O Último Caçador
5 Capítulo 4
O sol ainda mal despontava no horizonte quando Daniel despertou, o calor úmido do alojamento imediatamente tomando conta do quarto. O cheiro de madeira molhada, suor e o leve traço de óleo diesel que escapava pelas frestas do piso fazia o ambiente parecer vivo, quase pulsante. O calor já se insinuava pesado, prometendo um dia abrasador na selva.
Daniel se levantou, ajeitou a mochila ao lado da cama e encontrou Eric já sentado, vasculhando instrumentos dentro de uma maleta preta. Cada ferramenta parecia ocupar exatamente o lugar onde o paleontólogo esperava, como se tivesse sido disposta por algum ritual de ordem obsessiva.
Lucas surgiu em seguida, bocejando, ajustando os óculos tortos no rosto e carregando duas canecas de café fumegante.
— Café forte, como gosta. — Disse, entregando uma das canecas a Daniel — Vai precisar de energia hoje.
— Obrigado. — Murmurou Daniel, aceitando a bebida — Precisamos nos manter vivos hoje, sem drama.
César surgiu logo depois, a camiseta verde do Exército já marcada pelo suor, evidenciando seu papel deslocado no meio daquela equipe heterogênea. Ajustou o coldre da pistola, conferiu o cinto tático e olhou pela janela, avaliando a trilha que teriam de seguir.
— São três quilômetros de caminhada até o aeroporto. O comandante Átila disse que o caminho é “tranquilo”. Mas tranquilo segundo ele... bem, vamos ver — Disse César, com a voz carregada de desconfiança.
Saíram para tomar café da manhã no único local possível: o Chevette Club. A luz da manhã tingia a selva de tons vivos de verde, mas a umidade tornava o ar quase sufocante. Quando entraram no Chevette Club, o bar ainda estava silencioso, com o aroma de café forte misturado ao cheiro de cerveja e madeira antiga. As lâmpadas cor-de-rosa piscavam suavemente, e o ventilador no canto tentava espalhar um ar morno que mais parecia fumaça
— Bom dia, senhor. — Disse Daniel, aproximando-se do balcão com cautela — Estou aqui com meus amigos para uma expedição científica. Gostaríamos de mais informações sobre os ataques que vêm ocorrendo por aqui.
O homem de cabelo ralo e um olho opaco ergueu a cabeça com esforço. Olhou para Daniel com um misto de desconfiança e curiosidade.
— Ninguém aqui gosta de falar sobre isso. — Respondeu, a voz arrastada — Quem mexe com essas coisas, desaparece. E quem sobrevive, não volta a contar direito.
— Como assim? — Daniel achou um tanto curiosa a atitude de repulsa do homem — Pode falar, vai ficar só entre nós.
O barman o olhou.
— Não posso. Senão o anhangaúna vem buscar.
— O que é anhangaúna?
Os olhos opacos do homem adquiriram uma expressão assustada e ele começou a resmungar palavras ininteligíveis, afastando-se. Daniel nem teve tempo de protestar quando ouviu ao seu lado:
— Vocês tão indo pro arapóka, não tão?
O arqueólogo se virou, deparando-se com um homem magro, pele avermelhada pelo sol, cabelos pretos compridos e olhos escuros e penetrantes. Parecia um velho índio — ou um velho descendente de índios.
— Me desculpe. Como disse? — Daniel questionou.
— Arapóka. — O velho repetiu — Vocês estão indo pra lá.
Daniel franziu as sobrancelhas.
— Que lugar é esse?
O homem suspirou e apontou para o horizonte.
— “Buraco no céu”. Um lugar onde a terra afundou há muito tempo. Dizem que formou uma cratera gigante, com paredes tão altas que nem mesmo o sol entra direito no fundo. Só quem se aventura muito floresta adentro consegue ver.
— E o que há lá dentro? — Questionou Daniel, aproximando-se.
— Anhangaúna. — Respondeu, seu rosto com uma expressão estranha apenas por falar aquela palavra — “Demônio negro”. Pros índios daqui, ele protege a floresta. Sempre viveu quieto lá no buraco. Mas faz mais de ano que tão metendo máquina, detonando a pedra, arrancando minério que não deviam. Aí... acordaram o que tava lá.
Daniel engoliu em seco.
— Você já viu esse... demônio?
O homem riu, mostrando dentes falhados.
— Ninguém vê. Só sente. Primeiro o silêncio. Depois um cheiro doce, estranho. Aí, quando dá por si, já tá morto.
De volta à mesa, Daniel contou aos outros o que ouvira. Lucas franziu o cenho, visivelmente nervoso.
— Parece lenda de índio, mas... e se for algo real? — Indagou.
— Um predador isolado — Especulou César, a voz baixa, os olhos fixos no chão — Um animal que evoluiu escondido, longe de contato humano.
— Talvez um réptil gigante, como os jacarés-açus ou os dragões-de-komodo. — Completou Eric, animado, os dedos tamborilando na mesa — Um nicho ecológico preservado por séculos. Nada que a ciência documentou.
Daniel assentiu, a mente fervilhando.
— Então é isso que vamos procurar. Mas precisamos planejar bem. Não podemos ir às cegas. — Pontuou — Para isso o sobrevôo vai ser essencial.
Após o café e a conversa, decidiram seguir para o aeroporto clandestino, local improvisado para encontrar Bernardo, o piloto. A trilha era apenas um corredor de terra batida, meio afundado pelas chuvas. Passaram por clareiras onde borboletas amarelas se empoleiravam em flores roxas. Um tucano saltou de um galho e os observou com ar curioso. O som predominante era o canto incessante dos insetos, quase como uma música industrial viva.
Lucas limpava o suor do rosto com frequência, reclamando do calor.
— Na Bahia foi quente, mas não assim... aqui parece que o ar pesa.
— É o jeito que a floresta respira. Você respira junto ou sufoca. — Comentou Eric, sem olhar para trás.
Depois de mais de uma hora andando, finalmente saíram da mata fechada e chegaram a um descampado irregular, tomado por cascalho e lama endurecida, com pequenas construções de madeira e telhas de zinco. No meio, um hangar improvisado, construído de tábuas velhas e com uma placa pendurada de modo torto, onde lia-se “Terminal Aeronáutico São Joaquim” pintado à mão.
Perto do hangar repousava um Fokker F-27 verde com a pintura descascada, alguns remendos na fuselagem feitos com chapas soldadas. O avião parecia ter sobrevivido a uma guerra, mas ainda assim era imponente com suas hélices imensas.
Um homem parrudo e tatuado, sem camisa, mexia em algo no motor direito, desmontando peças sujas de graxa. Tinha a pele branca curtida pelo sol, cabelos pretos encaracolados e estava concentrado, limpando um pistão com uma flanela imunda.
César foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Bom dia! Você é o Bernardo?
O homem ergueu os olhos, que eram miúdos e escuros.
— Eu? Não. Sou o Pedro. Bernardo tá aí dentro. — Apontou com o queixo para dentro do avião.
De repente, uma voz cantada ecoou da porta traseira do Fokker e um homem surgiu descendo os degraus embutidos. Ele era branco, de estatura mediana, cabelo castanho bem penteado, barba aparada como se fosse desenhada com régua e dentes brancos quase luminosos, mesmo em contraste com o calor do lugar. Usava uma camisa azul com as mangas dobradas, e tinha uma postura despreocupada, quase teatral.
Era o homem charmoso da noite anterior, no Chevette Club. Quando viu César, abriu um sorriso maroto.
— Ora, ora... se não é o meu soldadinho bonito. Eu sabia que eu era irresistível, mas não imaginei que ia vir me procurar tão cedo.
César ficou rígido, o rosto meio rubro.
— Não viemos por isso. — Respondeu, seco.
Daniel interveio, estendendo a mão.
— Oi! Meu nome é Daniel Ventura, sou arqueólogo da PUC Minas. Estamos organizando um vôo de observação sobre a floresta, para uma expedição acadêmica. Precisamos de um piloto experiente para nos levar a um local específico.
Bernardo apertou a mão dele, avaliando o grupo com olhos claros e vivos.
— Expedição acadêmica? Com militar junto? — Apontou com o polegar para César — Não costumo fazer frete pro governo, não.
— Ele está apenas nos acompanhando como segurança. Não é uma missão do Exército. Temos autorização civil para sobrevoo e vamos pagar bem pelo serviço. — Daniel insistiu.
Bernardo estalou a língua, cruzando os braços e avaliando o grupo. Seus olhos demoraram um pouco mais em César, depois voltaram para Daniel.
— Tá bom... — Assentiu — Posso levar vocês. Mas o motor está desmontado, como podem ver. Só devo testar no solo hoje à tarde. Se tudo der certo, podemos ir amanhã pela manhã.
— Perfeito. — Disse Eric, que até então só observava.
Bernardo sorriu para César.
— Enquanto isso, soldado, se quiser me fazer companhia à noite...
César só suspirou, virou-se e começou a andar de volta para a trilha.
—X—X—X—
No caminho de volta para São Joaquim, Lucas deu uma risada.
— Esse cara é uma peça. Mas pelo menos vamos ter piloto.
— Não sei se estou muito feliz por voar com alguém que transporta… “mercadorias alternativas”. — Eric resmungou — Espero que ele pelo menos seja discreto.
— Vamos só focar no fato que ele não faz perguntas e se mete nos lugares onde a gente precisa ir. — Daniel concluiu.
Chegaram à vila no meio da tarde, e foram direto ao Chevette Club para almoçar — o único local onde poderiam comer algo além das rações militares. O bar estava menos cheio que na noite anterior. As lâmpadas cor-de-rosa tremulavam, e o ventilador no canto só espalhava ar quente. Pediram peixe frito com farinha e limonada.
Depois, passaram o resto da tarde comprando mantimentos extras no mercado. César adquiriu cartuchos novos para seu rifle. Eric revisou pela décima vez o kit de amostras, tubos e bisturis. Lucas e Daniel separaram cadernos de campo, câmeras e lanternas UV para rastrear vestígios biológicos.
À noite, no alojamento, o calor era tanto que dormiram todos de rede, de janelas abertas, ouvindo o canto triste de sapos enormes que vinham de algum brejo próximo.
Lucas ainda murmurou antes de adormecer:
— Sabe, Daniel... se isso der errado, pelo menos vamos ser devorados fazendo história.
O arqueólogo sorriu no escuro.
— Ou seremos só o jantar de algo que ninguém vai saber que existiu.
E o som do riso deles foi engolido pela mata.
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