogo. A mãe de Taiki deixou claro que eles não poderiam sair por aí contando tudo para todo mundo. No melhor dos casos, iriam achar que ele era um maluco. No pior dos casos, Taiki não iria nem nascer. Qualquer coisa que eles fizessem, por menor que fosse, poderia alterar o rumo da história para sempre.
O mais difícil foi convencer os outros desse detalhe.
Sabe como é... Aquele pessoal do prédio de madeira que estava torcendo por ele das arquibancadas na luta contra o demônio de Armadura.
Guilda de Magos, Fairy Tail.
Era estranho ouvir um nome tão familiar vindo da boca de estranhos. De volta aos seus tempos de criança, as histórias sobre a Fairy Tail eram as que Taiki mais gostava. Sempre que sua mãe falava sobre sua antiga guilda, havia um sorriso nostálgico estampado em seu rosto.
Mas agora, Taiki não estava mais só ouvindo aquelas histórias. Hoje ele era personagem de uma delas.
O velhinho, que se apresentou como Makarov, levou os mais novos membros de sua guilda para uma sala reservada nos fundos do prédio. Como era de costume, Erza acompanhava o mestre nessas ocasiões, deixando todos os outros de fora.
E lá, mesmo sabendo que estava arriscando a pouca confiança que tinha conquistado naquele dia, Taiki manteve sua resposta.
Ninguém mais deveria saber. Só Erza poderia.
Makarov expirou, percebendo que não iria convencer o garoto do contrário. No fim, o bom velhinho escolheu acreditar no julgamento de Taiki e prometeu que no dia seguinte ele e Sachi poderiam falar a sós com a maga de armadura.
Afinal, depois da primeira mestra revelar a marca na mão de Taiki para todos, todos os outros magos estavam curiosos à respeito do garoto. Seria complicado ter uma conversa secreta com Erza nessas condições.
Mais tarde, o mestre explicou a situação para os outros membros da guilda, que no fim também acabaram aceitando. À medida que os ânimos foram se acalmando, surgiu a questão de onde Taiki e Sachi iriam passar a noite.
“Se precisar de um lugar para ficar...” – o terceiro dos conselhos da Lucy do Futuro de repente veio à tona – “Peça para ficar na minha casa. Para vocês, não haverá lugar mais seguro.”
Taiki não entendeu bem o que a mãe quis dizer. Mas lembrando daquela sugestão, o garoto fez o pedido a Lucy, que aceitou na mesma hora. Parte do motivo foi sincero, já que a loira não seria capaz de dizer não ao garoto. Mas a outra parte, a parte curiosa de Lucy, estava interessada em descobrir um pouco mais sobre os novos companheiros de guilda.
Não que até agora ela tivesse tido muito sucesso.
O grupo continuou caminhando em silêncio sobre a luz do luar. Lucy desistiu de tentar fazê-los falar, já que todas as suas tentativas foram inúteis.
Taiki estava determinado. Ele sabia de seu objetivo. Ele e Sachi eram os únicos que podiam impedir os desastres que estavam prestes a acontecer.
Resta saber se só isso será o suficiente. Resta saber o quanto o destino ainda pode mudar.
(...)
Eles perderam a noção do tempo enquanto caminhavam. Um pouco depois da meia-noite, quando Lucy já achava que aquele silêncio não teria fim, ela e os outros dois cruzaram a ponte de pedra que contornava um dos canais centrais da cidade.
Agora, eles estavam diante de um edifício de apartamentos de dois andares, lado a lado com diversos outros prédios com formato semelhante. Comparado com seus vizinhos, o prédio onde Lucy morava era um pouco pequeno, com paredes vermelhas e um telhado inclinado marrom.
“Chegamos!” – Lucy anunciou, com um sorriso no rosto.
“Nossa!” – Taiki olhou para o prédio, para Lucy e para o prédio de novo. – “Você mora aqui? De verdade? É tão grande!”
“Ah, deixe disso...” – A loira parecia envergonhada com a ingenuidade do garoto. – “O aluguel é barato e o espaço é bem confortável. Pelo menos pra mim, que moro sozinha, é um bom negócio.”
Lucy aproximou-se de uma das portas e destrancou-a com uma chave.
A anfitriã guiou os convidados por uma escadaria antiga de madeira. Quando os degraus acabaram, Lucy destrancou a primeira porta à direita e desapareceu do corredor.
Pedindo licença, Taiki e Sachi entraram no apartamento e fecharam a porta atrás deles.
A primeira coisa que Taiki notou foi como aquele ambiente era organizado. Era um apartamento quadrado com o piso de madeira, coberto com bonito carpete amarelo e vermelho.
No centro, havia uma pequena mesa de jantar, com algumas cadeiras ao seu redor. Ali perto também havia uma mesinha de café e uma poltrona laranja, além de uma escrivaninha encostada na parede.
Do lado esquerdo do havia uma estante cheia de livros sobre magia. A cama, coberta por um edredom cor de rosa, ficava do lado direito do quarto. Logo acima da cama, havia uma bancada com um espelho. Em cima dessa bancada estavam as coisas que Lucy usava para ficar bonita.
Você sabe, maquiagens e aquelas coisas de garota...
No outro lado do quarto havia entradas para outros dois cômodos, separadas do quarto por duas cortinas de cor turquesa. Uma delas era a cozinha, por onde Taiki podia ver a geladeira e um fogão à lenha feito de pedra.
A outra era a entrada do banheiro, para onde Lucy estava se dirigindo naquele momento.
“Eu vou tomar um banho.” – Anunciou a garota. – “Taiki, espere aqui por um momento. Eu vou arrumar alguma coisa pra você vestir.”
É verdade. As roupas de Taiki estavam imundas. Era um detalhe bobo, mas era improvável que Lucy fosse deixar o garoto andando por aí desse jeito.
Taiki não estava prestando atenção nisso agora.
Algo chamou sua atenção.
Logo de frente à porta que dava no corredor havia um móvel de madeira com algumas gavetas e um porta-joias apoiado sobre eles. Taiki caminhou até esse móvel, seguido de perto por uma Sachi curiosa.
Ao lado do porta-joias, havia três porta-retratos. Sobre eles, três fotos que Taiki nunca havia visto antes.
Uma dessas fotos era de um casal.
O homem estava sério. Tinha um bigode espesso e os braços cruzados nas costas. Vestia um terno marrom e uma gravata preta. A mulher estava sorrindo, tendo seus cabelos loiros separados por um laço rosado, cheio de babados. A mesma cor de repetia no vestido simples que ela estava usando. Além disso, a mulher ainda acariciava a própria barriga com carinho.
Taiki estava pasmo. Aquela mulher da foto estava grávida da Lucy.
Em outra dessas fotos, havia uma menininha loira de olhos castanhos.
Era engraçado pensar que Lucy já foi pequena daquele jeito. Havia um pequeno rabo de cavalo no lado direito de sua cabeça, amarrado por um laço azul. O resto da cabeleira loira ficava solta e balançava sobre o vento no momento da foto.
A garotinha corria sobre algum tipo de campo gramado. Ela estava sorrindo.
E finalmente, a última das fotografias era a mais recente de todas.
Nela, a Lucy mais velha observava a cena fotografada com uma expressão decepcionada. Ao lado dela, Happy tinha as duas patas apontadas para cima. O gato estava em pânico.
Aparentemente, era para ser uma foto normal daquele grupo. Por algum motivo, Natsu e Gray estavam brigando com suas magias. No meio deles, a figura furiosa de Erza estava vestida em uma de suas armaduras, tentando interferir na batalha.
E, claro. Só para costar. O cenário do fundo consistia de diversas crateras, pedaços de prédios queimados e congelados, com espadas sendo atiradas para tudo o que é lado.
Taiki deixou escapar uma risada.
No caminho para o banheiro, Lucy notou um livro jogado sobre a mesa que ela tinha se esquecido de guardar. Bufando, a loira pegou o livro com as mãos com a intenção de guardá-lo no lugar. Desistiu da ideia, aquilo era pesado demais.
Usando o que sobrou de sua força, Lucy atirou o livro sobre a cama e retomou seu caminho para o banheiro. Nessa hora, Lucy, Taiki e Sachi congelaram.
A cama soltou um gemido de dor.
“CACETE, ISSO DOEU!” – Natsu puxou o edredom cor de rosa e sentou-se sobre a cama.
O garoto ainda estava meio sonolento. Parece que a porrada que ele recebeu acabou acordando-o de maneira muito brusca. Ele ainda esfregava os olhos, lutando para se manter acordado.
“Que maldade, Natsu.” – um Happy sonolento surgiu de debaixo do travesseiro. – “Fala mais baixo... Eu quero dormir...”
E o gato azul caiu no sono.
“NATSU! HAPPY!” – Lucy se voltou para os intrusos cuspindo fogo pela boca. – “O que vocês estão fazendo no meu quarto?”
Mas Natsu não estava ouvindo. Ainda estava massageando o galo que ele ganhou na testa, provocado pelo peso do livro.
“Quem jogou isso em mim?” –quis saber o garoto –“FOI VOCÊ, GRAY?”
“Não começa, seu foguinho de merda!” – Lucy, Taiki e Sachi se viraram para uma voz que vinha de dentro da cozinha. – “La vem você com essa história de me culpar por tudo!”
E como se fosse normal, Gray aparece andando pela casa só de cuecas segurando um pão com manteiga que ele encontrou na cozinha.
“A propósito Lucy...” – o moreno a cumprimentou com a boca cheia de pão. – “Acabou a manteiga.”
A loira não sabia o que responder. Taiki e Sachi ficaram boquiabertos, observando a cena com a cabeça pendendo para o lado.
“É CLARO QUE FOI CULPA SUA!” – Natsu não desistiu da ideia – “E VOCÊ ME CHAMOU DO QUE? SEU CABEÇA DE GELO!”
Gray e Natsu continuaram trocando xingamentos de forma barulhenta. Vários nervos começaram a latejar na cabeça de Lucy. Ela estava prestes a explodir.
“Ei.” – uma voz de mulher fez a briga parar. – “Algum problema aqui?”
Erza apareceu no quarto. Seu corpo nu estava enrolado por uma toalha azul. Outra toalha menor estava apoiada sobre a cabeça, amarrada sobre seu cabelo escarlate. A ruiva carregava consigo uma cesta de madeira cheia de cremes, xampus e outras coisas para o banho.
“Não... Não foi nada Erza!” –Natsu respondeu de maneira suspeita e Gray completou dizendo: -- “Nós só estávamos sendo amigos, como sempre!”
Erza sorriu e fechou os olhos, murmurando alguma coisa do tipo “Que bom. É assim que os amigos devem ser.”. Gray e Natsu cumprimentaram-se com as mãos, chocando as testas com força. Por um segundo, os dois se encararam como dois animais selvagens.
Mas toda a hostilidade entre os dois acabou quando Erza abriu os olhos e ambos se obrigaram a sorrir torto para ela.
“Erza...” – a sobrancelha de Lucy tremia. – “Até você... Se você está aqui, então...”
“Oh, boa noite, Lucy.” – a maga de armadura cumprimentou-a. – “Sim, nós todos vamos dormir aqui. Algum problema?”
Ah tá. Claro.
Como se alguém fosse louco o bastante para contrariar a Erza.
(...)
Rikka tinha que trabalhar melhor em suas fugas.
Na verdade, ela tinha é que perder o hábito de ser capturada tantas vezes. Já estava até virando profissional nessa área também.
Depois de esgotar seu poder mágico lutando para escapar do homem de terno rubro, ela acabou sendo pega na mais antiga das armadilhas. Depois ficar de cabeça para baixo amarrada pela perna por alguns minutos sem poder mágico para se libertar, ela perdeu qualquer chance que tinha de conseguir escapar de seu perseguidor.
Na verdade, Rikka só se lembra de ter sido nocauteada e presa por aquelas algemas que restringem o uso de magia. Depois disso, ela acordou ali, naquele porão velho e mal cheiroso.
Ela não estava de fato em um porão. Na verdade, aquele lugar servia como depósito de carga de um navio. Só assim para explicar aquela quantidade de caixas empilhadas, uma do lado da outra. Algumas tinham comida dentro delas e não estavam cheirando nada bem.
Provavelmente, aquele navio estava perdido em algum lugar no oceano. Não havia som de mar, mas o navio com certeza estava se movendo. O único som que ela escutava era o do vento.
Rikka bufou de tédio. Só uma vez, ela desejou uma cela decente. Claro, ela preferia estar solta. Mas se era para mantê-la presa, que fosse com um mínimo de dignidade.
Resmungar não resolvia nada, é claro. Mas era bom de fazer, mesmo assim.
Ela perdeu a conta de quanto tempo ela esperou naquele lugar. Ninguém apareceu, nem mesmo para lhe trazer comida ou água.
“Bando de otários.” – Rikka riu sozinha – “Não sabem nem mesmo como tratar uma garota.”
Ela afastava a fome e a sede xingando a mãe de alguém. Tentava se manter acordada como podia, mas já tinha atingido seu limite. Ela tinha medo de que se dormisse, nunca mais viesse a acordar.
Por fim, vencida pelo cansaço e pelo sono, Rikka cedeu aos seus impulsos.
Não conseguiria dormir daquele jeito, já que não havia posição confortável. Seu estômago continuava protestando e sua cabeça ainda estava agitada por conta de tudo o que aconteceu.
Aos poucos, ela foi relaxando. E quando ela finalmente estava pegando no sono, algo fez com que seus olhos se abrissem rapidamente.
Um som. O barulho da tranca se abrindo lentamente. O som da porta rangendo, acompanhado do som de passos.
Havia alguém ali. Disso Rikka tinha certeza. Mas o que alguém iria querer com ela tão tarde da noite, não tinha como saber.
A porta se fechou com um baque surdo. O mais silenciosamente que pôde, Rikka se colocou de pé e usou algumas caixas empilhadas como cobertura.
O som de passos estava cada vez mais próximo agora. Mais alguns segundos e Rikka seria descoberta em seu esconderijo.
Agora era a hora. Ela só precisava atacar e depois fugir.
Sem pensar direito, a garota de cabelos prateados saltou para frente e usou as mãos presas pela algema como uma marreta para atingir o invasor.
Foi um movimento rápido. O invasor não teve tempo de fugir ou desviar. Não viu nem de onde veio. Foi quase como se ele nem tivesse tentado se defender pra início de conversa.
Espera. Rikka olhou bem para o rosto do sujeito que tinha acabado de derrubar no chão.
Diante dela estava um garoto com mais ou menos a idade dela. O garoto tinha o cabelo castanho, longo e espetado. Uma franja separava seus olhos verdes, claros como a mais pura das esmeraldas.
Ele tinha um porte atlético e meio musculoso, para um garoto de quinze anos. Vestia um colete branco e amarelo sem mangas, fechado no centro por um zíper. A mão esquerda tinha uma luva de couro marrom, que lembrava a forma de escamas.
Ele também usava uma calça azul e larga, presa na cintura por um cinto preto. A calça não tinha barra, e cobria parcialmente seus sapatos de cor branca e marrom.
“Cara...” – o garoto gemeu e tentou arrumar o queixo machucado – “Dois anos sem me ver e é assim que você me recebe?”
“Você!” – Rikka apontou para as algemas – “Riku! É você?”
“Claro, espertinha!” – o garoto terminou de conferir se nada estava quebrado. – “Descobriu isso sozinha, foi?”
Agora não havia mais dúvidas. Se existia alguém que poderia criar uma resposta babaca no mesmo nível de Rikka, esse alguém era Riku.
Meio arrependida pelo que havia feito, a garota de cabelos prateados abaixou seus braços e usou-os como apoio para ajudar Riku a se levantar.
“Yo...” – Riku cumprimentou-a com uma cara emburrada. – “Pelo visto seu soco ainda é mais forte que o meu...”
Lá estava ele de novo. O sarcástico e imbecil de quem Rikka se lembrava. Só ele mesmo para elogiar uma garota pela força da porrada que ela dá. Algumas pessoas não mudam, pelo visto.
Mas era exatamente por isso que Rikka confiava em Riku. Nenhum precisava esconder do outro seu verdadeiro eu. Não havia segredos entre os dois.
“Cara...” – O garoto olhou para baixo e passou as mãos sobre o colete – “Olha a bagunça que você fez...”
Só então que Rikka entendeu o que tinha acontecido.
A roupa de Riku agora estava manchada de molho e porções de comida. Ao lado de onde o garoto foi empurrado havia uma bandeja. Ali perto, um prato quebrado e talheres. As peças foram se encaixando devagar.
“E depois de todo o trabalho que eu tive...” – O garoto estava fingindo uma decepção que era quase cômica. – “Rikka, você não tem coração.”
“Cala boca, idiota. Você que me assustou, chegando de fininho...”
“Tá bom. Eu aceito suas desculpas.” – Rikka fechou a cara para ele. – “Mas, como você deve imaginar, eu já esperava por isso. Espere um segundo. Eu volto já.”
E dizendo isso, Riku desapareceu.
Ele estava louco. Era impossível que a tripulação do navio não percebesse Riku andando por aí tão tarde da noite. Só de ele ter visitado a prisão de Rikka já colocou o garoto em uma quantidade razoável de perigo.
Porém, mesmo sabendo de todos os riscos, Riku cumpriu sua palavra.
Em poucos instantes ele apareceu de novo no porão, trazendo uma bandeja novinha em folha. Com direito a pratos, talheres limpos e tudo mais. Sobre essa bandeja, uma imagem trouxe brilho aos olhos de Rikka.
Uma refeição completa que fez o estômago da garota se revirar só de olhar. Aquele cheiro de carne fresca...
Parecia bom demais para ser verdade.
“Tá legal. Qual é a pegadinha?”
“Pegadinha?” – Riku arrumou as caixas empilhadas para improvisar uma mesa. – “Não tem pegadinha. É pra valer.”
A garota de cabelos prateados ergueu uma sobrancelha. Mesmo contrariada, ela sentou-se frente a frente com Riku, enquanto o garoto terminava de se arrumar.
Riku não fez cerimônia. Ele cortou um pedaço do bife com a faca e espetou-o com o garfo. Antes que Rikka percebesse, o garoto já estava forçando a comida em sua boca.
“Ei!” – Rikka cuspiu fora o pedaço de carne e olhou revoltada para Riku. – “Qual é, eu consigo comer sozinha!” – ela ergueu as algemas para a direção do garoto. – “Vamos, tira isso aqui pra mim.”
Mas a garota logo reparou no sorriso cretino que Riku tinha na cara.
“O que?” – o garoto ria. – “E estragar a minha diversão? Nem pensar, é minha revanche pela ultima vez.”
Rikka perdeu em argumentos agora. O garoto repetiu o processo, espetando um novo pedaço do bife e aproximando-o de Rikka.
“Qual é...” – ele resmungou – “Só cala a boca e para de ser criança.”
Mesmo irritada, Rikka não fez mais nada para resistir.
Os outros minutos se passaram em silêncio. O único som era o vento forte do lado de fora do navio misturado com o barulho de talheres se chocando com pratos. Rikka odiava que lhe servissem na boca, daquele jeito. Porém, mesmo que sua mente também estivesse repleta de perguntas, Rikka não queria discutir.
O jantar estava bom. A companhia estava agradável. Não havia porque estragar o momento.
Quando estava de barriga cheia, a garota jogou as costas sobre a parede do navio e anunciou que não conseguia comer mais nada. Riku pousou os talheres sobre o prato e dirigiu à garota um olhar sarcástico.
“Oh... Já acabou?” – o garoto esfregou as mãos para limpá-las – “Eu preparei alguns reservas, se você quiser repetir.”
Ele não estava falando sério. Estava só implicando com Rikka.
“Sério...” – a garota não estava mais sorrindo. – “Para de tentar me irritar com essa cara de idiota. Qual é o seu grande plano?”
Riku ergueu as sombrancelhas, confuso.
“E porque você acha que eu tenho um plano?” – quis saber ele. – “Será que eu não posso só querer visitar a minha amiguinha, que fez o favor de se tornar minha prisioneira particular?”
A garota bufou de raiva. Quanto mais ela reagia daquela forma, mais Riku se divertia.
“Qual é...” – Riku resmungou. – “Fica calma. Ainda temos muito para conversar.”
(...)
Ela sabia.
Na verdade, tinha o pressentimento. Desde que levantou da cama no meio da noite, suando frio, ela sentia que alguma coisa ruim estava prestes a acontecer.
A princesa Hisui sentia as lágrimas quentes escorrendo de seu rosto.
Ela estava ajoelhada no meio de um quarto antigo e bem decorado. Estava, mais especificamente, de joelhos ao lado de uma cama gigante. Dessas de realeza, realmente grandes.
Uma cama que era especialmente grande para o homenzinho que estava deitado sobre ela.
Tinha que ser alguma brincadeira. Para Hisui, parecia que o homem baixinho, de cabelos brancos, iria abrir os olhos e acordar a qualquer momento. Ela quase podia ouvi-lo, agindo feito como uma criança ou reclamando alguma coisa com algum servo.
Mas mesmo alguém como ela tinha como dizer. Seu pai não ia voltar.
E agora? O que ela faria?
Ela sempre foi a princesa perfeita. Nunca se intrometeu nos assuntos do pai quando o assunto era governar o seu reino. Sempre assistiu de longe enquanto outros faziam o trabalho duro.
E assim, do nada, o peso de um reino inteiro tinha caído sobre os ombros dela.
Ela tinha que se acalmar. Aquela não era a hora de fraquejar.
“Hisui–sama...” – a voz de um homem trouxe a mente da garota de volta à realidade.
E pensar que ela estava tão imersa em seu pesar que esqueceu a presença de Masashi no quarto.
Ela enxugou o rosto com a ponta das luvas e inspirou fundo. Hisui não gostava de Masashi. Mas vê-lo ali, ao seu lado, lhe deu forças para controlar a sua tristeza e se colocar de pé.
“Diga-me, Masashi-san... Alguém mais sabe?”
“Eu diria que não, Hisui-sama...” – o homem respondeu. – “Você, eu e os guardas que eu trouxe comigo são os únicos que sabem até agora.”
“Bom... Isso é bom.”
A expressão da princesa ficou vazia. Ela tinha que dar a ordem.
“Então avise a todo nobre e todo camponês que encontrar. Toma E. Fiore está morto.”
(...)
Riku estava entediado.
Ele estava sozinho, de pé na borda do convés de um navio, apoiando os braços sobre o corrimão.
Claro que não era um navio normal. Ao invés de navegar sobre as águas dos oceanos, aquele navio estava flutuando no céu, acima das nuvens. O vento frio se chocava com as bochechas do garoto, mas ele quase não parecia sentir.
Foi quando Riku percebeu o som de passos indo na direção dele. E das sombras, o homem de terno rubro materializou-se do nada, carregando um cajado de madeira.
“Boa noite, Lorde Riku.” – o tom de voz do homem era falsamente educado. – “Vejo que está aproveitando a vista dessa noite.”
“Diga logo o que quer, velhote.” – Riku foi direto ao ponto. – “Não estou de bom humor hoje.”
“Ora, ora...” – o homem tocou a ponta do cajado de madeira no convés do navio. – “E eu aqui pensando que o seu pequeno reencontro teria melhorado o seu humor.”
O clima estava ficando tenso. Riku decidiu que não valia a pena aceitar aquele tipo de provocação.
“Mas então diga-me, Lorde Riku... Acha mesmo que é seguro? Deixá-la solta à seu bel prazer? Não seria mais prudente vigia-la de perto?”
Riku inspirou calmamente e soltou o ar de maneira despreocupada.
“Diga-me uma coisa, Lorde Akihiko. Você realmente acha que pode controlá-la?”
O homem de terno rubro franziu o rosto. A resposta para aquela pergunta foi o silêncio.
“Exatamente.” – Riku continuou. – “Deixe-a pensar que está livre. Deixe-a pensar que está segura. Ela não pode fazer nada para nos impedir.”
A face de Riku perdeu seus aspectos. Ficou totalmente vazia, livre de qualquer sentimento.
“Rikka não passa de uma arma. Você não controla como ela funciona nem como ela mata. Tudo o que podemos fazer é guiá-la na direção que nós queremos que ela vá.”
O homem de terno ficou surpreso com a frieza com que aquelas palavras foram ditas.
“Eu o subestimei, Lorde Riku.” – Akihiko esbanjava um sorriso no rosto. – “Não é à toa que o mestre deixou todos nós ao seu comando.”
Foi nesse momento que o homem de terno rubro recuou.
Porque no mesmo instante, o braço direito de Riku começou a mudar de forma. Sua pele ficou com uma camada dura, feita de pedra. A camada se estendeu do cotovelo até a ponta dos dedos, que ficaram tão afiados como garras.
Garras afiadas de um dragão.
“Eu já te avisei, seu velhote.” – Riku encarava o outro homem com uma expressão assassina em seu rosto. – “Eu não estou de bom humor hoje.”
A sua intenção de matar era tão clara que era quase palpável. Mesmo Akihiko, que teoricamente era seu aliado, reconheceu que não seria seguro provocar Riku além daquele ponto.
E da mesma forma que ele veio, Akihiko misturou-se nas sombras e desapareceu.
Riku ficou olhando para o local onde o homem de terno estava de pé até agora a pouco. Em seguida, o garoto retomou a posição de antes, colocando os braços sobre o corrimão ao redor do navio.
Curiosamente, Riku lembrou-se de algo que estava em seu bolso. Ele usou a mão esquerda e revelou as algemas de Rika que ele estava escondendo. Por um segundo, o garoto exibiu um sorriso sereno.
Em seguida, ele usou o braço coberto pela camada de pedra para esmagar as algemas até que elas virassem pó.
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