O Último Caçador
3 Capítulo 2
O sol começava a declinar quando Daniel, Lucas, Jorge e Álvaro chegaram ao campus da Universidade Federal de Minas Gerais. Aquele pedaço da Pampulha parecia viver numa bolha própria: alheio ao tráfego pesado das avenidas, guardado por ipês floridos e por um gramado tão bem cuidado que chegava a irritar quem conhecia o resto da cidade.
O prédio do Instituto de Geociências se destacava com seu brutalismo cinzento, janelas amplas e placas de granito que refletiam o céu. Daniel, que guiava o grupo, seguiu pelos corredores até um amplo laboratório de preparação paleontológica. O cheiro do lugar era uma mistura complexa de pó de rocha, solventes e umidade ancestral.
Ali dentro, mesas de aço e bancadas forradas de ferramentas estavam cobertas de blocos fossilíferos, ossos desenterrados cuidadosamente da pedra, moldes de gesso, lupas articuladas e instrumentos de precisão. Ventiladores antigos tentavam dar conta do calor abafado.
Encostado num pedestal de concreto, Eric Tilborn raspava, com movimentos lentos e metódicos, a crosta calcária ao redor do que parecia ser a vértebra de um crocodilomorfo pré-histórico. Seus olhos azuis faiscavam de concentração por trás de óculos de segurança. O cabelo loiro estava coberto por uma touca, deixando em evidência o queixo afilado e as têmporas salientes. O jaleco branco estava manchado de argila seca.
Daniel pigarreou à porta. Eric sequer levantou o olhar, permanecendo imerso no que estava fazendo. Daniel olhou para os outros e, sem graça, avançou um passo, um sorriso incerto no rosto.
— Oi, Eric. — Chamou, com a voz desconcertada — Eu precisava…
O paleontólogo largou a ferramenta que usava e encarou o outro bem nos olhos com uma expressão fria. Intimidado, Daniel calou-se. E num movimento elegante e tão natural quanto um felino, Eric se levantou, aproximou-se e descarregou um soco direto no queixo do arqueólogo.
O estalo do impacto ecoou pelo laboratório. Daniel cambaleou, perdeu o equilíbrio e caiu sentado, a mão indo imediatamente ao queixo, onde uma vermelhidão surgia rápida.
Jorge avançou, alarmado, mas Lucas ergueu a mão pedindo calma. Já esperava por aquilo.
Eric ficou de pé, massageando o próprio punho. Então respirou fundo, como quem descarregara uma mágoa antiga, e disse num tom neutro:
— Eu avisei que faria isso se te encontrasse de novo. — Virou-se para o assistente, cumprimentando de forma quase amigável — Oi, Lucas.
Lucas coçou o pescoço, sem jeito.
— Oi, Eric.
— Levanta logo. — Eric se voltou para Daniel, ainda no chão — Não vou te bater de novo, pelo menos não hoje. Mas também não quero cena no meu laboratório.
Daniel soltou uma risada curta, meio dolorida, enquanto se erguia.
— Obrigado pela gentileza.
Jorge olhava aquilo tudo boquiaberto. Álvaro apenas mantinha uma postura fria, braços cruzados sobre o peito, observando os homens se acertarem da forma menos civilizada possível.
Daniel então se virou, apontando para o militar.
— Eric, esse é o comandante Álvaro Dias, do Exército Brasileiro. Ele está com um problema que achei que poderia te interessar.
Eric ergueu uma sobrancelha, limpando a poeira das mãos no jaleco. Sem uma palavra, fez um gesto para que falassem.
Álvaro tirou do bolso o saco plástico com o dente, o mesmo que já viajara de Manaus a Belo Horizonte. Estendeu-o para Eric.
— Isso foi encontrado incrustado no corpo de um homem, recuperado por um navio da Marinha num rio do norte do Amazonas.
Eric pegou o saquinho com desdém. Olhou por cima, girou o dente entre os dedos.
— Talvez um dente de jacaré-açu. Eles crescem imensos lá, podem morder uma carcaça humana sem querer. — Comentou — E quando morrem, os dentes se soltam e ficam à deriva.
Já ia devolvendo o saquinho, mas algo no peso do dente, na textura, o fez apertar os olhos. Ele caminhou até uma luminária articulada, ligou a luz e aproximou o dente, rodando-o debaixo do foco.
— Hmm…
Ele então buscou uma pinça fina, retirou o dente do saco e começou a inspecionar mais de perto. Passou o polegar sobre o esmalte, analisou as cristas serrilhadas.
— Se bem que isso aqui não é padrão de crocodiliano. O serrilhado da coroa é muito mais fino, e se estende quase até a base. Não tem polimento de rio. Nem marcas de desgaste do tipo que vemos em jacarés adultos. Parece... carnívoro terrestre.
Lucas prendeu a respiração. Jorge trocou um olhar incerto com Daniel.
— Carnívoro terrestre? Tipo... onça?
Eric ergueu o olhar, semicerrando os olhos azuis que cintilavam com intensidade.
— Não. Onça tem dentes cônicos, não esse padrão recurvado e comprimido lateralmente. Isso aqui lembra muito... bem, lembra dentes de terópodes. Como o Santanaraptor, que encontramos no Araripe. — Eric largou a pinça, balançando a cabeça e franzindo a testa — Mas isso é impossível.
Álvaro cruzou os braços, aproximou-se.
— O senhor disse “se for real”. Acha que plantamos esse dente num cadáver?
— Estou dizendo que fósseis às vezes aparecem fora de contexto, grudam em corpos por processos naturais. Mas se esse dente estava enfiado na carne, isso muda tudo. Onde exatamente foi isso?
— No rio Içana. Bem perto da fronteira com a Colômbia. Estamos tendo problemas sérios por lá. Ribeirinhos, indígenas, até patrulhas nossas estão sendo atacadas. Não sabemos o que está matando. O Exército quer manter o caso em sigilo, mas precisa resolver logo, antes que isso estoure na imprensa ou cause pânico.
Eric passou a língua pelos lábios, pensativo. O silêncio na sala se esticou como um fio prestes a se romper. Seus dedos tamborilavam no tampo metálico da bancada, cada batida ecoando como um pequeno martelo na cabeça de Daniel. O paleontólogo parecia saborear as próprias palavras antes de soltá-las.
— Se isso aqui for mesmo de um animal vivo, e não apenas um fóssil deslocado de algum sedimento... — Começou, pausadamente, como se estivesse dando uma aula — Então é provável que estejamos lidando com uma linhagem desconhecida de predador. Algo que escapou ao registro científico. Talvez um réptil relicto, isolado por milhares de anos, sobrevivendo em silêncio onde ninguém ousou procurar.
Ele ergueu o dente dentro do saquinho plástico contra a luz fria da lâmpada. Seus olhos cintilaram de uma mistura de fascínio e arrogância.
— Mas não quero especular sem dados. — Concluiu, soltando um suspiro carregado de intenção.
Álvaro, que permanecia imóvel como uma estátua de farda, endireitou a postura e inflou o peito, a voz ressoando firme como a de um orador diante de um batalhão.
— Pois é exatamente por isso que estou aqui. — Anunciou — O Exército vai organizar uma expedição. Vamos encontrar esse animal, catalogar, e... se necessário, neutralizar.
As palavras pairaram no ar. Lucas fechou o caderno devagar, engolindo em seco. Daniel manteve o queixo erguido, mas a tensão nos olhos não enganava ninguém.
Álvaro prosseguiu, a voz dura e clara:
— Uma expedição pequena. Discreta. Não haverá alarde, nem divulgação prematura. Será uma missão de caráter investigativo. E queremos o senhor conosco, professor Tilborn. Precisamos da sua experiência para identificar esse bicho.
Eric permaneceu em silêncio por alguns segundos que pareceram longos demais. Primeiro encarou o militar, os olhos avaliando o peso da proposta. Depois desviou o olhar para Daniel, que já ostentava um hematoma escurecendo no rosto — lembrança fresca da recepção calorosa que havia recebido minutos antes. O arqueólogo, no entanto, não desviou. Segurou o olhar como quem se recusava a ser o primeiro a piscar.
Por fim, Eric falou, a voz carregada de ironia.
— Por que exatamente querem um paleontólogo em uma expedição dessas? — Ergueu as sobrancelhas, desafiando — Acredita mesmo, comandante, que está lidando com algo extinto?
Álvaro fez que não com a cabeça, sem alterar o tom.
— Não sabemos o que pensar. Não sabemos o que esperar. Por isso estamos reunindo especialistas de áreas diferentes. Quero cobrir todas as possibilidades antes que tenhamos mais mortes.
Eric encostou-se na cadeira, cruzando os braços. O gesto foi calculado, como se estivesse testando a paciência dos presentes. Daniel suspirou, balançando a cabeça em silêncio.
Até que o paleontólogo se endireitou novamente e disse:
— Muito bem. Eu aceito.
O alívio momentâneo que poderia surgir evaporou na frase seguinte.
— Mas quero uma condição.
Álvaro arqueou as sobrancelhas.
— Diga.
— Quero levar uma equipe pequena, escolhida por mim.
— Acho justo. — Álvaro assentiu de imediato — Tem alguém em mente?
Eric girou o rosto lentamente, o sorriso surgindo como uma lâmina.
— Eles. — Apontou, sem cerimônia, para Daniel e Lucas.
O caderno de Lucas quase caiu de suas mãos.
— Nós?! — Ele arregalou os olhos por trás dos óculos, a voz aguda de espanto.
Daniel ergueu uma sobrancelha, os lábios contraindo em algo entre ironia e incredulidade.
— Isso é alguma piada sua, Eric?
— Não. — Eric respondeu sem hesitar, a voz fria — Se eu descobrir algo extraordinário, quero que você esteja lá, Daniel. Quero que veja. Que registre. Que se lembre todos os dias que, no fim, foi a minha descoberta — não a sua.
Daniel bufou uma risada curta, incrédula.
— Sempre tão modesto.
— Não é modéstia. É justiça. — Eric rebateu, o olhar faiscando — E se não encontrarmos nada, se essa viagem for só mais um delírio, não vou carregar o fracasso sozinho. Você vai estar ao meu lado.
Lucas levantou a mão, tentando intervir.
— Espera. Isso não faz sentido. Por que arrastar a gente pra isso? O Exército tem centenas de profissionais. Biólogos, veterinários, gente treinada pra selva. Nós somos arqueólogos!
— Justamente. — Eric cortou, inclinando-se sobre a bancada — Vocês não estão entendendo. Daniel me deve. Ele me deve muito mais do que imagina.
O silêncio que seguiu foi pesado. Daniel franziu o cenho, mas não rebateu. Algo em seu olhar endureceu, como se uma lembrança antiga tivesse acabado de se infiltrar pelas rachaduras da memória.
— Isso não tem nada a ver com... — Daniel começou, mas parou no meio da frase. Apertou os lábios, vencido por alguma culpa que não ousava revelar.
Eric se aproveitou do silêncio dele e prosseguiu, ríspido:
— Se ele tem alguma honra, vai aceitar.
Lucas se levantou da cadeira num rompante.
— Isso é loucura! Daniel, não caia nessa provocação. Ele só quer usar você.
— Talvez. — Daniel respondeu baixo, quase para si mesmo. O peso da voz soou mais velho do que o próprio rosto. — Mas talvez ele tenha razão.
Lucas virou-se para o amigo, os olhos arregalados de indignação.
— Você não pode estar falando sério.
Daniel respirou fundo, a mão passando pela barba por fazer.
— Estou. Se existe uma chance de que esse dente seja real... de que algo inimaginável esteja escondido na Amazônia... eu não posso me dar ao luxo de ignorar.
Lucas fechou os olhos, como quem absorvia um soco. Depois suspirou, derrotado.
— Então eu vou com você. — Declarou — Alguém precisa garantir que você mantenha pelo menos um pingo de razão e não se mate na selva.
Eric arqueou um sorriso torto, satisfeito.
— Ótimo. Está decidido, então.
Álvaro, até ali em silêncio, permitiu-se um leve sorriso.
— Excelente. Vou coordenar a logística. Recomendo que organizem seus equipamentos e se preparem. O Amazonas não perdoa.
Jorge, calado até então, soltou uma risada curta.
— Eles já sabem. Esses dois se metem em expedições perrengadas de dois em dois meses.
Eric ergueu as sobrancelhas.
— Bom, vocês ainda estão vivos, então alguma coisa devem estar fazendo certo.
—X—X—X—
Os quatro saíram juntos do laboratório, descendo os degraus de pedra do instituto. O sol já se despedia por trás das árvores altas, que projetavam sombras compridas sobre os gramados. O céu, tingido de laranja e violeta, parecia pesado de umidade, como se anunciasse a chegada de uma tempestade distante. O campus, que horas antes fervilhava com estudantes apressados, agora repousava em silêncio, quebrado apenas por risadas isoladas e pelo canto disperso dos pássaros se recolhendo. Era como se a universidade inteira prendesse a respiração, pressentindo que algo estava para acontecer.
Jorge e o comandante Álvaro seguiram adiante em conversa baixa, discutindo detalhes práticos da reunião e combinando horários para os próximos encontros. Um pouco atrás, Daniel e Lucas caminhavam lado a lado, seus passos ecoando leves no corredor aberto que levava ao estacionamento. Foi então que Lucas puxou o braço do primo, obrigando-o a diminuir o ritmo.
— Tem certeza disso? — Perguntou em voz baixa, mas carregada de tensão — Depois de tudo o que rolou entre você e o Eric... ir com ele pra Amazônia pode ser uma bomba-relógio.
Daniel suspirou, esfregando a barba por fazer. Seus olhos, dourados pela luz do pôr do sol, refletiam uma seriedade rara.
— Eu sei. — Murmurou — Mas o Eric é o melhor no que faz. Se existe alguém capaz de identificar o que quer que esteja matando essas pessoas, é ele.
Lucas ajustou os óculos, visivelmente incomodado.
— O melhor, sim. Mas também o mais orgulhoso, rancoroso e... — Procurou a palavra certa — imprevisível. Você sabe que ele não vai perder uma chance de te cutucar.
Um sorriso cansado se insinuou nos lábios de Daniel, embora sem humor.
— Não seria a primeira vez que me cutucam, Lucas. Eu sobrevivo.
Lucas parou de andar por um instante, obrigando Daniel a encará-lo. O ar do entardecer parecia mais pesado ao redor deles.
— Não é disso que eu tô falando. — Disse, firme. — O que me preocupa não é ele te provocar... é o que vocês dois podem fazer juntos. Vocês têm esse histórico de rivalidade que nunca foi resolvido. E se, no meio da floresta, essa rixa sair do controle?
Daniel desviou o olhar para o horizonte, onde as copas das árvores balançavam suavemente.
— Talvez seja justamente lá que isso se resolva. — Respondeu, num tom que misturava desafio e resignação. — De um jeito ou de outro.
Lucas sentiu um arrepio desconfortável percorrer-lhe a espinha.
— Você fala como se estivesse disposto a pagar qualquer preço.
— Não qualquer preço. — Daniel corrigiu, sério. — Mas o suficiente para não deixar esse mistério escapar. Você me conhece. Não consigo virar as costas quando algo maior do que nós aparece. E, Lucas... — Ele fez uma pausa breve, como se ponderasse revelar mais do que deveria — Eu tenho um pressentimento ruim. Algo me diz que isso não é só mais uma aventura científica.
Lucas arqueou as sobrancelhas.
— Pressentimento ruim? Você, que sempre mergulha de cabeça em cada descoberta como se fosse uma criança numa loja de doces, agora fala em pressentimento? Isso não me tranquiliza nem um pouco.
Daniel riu baixo, sem alegria.
— Nem a mim.
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