Que merda!

Katsuki odeia isso, odeia essa sensação esquisita, parece que a garganta dele tá entupida e o estômago dando murros em si mesmo toda vez que ele lembra da conversa com o Deku aquele dia.

“ A Tsuyu me contou que viu ela chorando…”

Tsk… e isso lá é motivo pra chorar? O que um bando de merdinhas enxeridos pensa não é problema dela, ela não tá aqui pra isso! Tá aqui pra se tornar uma heroína, assim como ele, e uma coisinha besta dessa não pode abalá-la desse jeito! O que ela vai fazer diante de um problema de verdade ou de um vilão? Chorar e espernear igual a um bebê? Katsuki pode não saber muito sobre a Uraraka, mas esperava mais dela. Ele já viu como ela aguenta um tranco, umas fofoquinhas toscas dessas não deveriam atingir nem um fio de cabelo dela. Então por que caralhos todo esse drama em cima dessa história?

O Deku não encheu mais o saco depois daquele dia, mas ele percebe os olhares, não só do nerd maldito, como o do Meio a Meio e das meninas também. Todo mundo o julgando silenciosamente, só observando quando ele vai tomar uma atitude e falar com ela.

E ele planeja fazer isso, mas não porque eles querem, é porque ele precisa saber porque essa história a incomoda tanto. É, Katsuki que falar com Uraraka pra ver se ela toma tino e segue em frente com o que realmente importa. Só por isso.

A verdade é que ele quis falar com ela um dia depois do Deku ter vindo dar uma de defensor da honra dela. Quanto antes resolvesse isso, melhor. Mas com o Exame de Licença Provisória chegando, ele mal a viu fora das classes. Além disso, vendo-a conversar com as outras meninas ou com os idiotas do Deku e do Meio a Meio, não parecia ter nada de errado com ela. Uraraka continuava com aquele sorriso enorme, estúpido, perturbador de tanto que o incomoda. O Deku deve ter exagerado pra tentar fazê-lo se sentir mal, porque ela parecia a mesma bobona alegre de sempre. Talvez nem tivesse necessidade de falar com ela, muito menos pedir desculpa.

Até que eles trombaram no corredor, ontem. Ela tava vindo na direção oposta quando eles se cruzaram. Ele já tava pronto pra mandar a pessoa à merda e olhar por onde anda quando Katsuki viu que era ela, indo pra trás um pouco, ela fez o mesmo.

— Desculpa, você pode me dar licença? — ela falou baixinho, sem nem olhá-lo. Cabeça baixa e punhos cerrados, como se estivesse com… vergonha? Medo? Raiva? Tudo junto? Não importa, ela agiu como se ele fosse um figurante qualquer da outra turma, deixando-o tão perplexo que deu licença pra ela passar, sem nem discutir. — Obrigada.

E ele ficou ali no corredor, igual a um imbecil, olhando enquanto ela continuou andando sem qualquer esboço de uma olhada pra trás ou nada.

Aí tudo fez mais sentido: ele não tem visto a Carinha de Lua por aí porque ela tem evitado estar nos mesmos lugares que ele. Cacete, só pode ser isso! Como não percebeu antes?

E a julgar pela frieza com que ela o tratou, só tem uma conclusão: ela é a mesma de sempre só com os amiguinhos dela. Com ele, a história é outra.

Porque por mais que eles não conversem muito, Katsuki não se lembra de uma vez que ela tenha sido hostil ou indiferente a ele. Ela não tem medo dele, não parece se incomodar com os palavrões e a gritaria, e toda vez que eles se viam por aí, ela sempre sorria e falava “Oi!” com aquela vozinha animada demais pro gosto dele, ela até tem a coragem de responder aos seus insultos de vez em quando. Dessa vez, Uraraka o ignorou, como se eles nem se conhecessem. É, ela deve estar bem puta!

Mas perceber isso não ajudou em nada. Ele ainda não quer falar com ela, bom, não sabe bem como falar com ela, e a Cara de Lua também parece não querer muito conversar, ainda mais sobre o que rolou no armário e toda a… repercussão que aquela merda teve. Já vai fazer quase duas semanas, e o assunto ainda não morreu, ele percebe os cochichos e as risadinhas quando passa, e agora deu pra perceber como alguns meninos — leia-se o Cabeça de Uva — olham pra ela de um jeito nojento. Katsuki precisa fazer alguma coisa logo. Não dá pra focar direito no que importa se ele fica se lembrando de como foi uma merda ser tratado como um cara qualquer.

— ...aí o Kaminari deu uma carga total, e a gente ainda tinha uns 5 minutos de combate, eu tive que fazer tudo sozinho! O cara ficou tão lesado depois que eu tive que ajudar ele a pôr o pijama e ir dormir, cê acredita? — ele acredita, mas não se importa. Katsuki não dá a mínima pra história do Kirishima quando eles tão voltando do treino da tarde. Só tem uma coisa que ele quer saber.

— Por que caralhos você saiu falando o que você viu no armário?

— Hã? — O Cabelo de Ouriço pergunta, obviamente se fazendo de bobo.

— Jogo da Garrafa. Você abriu a porta e me viu… com ela. Por que você saiu falando?

— Eu… só falei o que eu vi quando me perguntaram, cara. O que eu vi foi a Uraraka em cima de você, os dois vermelhos de vergonha e você puto quando ela saiu correndo. Se teve mais alguma coisa, eu não percebi. Mas se isso é sobre o que tão falando por aí, pode ter certeza que não partiu de mim. — o tom dele é amistoso como sempre, mas Katsuki sabe que o Kirishima tá falando bem sério.

— Tsk, mesmo assim, você não tinha nada que ter falado o que você viu.

— Você não me pediu pra guardar segredo nem nada, ué.

— Babaca!

— Bakugou, eu tô tentando convencer o Kaminari e o Sero a pararem de comentar sobre o que eles não sabem, mas… ficou meio puxado depois do que você falou no vestiário aquele dia… todo mundo tem certeza que você e a Uraraka deram uns pegas nervosos.

— Tsk, e se a gente tiver dado? Isso é da conta de quem?

— De ninguém, só sua e dela, mas… não é verdade, né? Tá todo mundo espalhando mentiras sobre a menina porque por mais que ela negue, todo mundo duvida depois que você confirmou. — imbecil, ele tá falando igualzinho ao merda do Deku.

— Eu só não sei porque caralhos ela liga tanto pro que falam dela! — ele desabafa, deixando a frustração sair ao máximo a puxar os cabelos com força.

— Ah, bom… você… pode perguntar direto pra ela… — o Kirishima dá uma risada nervosa, apontando pra frente.

— Quê? — e quando Katsuki olha, ele a vê conversando com o Deku e rindo. O imbecil tá com a cara toda vermelha enquanto ela se aproxima, olhando curiosamente pra alguma coisa na cara ou no cabelo dele, quem se importa?

— E aí, galera? O que vocês tão fazendo de bom? — Kirishima os cumprimenta, esse idiota!

— Hã? N-nada- nada não! Eu só tô com um pouco de ácido da Ashido no cabelo, hahaha.

— E eu tava falando pra ele que vai ficar uma falha no cabelo, mas nem dá pra notar muito, dá? — Uraraka pergunta, finalmente olhando na direção deles. Ela o encara rapidamente e volta a focar só no Kirishima.

— Hum… só um pouquinho… mas quer saber? Acho que a própria Mina pode consertar isso, vamo procurar ela, Midoriya? — Kirishima sugere.

— Hã? Não precisa, fazia parte do treino, ela só fez o que tinha que fazer quando me atacou hahaha.

— Ah, mas ela vai adorar dar um tapa no teu visual pra arrumar isso daí! Bora lá! — Kirishima agarra o nerd pelo pescoço, o Deku protesta e gagueja um pouco enquanto é arrastado, mas acaba cedendo.

E com isso, Katsuki fica sozinho com ela, a poucos metros de distância. Uraraka parece querer olhar pra todos os lados, menos pra ele. Ele também não tá exatamente confortável, pondo e tirando as mãos dos bolsos e mexendo no cabelo. Mas ela finge não notar, dando as costas e batendo em retirada.

— Ô, peraí! — ele berra, correndo na direção dela.— Peraí, Cara de Lua!

— Por quê?

— Eu preciso falar com você. Agora!

— Eu não tenho nada pra falar com você. — ela dá de ombros e continua andando. Que merda! Ele acelera o passo e para na frente dela, que não parece surpresa — Tem certeza que você quer ficar perto de mim? Eu posso acabar te mordendo ou te atacando igual eu fiz no armário, né?

É, ele mereceu essa.

— É sobre isso que eu quero falar-

— Não tem o que falar, Bakugou! As pessoas entenderam a situação como elas queriam, eu não consegui convencer ninguém que era mentira, e só ficou pior quando a única pessoa que podia me ajudar nessa resolveu confirmar a história. — ela fala secamente, o que é… esquisito demais pra ela. — Sabe o que é pior, Bakugou? É que você é tão… barulhento e adora mandar à merda todo mundo que se mete na sua vida, e quando alguém mais precisa que você faça isso, você faz o quê? Fica quietinho e não faz nada! E tudo isso por quê?

Pra provocar o Quatro-Olhos e o Deku. Katsuki tem que admitir que ele foi bem otário.

— Eu não falei que o que tavam comentando era verdade, eu só disse pro Quatro-Olhos ir falar com você porque ele veio com um papinho de que ia me punir por ter te machucado ou alguma merda assim!

Porque, mesmo se ele quisesse fazer alguma coisa com ela, muito dificilmente ele conseguiria sem tomar uma porrada dela. Ela é muito mais forte do que eles pensam, como ninguém percebe isso?

— Ah, mas ele veio falar comigo! Foi uma conversa ótima! Uma palestra de quase uma hora sobre a importância do consentimento… eu não tenho ideia do que você falou pra ele, mas eu nem quero saber se fez ele pensar que eu tentei me aproveitar de você ou alguma coisa assim.

Tá, isso é… engraçado pra caralho por muitos motivos, mas ele não pode rir de jeito nenhum! O loiro limpa a garganta e olha pra ela com seriedade.

— Presta atenção: foi cagada minha ter falado daquele jeito, ainda mais com esses pervertidos entendendo isso como eles querem. Eu só falei aquilo porque eu fiquei puto que ninguém cuida da própria vida! Não é da conta de ninguém se eu te mordi, se você me mordeu, se a gente se pegou ou qualquer merda assim!

— Mas nada disso aconteceu, Bakugou! Eu não sei como é pra você, mas eu não quero meu nome envolvido em mentiras, ainda mais mentiras desse tipo! Eu não quero que as pessoas pensem coisas erradas de mim!

— Por que você se importa tanto, Cara de Lua? Você tá aqui pra ser uma heroína, não tá? O que você faz ou deixa de fazer fora da sala não é da conta de ninguém!

— É da minha conta quando ficam aparecendo bilhetes nojentos de meninos no meu armário e meus amigos ficam atrás de mim pra tentar me consolar! Você sabia que o Deku veio pedir desculpa pra mim por não poder fazer mais do que ele já tá fazendo?

— Lógico, porque ele adora pagar de herói, ah, o Deku é incrível mesmo! Palmas pro Deku! — ele responde sarcasticamente.

— Você é um babaca, Bakugou! — ela diz entre os dentes, olhos brilhantes e avermelhados. — E quer saber? Eu me arrependo muito de ter entrado naquele armário com você!

— Aham, você também preferia que fosse o Deku no armário te segurando daquele jeito e querendo te beijar. Azar o seu, Cara Redonda, era eu!

— Querendo… me beijar? — ela arregala os olhos e se afasta, como se tivesse levado um soco na barriga. Cacete, ele falou demais.

Antes que ela possa falar mais alguma coisa, ele faz uma coisa desprezível, ridícula, o tipo de coisa que faria a mãe dele enchê-lo de pescotapas: dá as costas e sai andando como se a conversa tivesse acabado. Ele só não saiu correndo porque seria muito tosco, mas a sensação de que ele acabou de fugir como um covarde é a mesma, no fim.

Caralho, que idiota! Não só ele falou o que não devia, como não falou o mais importante: desculpa.

Mas talvez esse nem seja o maior dos problemas.