O verão depois do amanhã
2 Noite das garotas
MABEL
01 de julho, 23h30min
Noite das garotas. Eu não ouvia aquela expressão há alguns anos.
É claro que, para Grenda e Candy, o caráter desse tipo de encontro tinha mudado conforme o passar do tempo. Então quando chegamos à boate, eu e Candy descobrimos que a Grenda já tinha um encontro marcado com o namorado.
— Ela sempre faz isso. – Candy rolou os olhos quando nos sentamos ao balcão. Pedimos dois drinks ao barman, que nos entregou doses duplas.
— Obrigada, eu precisava disso – eu falei, e Candy deve ter percebido alguma coisa em minha voz.
— O Dipper ainda não voltou? – ela perguntou, ao que balancei a cabeça. Candy afastou o cabelo da testa.
— Aparentemente a viagem com Stan e Ford é muito mais interessante. – virei todo o conteúdo do copo na boca e pedi mais um drink ao barman.
— Vai com calma, Mabel. –Candy riu. – Olha, você ainda pode aproveitar com suas amigas. – ela me puxou – Vamos, vamos dançar.
— Eu não estou muito...
— Dançar! Dançar! Dançar! – brincou Candy, exatamente como fazíamos quando éramos crianças. E não pude deixar de segui-la.
02 de julho, 01h00min
Okay, talvez, e apenas talvez, eu tenha exagerado. Deixei Candy na pista de dança e me afastei de volta para o balcão para pedir mais uma bebida. Meus pés estalavam depois de toda aquela dança.
— Uma tequila, por favor.
— Já está encerrando a noite? – perguntou alguém sentado ao meu lado, um homem com o cabelo bagunçado de fim de festa.
— Você não parece estar apenas começando. — eu o olhei com mais atenção. Sua camisa de alguma banda que eu não conhecia por dentro da calça jeans dizia muito sobre ele. Os grandes óculos não cumpriam o trabalho de esconder as olheiras profundas – Aliás, nem parece gostar muito daqui.
— Tem razão. – ele sorriu – Obviamente não sou do tipo baladeiro, mas sempre pensei que pudesse disfarçar melhor.
— O que faz neste lugar, então?
— Meus amigos me arrastaram.
— Onde estão seus amigos?
Ele fez uma careta, indicando dois sujeitos dançando com suas respectivas companheiras. Rolei os olhos sem que ele percebesse. Algumas pessoas naquela cidade precisavam reler o manual da amizade. Eu chamei o barman e pedi mais uma tequila.
— Uma dose para o meu amigo aqui.
— Olha, eu não sei se... – ele começou, mas o barman já tinha colocado o copo sobre o balcão. Eu o empurrei em sua direção e o rapaz bebeu todo o conteúdo do copo.
— Ora. – disse alguém que acabara de chegar ao meu lado. Reconheci imediatamente aquela voz cínica. – O criminoso sempre volta à cidade do crime, afinal.
Virei-me e dei de cara com um rapaz de cabelo claro e roupas de marca. O aspecto quase angelical dele poderia até enganar quem o conhecia.
— Criminoso...?
— Exatamente. Já que você roubou meu...
— Desencana, Gideão. – respondi e, antes que ele puxasse algum tipo de assunto, segurei meu novo amigo pela mão e puxei-o para a pista de dança, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. Ele, por sua vez, pareceu querer perguntar alguma coisa e então desistiu.
E como em toda balada de uma noite, eu não perguntei seu nome.
02 de julho, 02h13min
Esperei Candy e Grenda do lado de fora da boate, enquanto tentava manter meus pensamentos no lugar. Grenda despedia-se do namorado, um processo não muito rápido, nem efetivo. Candy trocava o telefone com algum rapaz que ela havia acabado de conhecer.
O céu de Gravity Falls estava coberto por pesadas nuvens de chuva. Mesmo que uma hora atrás, estivesse limpo como a cabeça do Soos, quando mais novo. Meu novo amigo parecia pensar o mesmo que eu, e então subitamente falou:
— Você não parece ser nova aqui.
— Não. Mas já estive na cidade. Há muito tempo.
— Posso estar enganado, mas tenho a impressão de que te conheço de algum lugar.
Eu dei de ombros. Talvez ele realmente conhecesse. Grande parte da minha vida era o que podia-se chamar de pública. Durante boa parte de minha adolescência, eu aparecia muito em comerciais e até mesmo em alguns programas de TV. Mas então troquei aquela vida louca pelo que eu realmente amava: faculdade de moda.
— Talvez... – eu parei. Grenda e Candy vinham em minha direção.
Aproximei-me do estranho e fiz algo que, em outros tempos, eu já teria feito desde o início. O rapaz se surpreendeu quando eu o beijei, mas logo retribuiu um beijo que foi tão intenso e caloroso que eu só interrompi porque Grenda e Candy já me esperavam no táxi.
— A gente se vê por aí. – eu disse enquanto me afastava, sem observar sua reação, esquecendo-me de que ali era Gravity Falls, e aquilo poderia realmente acontecer.
Nós pedimos para o taxista dar a partida. Grenda e Candy me lançavam um olhar curioso.
— Sem comentários. – eu ri.
— Mas eu não iria dizer nada. – Candy mentiu.
— Eu também não.
Quando cheguei em casa, eu já estava um pouco tonta de sono. Descalcei os sapatos para não acordar o Soos, apesar de saber que nem o fim do mundo o tiraria de seu sono pesado. Subi as escadas devagar... e então alguém acendeu a luz da sala.
Desci com um pulo todos os degraus de vez e corri para abraçá-lo. Dipper levantou-se da velha poltrona do Stan.
— Abraço estranho de irmão?
— Abraço estranho de irmão.
Dipper abria um sorriso que seus olhos não acompanhavam. O brilho que eles exibiam era bem triste, na verdade.
— Dipper... o que aconteceu?
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