O Último Caçador
4 Capítulo 3
O calor úmido e pegajoso de Belo Horizonte era quase nada comparado ao que os esperava na Amazônia, mas, ainda assim, Daniel acordou naquela madrugada com o corpo encharcado de suor, o coração batendo acelerado. Seu cérebro não parava de revisitar cada item que precisava levar, cada detalhe que não podia ser esquecido. Canivetes, lanternas, cabos, pilhas extras, equipamentos de medição, kits de primeiros socorros... A lista parecia interminável, e a sensação de que algo perigoso os aguardava só aumentava o nervosismo. Ele se levantou silenciosamente e conferiu novamente a mochila já carregada sobre a cama, tocando os compartimentos com cuidado.
No quarto ao lado, Lucas estava igualmente tomado por ansiedade, embora a sua maneira fosse mais visível. Resmungava enquanto empacotava cantis, pilhas de cadernos de anotações, lanternas de cabeça e um kit de primeiros socorros que mais parecia um arsenal de sobrevivência. Cada gesto parecia um ritual, e o nervosismo se refletia nos óculos sempre escorregando pelo nariz, nos rabiscos constantes de última hora em seu caderno, nas mãos que não paravam de conferir bolsos e fechos
Quem visse os dois naquele frenesi poderia facilmente pensar que estavam se preparando para partir mais uma vez para o sertão da Bahia em busca de outra cidade perdida.
Quando enfim o sol despontou no horizonte, Eric, fiel à sua rotina meticulosa, já desembarcava no aeroporto da Pampulha. Sua mala rígida era quase uma extensão de seu corpo, e o inseparável estojo de ferramentas paleontológicas parecia pesar tanto quanto ele. Além disso, trazia dois livros grossos sobre anatomia de répteis mesozóicos, encapados com plástico transparente, como se estivesse indo dar uma aula magna e não enfrentar os perigos úmidos da floresta amazônica. Cada passo de Eric ecoava firme no corredor do prédio, transmitindo uma confiança fria e calculada, mas que, para Daniel e Lucas, era acompanhada por aquela aura de julgamento — o paleontólogo sempre lembrava das desavenças antigas, e não perderia uma oportunidade de relembrar.
No pequeno saguão do terminal militar da Pampulha, o trio foi recebido por dois sargentos da Força Aérea. Eles conferiam documentos com precisão quase cirúrgica, emitindo crachás temporários e guiando a equipe para o Embraer C-390 que os aguardava na pista. O bonito cargueiro pintado num esquema de camuflagem verde e cinza parecia deslocado entre os hangares modestos e os veículos de apoio. Suas turbinas ronronavam baixo enquanto soldados carregavam caixas de suprimentos, barris de combustível e equipamentos diversos. Daniel sentiu uma ponta de ansiedade percorrer a espinha; havia algo quase ritualístico naquela movimentação militar, como se cada gesto anunciasse que não havia retorno para quem adentrasse aquele território.
— Nunca voei num desses — Comentou Lucas, subindo cuidadosamente pela rampa traseira que dava acesso ao compartimento de carga. Seus olhos giravam, absorvendo cada detalhe metálico, cada cabo, cada parafuso exposto.
— Melhor que muito avião comercial — Respondeu Eric, ajeitando o boné com um gesto seco.
Daniel riu brevemente para si mesmo, mas o nó em seu estômago só aumentava. A estrutura metálica vibrava suavemente sob seus pés, e a sensação de que aquela expedição era diferente, mais perigosa, crescia a cada instante. Talvez fosse a presença dos militares, talvez o mistério do dente misterioso que agora viajava protegido em um estojo acolchoado aos pés de Eric. Havia algo na combinação de mistério, ciência e risco que não podia ser ignorada — o tipo de sensação que se instala quando você sabe que está prestes a cruzar limites que poucos ousaram atravessar.
Dentro do C-390, os bancos de lona se estendiam ao longo das paredes metálicas, presos com cintos grossos que rangiam levemente quando alguém se movia. Entre eles, engradados com mantimentos, tambores de combustível e caixas cheias de equipamentos do Exército pareciam ocupar cada centímetro disponível. Um mecânico passou distribuindo tampões de ouvido, explicando rapidamente que o barulho das turbinas seria ensurdecedor durante toda a viagem, e todos os passageiros obedeceram, ajustando os protetores com cuidado.
Daniel se aproximou de uma pequena escotilha circular, apoiando a testa levemente contra o metal frio. O sol ainda nascia atrás das serras mineiras, tingindo o céu com um dourado pálido que parecia inócuo diante do que os aguardava. Quando o C-390 começou a taxiar pela pista, acelerando em silêncio quase religioso, o peito de Daniel afundou. Lucas sentou-se ao lado dele, ajustando a mochila no colo, os olhos percorrendo os compartimentos do avião, cada detalhe do chão metálico, cada solda e suporte.
— Você realmente acha que estamos prontos para isso? — Perguntou, a voz baixa, quase um sussurro para não quebrar o clima de concentração que dominava o interior do avião.
— Não sei se alguém jamais está pronto para o que vamos enfrentar. — Respondeu Daniel, o olhar fixo no horizonte através da escotilha — Mas se não formos nós, quem vai? É Eric, é o Exército, é o mistério que nos espera lá fora... Não sei, Lucas, mas algo me diz que essa viagem não vai ser como todas as outras.
O avião finalmente deixou o solo, e o zumbido das turbinas preencheu cada espaço, vibrando contra os corpos e ossos de todos a bordo. Daniel sentiu o coração bater com mais força, um tambor que ecoava em sintonia com o motor, e por um instante, imaginou a floresta que se estendia à frente, intacta, inexplorada e silenciosa, observando-os, pronta para testar cada um deles. Respirou fundo, sentindo o aroma metálico do interior do C-390 e a eletricidade da aventura se misturarem. A expedição começava, e não havia caminho de volta.
—X—X—X—
O voo até Manaus consumiu quase quatro horas, mas aquelas horas foram suficientes para transformar a percepção do grupo sobre o Brasil. Do alto, a paisagem era quase irreconhecível, uma tapeçaria viva de verde profundo, onde rios castanhos serpenteavam como veias pulsando sob o dossel da floresta. Às vezes, a vegetação se elevava em colinas e morros densos, formando vales quase impenetráveis, como se a própria natureza tivesse erguido muros gigantescos para proteger seus segredos. Daniel apertava os olhos contra a luz intensa refletida no vidro da cabine, tentando discernir algum vestígio de civilização — mas tudo que via era a vastidão absoluta da selva, inexplorada e silenciosa.
Quando finalmente pousaram na Base Aérea de Manaus, o relógio marcava perto do meio-dia. Ao descerem do C-390, foram atingidos pelo calor pegajoso e pela umidade intensa que parecia aderir à pele como uma segunda camada. Daniel sentiu o suor escorrer imediatamente pela nuca, um aviso físico de que aquilo seria diferente de qualquer expedição anterior. O ar abafado carregava o aroma da floresta e da cidade, uma mistura quase indiscernível, mas irritante o suficiente para fazê-lo endireitar a camisa e passar a mão no cabelo já úmido.
Um jipe os aguardava do outro lado do portão, pronto para levá-los aos prédios administrativos. A viagem foi rápida, mas suficiente para que Daniel percebesse a sensação de deslocamento. A selva parecia respirar por trás dos muros da base, distante, mas presente, como se estivesse observando cada movimento deles. Ao chegarem, encontraram o comandante Álvaro já esperando, trajando uniforme impecável e expressão firme, transmitindo autoridade e experiência.
Foi então apresentado o soldado César, que se destacava por sua postura firme, ombros largos e olhar calculista. Era o biólogo do Exército. Seus braços musculosos denunciavam anos de treinamento intenso, e a maneira como carregava sua mochila indicava familiaridade com longas jornadas pelo terreno hostil. Sem cerimônia, limitou-se a dizer:
— Sou César. Vou com vocês até o fim.
Eric ergueu uma sobrancelha, avaliando o soldado como se medisse sua capacidade de suportar o que estava por vir.
— Esperemos que esse “fim” não seja literal. — Comentou, com um sorriso sarcástico que não alcançava os olhos.
O soldado não se mexeu, apenas manteve o olhar firme, como se o sarcasmo fosse irrelevante diante da realidade que os aguardava. Daniel percebeu que ali não havia espaço para brincadeiras; cada gesto era medido, cada palavra, cuidadosamente pesada. Lucas, por sua vez, ajustava freneticamente o cinto da mochila e mordia o lábio inferior, claramente desconfortável.
No início da tarde, trocaram o C-390 por um Embraer 110 Bandeirante, um turboélice bem mais modesto. Ao embarcar, Daniel sentiu que o avião balançava levemente, ainda parado na pista de concreto improvisado, e cada movimento causava estalos metálicos que ressoavam como um aviso. Lucas segurava o braço do banco com força, olhos arregalados e respiração curta.
— Relaxa. Esses aviões foram feitos pra pousar em pista de terra. — Daniel disse, tentando transmitir confiança, mas a própria voz parecia trêmula.
— Sim, mas não pra cair em cima de árvores de quarenta metros. — Lucas respondeu, uma pitada de pânico evidente.
Eric folheava seu livro grosso sobre anatomia de répteis mesozóicos, como se estivesse completamente indiferente ao nervosismo da dupla.
— Tecnicamente, qualquer avião pode cair em cima de árvores de quarenta metros.
O comentário foi recebido com um silêncio pesado. Daniel desviou o olhar para Eric, meio incrédulo, meio exasperado. Lucas apertou ainda mais o braço do banco, murmurando algo ininteligível. A sensação era de que estavam adentrando um território que não se curvava à lógica humana, um lugar onde a própria natureza ditava as regras, e qualquer descuido poderia custar caro.
—X—X—X—
O pouso em São Joaquim foi tão abrupto que Daniel segurou o teto. O Embraer chacoalhou, correu por uma pista parcamente asfaltada e parou diante de um barracão pintado com as cores do Exército. Além do hangar, havia uma fileira de casas e barracões simples, telhados de zinco enferrujados, e um emaranhado de ruelas de areia esbranquiçada que se perdiam em direção ao rio. Estavam a poucos quilômetros da fronteira com a Colômbia, praticamente no extremo noroeste do Brasil.
Ali viviam pouco mais de trezentas pessoas, contaram-lhes depois — uma mistura de ribeirinhos, indígenas, comerciantes, madeireiros clandestinos e uma companhia pequena do Exército que mantinha aquele lugar como posto avançado, quase esquecido por Brasília.
O comandante Átila os recebeu com um aperto de mão firme. Era um homem de ombros largos e barriga chapada, barba bem aparada que contrastava com o semblante carcomido, cheio de rugas que pareciam esculpidas pelo sol e pelos anos de serviço. Suas mãos eram calosas, próprias de quem lidava mais com cordas, armas e motores engasgados do que com papéis de escritório. A voz, rouca, parecia carregada de cigarro.
— Sejam bem-vindos ao nosso fim do mundo — Disse, em tom descontraído, apertando a mão de Daniel com força exagerada, como quem testa a resistência de um novato. — O governo lembra que a gente existe só quando tem confusão. Então vamos resolver isso antes que a confusão chegue em Brasília. Aí talvez me mandem meia dúzia de ventiladores novos e uns sacos de cimento.
Eric ergueu uma sobrancelha, desconfortável com a ironia, mas ficou calado. Lucas, atrás, apenas secava o suor da testa com a manga da camisa, já desconfiando que aquela recepção era só o início das más notícias.
Átila os conduziu pelas ruas de barro batido do povoado. A cada passo, ia apontando os prédios com ares de abandono. Primeiro, mostrou uma pequena enfermaria de paredes descascadas, onde uma enfermeira solitária remendava gazes num ventilador quebrado.
— Aqui é onde tentamos não deixar ninguém morrer rápido demais — Explicou, rindo da própria piada — Médico mesmo, só quando algum voluntário aparece, ou quando a sorte dá uma trégua.
Adiante, apontou para uma construção baixa, com uma placa torta que balançava no vento.
— Escola. Funciona metade do ano, quando algum professor não desiste no caminho. O resto do tempo as crianças aprendem na marra o que significa sobreviver por aqui.
Daniel, de semblante sério, apenas assentiu. Lucas desviou o olhar, desconfortável, e comentou baixinho:
— Parece mais um acampamento improvisado que uma comunidade…
Átila, com a audição afiada, respondeu sem olhar para trás:
— Pois é, garoto. Aqui a improvisação é ciência. E ciência é artigo de luxo.
Seguiram até um mercado, uma estrutura maior, cercada por galinhas soltas e uma fileira de motores de barco enferrujados. Na porta, um homem vendia peixes secos numa caixa de isopor, ao lado de cartuchos de espingarda e galões de gasolina.
— Nosso shopping center — Disse Átila, abrindo os braços em falsa reverência — Vende de tudo: arroz, sabão, combustível e, se você insistir, até uma pistola velha que dispara quando quer. É aqui que o povo se abastece e se endivida.
Lucas arregalou os olhos. Daniel coçou a barba, impressionado. Eric, no entanto, parecia ofendido com o que via, como se a precariedade ferisse sua noção de organização. Finalmente, chegaram a um alojamento improvisado, feito de tábuas irregulares e telhas translúcidas que deixavam passar a luz escaldante da tarde.
— Esse é o quartel-general de vocês — Anunciou Átila, abrindo a porta com um chute — Não é o Copacabana Palace, mas tem cama, rede e um gerador que só falha quando você mais precisa dele. O que, pela minha conta, dá umas três vezes por semana.
César foi o primeiro a entrar. Sem cerimônia, largou a mochila num beliche e começou a inspecionar os cantos, como quem avalia um campo de batalha. Lucas caiu numa rede e tirou os tênis, tentando secar o suor, enquanto olhava com desânimo o teto que já rangia com o vento.
Daniel virou-se para o comandante, em tom diplomático:
— Como vamos começar essa investigação? O senhor tem algum helicóptero para sobrevoar a área dos ataques?
Átila bufou alto, quase gargalhando, antes de dar um tapa no ombro de Daniel.
— Helicóptero? Aqui? Meu filho, se eu tivesse um helicóptero você acha que eu tava patrulhando o rio de voadeira? Isso aqui é o último degrau antes do esquecimento! — Soltou uma risada rouca, batendo as botas no chão de madeira — Se quiser helicóptero, peça emprestado pro Exército americano. Talvez eles troquem por um saco de café.
Lucas suspirou fundo, afundando-se na rede. Eric cruzou os braços, irritado:
— Então como pretende que façamos um levantamento decente? Vamos depender de botes e da sorte?
— Sorte é o que mais precisamos por aqui — Retrucou Átila, com um meio sorriso — E calma. Vamos organizar a expedição com as informações que temos. Se quiserem investigar de cima, talvez encontrem alguém na cidade com um avião. Mas vão ter que pagar. E confiar em quem sobrevive aqui.
Eric ergueu o dedo, consternado:
— Significa que vamos ter que achar um piloto civil?
Átila se aproximou da porta, já pronto para sair, e lançou um olhar sarcástico:
— Exatamente. Recomendo começarem pelo bar. À noite, todo mundo se reúne lá, até quem não gosta de vocês. Pode ser que encontrem um maluco disposto a ganhar uns trocados arriscando a vida por vocês.
E, depois de uma pausa dramática, completou com um sorriso enviesado:
— Aliás, se encontrarem alguém só meio bêbado, já é lucro.
—X—X—X—
Ao anoitecer, a cidadezinha ganhou vida. O bar era um galpão de madeira que rangia sob o peso das pessoas. Tinha lâmpadas penduradas por fios nus, algumas envoltas por baldes pintados de laranja, rosa ou vermelho, criando um ambiente quase onírico. Uma jukebox tocava um sertanejo antigo, mas o som se perdia entre risadas e conversas bêbadas. Acima da porta dupla de entrada, uma placa improvisada iluminada por três lâmpadas amareladas ostentava o nome do bar: Chevette Club.
Quando Daniel, Lucas, Eric e César entraram, o bar pareceu pausar por um instante. Cada rosto novo chamava atenção — mas não pelo uniforme de César, que vestia apenas uma camiseta verde oliva do Exército sem mangas. O que chamava atenção era a expressão de deslocamento estampada em Daniel, Lucas e Eric. Era como se tivessem atravessado a fenda entre mundos: de laboratórios, livros e teorias acadêmicas para um universo caótico e primitivo.
Sentaram-se em um canto, tentando ocupar a menor quantidade possível de espaço, como se pudessem desaparecer entre sombras e mesas velhas. Um funcionário magro e curvado, que fazia simultaneamente as vezes de garçom, barman e segurança, trouxe quatro cervejas mornas antes mesmo que pedissem. Ninguém parecia disposto a trocar palavras com forasteiros; o silêncio desconfiado era quase tangível.
Estranhamente, escorado no balcão, um homem branco os observava com um olhar calculista e um sorriso canastrão enquanto mandava um drinque vermelho indefinido para dentro. Apesar do calor sufocante, vestia uma jaqueta de couro marrom e seus cabelos penteados para trás refletiam a luz avermelhada do bar. Era como um estereótipo de James Dean. Cada gesto dele exalava elegância e autoconfiança; finalizando seu drinque, ele caminhava como se o chão estivesse inclinado a seu favor, deslizando entre as mesas com uma graça quase teatral.
Chegando próximo a César, inclinou-se levemente, passando a mão de maneira sutil pelo braço do soldado, um sorriso charmoso nos lábios.
— E não é que finalmente trouxeram um homem bonito para cá? Aposto que o Exército ainda não ensinou a resistir muito tempo na seca. — Disse, com uma voz baixa e sedutora — Posso te pagar um drinque? Sabe, a bebida não morde… mas eu posso.
César recuou, o rosto endurecendo.
— Sai fora — Devolveu com voz firme, empurrando o braço do homem com força.
O homem branco apenas sorriu, inclinando-se ainda mais, quase provocativo, porém visivelmente ébrio.
— Ora, não seja tão ríspido. Eu só queria um pouco de companhia nessa noite quente. Um homem como você merece ser apreciado, não escondido.
César, já irritado e envergonhado, reagiu com brusquidão.
— Olha aqui, palhaço, não tenho interesse no seu tipo. Afaste-se! — Ele avançou para cima do homem, o braço erguido em ameaça.
O homem, ágil e sorridente, desviou-se com elegância, recuando apenas o suficiente. Girando o corpo num movimento rápido, sacou do tornozelo uma faca longa e fina, encostando a lâmina delicadamente no pescoço de César, que estremeceu de imediato.
— Cuidado, soldado. — Disse o homem, mantendo o sorriso canastrão — Tem bicho muito mais esperto do que você por essas bandas, e eu gosto de brincar antes de atacar.
César engoliu em seco, levantando as mãos e recuando alguns passos, o peito subindo e descendo rapidamente. O charme do homem agora contrastava com a tensão da lâmina tão próxima, e o silêncio caiu sobre o bar, apenas interrompido pelo chiado da jukebox ao fundo.
O homem manteve o olhar firme, a faca ainda próxima, mas a postura relaxada, elegante, quase provocativa. Depois de alguns segundos que pareceram eternos, ele afastou a lâmina, recuou alguns passos e desapareceu entre as mesas, deixando César ofegante e visivelmente abalado, enquanto os demais observavam, tensos e sem saber como reagir.
Daniel, ainda tenso, puxou César de volta para o banco, enquanto Lucas e Eric observavam a cena com expressões que mesclavam choque e divertimento contido.
— Muito educado o povo daqui — Comentou Eric, dando um gole longo na cerveja morna, a ironia evidente na voz.
O ambiente lentamente voltou ao normal. Sabendo que o clima não melhoraria muito por ali, Daniel e Eric decidiram não perder mais tempo e se aproximaram do balcão. O barman era um homem baixo, careca, com um olho turvo, meio opaco como se tivesse uma catarata antiga, e movia um pano de limpeza nos copos repetidamente, como se o ato lhe desse uma desculpa para não encarar ninguém.
— Boa noite, amigo. Estamos procurando um piloto. — Disse Daniel — Precisamos sobrevoar algumas áreas de mata.
O barman soltou um riso fraco, quase desaprovador.
— Piloto? Vocês não querem avião, vocês querem milagre. Mas talvez... — Ele deu de ombros — Tem o Bernardo. Ele faz uns transportes pro outro lado da fronteira. Gosta de dinheiro, não pergunta muito o que carrega.
Eric franziu o cenho, arqueando uma sobrancelha.
— Um piloto de tráfico?
— Não sei do que cês tão falando. Eu só sirvo cerveja. Mas amanhã cedo, sigam a estrada velha; vão dar num campinho de pouso. Se encontrarem o Bernardo sóbrio, talvez ele aceite.
Voltaram para a mesa. Pediram mais duas cervejas, ainda mornas, e Lucas começou a brincar com os rótulos, arrancando pequenos pedaços.
— Acha que vai dar certo, Daniel? — Perguntou ele, tentando disfarçar a ansiedade.
— Não sei. — Respondeu o arqueólogo, olhando ao redor, medindo o bar, as sombras e a atmosfera sufocante. — Mas não temos como começar a explorar se não tivermos uma boa visão de cima da região. E sem um avião não temos como achar nada. E sem achar nada, voltamos pra casa sem respostas.
Eric estalou o pescoço com um estalo seco, olhando de soslaio para os dois.
— Então amanhã encontramos esse tal Bernardo. Se ele não topar, tentamos outra coisa. Mas uma coisa eu digo: não vim pra esse inferno verde só pra brincar de turista.
César esfregou o pescoço, ainda sentindo o arrepio da lâmina que quase o tocou.
— Só espero que da próxima vez ninguém queira fazer charme às custas da minha paciência.
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