O Último Caçador
2 Capítulo 1
Belo Horizonte acordava preguiçosa naquela manhã luminosa de outono. O céu, de um azul tão claro que parecia lavado, se estendia sobre a cidade como um manto calmo. A Serra do Curral, emoldurando o horizonte ao sul, surgia num recorte suave, coberta de verde fresco. A brisa carregava o cheiro morno dos ipês floridos misturado ao das padarias que já soltavam fumaça dos fornos.
O trânsito, ainda cedo, fluía quase amigável pelas avenidas largas, como se a capital mineira quisesse, por alguns instantes, esquecer o peso dos prédios, das rotinas, das notícias que logo voltariam a pulsar nos rádios dos carros.
No bairro Funcionários, um café discreto, com fachada de madeira escura e toldo vinho, recebia seus primeiros clientes. O detetive Jorge Santana estava ali desde antes das sete horas, sentado à mesa no canto do salão, os cotovelos apoiados no tampo rústico e um guardanapo de pano que ele torcia entre as mãos. De vez em quando erguia o olhar para a porta, ansioso.
Jorge era um homem esbelto, de trinta e poucos anos, cabelo preto cuidadosamente penteado para trás. Trazia no rosto uma barba bem aparada que lhe dava um ar respeitável e discretamente girava a aliança no dedo anelar esquerdo para se distrair. O detetive sorriu assim que viu a porta abrir-se para deixar entrar um homem alto, de ombros largos, cabelos raspados num padrão militar e olhos de um verde tão claro que pareciam fuzilar o ambiente.
— Álvaro! Seu danado, pensei que fosse me dar o cano.
O comandante Álvaro Dias se aproximou sorrindo, estendeu a mão e depois puxou o amigo para um breve abraço. Apesar do uniforme cáqui impecável, Álvaro parecia ligeiramente cansado.
— Perdoa o atraso, Jorge. O voo de Manaus atrasou quase duas horas. Tive que vir direto pra cá.
— Que é isso! Eu que agradeço por arrumar tempo. Deve estar enrolado até o pescoço.
Sentaram-se. O garçom veio rápido, anotou dois chopes e os pratos do dia. Álvaro se recostou na cadeira, respirou fundo e olhou ao redor do salão.
— Belo Horizonte continua linda. Mas pequena demais pra mim, confesso. Depois de tanto tempo rodando Amazônia e fronteira, me sinto quase sufocado com tanto prédio.
— É... mas tem seus encantos. Ainda é melhor que Brasília, você sabe.
Álvaro riu alto.
— Disso não duvido. Brasília só tem concreto e cigarra cantando.
Conversaram então sobre velhos tempos. Riram dos colegas de academia de polícia e das peladas aos sábados no campo do quartel. Relembraram histórias de namoros, de bebedeiras, de confusões evitadas por pouco. Mas não demorou para o semblante de Álvaro mudar, tornando-se mais pesado, o cenho levemente franzido.
— Jorge, na verdade eu vim pra BH não só pra te ver... preciso de um favor.
O detetive ergueu uma sobrancelha.
— Manda.
Álvaro baixou o tom de voz, quase sussurrando.
— Você sabe que confio em você mais do que em metade desses delegados por aí.
Tirou do bolso um pequeno saco plástico lacrado. Dentro havia algo amarelo-escuro, do tamanho de um polegar. Jorge se inclinou para examinar.
— É... um dente?
— Um dente. De animal. Só que não conseguimos identificar. Lá no norte do Amazonas estão ocorrendo uns ataques... bem feios. Gente da zona rural, indígenas, pescadores, até uns militares que faziam patrulha de fronteira. Sempre destroçados. Mordidas enormes, arranhões que nenhum felino deixa. — Ele fez um gesto com o queixo na direção do objeto — Encontraram isso aí cravado em um corpo que estava boiando num rio. É a melhor pista que temos até agora.
— Caramba. — Jorge pegou o saquinho, virou-o contra a luz. O dente parecia antigo, gasto, com ranhuras bem visíveis — Parece fóssil, sei lá. Mas por que tá me mostrando isso? Eu sou policial, não biólogo.
— Eu sei. Mas é aí que entra você. Preciso de alguém pra examinar esse troço. Os biólogos do Exército não chegaram a lugar nenhum. Disseram que não bate com onça, não bate com jacaré, nem com porco-do-mato gigante. E você tem uns contatos... gente que mexe com ciência, certo?
Jorge pensou por um instante, depois fez que sim com a cabeça.
— Você está com sorte. Talvez eu conheça alguém que possa ajudar. — Ele abriu um sorriso de leve — Meu primo, Daniel Ventura. Ele é arqueólogo.
— Arqueólogo? Não seria melhor um paleontólogo?
— Claro, mas confia. O Daniel tem contatos. — Assegurou — Ele vive caçando relíquias por aí, aposto que tem paleontólogo, geólogo, biólogo, tudo no bolso do colete. Podemos dar uma passada na universidade onde ele trabalha ainda hoje, se quiser.
Álvaro soltou o ar num suspiro de alívio.
— Se ele fizer isso, Jorge, me salva de um vexame lá em cima. Porque estão me cobrando resultado e, pra falar a verdade, eu mesmo estou ficando com medo do que possa ser.
Jorge fez um gesto afirmativo.
— Deixa comigo. Mas vamos terminar nosso chope primeiro..
—X—X—X—
O campus da PUC Minas, no bairro Coração Eucarístico, guardava um silêncio particular naquela tarde. As árvores antigas se inclinavam sobre as alamedas, formando túneis de sombra fresca que aliviavam o calor de Belo Horizonte. O cheiro doce das flores nos canteiros se misturava ao aroma de café que escapava da cantina. Estudantes cruzavam os caminhos distraídos, alguns presos às telas dos celulares, outros rindo em grupos, carregando pilhas de livros. Era um ambiente que misturava rotina e leveza, mas havia sempre uma aura de refúgio naquele lugar — um abrigo acadêmico onde se podia mergulhar no passado e esquecer, por algumas horas, o peso do mundo moderno.
O laboratório de arqueologia ficava num dos prédios mais ao fundo do campus. O espaço não impressionava por tamanho, mas por personalidade. Mapas antigos da Bahia e do sertão mineiro cobriam os painéis de cortiça, as estantes estavam abarrotadas de volumes de arqueologia, história, paleografia e antropologia. Sobre as bancadas, reinava um caos funcional: pincéis, escovas, réguas, fragmentos de cerâmica numerados, ferramentas de escavação e até uma lupa articulada presa à mesa. Para qualquer visitante, parecia bagunça. Para Daniel Ventura, no entanto, era ordem pura — cada item tinha seu lugar na desordem.
Daniel estava inclinado sobre um microscópio portátil, examinando atentamente um caco de ânfora romana. Usava uma camisa verde clara de malha, o colete bege cheio de bolsos e o cabelo castanho, sempre rebelde, caía-lhe sobre a testa de modo quase calculadamente descuidado. A barba por fazer denotava o aspecto de alguém que vivia mais no campo de escavação do que em salas de aula. Ao seu lado, Lucas, de postura meticulosa, fazia anotações rápidas num caderno. Os óculos escorregavam até a ponta do nariz, e ele os empurrava de volta de tempos em tempos, como quem repete um gesto automático de quem pensa demais.
A porta se abriu de repente, com um estrondo.
— Primo! — A voz de Jorge encheu o laboratório como uma rajada de vento quando chegou sem se anunciar — Trouxe visita.
Daniel ergueu o rosto do microscópio, os olhos brilhando ao ver o detetive parado à entrada.
— Jorge! Pensei que só aparecia aqui pra me arrastar pra comer tropeiro no bandejão.
Jorge abriu um sorriso largo, aproximando-se com seu jeito espalhafatoso e envolvendo o primo num abraço.
— E você pensa errado. — Ele deu dois tapinhas fortes no ombro do outro — Mas, desta vez, não é tropeiro não. Hoje o assunto é sério.
Atrás dele, surgia a figura imponente do comandante Álvaro Dias. Alto, cabelos raspados, postura ereta como quem carregava a disciplina no corpo. Ele observava o laboratório com um olhar avaliador, como se medisse cada detalhe do lugar.
Daniel se levantou imediatamente, estendendo a mão.
— Muito prazer. Daniel Ventura.
Álvaro apertou-lhe a mão com firmeza, a expressão séria.
— O prazer é meu, doutor Ventura. — Respondeu, com um tom de voz respeitoso — Vi todas as reportagens sobre a descoberta de Argentopolis. Admiro muito seu trabalho.
Lucas os observava de canto, fechando o caderno e ajeitando os óculos. Havia algo no tom solene do visitante que já lhe dava um mau pressentimento.
— Então, o que posso fazer pelo senhor? — perguntou Daniel, curioso.
Álvaro abriu o bolso interno do casaco e retirou um pequeno saco plástico transparente. Dentro dele, repousava um objeto irregular, amarelado e com bordas serrilhadas. O dente. Ele o colocou cuidadosamente sobre a bancada, sob a luz.
— Na verdade, doutor Ventura, precisamos que alguém dê uma olhada nisso.
Daniel inclinou-se sobre o saco, os olhos imediatamente capturados pela forma da peça. Ele girou o plástico entre os dedos, estudando-o em silêncio. A sala parecia prender a respiração junto com ele.
— Não é tão incomum toparmos com exemplares de fauna amazônica ainda não catalogada... — Murmurou, pensativo — Mas isso aqui... isso aqui é diferente.
— Diferente como? — Perguntou Álvaro, ansioso, com o jeito de quem queria logo a revelação.
Daniel ergueu o objeto contra a luz.
— A coloração, a densidade... parece calcificado demais, quase como se tivesse... — Ele fez uma pausa, escolhendo bem as palavras — Como se tivesse a consistência de um fóssil.
Lucas se aproximou, inclinando-se para observar.
— Posso?
Daniel entregou o saquinho a ele. Lucas analisou atentamente, virando-o em várias direções, como se quisesse encontrar alguma pista oculta no brilho da lâmina serrilhada.
— Ele tem razão... — Disse, ajustando os óculos — Isso não se parece com nada que eu já tenha visto de fauna viva. Esse formato serrilhado é bem incomum.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Álvaro, então, quebrou-o com a voz firme:
— O Exército tem interesse em descobrir a que animal esse dente pertence. Tivemos... incidentes. — Ele respirou fundo. — Ataques na região norte da Amazônia. Mortes que não conseguimos explicar. Nosso biólogo não conseguiu determinar a origem do dente. Nos pediu que consultássemos um paleontólogo. Então recorri a vocês.
Daniel arqueou as sobrancelhas, o interesse agora mesclado com uma ponta de inquietação.
— Ataques? Que tipo de ataques?
Álvaro não respondeu de imediato. Apenas o encarou como se medisse o quanto poderia revelar.
— Digamos apenas que precisamos ter certeza do que estamos lidando. — Ele voltou a olhar o dente — O senhor conhece algum paleontólogo que pudesse nos dar um parecer?
Nesse instante, Daniel e Lucas se entreolharam. O olhar de Lucas carregava alerta imediato, quase suplicante. Daniel, porém, suspirou e deixou escapar um meio sorriso resignado.
— Conheço.
Lucas não resistiu:
— Daniel, não.
O arqueólogo ergueu as mãos, como quem tentava acalmar.
— Lucas, é o caminho mais lógico. — Respondeu, virando para Álvaro — Eric Tilborn. Paleontólogo, especialista em terópodes do Cretáceo sul-americano. Se alguém pode nos dizer o que é isso, é ele.
Lucas fechou os olhos por um instante, como se a simples menção do nome já trouxesse dores de cabeça.
— Você sabe o que vai acontecer se aparecer na frente dele, não sabe?
Daniel deu uma risada nervosa.
— Sei.
— Você não está levando a sério. — Lucas cruzou os braços, irritado — Ele deixou bem claro que se te visse de novo ia arrancar teu couro e pendurar no museu.
Jorge, divertido, não conseguiu segurar uma gargalhada.
— Ah, como eu senti falta dessas suas encrencas, primo.
Daniel sorriu de volta, mas os olhos estavam sérios.
— Não são encrencas. São oportunidades históricas disfarçadas.
Lucas bufou, ajustando os óculos com um gesto nervoso.
— Tudo bem, Daniel. Faça como quiser. — Bufou — Mas não diga que eu não te avisei.
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