O verão depois do amanhã
1 Volta
01 de julho, 18h30min
Yahoo! Estou de volta, e pronta para um daqueles verões que me fará gritar AI MEU DEUS, COMO ESTAMOS ENCRENCADOS! Ao menos é o que eu lembro do único verão em que estive em Gravity Falls. Aventura, suspense, mistério... desde então não tenho tido nenhum pouco disto nem nos meus melhores sonhos.
Há dez anos não venho na cidade, e enquanto dirijo pela entrada de Gravity Falls, aquela sensação de frio na barriga me invade. É como se algo estivesse fora do lugar, como se a própria cidade emanasse uma aura de perigo. Um aviso: saia logo daqui. Só para contrariar, eu aperto o pé no acelerador. Eu amo esta sensação.
Estaciono meu jeep ao lado de uma placa com um dizer bem familiar. A madeira apodrecida indicava a construção estranha e desengonçada que eu mais amava. A alguns metros de distância, a Cabana do Mistério erguia-se exatamente como eu me lembrava. Saí do carro e fiquei algum tempo a encarando, enquanto uma onda nostálgica aconchegante me invadia. E então ouvi a voz atrás de mim.
— Não vai entrar, moça? — reconheci aquela voz arrastada e tentei conter o sorriso enquanto eu me virava.
Ele estava bem mais velho do que o esperado, mas por trás de toda aquela barba loira ainda dava para reconhecer o rosto grande e inocente do Soos.
— Puxa vida, eu não acredito! — ele estendeu os braços grandes. O abraço dele esmagou minhas costelas e eu esmurrei seu ombro sem muita força. — Ora se não é a pequena Mabel.
— Pequena? — eu ergui a sobrancelha. Tinha crescido um muito desde a última vez que estivera ali. — E você costumava não ter cabelo.
Soos riu, guiando-me para a Cabana do Mistério.
— É uma longa história. Um experimento do senhor Stanford.
Por algum motivo, esse nome me causou um arrepio na espinha. Meu tio-avô Ford, irmão gêmeo do Stan, foi o responsável pelos anos que fiquei longe de Gravity Falls e do meu irmão. Como ninguém, nem mesmo o Dipper, parecia ser contrário ao convite, ele passou seus dias aprendendo e viajando com Ford. E eu voltei sozinha para a tediosa vida real. Mas não sou de guardar mágoas, então tenho dado todo o meu apoio ao Dipper.
A loja contava com artigos ainda mais sinistros do que eu me lembrava, mas se uma coisa não havia mudado, era a falta de clientes no local. Uma moça limpava o balcão, com uma cara do mais completo e absoluto tério.
— Wendy...?— quase perguntei, mas Soos negou com a cabeça.
— Clara. — Soos deu de ombros — Ela começou aqui há pouco tempo.
Eu dei de ombros.
— Hã... Certo, mas onde estão os outros? Dipper? Stan? Ford?
01 de julho, 19h40min
Depois de esperar por anos, eu pensei comigo mesma que não me importaria em esperar algumas horinhas.
Subi ao quarto que eu dividia com Dipper no sótão. Parecia bem menor agora, com as duas camas de quando éramos pequenos ocupando um espaço desnecessário. Não sei porque meu irmão ainda deixava aquela velha cama ali.
Eu subi para o telhado, para o lugar onde Stan às vezes relaxava. Dava para ver mais estrelas do que eu sonharia enxergar no céu poluído da cidade. Ao longe, dava para ver a fumaça cinzenta de uma fogueira. Pelo menos alguém se divertia...
Acordei com o toque do celular, uma música de alguma boy band que eu devia ter baixado quando tinha 15 anos. Fiz uma anotação mental para trocar aquele toque e atendi a ligação.
— Sua grande e completa traidora! — uma voz grossa que eu reconheci de imediato berrou ao telefone — por que não me disse que estava na cidade?
— Grenda...
— Não me venha com desculpas, garota! Estou indo com a Candy para a Cabana do Mistério. Hoje teremos a maior noite das garotas de todas, para relembrar os velhos tempos.
Eu bocejei, mas Grenda desligou antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Olhei o relógio. Ainda eram nove horas. Stan, Ford e Dipper estavam em mais uma de suas viagens. Eu já estava cansada de espera-los.
Voltei para o quarto e procurei algum vestido legal em uma das malas.
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